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domingo, 12 de março de 2023

SÍNDROME DO NINHO VAZIO III






É certo que os filhos, um dia, vão sair de casa.

Quando os recebemos das mãos da obstetra, passados pelas mãos do pediatra, na hora do nascimento, já sabemos disto.

Já comentei sobre este assunto   quando meus filhos mais velhos saíram de casa.  Hoje é a caçula que alça voo rumo ao futuro.

Entretanto, passamos por todas as etapas do desenvolvimento de um filho evitando de pensar neste dia, uma vez que sabemos ser uma ocasião em que nossos sentimentos ficam ambíguos, embaralhados, desarrumados: temos certeza que será maravilhoso este levantamento de voo, temos plena confiança que demos a melhor educação, passamos nossos valores, nossas crenças, nosso entusiasmo, fizemos tudo que foi possível para que nossos filhos tenham uma vida plena. Mas temos o receio que os males do mundo possam vir a prejudicá-los, que o que demos não tenha sido suficiente, que o mundo está mudando muito rapidamente e será que terão condições de acompanhar?

Sobra a nós, pais, confiar na educação, amor, carinho, senso de responsabilidade, alegria de viver, plenitude, tudo o que ensinamos, a par do aprendizado cognitivo nas escolas formais e universidades.

Resta, também, confiar em seu juízo, discernimento, esforço e criatividade.

E...orar, pois só Deus pode mostrar os melhores caminhos a serem percorridos pelos filhos.

Ah, e repetir, ad aeternum, com bom humor: não esqueça do casaco e do guarda-chuva.



(Acesse o outro texto sobre o mesmo assunto, embora diferente: https://athenasminerva.blogspot.com/2011/06/nao-esqueca-do-casaco-e-do-guarda-chuva.html )  

















domingo, 6 de dezembro de 2015

A árvore e os frutos: cada um do seu jeito.







 

    Os 5 dedos da mão não são iguais: assim são os filhos.  Esta frase me foi dita uma vez pela minha sogra, em conversa familiar sobre filhos, educação, personalidades. E é uma verdade, sabedoria dos mais antigos.
Relembrando minha infância, tem o meu irmão mais velho, logo depois venho eu, o terceiro e o quarto.
Fisicamente não nos parecemos, quem nos olhasse, os quatro  juntos, sem saber que somos irmãos, não o diriam.  Só nossas arcadas dentárias são semelhantes.
Nossas personalidades também são muito diferentes. Embora tenhamos recebido, teoricamente, a mesma educação familiar, assumimos na vida caminhos diferentes.  Cada um do seu jeito.
Desde a infância, senti-me muito solitária por ser a única menina no meio dos guris.  E, século passado, meninos não brincavam com meninas...brincavam entre si e com os amigos.  Raras vezes curtimos brincadeiras juntos, quando eles deixavam-me participar.
Num dia de saudosismo, relembro infância e adolescência.
Quando tinha uns onze ou doze anos, situação financeira difícil da família, minha mãe, além de todo o serviço da casa, arrumou um extra: para uma litografia (na época assim  era chamada uma gráfica), fazíamos os fechamentos (colagem) de pacotinhos de sementes.  Pagavam pouco mais que nada, mas era um valor pago por cento; quanto mais colássemos, mais ganharíamos; desenvolvemos uma habilidade extrema neste trabalho manual, chegávamos a colar de 500 a mil por dia.  Toda a família - mãe e os três filhos mais velhos- nos envolvíamos nesta atividade para ajudar no orçamento.  Dizíamos "fazer saquinhos". Depois de terminadas as tarefas da escola, e da mãe concluir as atividades domésticas, dedicávamo-nos a isto.
Quando meu irmão mais velho foi estudar em Porto Alegre - chance só dada aos mais velho, os mais novos não a tiveram - continuamos a fazer esta atividade, agora destinando o resultado financeiro a  este irmão que fora em busca de novas oportunidades de estudos.
Quando éramos crianças, outra forma de aumentar a renda que minha mãe utilizou foi produzir seus deliciosos pastéis os quais meu irmão mais velho vendia nos jogos do Esporte Clube São Luís, de nossa cidade.  Para vendê-los, conseguia entrar de graça e, depois de vender os pastéis, assistia ao jogo ...
A mãe também costurava roupas de criança, e mandava-me oferecer nas casas vizinhas...meio envergonhada fui aprendendo, na prática, no rumo, sem orientação nenhuma, técnicas de venda... voltava com os troquinhos que ajudavam a família.
Meu irmão mais velho foi estudar na capital, aproveitar a oportunidade que o governo estava dando com as escolas técnicas.  Era o período da ditadura militar, e o país precisava de técnicos.  Inclusive este período, hoje, pode ser averbado à aposentadoria como tempo de serviço.  A ditadura militar não produziu só coisas ruins.
Todo o dinheiro extra que conseguíamos, mandávamos para ele. Sobreviver na capital não era fácil.
Quando estava no último ano do ginásio, além de fazer o curso de corte e costura que meu pai me obrigara - eu detestava estes trabalhos manuais - fiz o curso de datilografia, que era exigido para qualquer emprego que se procurasse no comércio ou indústria da cidade. Foi o que me deu o primeiro emprego, que me permitiu continuar estudando.
Enquanto isto, meus 3 irmãos só estudavam, sustentados pelo pai e pelos extras familiares.
Meu terceiro irmão também começou a trabalhar logo após terminar o ginásio.  Não era muito afeito aos estudos mas conseguiu cursar um pequeno período da graduação.
O mais novo era muito inteligente, porém tinha uma grave doença mental que atrapalhou sua vida; mesmo assim, conseguiu ser aprovado em vários vestibulares entre os primeiros colocados. Mas nunca conseguiu concluí-los.
O mais velho conseguiu concluir o curso superior depois de muitas dificuldades.
Somos os primeiros da família a concluir curso superior com o próprio esforço e sustento. Isto se chama mérito.  Infelizmente só depois da nossa luta de cidadãs e cidadãos a Constituição Federal de 1988 autorizou que fossem instituídos cursos superiores gratuitos em locais que não fossem grandes centros ou capitais.  Agora o acesso ao estudo está melhor. Por que lutamos, fizemos reuniões e assembléias durante a Constituinte, e enviamos nossas sugestões aos componentes do Congresso Nacional, que as aceitaram e incluíram na Constituição.  Participei de muitas destas reuniões, era professora na época.  É uma vitória do povo, do magistério e estudantes da época, década de 1980. Os que hoje têm acesso a estes estudos, que foram sendo implementados gradativamente, agradeçam a nós, à geração anterior que teve suas lutas e vitórias.  Do seu jeito.
Fisicamente também os filhos são diferentes.  Meu irmão mais velho é "rechonchudinho", assim como o mais novo era.  O terceiro é muito alto e magro, parecido com o pai.  Eu fiquei no meio-termo, nem magra nem gorda.  Mas o gene da obesidade anda se manifestando nos últimos tempos.
Quanto à personalidade e formas de encarar a vida, os quatro são totalmente diferentes e/ou antagônicos.
Meu irmão mais velho é calmo, até certo ponto.  Não mexam com ele.  Politicamente tende para o que se chama, no Brasil, esquerda. Honestíssimo, é uma pessoa que amo e admiro muito.
O terceiro tem o temperamento explosivo, e politicamente está na extrema direita.
O mais novo era um tanto impositivo, mas infelizmente fora prejudicado pela sua doença.  Politicamente era da direita, sem extremos.
Eu creio que ajo da forma que considero mais correta, dentro dos ditames da educação recebida e adquirida. Talvez um pouco impositiva, mas com diálogo.  Quando tenho que tomar decisões que envolvem outras pessoas ou a própria família, procuro argumentos e diálogos que sejam racionais.  Mas aprendi a ceder, quando necessário. (O nosso espelho interno sempre é mais benéfico...)   Politicamente, como já falei muitas vezes, sou conservadora.  Sem esquerda nem direita, sem  partido.  Pelo certo e justo, de acordo com meu entendimento.
Assim segue a vida...minha mãe às vezes se pergunta se a mistura deu certo...creio que deu.  Cada um do seu jeito, cidadãos de bem.



