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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

É CRIME!

                         
Igo Estrela/Metrópoles
Brumadinho / MG
                       
Vivemos uma situação caótica em nosso Brasil há já algum tempo.
Pelo menos é assim que alguns de nós, brasileiros, nos enxergamos.
Por mais que uma grande parte da população não queira envolver-se politicamente, ou nem tenha preparo para isto, a grande maioria de acontecimentos em nossas vidas é proporcionada por interferências de governantes, por suas decisões, por decisões de seus subalternos, seja o nível que for de responsabilidade.
Há pouco mais de 3 anos vivemos um acontecimento trágico, em Minas Gerais, com a barragem de Mariana.
Soubemos, através de noticiários os mais diversos, que a empresa Vale e seus sócios, foram acionados judicialmente, mas, que, até o momento, ninguém foi punido, tendo em vista nosso sistema jurídico que possibilita inúmeros recursos a tribunais superiores.
Têm-se notícia que multas foram canceladas, assim como muita coisa foi negociada.  Entretanto, para as pessoas que perderam familiares, casas e outros bens, ainda não houve o devido ressarcimento.
Da mesma forma, têm-se notícia de que as normas legais e ambientais para as mineradoras teriam sido afrouxadas.  Há que se confirmar essas afirmações.  Entretanto, devem ser verdadeiras; caso contrário, não teria ocorrido esse crime contra as vidas humanas e de animais, assim como crime ambiental, contra o patrimônio privado e público, que foi e está sendo Brumadinho, também em Minas Gerais, também na empresa Vale.
Li hoje uma notícia que me deixou arrasada: os bombeiros teriam encontrado algo parecido com parte de um corpo; foram cavando ao redor, viram que era de uma criança; mas viram que estava agarrada em algo: foram descobrindo que era o corpo da mãe abraçado ao do filho!
Gente! Não tem como não considerar desumano, criminoso, terrível, inaceitável, que fere os direitos humanos, sendo o principal, e garantido pela nossa Constituição Federal, brutalmente agredido: O DIREITO À VIDA!
Essa mãe, com certeza tentou salvar o filho; e, no desespero, abraçada a ele, deve  tê-lo protegido com o próprio corpo!  Isto é uma cena de amor maior, que feriu os sentimentos dos bombeiros, fere nossa sensibilidade, e desperta uma revolta enorme, pois percebe-se, nas declarações dos poderosos representantes dessa empresa, que agora vão fazer alguma coisa, que não houve intenção, que era seguro, que tinha laudos (supõe-se comprados) de que não tinha perigo, mas nada fizeram depois de Mariana, repetindo em Brumadinho!
Poluem o ambiente, matam pessoas, acabam com a natureza, com empresas (as pousadas, entre outras), acabam com a vida de muitos familiares das vítimas, destroem famílias, sonhos, anseios, objetivos, exterminam lugares e pontos de referência – Mariana não existe mais, agora Brumadinho também não.  Um dia está lá, outro dia embaixo da lama de ferro!
Tem que punir, tem que responsabilizar, não tem que dar mole, sem nhenhenhém, aplicar multas, obrigar a indenizar, refazer, reconstruir, deixar o mais próximo possível do que era antes, tanto a natureza, como as casas, os sítios, as empresas....
Mas, sabemos, não tem como devolver as vidas roubadas!
Essas, nunca mais!
É crime!


Lorení Dalla Corte
30/01/2019.



(Direitos de Imagem: https://www.metropoles.com/brasil/com-34-mortos-confirmados-tragedia-de-brumadinho-ja-supera-mariana , acesso em 25/02/2019).

domingo, 19 de agosto de 2018

SARAMAGO E O VOTO EM BRANCO

  


