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domingo, 18 de junho de 2017

O direito à educação feminina


 
Quadro que Malala pintou aos 12 anos: Harmonia entre as religiões.

Terminei de ler "Eu sou Malala - a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo talibã", publicado pela Cia. das Letras, de autoria da própria Malala e de Christina Lamb.
Em tom intimista, Malala Yousafzai, menina natural do vale do Swat, no Paquistão, narra sua história e  de sua família: pai professor, dono de escolas de inglês em sua terra; mãe dona de casa, em uma província pobre.  O que os impulsiona é o grande desejo pela democracia e pelo direito de as meninas também poderem estudar, assim como os meninos já fazem.
Descreve os lindos lugares onde morava, os vales, as montanhas, a paisagem, as amigas, a família e os valores que os movem, assim como os acontecimentos políticos de seu país e do mundo.
Percebe-se, por serem pessoas amigas de livros, de conhecimento, de dedicação, seus anseios pela paz, a compreensão e a tolerância para com outras pessoas, outras religiões, outras formas de pensar.
Entretanto, aqueles que dominam ou dominaram seu país não pensam da mesma forma.  E por discordarem, foram invadindo o território, e matando pessoas.  Tentaram acabar com Malala, mas não conseguiram; ela foi salva e vive na Inglaterra.
Excelente e emocionante história, que nos faz entender um pouco mais de cultura diversa da nossa. Ótima leitura.

Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã. com Christina Lamb. 1ªed.- São Paulo:Cia das Letras, 2013, 342p.

domingo, 6 de dezembro de 2015

A árvore e os frutos: cada um do seu jeito.







 