Numa destas aprendi datilografia e em muitas delas tirei                                                  meu sustento e da família.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

37 anos de Magistério - e a dignidade da pessoa humana?





Ensinando a amar a leitura, literatura, alto conhecimento


Ao concluir a faculdade de Letras, sentia-me insegura para ser professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Eu tinha 22 anos, fizera um pequeno estágio NÃO REMUNERADO, e não tinha, a meu ver, condições de lecionar.  Meus professores da FAFI disseram literalmente: " Não estamos aqui para ensiná-los a dar aulas, isto vocês se virem para aprender.  Estamos aqui para ensiná-los a pensar" - a pensar como eles, época da ditadura, professores esquerdistas.  Alguns, após a aula, iam dormir no quartel.
Desde os 16 anos eu trabalhava durante o dia - 8 horas - e estudava à noite.  Creio que já falei sobre isto. Pobre, não tinha situação financeira que me permitisse só estudar, e meus pais também não tinham esta disponibilidade de recursos.  Trabalhei como secretária de um advogado, e, depois em uma Companhia de seguros; posteriormente, secretária em uma empresa de revenda de tratores e implementos agrícolas.  Então, não tive como fazer o curso Normal, que ensina a lecionar.  Fiz o Curso Técnico de Contabilidade, e o Curso de Letras, que era o mais perto do que eu queria - Jornalismo.  Porém, este último só tinha em Santa Maria ou Porto Alegre o que, por motivos óbvios, não me permitia cursá-lo.
Era 1977.  Casei no último dia do ano.  Fomos morar em outra cidade, perdi meu emprego.  Procurei em várias empresas para trabalhar no que eu mais entendia, mas não consegui.  E surgiu a oportunidade para lecionar em uma escola particular e numa pública - ambas sempre carentes de profissionais. Criei coragem e fui me candidatar.  As duas vagas eu preenchi.
Desnecessário dizer da minha angústia nos primeiros tempos, pois desconhecia a burocracia que os professores têm que dominar, além de seus conteúdos.  Precisei aprender a lidar com cadernos de chamada e suas peculiaridades, reuniões pedagógicas com a Supervisora Pedagógica.  Reuniões de área, com os colegas de Língua Portuguesa.  Reuniões da Diretoria da Escola e Supervisão Escolar com todos os professores.  Distribuição de turmas, horários, etc, etc, etc Atividades extra-classe, sem remuneração, provas, boletins, atendimento aos pais, e assim vai.
Mas o que mais me angustiava eram as aulas.
Tive a sorte grande de ter duas colegas maravilhosas - Maria Mercedes Cavalheiro e Ilca Laskoski.  Ambas praticamente me ensinaram a preparar aulas, o preenchimento correto dos cadernos, a escolher textos, a preparar provas.  Devo isto a elas, e reconhecerei por toda minha vida.  Como sempre tive facilidade para aprender, e aliado aos conhecimentos teóricos da faculdade, tornei-me uma ótima professora, sem modéstia nenhuma.  Resultado obtido do trabalho a três.
Durante dois anos trabalhei nas duas escolas: na particular, fiquei até o fim da licença-gestante de minha primeira filha.  Na escola pública, como contratada até o nascimento de meu segundo filho, oportunidade em que fiz concurso e passei a ser professora efetiva concursada.
Desde 1978 eu luto junto com meus colegas de profissão pelo que eles chamam de  "valorização do magistério".  Eu cansei de ouvir esta expressão.  Nossos salários, desde aquele tempo, são os piores possíveis.  Para 20 horas semanais, o que se entende por meio turno, um professor ganha pouco mais do que o salário mínimo brasileiro.
Na década de 80 tivemos a implantação do plano de carreira do magistério estadual.  Até ali, os professores eram contratados por indicação; se tivessem divergência política com a direção da escola - que era escolhida por acordo político - o professor era demitido.  Era um troca-troca de professores infernal.  Então os professores, junto com o poder público - Legislativo e Executivo- implantaram um plano de carreira. E os professores, a partir de 1988, com a Constituição Cidadã, somente deveriam ser admitidos por concurso público, para evitar as perseguições políticas.
Neste plano de carreira, os mestres, no decorrer do tempo, e de acordo com sua capacitação por estudos, devidamente comprovada através de cursos universitários, passa  do nível 1 até o 6, com as seguintes características, numa Progressão vertical:  
    N1 – Ensino Médio                                                                                               
    N2 – Ensino Médio com estudos adicionais
    N3 – Licenciatura Curta
    N4 – Licenciatura Curta com estudos adicionais
    N5 – Licenciatura Plena
    N6 – Pós-Graduação.
Também os professores são submetidos às Classes, que vão da "A," a "F", assim:
Progressão horizontal: Se dá através do sistema de promoções de classes (A, B, C, D, E e F), tanto por antiguidade, como merecimento, todas definidas por um percentual de 10% sobre o valor da Classe A. A avaliação é periódica, e valoriza a formação permanente através de cursos de aperfeiçoamento e atualização.
 Quando ingressei no magistério, entrei na classe A, nível 3. Depois de cursar a Licenciatura Plena - já com dois filhos pequenos, morando em uma cidade distante 40km da faculdade, consegui ser promovida para o nível 5.  Depois de alguns anos, não sem dificuldade - NUMA FACULDADE PARTICULAR, SEM NINGUÉM QUE BANCASSE MEUS ESTUDOS - concluí o Curso de Pós-graduação, conseguindo atingir o nível 6. 
