Mostrando postagens com marcador avó. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador avó. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de outubro de 2017

INVERNO









Há um frio em minha vida.
Ele vai até meus ossos.
Deve ser assim o frio da morte -
penetrante, irredutível, definitivo.

Além do frio físico
- Nevou há poucos dias -
o frio da alma.

Lembra minha avó.
Vó Deza,
gelada para sempre
em trinta de novembro.

Ela sempre foi muito friorenta
(no Rio Grande do Sul é difícil não ser)
e morreu no verão.
Talvez para não sentir tanto frio.


Lorení Dalla Corte
1º/08/1990- Caxias do Sul/RS. 

(Imagem: http://www.sitedecuriosidades.com/curiosidade/curiosidade-sobre-a-formacao-da-neve.html)

quarta-feira, 8 de março de 2017

As mulheres fundamentais da minha vida


Todas nós temos pessoas que nos influenciaram na vida. Algumas de forma fundamental, outras um pouco menos; mas todas fazem parte do nosso coração e da nossa mente. As que comentarei abaixo ou deram origem à minha vida, ou dela participaram e/ou participam de uma forma essencial. Posso já ter comentado sobre elas em algum post, mas aqui, agora, estou especificando, neste dia Internacional da Mulher, para homenageá-las.

Felicidade (vó Dadade)


 Nascida em 26 de fevereiro de 1902, a mãe do meu pai foi uma mulher de seu tempo: uma guerreira em todos os sentidos da palavra. Casou-se com 16 anos - o normal para a época; teve 15 gestações, sendo que dois bebês faleceram, criando 13 filhos e filhas. Morou em uma fazenda, no meio do mato, onde plantava e colhia alimentos para a família sobreviver, auxiliada por meu avô, que saía a vender a produção (carreteiro) e demorava muito a voltar; cortava lenha; matava animais para alimentar a prole (porcos, galinhas, etc); fazia toda a lide doméstica, posteriormente ajudada pelos filhos mais velhos; costurava, bordava, fazia crochê,  ah, inclusive, matava cobras e outros animais peçonhentos que aparecessem e colocassem em perigo seus filhos.  Olhando para ela, tinha uma aparência frágil;  calma, alta, magra, a pele muito branca e muito fina.  Uma fortaleza.

Maria Augusta (vó Deza) 

 Nascida no dia internacional da mulher, em 8 de março de 1904, vó Deza, como a chamávamos, teve capital influência sobre minha vida. Ao  contrário de minha avó paterna, não casou tão jovem para a época, pois contava com mais de 20 anos. Teve 10 filhos, 2 faleceram ainda pequenos, criou 8 filhos; batalhadora, foi criada na roça, plantava, colhia, organizava e cuidava da casa e dos filhos; foi alfabetizadora durante muitos anos; era leitora voraz dos mais variados tipos de livros, revistas e jornais; fazia doces, pães, bolos e cucas como ninguém, além de crochê, costura e outras tantas atividades. Magra, altura mediana, estava sempre alegre e adorava conversar. Na minha adolescência bati longos papos com a vó, pois adorava quando contava as histórias de antigamente, histórias estas que registrou no livro "Memórias da Vó Deza", da Coleção Centenário da Unijuí Editora, que ajudei a publicar. 

Noemi, minha mãe.

Já escrevi bastante sobre ela em outros posts; desnecessário dizer da relação de amor e carinho que temos até hoje uma com a outra; minha companheira de papos, minha orientadora e educadora na vida, não só com relação à educação em geral, como também aos cuidados que teve comigo desde sempre, inclusive depois de adulta, quando passei por dificuldades, quando tive meus filhos e ela me ajudou, em tudo. Minha mãe é minha base, junto com meu pai; sem ela, eu não seria quem sou.
Agora é quase minha filha, pois o mal de Alzheimer a acompanha diariamente e, juntamente com meus irmãos, invertemos o papel. Mas mantém o bom humor, está sempre brincando, cantando, não é ranzinza.  Até há pouco tempo atrás, estava sempre pronta para fazer um passeio, uma viagem, e sempre adorou festas e comemorações, sentimento que passou-me e que cultivo com alegria.

Sílvia e Heloísa, minhas filhas.

A primeira deu-me a dimensão primeira do que é ser mãe; primogênita, seus lindos olhos negros e seus longos cabelos pretos e lisos me enchem de orgulho e alegria. Seu jeito de ser, inteligente, seu temperamento cuidadoso e responsável, seu lindo sorriso alegram meus dias. Junto com meu genro, trouxe-me dois lindos netinhos, que amo de paixão.
A segunda, minha caçula, fez-me recordar, após 20 anos do nascimento do meu filho, as alegrias da gestação e da maternidade, em um momento mais tranquilo da minha vida. Seus lindos olhos e cabelos castanhos, cabelos rebeldes e volumosos como os meus, seu temperamento adolescente, sua inteligência e agudeza de pensamentos alegram minha vida; seu sorriso me encanta e é um bálsamo para minha alma. Ótima estudante, esforçada, estudiosa, carinhosa ao extremo, é companheira minha e do pai, neste momento em que estamos a dobrar o cabo da boa esperança...