    Os 5 dedos da mão não são iguais: assim são os filhos.  Esta frase me foi dita uma vez pela minha sogra, em conversa familiar sobre filhos, educação, personalidades. E é uma verdade, sabedoria dos mais antigos.
Relembrando minha infância, tem o meu irmão mais velho, logo depois venho eu, o terceiro e o quarto.
Fisicamente não nos parecemos, quem nos olhasse, os quatro  juntos, sem saber que somos irmãos, não o diriam.  Só nossas arcadas dentárias são semelhantes.
Nossas personalidades também são muito diferentes. Embora tenhamos recebido, teoricamente, a mesma educação familiar, assumimos na vida caminhos diferentes.  Cada um do seu jeito.
Desde a infância, senti-me muito solitária por ser a única menina no meio dos guris.  E, século passado, meninos não brincavam com meninas...brincavam entre si e com os amigos.  Raras vezes curtimos brincadeiras juntos, quando eles deixavam-me participar.
Num dia de saudosismo, relembro infância e adolescência.
Quando tinha uns onze ou doze anos, situação financeira difícil da família, minha mãe, além de todo o serviço da casa, arrumou um extra: para uma litografia (na época assim  era chamada uma gráfica), fazíamos os fechamentos (colagem) de pacotinhos de sementes.  Pagavam pouco mais que nada, mas era um valor pago por cento; quanto mais colássemos, mais ganharíamos; desenvolvemos uma habilidade extrema neste trabalho manual, chegávamos a colar de 500 a mil por dia.  Toda a família - mãe e os três filhos mais velhos- nos envolvíamos nesta atividade para ajudar no orçamento.  Dizíamos "fazer saquinhos". Depois de terminadas as tarefas da escola, e da mãe concluir as atividades domésticas, dedicávamo-nos a isto.
Quando meu irmão mais velho foi estudar em Porto Alegre - chance só dada aos mais velho, os mais novos não a tiveram - continuamos a fazer esta atividade, agora destinando o resultado financeiro a  este irmão que fora em busca de novas oportunidades de estudos.
Quando éramos crianças, outra forma de aumentar a renda que minha mãe utilizou foi produzir seus deliciosos pastéis os quais meu irmão mais velho vendia nos jogos do Esporte Clube São Luís, de nossa cidade.  Para vendê-los, conseguia entrar de graça e, depois de vender os pastéis, assistia ao jogo ...
A mãe também costurava roupas de criança, e mandava-me oferecer nas casas vizinhas...meio envergonhada fui aprendendo, na prática, no rumo, sem orientação nenhuma, técnicas de venda... voltava com os troquinhos que ajudavam a família.
Meu irmão mais velho foi estudar na capital, aproveitar a oportunidade que o governo estava dando com as escolas técnicas.  Era o período da ditadura militar, e o país precisava de técnicos.  Inclusive este período, hoje, pode ser averbado à aposentadoria como tempo de serviço.  A ditadura militar não produziu só coisas ruins.
Todo o dinheiro extra que conseguíamos, mandávamos para ele. Sobreviver na capital não era fácil.
Quando estava no último ano do ginásio, além de fazer o curso de corte e costura que meu pai me obrigara - eu detestava estes trabalhos manuais - fiz o curso de datilografia, que era exigido para qualquer emprego que se procurasse no comércio ou indústria da cidade. Foi o que me deu o primeiro emprego, que me permitiu continuar estudando.
Enquanto isto, meus 3 irmãos só estudavam, sustentados pelo pai e pelos extras familiares.
Meu terceiro irmão também começou a trabalhar logo após terminar o ginásio.  Não era muito afeito aos estudos mas conseguiu cursar um pequeno período da graduação.
O mais novo era muito inteligente, porém tinha uma grave doença mental que atrapalhou sua vida; mesmo assim, conseguiu ser aprovado em vários vestibulares entre os primeiros colocados. Mas nunca conseguiu concluí-los.
O mais velho conseguiu concluir o curso superior depois de muitas dificuldades.
Somos os primeiros da família a concluir curso superior com o próprio esforço e sustento. Isto se chama mérito.  Infelizmente só depois da nossa luta de cidadãs e cidadãos a Constituição Federal de 1988 autorizou que fossem instituídos cursos superiores gratuitos em locais que não fossem grandes centros ou capitais.  Agora o acesso ao estudo está melhor. Por que lutamos, fizemos reuniões e assembléias durante a Constituinte, e enviamos nossas sugestões aos componentes do Congresso Nacional, que as aceitaram e incluíram na Constituição.  Participei de muitas destas reuniões, era professora na época.  É uma vitória do povo, do magistério e estudantes da época, década de 1980. Os que hoje têm acesso a estes estudos, que foram sendo implementados gradativamente, agradeçam a nós, à geração anterior que teve suas lutas e vitórias.  Do seu jeito.
Fisicamente também os filhos são diferentes.  Meu irmão mais velho é "rechonchudinho", assim como o mais novo era.  O terceiro é muito alto e magro, parecido com o pai.  Eu fiquei no meio-termo, nem magra nem gorda.  Mas o gene da obesidade anda se manifestando nos últimos tempos.
Quanto à personalidade e formas de encarar a vida, os quatro são totalmente diferentes e/ou antagônicos.
Meu irmão mais velho é calmo, até certo ponto.  Não mexam com ele.  Politicamente tende para o que se chama, no Brasil, esquerda. Honestíssimo, é uma pessoa que amo e admiro muito.
O terceiro tem o temperamento explosivo, e politicamente está na extrema direita.
O mais novo era um tanto impositivo, mas infelizmente fora prejudicado pela sua doença.  Politicamente era da direita, sem extremos.
Eu creio que ajo da forma que considero mais correta, dentro dos ditames da educação recebida e adquirida. Talvez um pouco impositiva, mas com diálogo.  Quando tenho que tomar decisões que envolvem outras pessoas ou a própria família, procuro argumentos e diálogos que sejam racionais.  Mas aprendi a ceder, quando necessário. (O nosso espelho interno sempre é mais benéfico...)   Politicamente, como já falei muitas vezes, sou conservadora.  Sem esquerda nem direita, sem  partido.  Pelo certo e justo, de acordo com meu entendimento.
Assim segue a vida...minha mãe às vezes se pergunta se a mistura deu certo...creio que deu.  Cada um do seu jeito, cidadãos de bem.



Numa destas aprendi datilografia e em muitas delas tirei                                                  meu sustento e da família.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

37 anos de Magistério - e a dignidade da pessoa humana?