Neste meio-tempo, fui lecionando para alunos de ensino fundamental, a partir da 5ª série, e para alunos de ensino médio.
Tornei-me, ao lado dos meus colegas, uma lutadora. Filiei-me ao sindicato dos professores estaduais gaúchos, o CPERS/SINDICATO. 
Nossa luta nunca foi sossegada.
Apesar do plano de carreira, nossos salários sempre foram muito baixos, aviltados mesmo.  Comparando com a pessoa que eu pagava para cuidar de minha casa e meus filhos enquanto eu trabalhava, quase tudo que eu ganhava ia para ela, se não considerasse o pagamento do INSS.  Mas com carteira assinada, eu ficava no déficit.
Por que não mudei de profissão, como muitos me diziam?
As pessoas que sugerem a um professor que mude de profissão nunca entraram numa sala de aula repleta de pessoinhas que  aguardam ansiosamente, com rostos curiosos por saber de que vais falar. 
Desconhecem o prazer que é quando um aluno diz "agora entendi, professora", e fica radiante diante de sua evolução e aquisição de conhecimento. Não conhece o brilho dos olhos dos alunos pelo prazer de aprender.
Desconhecem o que é adquirir o conhecimento, através do estudo, repassar o mesmo aos alunos, e instigá-los a buscar mais, não ficar somente com aquilo que é passado na escola.
Nunca vi alguém dizer a um médico, advogado, engenheiro, banqueiro, empresário, odontólogo, e profissionais de outras áreas do conhecimento: "Não está satisfeito? Procura outra profissão."
O que vi, durante o período em que me dediquei ao magistério: alunos que entravam no começo do ano com muitas dificuldades de escrita, vocabulário, conhecimentos gerais, temas da atualidade; desconhecimento da literatura, tanto brasileira quanto estrangeira; desconhecimento de fatos históricos, que muitas vezes são narradas literariamente; com dificuldades de leitura e compreensão de textos simples, os quais, a todos eles, dediquei-me com vontade, lucidez, persistência, mania de perfeição, alegria e vontade de vê-los melhor, no fim do ano, do que entraram.  Ensinei-lhes o que é o conto, o prazer da poesia, da leitura em voz alta, da escrita nos vários estilos adequados às séries, a conhecerem o romance, e os vários estilos e autores.  E quando chegava o fim de ano, pegando uma redação dos primeiros dias e uma dos últimos - eu era louca, fazia uma redação por semana em cada turma - dava prazer comparar e verificar a evolução. E o Brasil precisa de professores. Já pensaram quando todos abandonarem a profissão?
Mas... por que falo tudo isto?
Por que durante todo o tempo em que fui professora, tive que brigar com os governadores do Rio Grande do Sul.  Todos, sem exceção, desde 1978, achataram e achacaram nossos vencimentos, considerando-nos profissionais de segunda classe, se comparados com mestres de outros países.  Sempre estivemos correndo atrás da máquina, fazendo reivindicações, greve, viajando do interior do Rio Grande a Porto Alegre para bater às portas do Palácio Piratini, esmolando aumento. E esmolando a construção, manutenção de escolas; a criação de bibliotecas, laboratórios, quadras esportivas, nem se fala em auditórios. E merenda escolar, pois são alunos de escola pública, a grande maioria pobres.
Hoje, não esmolamos aumento, nem isto. Muito menos a manutenção da escola.
Aposentados, ao lado dos que estão na ativa, mendigamos o simples pagamento dos vencimentos, o que, muitas vezes, com vários governadores, tivemos que correr atrás. E muitos nos agrediram, dizendo que o que pesa na folha de pagamento são os aposentados.  Depois de tantos anos dedicados ao afã de ensinar, somos considerados pesos! Muitos de nós, com idade avançada, com diversas doenças que precisam ser tratadas, atendidas, vêem-se à mercê de governadores inescrupulosos que, não duvidamos, teriam vontade de liquidar-nos para não ter que nos pagar.
 Mas o atual governador conseguiu superar os demais: além de parcelar os vencimentos, está ameaçando não pagar.  É o cúmulo do ABUSO DE PODER E DE AUTORIDADE.  Os professores e os funcionários públicos trabalharem e não receberem seus vencimentos, que são considerados ALIMENTOS! 
É UM DESRESPEITO À DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, insculpido na nossa Constituição Federal.
O presente texto, além de repudiar a decisão do governador Sartori, é uma DENÚNCIA sobre o que governadores incompetentes administrativamente vêm fazendo com o Magistério Estadual do Rio Grande do Sul, no decorrer do tempo. E descumprindo, reiteradamente, o que é de sua competência como Poder Executivo Estadual, ou seja, manter os percentuais legais para a educação, incluindo neste percentual o pagamento dos vencimentos dos professores- nem se fala em cumprir Lei Federal sobre o Piso do Magistério- e a manutenção das escolas.
O orçamento do Estado está comprometido?  Quando a pessoa adere a funções políticas, sabe que vai ter que dar seus pulinhos para resolver os problemas do Estado.  Já dizia   um ditado popular muito antigo: quem não tem competência, não se estabeleça.



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Educação, filosofia, cursos universitários, esquerda, direita, conservador.






Introdução.