Phatsy, nora, e Nicolle, neta

Esta linda morena entrou na vida do meu filho e na nossa para trazer mais luz, alegria, vivacidade, gentileza e dois lindos netos. Minha nora é uma grande mulher - não só na altura física, pois quase acompanha a altura do meu filho - mas também na maneira de encarar a vida. Lutadora desde nova, como são as mulheres desde sempre, trabalhou e estudou para sobreviver em um mundo que exige muito de todas nós, como todas as mulheres que mencionei. 
Junto com  meu filho, presenteou-me com dois lindos netinhos, sendo que a Nicolle faz parte das mulheres fundamentais da minha vida. Menina linda, meiga, carinhosa, inteligente, ganha da vovó nos jogos de memória, foi no cinema com a vovó e a titia, dança balé e estuda, prevendo-se um futuro agitado e maravilhoso para ela.

Madrinha Eva

Também já mencionei-a em um post.  Mulher batalhadora, de personalidade forte, estudiosa, inteligente, responsável, o exemplo da mulher que começou a trabalhar no meio do século passado, e ainda cuidava da família, como todas nós.  Para mim, foi um exemplo de mulher que tem seu trabalho fora de casa, tem a sua renda, suas responsabilidades, compromissos e não abaixa a cabeça nunca; a primeira feminista que conheci.

Tia Nara

A irmã mais nova de minha mãe é poucos anos mais velha que eu; praticamente crescemos juntas, somos amigas desde a minha infância; quando adolesci, foi minha companheira de bailes, festas, shows; também fomos colegas de trabalho, madrinhas de casamento uma da outra, e somos madrinhas de nossas filhas.  Uma companheira da vida inteira, amizade que não tem fim.

Ana Leonida, minha sogra.

Outro exemplo de mulher lutadora. Casou já madura com meu sogro, e deu-me, como ela mesma me disse, um dos mais belos presentes da minha vida: meu marido. Italiana de origem, começou cedo nas lides domésticas; atendia a cozinha, no hotel que seu pai tinha, juntamente com as irmãs.  Posteriormente, dedicou-se à vida familiar e à cultura agrícola;  teve 4 filhos, os quais criou na mais severa cultura italiana e católica; trabalhava na roça parelho com meu sogro, mas era a primeira a levantar, para tirar leite das vacas às 5 da matina, e a última a descansar, depois de todas as tarefas domésticas, costura, crochê, entre outras atividades.

Mulheres fortes, trabalhadoras, resistentes, de fé, de lutas, de coragem, de ânimo, de alegria, de felicidade, de tristeza, de tudo que compõe um ser humano. Exemplos de vida.

 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Verão, praia, férias, a vida se recompõe, se refaz: a chegada de um novo neto.

Ser avó

Quando soube que seria avó novamente, exultei de felicidade.  A nossa descendência  se multiplica, a vida se refaz: um bebê é sempre um motivo de muita alegria, realização, concretização das razões de sermos humanos, demasiado humanos, como diria Nietzsche. Meu filho e sua mulher tiveram seu segundo bebê, um menino lindo e saudável que chegou em meio ao verão.  Calmo como o pai, quando bebê, exerce à altura do que esperávamos suas funções: mama bem, dorme bem e está crescendo saudável.  Meu coração está cheio de ternura, como ficou desde meu primeiro neto, em 2008. Ser avó é de uma emoção indizível.  Ao ouvir seu primeiro choro, chorei também, emocionada com todo o esforço de minha nora e meu neto, e com a força, responsabilidade e coragem de meu filho, que acompanhou o parto desde o seu início até receber nos braços seu filho, chorando de emoção e gratidão à sua mulher.  Isto é vida...

Um pequeno parêntese

Após o tempo necessário ao acompanhamento do nascimento do bebê, fomos descansar.  Voltamos a São Francisco do Sul, Praia da Enseada, que visitáramos há três anos atrás.  Desta vez a vimos de outro ângulo.  Não deixou de ser bela, convidativa e nos proporcionou raros minutos de descanso. Revigorante.



Com uma pequena colônia de pescadores, os barquinhos
fazem parte diária da paisagem.

Mais uma vez comemorei meu aniversário na praia, com um
prato à altura.  Delicious.



Um brinde a mais um ano de vida.

Paisagem bonita e relaxante.

Prazer da vida: leituras.