Ensinando a amar a leitura, literatura, alto conhecimento


Ao concluir a faculdade de Letras, sentia-me insegura para ser professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Eu tinha 22 anos, fizera um pequeno estágio NÃO REMUNERADO, e não tinha, a meu ver, condições de lecionar.  Meus professores da FAFI disseram literalmente: " Não estamos aqui para ensiná-los a dar aulas, isto vocês se virem para aprender.  Estamos aqui para ensiná-los a pensar" - a pensar como eles, época da ditadura, professores esquerdistas.  Alguns, após a aula, iam dormir no quartel.
Desde os 16 anos eu trabalhava durante o dia - 8 horas - e estudava à noite.  Creio que já falei sobre isto. Pobre, não tinha situação financeira que me permitisse só estudar, e meus pais também não tinham esta disponibilidade de recursos.  Trabalhei como secretária de um advogado, e, depois em uma Companhia de seguros; posteriormente, secretária em uma empresa de revenda de tratores e implementos agrícolas.  Então, não tive como fazer o curso Normal, que ensina a lecionar.  Fiz o Curso Técnico de Contabilidade, e o Curso de Letras, que era o mais perto do que eu queria - Jornalismo.  Porém, este último só tinha em Santa Maria ou Porto Alegre o que, por motivos óbvios, não me permitia cursá-lo.
Era 1977.  Casei no último dia do ano.  Fomos morar em outra cidade, perdi meu emprego.  Procurei em várias empresas para trabalhar no que eu mais entendia, mas não consegui.  E surgiu a oportunidade para lecionar em uma escola particular e numa pública - ambas sempre carentes de profissionais. Criei coragem e fui me candidatar.  As duas vagas eu preenchi.
Desnecessário dizer da minha angústia nos primeiros tempos, pois desconhecia a burocracia que os professores têm que dominar, além de seus conteúdos.  Precisei aprender a lidar com cadernos de chamada e suas peculiaridades, reuniões pedagógicas com a Supervisora Pedagógica.  Reuniões de área, com os colegas de Língua Portuguesa.  Reuniões da Diretoria da Escola e Supervisão Escolar com todos os professores.  Distribuição de turmas, horários, etc, etc, etc Atividades extra-classe, sem remuneração, provas, boletins, atendimento aos pais, e assim vai.
Mas o que mais me angustiava eram as aulas.
Tive a sorte grande de ter duas colegas maravilhosas - Maria Mercedes Cavalheiro e Ilca Laskoski.  Ambas praticamente me ensinaram a preparar aulas, o preenchimento correto dos cadernos, a escolher textos, a preparar provas.  Devo isto a elas, e reconhecerei por toda minha vida.  Como sempre tive facilidade para aprender, e aliado aos conhecimentos teóricos da faculdade, tornei-me uma ótima professora, sem modéstia nenhuma.  Resultado obtido do trabalho a três.
Durante dois anos trabalhei nas duas escolas: na particular, fiquei até o fim da licença-gestante de minha primeira filha.  Na escola pública, como contratada até o nascimento de meu segundo filho, oportunidade em que fiz concurso e passei a ser professora efetiva concursada.
Desde 1978 eu luto junto com meus colegas de profissão pelo que eles chamam de  "valorização do magistério".  Eu cansei de ouvir esta expressão.  Nossos salários, desde aquele tempo, são os piores possíveis.  Para 20 horas semanais, o que se entende por meio turno, um professor ganha pouco mais do que o salário mínimo brasileiro.
Na década de 80 tivemos a implantação do plano de carreira do magistério estadual.  Até ali, os professores eram contratados por indicação; se tivessem divergência política com a direção da escola - que era escolhida por acordo político - o professor era demitido.  Era um troca-troca de professores infernal.  Então os professores, junto com o poder público - Legislativo e Executivo- implantaram um plano de carreira. E os professores, a partir de 1988, com a Constituição Cidadã, somente deveriam ser admitidos por concurso público, para evitar as perseguições políticas.
Neste plano de carreira, os mestres, no decorrer do tempo, e de acordo com sua capacitação por estudos, devidamente comprovada através de cursos universitários, passa  do nível 1 até o 6, com as seguintes características, numa Progressão vertical:  
    N1 – Ensino Médio                                                                                               
    N2 – Ensino Médio com estudos adicionais
    N3 – Licenciatura Curta
    N4 – Licenciatura Curta com estudos adicionais
    N5 – Licenciatura Plena
    N6 – Pós-Graduação.
Também os professores são submetidos às Classes, que vão da "A," a "F", assim:
Progressão horizontal: Se dá através do sistema de promoções de classes (A, B, C, D, E e F), tanto por antiguidade, como merecimento, todas definidas por um percentual de 10% sobre o valor da Classe A. A avaliação é periódica, e valoriza a formação permanente através de cursos de aperfeiçoamento e atualização.
 Quando ingressei no magistério, entrei na classe A, nível 3. Depois de cursar a Licenciatura Plena - já com dois filhos pequenos, morando em uma cidade distante 40km da faculdade, consegui ser promovida para o nível 5.  Depois de alguns anos, não sem dificuldade - NUMA FACULDADE PARTICULAR, SEM NINGUÉM QUE BANCASSE MEUS ESTUDOS - concluí o Curso de Pós-graduação, conseguindo atingir o nível 6. 