Chega um momento da vida da gente em que não é possível se omitir.  A pessoa simples, do povo, pode passar sua vida sem conhecer a literatura brasileira ou mundial; sem conhecer os clássicos, sem ter alta cultura e viver bem.  Suas convicções são poucas, simples e definidas.  Não há interrogações, dúvidas, angústias, ansiedades que só quem lê, procura a Verdade, o que é bom para si e, consequentemente, creia ser bom para toda a humanidade, tem.
Como já dito em outro post, lá no comecinho deste blog, quando criança eu queria ler todos os livros do mundo.  Minha necessidade de conhecimento era tamanha, que minha ingenuidade infantil me permitia este pensamento.
Quando fui para o primeiro ano escolar, alfabetizada em dois meses, começou a minha alegria e, paradoxalmente, a minha angústia.
Como não tinha quem orientasse minhas leituras, fui lendo a esmo.  Ao ler todos os livros da biblioteca da escola em pouco tempo (e não eram muitos, diga-se de passagem), fui conduzida - maravilha das maravilhas - à biblioteca pública municipal pelas mãos do meu pai. Lá, havia uns dois ou três armários, com a "biblioteca para as moças", os quais fui lendo, um a um, até chegar seu final.  Aí comecei a saber, paralelamente aos estudos escolares, que existia uma literatura em outros países.  Conheci alguns escritores ingleses, franceses, alemães, americanos, e assim por diante.
Quando frequentava o ensino técnico (depois segundo grau, hoje ensino médio brasileiro), à medida que nosso professor ia comentando sobre a formação da literatura brasileira - que ia cair no vestibular -, fui lendo-os, concomitantemente às aulas. Nesta época conheci Jorge Amado, Érico Veríssimo, os demais famosos das diversas escolas literárias brasileiras, desde o barroco até o modernismo, 1922.  Tanto que, um dia, em uma aula de história, enquanto o professor falava na frente, eu tinha um livro embaixo da classe;  me empurrava um pouco para trás, e lia; o professor veio, repentinamente, e me perguntou sobre o que ele estava falando.  Claro que eu não soube explicar, e ele mandou-me guardar o livro, para ler depois.  Até hoje tenho dificuldades em história e algumas outras áreas do conhecimento, em virtude deste "vício".
Ao cursar a primeira faculdade, Curso de Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí, que depois passou a chamar-se FIDENE, e hoje é UNIJUÍ, ocorreu algo que afetou minha vida de leitora para sempre. Descubro-o agora, em 2015.
No primeiro semestre do curso tivemos aquelas disciplinas generalistas, que tem em qualquer curso: filosofia, sociologia, antropologia, pesquisa bibliográfica e, como era nos anos 70, se não me engano, organização social e política do Brasil. 1973.
No primeiro dia de aula de filosofia, professor Dinarte Belatto, o Dino (um hippie que se vestia de bata, pantalonas, sandálias, bolsa a tiracolo, cabelão, barba e óculos escuros), fez um risco bem no meio do quadro e nos disse:
- À esquerda deste traço, está tudo o que vocês leram, estudaram, ouviram de seus pais, dos padres, dos pastores, das pessoas da comunidade. Passem uma borracha encima e esqueçam.  Seu pensamento agora está limpo, livre para aprender o que realmente interessa e vale, o saber científico. 
O primeiro autor de quem falou foi Antonio Gramsci. Vieram depois Lenin, Marx, Engel, Trotski, Vigotski, Pavlov, Freud, etc, etc, etc.
Segundo este professor, deveríamos esquecer a religião, a família, os valores sociais e morais que tínhamos ouvido falar até ali.  O que valia, a VERDADE era o que ele pregava em sala de aula.
E não foi só em filosofia: todas as disciplinas seguiam as cartilhas da esquerda comunista mundial.
Como sobreviver?  Como não ser reprovada nas disciplinas, se não tivesse assimilado, introjetado todos os ensinamentos? 
Mas o camaleão muda de cor conforme as necessidades. No Brasil das ditaduras - a militar e a comunista, dentro da faculdade- ou você dá os seus pulinhos, ou não sobrevive.
Meus professores da época da ditadura militar, e início da ditadura de esquerda, me ensinaram a dançar conforme a música, a escrever a resposta que o professor queria ler, a responder conforme o texto.  Ou eu não seria uma professora de português e literatura brasileira.
Não deixei de frequentar minha religião e ter minha fé.  Não coloquei de lado, pessoalmente, os valores que minha família me ensinou.  Balancei quanto a posições políticas, sim.  Nosso país, infelizmente, tem muitas incongruências, e muitas dúvidas ficam em nossa cabeça. Vacilei entre a direita - que meu pai e minha mãe sempre defenderam - e a esquerda, induzida e tentativa de fazer "lavagem cerebral" pelos professores.  Um dia uma amiga esquerdista me posicionou: vocês está encima do muro, é do psdb.  Não sou, o psdb é a esquerda mansa, e o pt é a esquerda revolucionária e raivosa xiita.  No Brasil que tirou a ditadura militar do poder, e uma possível direita, não existe oposição política.  Quem for conservador, não tem onde segurar-se. E eu não tenho nenhuma obrigação de ser filiada, aficcionada ou adepta de qualquer partido político.

Por que digo isto.

Acabei de ler um livro que mexeu com meu orgulho de devoradora de livros.  Mexeu com meus brios.
Descobri - e ainda falta comprovar se é verdade, terei que aprofundar minhas leituras, não acredito em amor à primeira vista - que a esquerda raivosa xiita que prevalece EM TODAS AS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS, a INTELIGENTZIA, a nata da nata da intelectualidade brasileira, sempre omitiu dos alunos a alusão a autores que não rezassem pelas suas cartilhas.  Não deram aos seus alunos o poder se decidir para que lado ir, ter o livre arbítrio, mesclar suas vidas, seus anseios, seu meio social, sua cultura, religião e valores com o conhecimento de outros autores que não os da esquerda mundial.  É como se não existissem.  Quando não se sabe de sua existência, não se lê, e, tendo só um lado dos fatos da vida, da história, da cultura e do conhecimento, não se pode decidir com tranquilidade, razão e consciência de que lado eu quero ficar.  Só existe um lado.
Conheci, agora pela mão do meu filho, jornalista por formação, um autor, um pensador de direita, um conservador, que - pasmem! - existe e escreve há muitos anos.  Era professor universitário.  Mas a grande mídia, as editoras, as universidades, nunca mencionaram seu nome.  Tenho 60 anos, fiz três graduações e um curso de pós-graduação, em duas faculdades diferentes, uma do Rio Grande do Sul, e outra do Paraná, e NUNCA, nenhum professor mencionou seu nome.