José Saramago voltou aos meus olhos: "Memorial do Convento", romance publicado originalmente em 1982, em Portugal, de 2011 é esta publicação brasileira.  É o relato da construção de um convento em Mafra, Portugal, no século XVIII; desenrola-se de uma forma envolvente; tem a família do Sete-Sóis e da Sete-Luas, que, junto a um padre, constróem, naquela época uma espécie de aeronave, e voam.  O relato de um rei, sua família, suas idiossincrasias, seus desejos; dos padres, que sempre o rodeiam, e praticamente o obrigam a construir tal convento, para assegurar-lhe um lugar no céu e redimir seus pecados.
Assim falando, não parece interessante; mas é.  A linguagem de Saramago, a sua forma peculiar de escrever, seu vocabulário, a descrição de locais, de pensamentos, de atos, de formas de trabalhar, de materiais, indica um conhecimento elevado, uma erudição que poucos têm; mas que é apresentada de forma simples, sem ser simplista; terei que relê-lo com um dicionário de português de Portugal, se quiser saber alguns significados específicos de vocábulos; caso não o faça, o contexto já explica.  É que sou preciosista...
Vale a pena a leitura. Saramago, sempre magnífico.

Domenico de Masi, "O ócio criativo". Há tempos queria lê-lo, e não tinha acesso.  Tinha lido comentários sobre esta obra, e tinha assistido a uma entrevista do autor no Programa "Roda Viva", da TV Cultura. Quando o ouvi, achei-o fantástico, inteligente, criativo, vivo. Publicado originalmente em 2000, este italiano foi publicado aqui no Brasil, nesta edição, também em 2000.  Mas eu cheguei a tê-lo em minhas mãos somente agora, em 2015.  Por esta razão, muitas de suas colocações ficam um pouco descontextualizadas, em virtude da evolução frenética das formas de comunicação, dos meios eletrônicos e que tais.
Li este livro nas semanas que antecederam ao nascimento de meu neto, na casa de meu filho; o livro é dele, então não pude ler sublinhando, como gosto de fazer.  Então encomendei um exemplar para mim, que chegou-me esta semana.  Vou relê-lo com a calma que ele exige e merece, pois é uma leitura fundamental para todos nós, cidadãos do mundo.
Trata do trabalho, do conhecimento, do capitalismo, do lucro, das formas de trabalho, da escravização de todo ser humano ocidental, que, por sua cultura, incutida em sua mente desde a Reforma Protestante, acredita que deve trabalhar de 10 a 12 horas por dia, e que estar parado, seja descansando, lendo, ouvindo música, refletindo, passeando, é considerado ócio, um tempo desperdiçado em que poder-se-ia estar "produzindo".  Analisa a sociedade industrial e nos localiza na era pós-industrial.  Gostei de suas idéias, pois pensava mais ou menos isto: que o horário de trabalho deveria ser flexível, que deveríamos ter tempo livre para ler, estudar, passear, viajar, conhecer; que tudo isto poderia ser feito de forma interligada, o que é mais ou menos o que ele diz.  Conclui o livro dizendo que o povo da Bahia, no Brasil, seria o mais próximo que ele encontrou, no mundo, dos seus pensamentos sobre vida e trabalho.  Eu diria que há controvérsias.
Para mim, esta é uma leitura obrigatória para pessoas que se importam com a vida, de uma forma integral.

Andrew Morton, "Diana, sua verdadeira história em suas próprias palavras."
Publicado originalmente em 1992, quando lady Di ainda era viva, esta tradução, de 2014, já traz os acontecimentos sobre sua morte trágica, que a todos nós chocou.  Sendo uma contemporânea da "Princesa do povo", acompanhei suas manchetes e sua vida, apesar de morar, à época, em um país da América Latina, em uma cidadezinha de 30 mil habitantes.  Que interesse eu poderia ter na vida de uma nobre, que vivia no outro lado do mundo, que nem sabia da minha existência, rica, poderosa, etc, etc?  O que a vida dela alterava na minha?  Nada. Apenas que, como ela era tudo isto, e manchete de jornais e noticiários televisivos, como continua sendo a Monarquia Britânica, o mundo inteiro gosta de saber o que acontece por lá.  E faço parte de uma parte do mundo.
Como dizia minha avó materna, devemos acompanhar o noticiário e saber o que acontece neste velho e louco mundo.
Na realidade, nós, velhos colonizados do velho e do novo mundo, gostávamos de saber o que por lá acontecia; as roupas que ela usava, as modas que ela lançava, os tapetes pelos quais andava, as óperas, shows, apresentações, viagens, tudo, que está minuciosamente relatado no livro, interessava ao mundo.  Apenas  nós, curiosos, queríamos saber a verdade sobre sua vida e sua chocante morte.  E a tristeza que víamos em suas fotos, confirmou-se em seu relato no livro: casou-se muito cedo, com um príncipe indeciso e dependente (palavras dela e do jornalista que escreveu o livro), teve os filhos que a monarquia exigiu; foi ultrajada o tempo todo pelo marido infiel e pela "bruxa" da Camilla; lutou contra a bulimia, depressão, insegurança; tentou o tempo todo agradar à "Firma" ou "Sistema" como chamava o círculo de cortesãos, e, quando conseguiu libertar-se, morreu em um acidente idiota.
Ótimo relato, põe-nos dentro da família real; faz-nos entender como funciona e confirma que os casamentos de reis e rainhas continuam sendo negócios. Ela era uma pessoa que tinha sentimentos.  Não servia para ser rainha.
Para quem gosta, ótima leitura.