Neste meio-tempo, fui lecionando para alunos de ensino fundamental, a partir da 5ª série, e para alunos de ensino médio.
Tornei-me, ao lado dos meus colegas, uma lutadora. Filiei-me ao sindicato dos professores estaduais gaúchos, o CPERS/SINDICATO. 
Nossa luta nunca foi sossegada.
Apesar do plano de carreira, nossos salários sempre foram muito baixos, aviltados mesmo.  Comparando com a pessoa que eu pagava para cuidar de minha casa e meus filhos enquanto eu trabalhava, quase tudo que eu ganhava ia para ela, se não considerasse o pagamento do INSS.  Mas com carteira assinada, eu ficava no déficit.
Por que não mudei de profissão, como muitos me diziam?
As pessoas que sugerem a um professor que mude de profissão nunca entraram numa sala de aula repleta de pessoinhas que  aguardam ansiosamente, com rostos curiosos por saber de que vais falar. 
Desconhecem o prazer que é quando um aluno diz "agora entendi, professora", e fica radiante diante de sua evolução e aquisição de conhecimento. Não conhece o brilho dos olhos dos alunos pelo prazer de aprender.
Desconhecem o que é adquirir o conhecimento, através do estudo, repassar o mesmo aos alunos, e instigá-los a buscar mais, não ficar somente com aquilo que é passado na escola.
Nunca vi alguém dizer a um médico, advogado, engenheiro, banqueiro, empresário, odontólogo, e profissionais de outras áreas do conhecimento: "Não está satisfeito? Procura outra profissão."
O que vi, durante o período em que me dediquei ao magistério: alunos que entravam no começo do ano com muitas dificuldades de escrita, vocabulário, conhecimentos gerais, temas da atualidade; desconhecimento da literatura, tanto brasileira quanto estrangeira; desconhecimento de fatos históricos, que muitas vezes são narradas literariamente; com dificuldades de leitura e compreensão de textos simples, os quais, a todos eles, dediquei-me com vontade, lucidez, persistência, mania de perfeição, alegria e vontade de vê-los melhor, no fim do ano, do que entraram.  Ensinei-lhes o que é o conto, o prazer da poesia, da leitura em voz alta, da escrita nos vários estilos adequados às séries, a conhecerem o romance, e os vários estilos e autores.  E quando chegava o fim de ano, pegando uma redação dos primeiros dias e uma dos últimos - eu era louca, fazia uma redação por semana em cada turma - dava prazer comparar e verificar a evolução. E o Brasil precisa de professores. Já pensaram quando todos abandonarem a profissão?
Mas... por que falo tudo isto?
Por que durante todo o tempo em que fui professora, tive que brigar com os governadores do Rio Grande do Sul.  Todos, sem exceção, desde 1978, achataram e achacaram nossos vencimentos, considerando-nos profissionais de segunda classe, se comparados com mestres de outros países.  Sempre estivemos correndo atrás da máquina, fazendo reivindicações, greve, viajando do interior do Rio Grande a Porto Alegre para bater às portas do Palácio Piratini, esmolando aumento. E esmolando a construção, manutenção de escolas; a criação de bibliotecas, laboratórios, quadras esportivas, nem se fala em auditórios. E merenda escolar, pois são alunos de escola pública, a grande maioria pobres.
Hoje, não esmolamos aumento, nem isto. Muito menos a manutenção da escola.
Aposentados, ao lado dos que estão na ativa, mendigamos o simples pagamento dos vencimentos, o que, muitas vezes, com vários governadores, tivemos que correr atrás. E muitos nos agrediram, dizendo que o que pesa na folha de pagamento são os aposentados.  Depois de tantos anos dedicados ao afã de ensinar, somos considerados pesos! Muitos de nós, com idade avançada, com diversas doenças que precisam ser tratadas, atendidas, vêem-se à mercê de governadores inescrupulosos que, não duvidamos, teriam vontade de liquidar-nos para não ter que nos pagar.
 Mas o atual governador conseguiu superar os demais: além de parcelar os vencimentos, está ameaçando não pagar.  É o cúmulo do ABUSO DE PODER E DE AUTORIDADE.  Os professores e os funcionários públicos trabalharem e não receberem seus vencimentos, que são considerados ALIMENTOS! 
É UM DESRESPEITO À DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, insculpido na nossa Constituição Federal.
O presente texto, além de repudiar a decisão do governador Sartori, é uma DENÚNCIA sobre o que governadores incompetentes administrativamente vêm fazendo com o Magistério Estadual do Rio Grande do Sul, no decorrer do tempo. E descumprindo, reiteradamente, o que é de sua competência como Poder Executivo Estadual, ou seja, manter os percentuais legais para a educação, incluindo neste percentual o pagamento dos vencimentos dos professores- nem se fala em cumprir Lei Federal sobre o Piso do Magistério- e a manutenção das escolas.
O orçamento do Estado está comprometido?  Quando a pessoa adere a funções políticas, sabe que vai ter que dar seus pulinhos para resolver os problemas do Estado.  Já dizia   um ditado popular muito antigo: quem não tem competência, não se estabeleça.