OLAVO DE CARVALHO, ex-esquerdista que acordou e viu que a coisa não vai bem quando existe só um lado da moeda, está abrindo meus olhos.  E um pouco do que escrevi, CORAJOSAMENTE, acima, e no título deste post, embora já tenha percebido anteriormente  muito do que ele diz, mas não tenha encontrado eco, foi através do seu livro "o mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", Editora Record (parabéns pela ousadia!), 2014, 613 páginas. Páginas esta que li em menos de um mês (demorei muito? leio com calma, sublinhando, e tenho outras atividades).
Só para ter uma idéia, um excerto sobre o que ele fala a respeito do conhecimento,  da busca da verdade, do povo brasileiro, da (in)cultura brasileira:
"Desejo de conhecer. (p.37):
"É natural no ser humano o desejo de conhecer." Quando li pela primeira vez esta sentença inicial da Metafísica de Aristóteles, mais de quarenta anos atrás, ela me pareceu um grosso exagero.  Afinal, por toda parte onde olhasse - na escola, em família, nas ruas, em clubes ou igrejas - eu me via cercado de pessoas que não queriam conhecer coisíssima alguma, que estavam perfeitamente satisfeitas com suas idéias toscas sobre todos os assuntos, e que julgavam um acinte a mera sugestão de que se soubessem um pouco mais a respeito suas opiniões seriam melhores.
Precisei viajar um bocado pelo mundo para me dar conta de que Aristóteles se referia à natureza humana em geral e não à cabeça dos brasileiros.  De fato, o traço mais conspícuo da mente dos nossos compatriotas era o desprezo soberano pelo conhecimento, acompanhado de um neurótico temor reverencial aos seus símbolos exteriores: diplomas, cargos, espaço na mídia.(...) Até mesmo professores universitários, uma raça que no Brasil é imune a tentações cognitivas, mostravam querer aprender alguma coisa.
Aristóteles tinha razão: o desejo de conhecer é inato.  O Brasil é que havia falhado em desenvolver nos seus filhos a consciência da natureza humana, preferindo substituí-la por um arremedo grotesco de sabedoria infusa."
"O poder de conhecer. (p.38 e seguintes):
"Experimentai de tudo, e ficai com o que é bom", aconselha o apóstolo. (...) "Veritas filia temporis", dizia São Tomás de Aquino: a verdade é filha do tempo. (...) O aprendizado é impossível sem o direito de errar e sem uma longa tolerância para com o estado de dúvida. (...) Infelizmente, a classe intelectual está repleta de indivíduos que não conhecem, da inteligência, senão seu aparato de meios - a lógica, a memória, os sentimentos (...) mas não têm a menor idéia do que seja a inteligência enquanto tal, a inteligência enquanto poder de conhecer o real."
"Somente aquele que é senhor de si é livre (...)"
"Nossa ciência social, atada com cabresto marxista e cega às realidades psicológicas mais óbvias da nossa vida diária, jamais se deu conta da imensa tragédia vocacional brasileira, que condena milhões de pessoas a viver como animaizinhos, entre a dor inevitável e o prazer impossível."
"Com relação ao segundo ponto, isto é, à situação atual da cultura brasileira, o que é preciso enfatizar é o seguinte:
1) Em quinhentos anos de existência, a cultura deste país não deu ao mundo um único registro de experiência cognitiva originária. (...) Toda nossa "produção cultural" consiste apenas de prolongamentos e ecos de registros absorvidos de culturas estrangeiras. (...) toda a história da nossa cultura é a do eco de um eco, da sombra de uma sombra. Todos sabemos disso e temos vergonha disso. (...)
3) Considerando-se nossos cinco séculos de história, a extensão física e o volume populacional deste país, a nulidade da nossa contribuição espiritual chega a ser um fenômeno espantoso, sem paralelo na história do mundo."
"Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica."
"A origem da burrice nacional. (p.67 e seguintes):
"Repetidamente um fenômeno tem chamado a atenção de professores estrangeiros que vêm lecionar no Brasil: por que nossas crianças estão entre as mais inteligentes do mundo e nossos universitários entre os mais burros?  Como é possível que um ser humano dotado se transforme, decorridos quinze anos, num oligofrênico incapaz de montar uma frase com sujeito e verbo?"

Voltarei a comentar o livro.  Ele é extenso, profundo, provocativo, esclarecedor, insinuante.  Falarei do genocídio cultural.  Me aguardem.
Meu irmão, duvido que tenhas coragem de lê-lo, embora me tenhas pedido emprestado.  Também duvido que minha prima e minha afilhada tenham coragem de fazê-lo.  É muito perigoso.





sábado, 16 de maio de 2015

Sexagenária


   