O livro de Saramago que tenho às mãos.
  Mais uma crônica dominical, mas não, necessariamente, semanal.  Verifico, espantada, que há tempos não escrevo.  Os compromissos da vida me enleiam, às vezes sinto-me amarrada.
     Mas, mesmo assim, seguimos nossa caminhada rumo ao fim.  E que este seja bom, belo, sereno, indolor. De preferência, dormindo.
     Neste ínterim, leituras.
   O Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, deixou-me reflexiva nestes "tempos bicudos", como dizia Mário Quintana.  Estamos, novamente, frente às eleições presidenciais, renovação do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas Estaduais, bem como governadores.
     O povo, em geral (nós), já discute quem seriam os melhores candidatos; a ilusão do voto, de que a vontade popular será respeitada, e que o povo "manda" no país, através do voto e da pretensa democracia, já toma conta de muitas cabeças desavisadas.  Infelizmente, em nosso país, as pessoas com discernimento político real, são pouquíssimas.  A base do povo, da pirâmide, nem digo social, mas cultural, é tão pequena, que, creio, não temos como medir.
     O que, realmente, concretamente, acontece nos meios políticos, nos lugares onde se negocia de fato os rumos da nação, onde se decide tudo,  só uma ínfima quantidade de pessoas faz parte e tem conhecimento.  O povo vive em outro mundo, o da vida real, em que as pessoas levantam cedo todo o dia para trabalhar, enfrentam todo tipo de dificuldades, começando pela alimentação adequada, transporte, seja individual ou coletivo; falta de estrutura em estradas, ruas, cidades; escolas com sua parte física muitas vezes caindo aos pedaços, ou lugares onde nem escola tem.  Falta de emprego para uma grande parcela da população; escolas nem sempre com professores bem preparados, uma vez que a educação, infelizmente, não é e nunca foi primazia em nenhum governo em nosso país. É, e continuará sendo, tema de campanha; mas, nunca, tema de solução.
     Assistimos, estarrecidos, noticiários (em qualquer canal televisivo, ou pela internet), lemos em jornais e revistas, e vemos pessoas perto de nós sofrendo com atendimento precário à saúde,  com hospitais sem médicos ou com poucos médicos; onde faltam medicamentos e diversos materiais de uso corrente.  Vemos, perto de nós, a violência tomando conta, sejam assassinatos, roubos, furtos, violência contra a mulher, contra crianças.  
     E vemos os políticos gastando milhões, bilhões de dinheiro nosso - chamado público - em suas campanhas para reelegerem-se. Fora a corrupção, altamente desenvolvida em nosso país e exaustivamente demonstrada através de processos judiciais penais em andamento, em que políticos famosos e seus correligionários, amigos, financiadores e outros tais foram condenados e estão presos.  Isto dá nojo.
   O que Saramago tem a ver com isto?
   O livro que mencionei narra uma história em que 80% dos eleitores da capital de um país fictício votam em branco.  Demonstram, assim, sua insatisfação, sua revolta, a devolução do cuspe na cara que os políticos dão ao povo todos os dias.  O famoso "o povo é só um detalhe" de uma ex-ministra da fazenda da era Collor. O que os políticos deste romance fazem, para tentar descobrir quem fazia parte deste alto número de revoltados?  Declaram estado de sítio na capital, abandonam a cidade, retiram serviços essenciais, bombeiros, polícia, hospitais, etc, e mandam o exército cercá-la.  
     O povo, entretanto, continua vivendo sua vida, trabalhando, comendo, dormindo, se divertindo, como se nada tivesse acontecido.  Ninguém admite que votou em branco, pois o voto é secreto, e ninguém é obrigado a dizer em quem votou ou como votou.  E ninguém dedura ninguém.  Ninguém sabe, ninguém viu.
     No entanto, os políticos tinham que dar uma resposta a esta "ofensa".  O primeiro ministro reúne o gabinete; um dos ministros - o do interior - se encarrega de encontrar o culpado, o ou a cabeça do fato.  Nisto transcorre a história, a investigação, policiais, comissários, e se acha uma pessoa culpada.  Pelo decorrer da história, nós, leitores, sabemos da inocência da mulher.  Mas, ao final, como exemplo, ela é assassinada, bem como o comissário.  Alguém tem que ser culpado pelo levante da "epidemia branca" dos eleitores.
     Quem quiser refletir antes das eleições sobre este fato, está aí uma ótima indicação.  Saramago sendo Saramago. A sabedoria em pessoa.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a lucidez.- SP:Cia. das Letras, 2004, 325p.