sábado, 16 de maio de 2015

Sexagenária


   











 Quando eu era criança considerava que as pessoas que tivessem em torno de 50/60 anos eram velhas.  Quando eu nasci, minha avó materna tinha 51 anos, e foi a avó com quem mais convivemos; ela nunca pintou  o cabelo, então de grisalhos a brancos não demorou muito tempo. Ainda vivia minha bisavó, com 78 anos, a quem chamávamos "vó velhinha", para distinguir da que era mais nova, sua filha. Vó velhinha já era bem judiada, como se diz, cabelinho branquinho, sempre de coque, roupas compridas, um cachecol ao redor do pescoço.
     À medida que o tempo foi passando, e com a evolução ocorrida na vida, nos costumes, na medicina, na educação, na moda, minha mentalidade foi acompanhando. Também meus estudos fizeram minha cabeça.
     Hoje, logo após ter completado sessenta anos, não me considero velha.  Não que os achaques da idade não tenham começado a chegar: dor aqui, dor ali, um desgaste aqui, outro acolá, a geada queimando meus cabelos outrora pretos, alguma dificuldade para andar, dançar, fazer exercícios...
     Todavia, a cabeça julgo boa, aliás, ótima.  Continuo amando a leitura, o estudo - até penso em fazer um doutorado -, as viagens, gosto de caminhar e fazer exercícios, embora de forma um pouco limitada.
     E achei o meu estilo.  Não saberia me definir - alguém sabe?  Sem rótulos, como já pedi em outra postagem. Em síntese, a moda não me pega mais.  Na juventude, a ditadura da moda me pegou direitinho - eu queria acompanhar meu tempo, seguir as tendências e, segundo uma famosa revista, ser "antenada".  Embora sempre com olho crítico, fiel ao espelho,  não usando o que considerasse ridículo em mim, durante muito tempo fui escrava das revistas/jornais/conselhos sobre moda. Mesmo com condições financeiras precárias, tinha uma costureira perto de minha casa que copiava os modelos das famosas para mim; os tecidos eram baratos, a mão de obra também, então me sentia feliz.  Creio que consegui libertar-me, e hoje só uso o que gosto, que seja confortável, e com o que me sinta bem. Sapatos muito altos, jamais; de bico fino, só mandados fazer de acordo com meus pés.
     Minhas avós, tanto materna quanto paterna, não tiveram condições de estudar; nem minha mãe. Nem meus avós, nem meu pai.  Já para mim, o estudo é algo orgânico, inerente a minha pessoa.  Tanto meus pais repetiram a nós, seus quatro filhos, que sem estudo não seria ninguém, que esta afirmação calou fundo em minha mente.  Amo estudar, dou o maior valor às pessoas que estudam, e fiz tudo que pude para meus filhos mais velhos chegarem, pelo menos, ao curso de pós-graduação que eu e meu marido alcançamos.  Eu tenho três graduações e um pós.  E pretendo encaminhar a mais nova até o doutorado, se ela quiser.
     Ser avó.  Este era, também, um dos meus sonhos.  Meus filhos mais velhos já me permitiram realizar este sonho.  São três meninos e uma menina, um mais lindo que o outro, todos muito inteligentes, queridos, carinhosos, educados.  Fazem a minha alegria e de meu marido. Embora não morem na mesma cidade que eu, quando nos encontramos sempre é motivo de festa, e ocasião especial para um "churrasquito", como diz um deles.
     E para registrar  o fato de chegar à idade em que as leis brasileiras nos consideram pessoa idosa, fiz uma festa, com tudo a que achava que tinha direito.  Chamei a família, as pessoas amigas mais chegadas, e fizemos um jantar, com direito a cardápio especial (sou celíaca e havia muitos diabéticos na festa), música com dj e dança, com músicas escolhidas a dedo por mim.  Afinal, a festa era minha;  quando vou na festa dos outros, tenho que aguentar até as músicas que não gosto.
     E continuo amando as flores, principalmente as rosas vermelhas, como também continuo gostando da cor vermelha; não é por que o tempo passou que deixei de gostar de algumas coisas das quais gosto desde criança.  A minha menina continua viva dentro de mim.
     Afinal, como disse meu irmão, agora somos 'sexigenários', os sexagenários sexis (e sempre que vejo esta palavra, me lembro da princesa Isabel, que sancionou a lei dos sexagenários escravos.  Creio que me libertou também). Nem que seja só na cabeça...