 Quando eu era criança considerava que as pessoas que tivessem em torno de 50/60 anos eram velhas.  Quando eu nasci, minha avó materna tinha 51 anos, e foi a avó com quem mais convivemos; ela nunca pintou  o cabelo, então de grisalhos a brancos não demorou muito tempo. Ainda vivia minha bisavó, com 78 anos, a quem chamávamos "vó velhinha", para distinguir da que era mais nova, sua filha. Vó velhinha já era bem judiada, como se diz, cabelinho branquinho, sempre de coque, roupas compridas, um cachecol ao redor do pescoço.
     À medida que o tempo foi passando, e com a evolução ocorrida na vida, nos costumes, na medicina, na educação, na moda, minha mentalidade foi acompanhando. Também meus estudos fizeram minha cabeça.
     Hoje, logo após ter completado sessenta anos, não me considero velha.  Não que os achaques da idade não tenham começado a chegar: dor aqui, dor ali, um desgaste aqui, outro acolá, a geada queimando meus cabelos outrora pretos, alguma dificuldade para andar, dançar, fazer exercícios...
     Todavia, a cabeça julgo boa, aliás, ótima.  Continuo amando a leitura, o estudo - até penso em fazer um doutorado -, as viagens, gosto de caminhar e fazer exercícios, embora de forma um pouco limitada.
     E achei o meu estilo.  Não saberia me definir - alguém sabe?  Sem rótulos, como já pedi em outra postagem. Em síntese, a moda não me pega mais.  Na juventude, a ditadura da moda me pegou direitinho - eu queria acompanhar meu tempo, seguir as tendências e, segundo uma famosa revista, ser "antenada".  Embora sempre com olho crítico, fiel ao espelho,  não usando o que considerasse ridículo em mim, durante muito tempo fui escrava das revistas/jornais/conselhos sobre moda. Mesmo com condições financeiras precárias, tinha uma costureira perto de minha casa que copiava os modelos das famosas para mim; os tecidos eram baratos, a mão de obra também, então me sentia feliz.  Creio que consegui libertar-me, e hoje só uso o que gosto, que seja confortável, e com o que me sinta bem. Sapatos muito altos, jamais; de bico fino, só mandados fazer de acordo com meus pés.
     Minhas avós, tanto materna quanto paterna, não tiveram condições de estudar; nem minha mãe. Nem meus avós, nem meu pai.  Já para mim, o estudo é algo orgânico, inerente a minha pessoa.  Tanto meus pais repetiram a nós, seus quatro filhos, que sem estudo não seria ninguém, que esta afirmação calou fundo em minha mente.  Amo estudar, dou o maior valor às pessoas que estudam, e fiz tudo que pude para meus filhos mais velhos chegarem, pelo menos, ao curso de pós-graduação que eu e meu marido alcançamos.  Eu tenho três graduações e um pós.  E pretendo encaminhar a mais nova até o doutorado, se ela quiser.
     Ser avó.  Este era, também, um dos meus sonhos.  Meus filhos mais velhos já me permitiram realizar este sonho.  São três meninos e uma menina, um mais lindo que o outro, todos muito inteligentes, queridos, carinhosos, educados.  Fazem a minha alegria e de meu marido. Embora não morem na mesma cidade que eu, quando nos encontramos sempre é motivo de festa, e ocasião especial para um "churrasquito", como diz um deles.
     E para registrar  o fato de chegar à idade em que as leis brasileiras nos consideram pessoa idosa, fiz uma festa, com tudo a que achava que tinha direito.  Chamei a família, as pessoas amigas mais chegadas, e fizemos um jantar, com direito a cardápio especial (sou celíaca e havia muitos diabéticos na festa), música com dj e dança, com músicas escolhidas a dedo por mim.  Afinal, a festa era minha;  quando vou na festa dos outros, tenho que aguentar até as músicas que não gosto.
     E continuo amando as flores, principalmente as rosas vermelhas, como também continuo gostando da cor vermelha; não é por que o tempo passou que deixei de gostar de algumas coisas das quais gosto desde criança.  A minha menina continua viva dentro de mim.
     Afinal, como disse meu irmão, agora somos 'sexigenários', os sexagenários sexis (e sempre que vejo esta palavra, me lembro da princesa Isabel, que sancionou a lei dos sexagenários escravos.  Creio que me libertou também). Nem que seja só na cabeça...


                                         




     
     


     

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A COPA DO MUNDO NO BRASIL





Levando por princípio que sou mulher, e que, por princípio mulher não entende de futebol, vou comentar sob a visão feminina a Copa do Mundo que se realiza no Brasil.
Quando o ex-presidente Lula fez força para conseguir trazer a Copa do Mundo para o Brasil, o povo brasileiro não gostou; pelo menos foram as manifestações que observei em jornais, revistas, mídia eletrônica e outros instrumentos de comunicação a que tenho acesso; inclusive as pessoas das minhas relações - povo que somos - também ficaram insatisfeitas.  
Como que um país como o nosso, com as deficiências que tem no plano interno, não solucionadas nem para nós, brasileiros, vai ter condições de receber um evento desta natureza?   E todos ficamos revoltados à moda brasileira: nas conversas, e-mails, charges, jornais, revistas, sites de relacionamento, mídias sociais, etc.  Mas não passou disto, durante um certo tempo.  À medida que a Copa se aproximava, começaram as manifestações.  E todas com razão.  Eu concordo que a gente faça manifestações pacíficas.  Não concordo com quebradeiras, agressão a pessoas, mortes, agressão à propriedade particular ou pública, todos estes itens assegurados na Constituição Federal: direito à vida, à propriedade privada, etc.
E como receber bem os estrangeiros, se nem nós mesmos temos condições de vida adequada?
Quanto a receber bem nós, os brasileiros, somos campeões da gentileza, do bem receber, da boa vontade em atender e informar aos estrangeiros, em ser cordiais e solícitos, educados - isto faz parte da nossa maneira de ser, brasileiros.
Por que digo isto?  Eu mesma tenho a resposta de uma viagem que fiz à Europa, e a forma de atendimento dos países por onde passei: os italianos são, até certo ponto corteses e educados.  Estávamos jantando em um restaurante em Roma, pedi um filé e seus complementos, explicando, em inglês, como eu o queria.  O garçon trouxe-me um filé frito por fora e cru por dentro, o que eu não gosto, gosto bem passado. Reclamei e o garçon, exaltado, começou a gesticular e gritar. Resumindo: comi a parte externa e deixei o resto no prato.  Um senhor que estava ao lado de nossa mesa, brasileiro, observou a cena e nos disse: "eu sou dono de restaurante na serra gaúcha; se tratar meus clientes desta forma, nunca mais voltam.  Vim aqui para aprender novas técnicas, ver novidades, mas vi que quem tem que aprender são eles."
E assim foi por toda Itália, por onde andamos.
Na Suíça, país que visitamos logo a seguir, foi mesmo que estar em casa. Educados, solícitos, atenciosos, não tivemos problemas.
Na França, foi o pior lugar em termos de receptividade, apesar de termos ido no ano da Copa do Mundo na França, 1998.  Aqui no Brasil tínhamos ouvido a notícia de que o governo francês estava ensinando o povo  como tratar os turistas - ser atenciosos, educados, não ser tão arrogantes e procurar aprender suas línguas.  Mas parece que não adiantou.  Em uma situação de emergência, em que entrei num restaurante pedindo auxílio, mesmo falando em inglês, não sei se olhando para nós a mulher achou que, talvez, fôssemos mendigos, ou, quem sabe, fugitivos pedindo asilo, ela expulsou-nos de dentro do recinto, como não se faz a um cão.  Apesar das belezas da França, seu povo é o mais mal-educado que já conheci até agora, o mais presunçoso, o mais 'nariz-empinado' que já vi.  E só fala francês, ignorando outras línguas. Ainda bem que eu tinha levado um dicionário francês-português, e consegui comunicar-me com aquelas feras.
Logo em seguida fomos à Inglaterra, onde fomos bem recebidos  e não tivemos nenhum problema.  A fleuma inglesa também é bem representada pela educação.
Então, nos comentários que tenho lido e ouvido, pela maneira de ser do povo brasileiro, um povo alegre, acima de tudo e apesar de tudo, pela receptividade e pela cordialidade que temos com nossos visitantes, estão os estrangeiros admirados e conquistados pelas nossas pessoas e pelo nosso território, com suas paisagens magníficas, cada canto do Brasil com uma característica diferente.  Creio que a Babel que tentaram construir na antiguidade, consolidou-se de certa forma no nosso país, que formou-se de tantas raças diferentes, de tantos povos que decidiram viver aqui, além dos povos que já habitavam este canto das Américas.
E a Copa do Mundo?
Nós, mulheres brasileiras, com raras exceções, não entendemos muito de futebol; mas assistimos aos jogos do Brasil, e torcemos, muito, pela nossa seleção, comandada pelo Felipão.  Acredito que, na turma de agora, ainda não temos nenhum equivalente a Pelé, Rivelino, Garrincha, Leão, Dunga e outros tantos que deram muitas alegrias aos brasileiros.  Mas queremos que nossos jogadores tenham energia suficiente para alcançar mais uma vitória.
Tenho certeza que os estrangeiros ao retornarem a seus países, não esquecerão os belos dias que tiveram no Brasil.  Estou longe das cidades que receberam os turistas, que são meia dúzia de capitais dos Estados.  Pelo que tenho lido e ouvido, algumas falhas na organização aconteceram, alguns problemas em aeroportos, um acontecimento aqui, outro ali; mas a Copa da  FIFA no Brasil, pelo que eles mesmos dizem, tem sido, até agora, a melhor das copas.  Pelos investimentos feitos pelos governos estaduais, federais, e instituições particulares, tem que ser mesmo.  Se deu lucro, ou se ficamos no prejuízo e ficaremos muitos anos pagando estas despesas, o tempo dirá.
Vamos lá, Brasil!

E para quem não conhece, o meu pais: BRASIL!

O Brasil e sua localização na América do Sul.
endereço: https://www.google.com.br/search?

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Viagens IV - 1ª parte

Quando completamos 20 anos de casados, meu marido e eu decidimos comemorar de forma diferente.  
Como nunca tínhamos ido para o exterior, optamos por conhecer um pedaço da Europa: procuramos uma empresa de pacotes de viagens, preparamos a documentação (achei que fiquei bonita no antigo passaporte), com cara de gente "bem", que naquele tempo, 1998, eram pessoas da classe alta que faziam estas viagens e não nós, reles trabalhadores do meu Brasil, como dizia o Getúlio Vargas.  Desnecessário dizer que o pagamento do pacote de viagem foi feito no modo brasileiro, em 'suaves prestações mensais', que trabalhadores não são de ferro e não têm as burras cheias.
Entusiasmados, fizemos o roteiro: entraríamos por Roma, iríamos para Florença, Veneza, na Itália,  Lucerna, na Suíça, Paris e Londres, de onde retornaríamos.
Viajante de primeira viagem, informei-me sobre a forma de comportamento no exterior, para não cometer gafes; detesto que digam que brasileiros são mal-educados.  De tudo que li, vi que a forma como sempre me comportei estava adequada ao velho mundo, uma vez que meus pais souberam bem me educar em casa, e a escola que freqüentei na adolescência tinha origem na Alemanha (rede sinodal de ensino, da Igreja Luterana), o que nos ensinou sobre disciplina, organização, hierarquia, respeito, visão de mundo, geografia e história,  e tantas outras coisas.
Também informei-me como me vestir - esquecendo-me, ó ingenuidade- que a moda ditada pelo exterior vem parar aqui no Brasil, um pouco tarde, é verdade, mas sempre.  Então, estava adequada.
Iríamos em maio, que não é tão frio - por mais que ache lindas as paisagens de neve, já passei por ela aqui no sul do Brasil, e detesto frio.  Então, fomos na entrada do verão europeu.
Partimos de São Paulo numa tarde chuvosa, passamos por um túnel que ligou o aeroporto ao avião, e, por muito tempo, só tive a certeza de que viajei mesmo por ter chegado lá, pois não senti e não vi a saída do avião.
Se alguém recordar meu outro post, em que comento a primeira viagem de avião, deve lembrar do meu pânico, agora estendido por 12 horas.  Nem recordar que ficaria 12 horas sobre o Oceano Atlântico; nem pensar na eventualidade do avião cair e sermos devorados por peixes enormes, fora o pânico de morrer afogada.  Adotei vários subterfúgios para expelir para longe de minha mente tais pensamentos: levei 2 livros com mais de 500 páginas; assisti o filme disponibilizado pela antiga Varig, que ainda atuava; escutei música nos fones de ouvido, olhei as revistas de bordo, além de, é claro, ter tomado um calmantezinho antes de partir, o que me permitiu cochilar alguns minutos. Além , é óbvio, de me alimentar com as delícias que ainda serviam naquele tempo.  Como não tenho viajado de avião, mas leio sobre, parece-me que reduziram a alimentação a lanchinhos prosaicos.  Novos tempos.
Sempre tive dificuldades, nas aulas de geografia ginasial, de entender o fuso horário, os meridianos, etc; então, saímos às 16 horas de São Paulo, e chegamos às 7 da manhã em Roma, horário local.
Para começar, as pessoas que deveriam estar nos esperando, com aquelas plaquinhas com nossos nomes, lá não se encontravam.  Segurei meu pânico, só olhei para meu marido: cadê o povo?  Pagamos um pacote e nos abandonam num aeroporto internacional, sem saber falar italiano - meu marido fala um italiano castiço, um dialeto do norte da Itália trazido pela família do nonno no século XIX. E agora?