                                         




     
     


     

domingo, 26 de agosto de 2012

Educação - uma resposta à "O rombo da educação é o cabide de empregos de 46 bilhões de reais"

greve na educação

 

   Agora estou aposentada, nem faço mais parte das estatísticas.  Mas, uma vez professora, sempre professora.
        Este ano, como em anos anteriores, tivemos problemas com greves em escolas, de todos os níveis, em escala municipal, federal e estadual.  Os problemas da educação no Brasil são eternos e insolúveis, pelo que constato há 35 anos.
         Encontrei em meus arquivos um texto que eu tinha escrito sobre um comentário de um senhor, há mais de um ano, que escreveu em uma revista semanal brasileira, e fez meu sangue ferver  e tentar responder; mas eu estava me sentindo tão agredida na minha profissão, que acabei perdendo uma parte do texto.  Fiz, inclusive, algumas pesquisas, fugindo ao meu estilo de escrita.  Se este texto terá alguma repercussão, não sei; é quase o mesmo que comentar um assunto do jornal velho, que anda voando pelas ruas; entretanto, o assunto é sempre atual, visto que as autoridades competetentes só se lembram dos professores, dos alunos e das escolas, em ano de eleição, como este ano.  Ao texto, então:

     Semana passada, na Revista Veja, páginas 116 e 117, Gustavo Iochpe, economista que se diz conhecedor profundo da educação brasileira, desceu a lenha nos professores brasileiros; não só nos professores, mas também nos funcionários de escolas e, por tabela, nas direções, coordenações pedagógicas, coordenações de turnos, de professores e tudo o mais. Disse que são mais de 5 milhões de funcionários na área de educação no Brasil, pouco mais de 4 milhões na rede pública.  Que gasta-se demais na educação; que o salário mensal do professor na rede pública é de R$ 2.262,00. Ainda mandou ter "cuidado com os discursos do pessoal que fala do "salário de fome"".
     Não disponho de todos os dados que sua excelência dispõe, mas alguma coisa consegui pesquisando na internet:
- média nacional da remuneração dos professores R$ 1.777,86  -salário em início de carreira; ensino básico; rede pública\set.2009.  R$ 23,112,18\anual cada professor, já com 13º  salário. (fonte:http://www.apeoc.org.br/extra/pesquisa.salarial.apeoc.pdf). 
     Qualquer pessoa com conhecimento mediano, sabe que um salário destes dá condições mínimas de vida para uma família de 4 pessoas, o que sempre vejo nas estatísticas.  
     Há alguns anos, li nesta mesma revista,   reportagens de como os tigres asiáticos, Estados Unidos e outros países tornaram atrativa a profissão de professor:  remunerando bem estes profissionais, para angariar os melhores cérebros, que só viriam para este trabalho se  fosse compatível à das maiores empresas multinacionais, pois ninguém, de acordo com este pensamento, em sã consciência,  que tenha alta qualificação, conhecimento científico e ambição, vai para o magistério para ganhar salário de fome.  Por tabela, este pensamento coloca todos os professores num nível de interesse profissional, inteligência e anseio vivencial abaixo da média.
     Não sou estatístico, nem economista, detesto fazer cálculos; minha praia são as letras; então, vocês, curiosos blogtores, façam as contas se vale a pena ganhar o salário MÉDIO NACIONAL (seria até interessante acessar o link acima que faz um comparativo do salário do professor em todos os estados brasileiros), para trabalhar com:

alunos no 1º grau.......51,5 milhões (censo escolar 2010 - www.brasil.gov.br)
alunos no ensino médio: 8.357.675 alunos
alunos no 3º grau.......5,95 milhões
em 2010 os investimentos em educação foram de 5% do PIB;
Professores............1,97 milhão de professores em sala de aula (censo escolar 2009).
Dá pra encarar?
     Fala o autor do famigerado texto, que os professores têm padrinhos e são utilizados como instrumento político pelos mesmos.  Onde? Quando? Se para ter acesso, pelo menos nas escolas estaduais ou municipais, é necessário concurso público?  São acusações levianas. Fala em cabide de emprego - onde?  A impressão que tenho é que este senhor nunca esteve dentro de uma sala de aula, nunca acompanhou o cotidiano de uma escola; não sabe como se organiza um ano letivo, como se preparam as aulas, como se faz a distribuição de alunos por série\turno\idade\nível de conhecimento; não entende de reuniões pedagógicas, nem de currículo escolar, nem trabalho da secretaria, merenda escolar, biblioteca, educação física, reunião com pais e com a comunidade, manutenção do espaço físico, entre outras demandas.  Também, economistas só entendem de números...
     Compara aquele autor dados do Brasil com o de países desenvolvidos; qualquer pessoa de médio conhecimento sabe que, onde há excelência, não há desperdício;  se temos tantos funcionários por escola que não são professores, ou estão aposentados - o que também gera um gasto para os estados-, é por que as administrações estaduais, municipais ou federais não estão sabendo administrar.  Quem sabe, para reduzir os gastos com a educação, não se mate todos os professores e funcionários aposentados?  Não seria uma boa idéia?  Afinal, já não estão mais 'produzindo', e inflam as folhas de pagamentos dos órgãos públicos... Até fico com medo de dizer isto, pois temo que mandem me assassinar.
     Há alguns anos li que no Japão a única pessoa para quem o Imperador faz reverência é para o professor.  Também soube que D.Pedro II teria dito o seguinte: "Se eu não fosse Imperador, desejaria ser professor.  Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências juvenis e preparar os homens do futuro."
     Para encerrar,  só uma idéia de quanto se gasta com os nossos ilustres parlamentares, que não dão aulas, não trabalham como merendeiros ou em secretarias de escolas, mas custam ao nosso bolso bem mais do que os poucos milhões de professores\funcionários de escolas, e roubam dinheiro que deveria ser investido na educação, na saúde, na segurança, e em outros destinos:

- Temos 513 deputados (wikipédia)- custo médio anual: por parlamentar - R$10.200.000,00
(fonte org transparência brasil);
cada parlamentar, R$ 11.545,00\minuto.
- Temos 81 senadores -  R$ 33 milhões\ano.
     FORA O QUE PEGAM POR FORA, EM PROPINAS, DESVIOS DE VERBAS, CORRUPÇÃO....
     Nada mais a declarar, por agora.













domingo, 16 de outubro de 2011

DIA DOS PROFESSORES - AGRADECIMENTO ESPECIAL

     


(Imagem:     http://www.google.com/imgres?q=a+pata+nada+cartilha+sodr%C3%A9&hl=pt-BR&biw=1360&bih=611&tbm=isch&tbnid=7lNCOSk7EPuUqM:&imgrefurl=http://luizacaires.blogspot.com/2009_01_01_)

     Meu primeiro contato com uma professora foi aos 7 anos, 1º ano do então primário, Professora Dulce Penno, no Ruyzinho. Ela era uma excelente alfabetizadora, pois em maio do ano em que comecei estudar eu já lia fluentemente.  Não consigo entender como, hoje em dia, as crianças são aprovadas sem saber ler, nem como elas não aprendem.  O livro que utilizávamos, recordo ainda, dele repetíamos "A pata nada", e as demais lições, ficando triste quando terminou a "Cartilha Sodré", se não me engano este era o nome do nosso livro de alfabetização, o qual creio que deve ter caído em desuso há muito tempo.
     Professora Dulce era uma pessoa animada; baixinha, rechonchudinha, nem por isso deixava de pular e dançar conosco no inverno, para aquecermos as mãos e o corpo, antes da aula.  Tratava a todos com muito carinho, era eficiente em sua função, e fiquei muito triste, nem queria ir mais à aula, quando, no segundo ano, me disseram que era outra professora...depois, acostumei com as trocas. 
     Durante os muitos anos em que mantive contato com a escola formal, tive muitos professores. Dos mais competentes e inteligentes, dedicados, esforçados, interessados na função de ensinar, aos mais relapsos, descuidados e ignorantes.  Mas os primeiros sempre predominaram, o que os deixa em destaque e sobrepõe aos incompetentes, pois sempre os há, em qualquer profissão.
     Recordo da Escola da Penha, as Professoras Santa Nehring, de quem fui colega posteriormente, quando eu lecionava e ela era a Delegada de Educação; e Marília Brum Meirelles, entre outras.
     Do tempo do Ginásio, no CEAP, tenho as lembranças mais vivas, pois que na adolescência, período que marca sobremaneira nossas vidas.  Professor Ingo Voese, que nos deu aula de Português durante os 4 anos , e tinha uma facilidade de nos ensinar gramática e literatura, e nos incentivava muito a escrever; foi neste período que comecei a escrever contos e poemas, os quais nunca tive coragem de lhe mostrar, pois tinha vergonha.
     Professor Ary Bartholdi, de matemática, que dava estas aulas com muito bom humor, o que deixava a matéria leve; nunca achei matemática difícil por causa dele, tinha muita facilidade de nos transmitir os conceitos.
     Professor Armindo Porcher, que lecionava História, Geografia, OSPB e Moral e Cívica - afinal, era época da ditadura, e estas duas últimas eram obrigatórias.  Como ele tinha um tique nervoso, e chacoalhava às vezes a cabeça, todo mundo achava engraçado.  Eu não ia bem nestas matérias, pois sempre tive dificuldades para me achar no mundo - geografia - e no tempo - história -; porém alguma coisa do que ele falou ficou impregnado na minha cabeça, sobre História Antiga, pois quando estive no velho mundo, recordei de suas aulas ao visitar Roma, Londres, Paris e outros locais históricos.  Ele conseguiu ser mais competente do que minhas possibilidades pessoais.
     Professor Elard Dahlke, que lecionou Ciências no Ginásio, e Contabilidade Empresarial, no Curso Técnico.  Era muito competente,  divertido, brincalhão, e escreveu um livro sobre as Cabanas da Fonte Ijuí.