Fontana di Trevi,  Roma, que visitamos nos primeiros dias. Foto da autora, proibida reprodução.






segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O DIREITO À EDUCAÇÃO - UM MANDAMENTO CONSTITUCIONAL - PARTE. IV


Continuando a publicação parcelada do meu TCC, se alguém se interessar pelo assunto, aí está: 
Evidencio que as citações estão ficando fora de esquadro, pois a cada recorte, tá começando de novo.  Infelizmente, como não sou 'expert' em informática, isto está ocorrendo e não sei como resolver...é triste ser ignorante em alguma coisa....


"1.3. Movimentos educacionais
            Como resultado da IV Conferência, surgiu o “Manifesto dos Pioneiros”, um longo documento dedicado ao Governo e à Nação, que defendia a escola pública obrigatória, laica e gratuita e pelos princípios pedagógicos renovados inspirados em novas teorias.
            O governo achava interessante o raciocínio dos “profissionais da educação”.  Para ele  a “questão social” havia se agravado devido à migração interna e ao inchamento das cidades.   Portanto, uma dimensão justa era  fixar o homem no campo, e para isso era interessante o discurso que enfatizava a criação de escolas técnicas.  No campo deveriam ficar as escolas técnicas rurais, nas cidades estariam os estabelecimentos profissionalizantes ao nível industrial e comercial.  Fixar o homem ao campo com escolas, acalmar o desespero do trabalhador urbano com escolas!  Mas não com qualquer escola, e sim escolas embasadas nos novos métodos e que fornecessem uma profissão ao filho do trabalhador. 
            Consta que
“as Constituições anteriores à de 1934 – a de 1824 e a de 1891 – foram omissas e superficiais em relação à educação.  A de 1934, ao contrário, incumbiu a União de “fixar o Plano Nacional de Educação,  do ensino de todos
os graus e ramos, comuns e especializados, e coordenar e fiscalizar a sua execução em todo o território nacional.  Colocou a Carta Magna que o ensino primário deveria ser obrigatório e totalmente gratuito.  Além disso, instituiu a tendência à gratuidade para o ensino secundário e superior.  A Constituição ainda tornou obrigatório o concurso público para o provimento de cargos no magistério, determinou como incumbência do Estado a fiscalização e a regulamentação das instituições de ensino público e particular, determinou dotações orçamentárias para o ensino nas zonas rurais e, finalmente, fixou que a União deveria reservar no mínimo 10% do orçamento anual para a educação, e os Estados, 20%.”   Foi neste período que “a família foi reconhecida em seu papel educativo.” [1]
            Foi nesta época que, segundo o autor,  surgiu o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova – A reconstrução educacional no Brasil – ao povo e ao governo”, assinado por intelectuais da educação à época.
            No pensamento dos manifestantes, a educação brasileira era algo
 “(...) sem unidade de plano e sem espírito de continuidade, não lograram ainda crear(sic) um systema (sic) de organização escolar, á (sic) altura das necessidades modernas e das necessidades do paiz. (sic).  Tudo fragmentario (sic) e desarticulado”. “(...) falta, em quasi (sic) todos os planos e iniciativas, da determinação dos fins da educação (aspecto philosofico (sic) e social) e da applicação (sic) (aspecto technico (sic)) dos methodos scientificos (sic) aos problemas da educação.” [2]

            O manifesto segue nesta linha de ponderações, chegando às seguintes conclusões: a questão primordial das finalidades da educação gira em torno de uma concepção de vida; de um ideal ao qual devem conformar-se os educandos; pode ser considerado por uns abstrato e absoluto, por outros concreto e relativo, variável no tempo e no espaço.  Porém olhando para o passado da evolução da educação pelas diferentes civilizações, tem-se que o conteúdo real desse ideal variou sempre de acordo com a estrutura e as tendências sociais da época,  extraindo a sua vitalidade da própria natureza da realidade social.
            Sobre o ensino Universitário, ainda de acordo com o autor, o manifesto exprime que a educação superior deve ser inteiramente gratuita;  tender à formação profissional e técnica no seu máximo desenvolvimento e à formação de pesquisadores em todos os ramos de conhecimentos humanos;  desempenhar a tríplice função de elaboradora ou criadora de ciência (investigação), docente (ciência feita) ou popularizadora através de extensões universitárias.[3]
            Sobre as formas como resolver os problemas da educação, assim se exprime: “se os problemas da educação devem ser resolvidos de maneira científica, e se a ciência não tem pátria, nem varia, nos seus princípios, com os climas e as latitudes, a obra da educação deve ter, em toda a parte, uma “unidade fundamental”, com um caráter universal.”  
            Finalmente, conclui: “(...) as únicas revoluções fecundas são as que se fazem ou se consideram pela educação, e é só pela educação que a doutrina democrática, utilizada como um princípio de desagregação moral e de indisciplina, poderá transformar-se numa fonte de esforço moral, de energia criadora, de solidariedade social e de espírito de cooperação.”[4]
            Propõem os manifestantes, então, uma Revolução pela Educação, e que o ensino e a aprendizagem tenham um cunho universal, pois os objetivos e os fins da educação são o ser humano integral, que o é assim em qualquer país.
            Na década de 30  foram criadas as Leis Orgânicas da Educação; e  se concretizou a “Reforma Capanema”, de cunho elitista e conservadora.  Também ocorreu a criação do  Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos  INEP; o  Instituto Nacional do Livro INL ; o Serviço Nacional da Indústria –SENAI; o Serviço Nacional do Comércio - SENAC, a  Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, a institucionalização dos Sindicatos atrelados ao Estado, entre outros.
            Estas Leis Orgânicas do Ensino criaram “(...) a organização de um sistema de ensino bifurcado, com um ensino secundário público destinado às “elites condutoras” e um ensino profissionalizante para as classes populares.[5]
            Alguns partidos políticos também se preocupavam com os entraves educacionais dos brasileiros, e se envolviam com a realização de cursos de alfabetização de adultos e crianças e de cursos técnicos populares gratuitos."


[1] Ghiraldelli, op. cit. p. 45.
[2] Ghiraldelli, op.cit. p.54 e segs.
[3] Ghiraldelli, op.cit. p.71 e segs.
[4] Ghiraldelli, op. cit. p. 77.
[5] Op. cit. p.84, 107, 112, 114