     Das aulas de Alemão e Desenho (único exame que peguei na segunda série...nunca consegui segurar uma régua, ela sempre se mexia...), lembro do professor ... Era pequenininho, magrinho, e tinha um sotaque alemão muito forte.  Veja só, ia bem em alemão e mal em desenho... também, retas, segmentos de retas, mediatriz, e tudo o mais...mas consegui escapar da segunda época.
     Do inglês, a professora Dady, que morou uns anos nos EUA, e nos trazia as letras das músicas dos Beatles para cantarmos nas aulas, que eram maravilhosas; o pouco de inglês que aprendi, foi em suas alegres e divertidas aulas.
     Mas o que eu amava muito, eram as aulas de Ginástica rítmica, com a professora Terezinha; eu adorava, me sentia a própria bailarina; mais o vôlei, basquete e outros esportes.
     Do tempo do Curso Técnico, lembro do professor Olívio Hermes; li vários livros, em suas aulas; enquanto ele falava, falava, lá na frente, eu estava sempre com um romance embaixo da classe...um dia ele veio me perguntar o que tanto eu lia...foi difícil explicar por que não prestava atenção...
     No Curso de Letras se destacaram o Doutor Deonísio da Silva, que além de excelente professor de Literatura, é escritor de renome.  Frei Matias, grande filósofo e autor de muitos livros de filosofia e educação; Maria Beatriz Behr, magnífica mestra de Literatura Gaúcha, que nos emprestava seus livros para que pudéssemos ler o que era necessário, pois, como já falei em outro post, havia uma grande dificuldade de encontrá-los na biblioteca ou em livrarias.  Ela dava aula com paixão, tinha um profundo conhecimento da matéria e nos passava muito entusiasmo.
     E assim, muitos outros mestres me incentivaram, foram meus modelos, repassaram seus conhecimentos e mantiveram acesa a chama da minha curiosidade, que é infinita, e me mantém aberta à leitura e aos estudos até hoje.  Aqueles que não mencionei, nem por issto deixaram de ser importantes.
     Essenciais na minha aquisição de conhecimentos no Curso de Direito, a Professora Doutora Marlene Kempfer Bassoli, de Direito Constitucional, que dava aulas magníficas sobre a disciplina, o que nos fez ter um conhecimento profundo sobre o Estado Democrático de Direito, a Constituição Brasileira e os direitos fundamentais do cidadão, entre outros conhecimentos.  Conhecedora profunda da matéria, passou-nos entusiasmo sobre o Direito Constitucional, tanto que meu trabalho de Conclusão de Curso foi baseado em seus ensinos, sobre o "Direito à Educação", já sob orientação da não menos competente Professora Mirelle N. Buzzalaf, que, além da orientação de monografia, também passou-nos, eficientemente, conhecimentos de Direito Processual Civil e Direito Ambiental. 
     Em destaque, igualmente, a Professora Henrienne Brandão, de Direito Penal e Processual Penal; embora sempre estivéssemos em pólos opostos no posicionamento sobre os crimes e a legislação que favorece os criminosos, suas aulas eram, além de interessantes e bem fundamentadas, divertidíssimas; nunca vi uma professora com tão alto astral e bom humor, o que sempre me fez ir bem nestas disciplinas, que não gostava, mas que consegui bem assimilar. E tinha uma memória invejável; nunca veio para a sala de aula com livros ou anotações; tinha o Código Penal, o Código de Processo Penal, doutrina e jurisprudência tudo na cabeça.  É de causar inveja a uma desmemoriada como eu....inveja boa!
     Merecem menção Júnio Mangonaro, Jackson Ariukudo, Luiz Vieira, Tânia Pitsilos e tantos outros que de maneira competentíssima cumpriram seu papel na minha vida de estudante, deixando uma marca indelével.
     Aos que não consegui lembrar o nome, meu pedido de perdão e meu agradecimento penhorado.  Sem vocês, com certeza, minha vida teria sido outra, não teria o conhecimento que tenho, e não teria passado por experiências maravilhosas. Muito obrigada, mestres, de coração.