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sábado, 18 de janeiro de 2025

NUVENS DE CHUVA

 


 

Imagem de Porto Alegre - maio 2024

 


 

Pergunta-me aquela mídia social:

No que você está pensando?

Respondo:

Estou pensando em você!

Nos dias de emoções intensas...

Pânico, medo, chuva, enchente...

Trauma para a vida!

Caminhar dentro da enchente

Com água pela cintura.

Você segurava a minha mão para eu não cair.

E dizia: na alegria, na tristeza, na riqueza, na pobreza...

Por quê?

E eu em pânico...

Com a sensação de aprisionamento!

Falta de luz, de água, de alimentos, roupas.

Lembro do apoio recebido,

Do carinho demonstrado

Pelas pessoas que me

cercavam naquele momento:

Funcionários do hotel,

O pessoal do hospital,

Parentes de longe,

Parentes de perto

Amigos, colegas.

Enquanto o Rio Guaíba subia,

Subia a sensação de sentimentos múltiplos,

Confusos, misturados.

Ao mesmo tempo que foi um caos aquele dilúvio,

Outro caos se instalava em minha vida,

Em meu coração ,

Em meus sentimentos.

Algumas dúvidas apareceram ,

E ali ficaram.

Algumas certezas quiseram ficar, mas...

Descobri serem apenas nuvens de chuva!

Trovoadas, relâmpagos, temporal!

Vento que desarruma,

Desloca,

Derruba,

Destrói!

A confusão veio junto com a enchente ...

Dificuldade para retornar ao lar

Em que você se sentiu tão bem!

Você segurou a minha mão ...

Sua iniciativa, demonstrando respeito, carinho, amor!

Um trajeto que poderia ser resolvido com os manezinhos...

Você preferiu ir até lá.

Poderia ter resolvido em alguns dias...

Mas foram os necessários!

 

Dias inesquecíveis!

Tanto por...quanto...

 

 

Balneário Piçarras/SC

16/01/25.


terça-feira, 26 de março de 2024

CÂNCER

 

                    






 

Viver está sendo muito difícil neste momento.

O ano de 2020 trouxe à humanidade a pandemia do coronavírus, a covid-19.

Trouxe a mim o pânico, o medo, a angústia, o medo de morrer, a ansiedade. Isso em fevereiro/março.

Dia 22 de maio trouxe o diagnóstico do câncer de pâncreas do meu amor, do Gilberto.  O meu homem, o homem da minha vida. O pai dos meus filhos, o avô de meus netos. O “genro preferido” como dizia a mãe (ele é o único genro.)

Trouxe tristeza, muito medo, insegurança.

Angústia de vê-lo definhando dia a pós dia.

Enfraquecendo, perdendo as forças, não conseguindo mais ficar de pé.

Não conseguindo mais se alimentar.

A quimioterapia. O desespero nos olhos dele. O olhar de pedido de socorro.

O emagrecimento, ferida no pé, ferida nas costas. Dificuldade para engolir. Feridas na boca.

Os medicamentos para o Parkinson.

O tratamento para o diabetes, que estava com taxas enlouquecidas, ora perto de 600, ora perto de 60.

O câncer com Ca-19 em 17.000.

Anemia. Injeção de ferro.  Transfusão de sangue, duas.

Mal-estar, internações, febres, exames de sangue, exames de sangue, exames de sangue, antibióticos, internações, internações. Todo tipo de exame: dos pulmões, do tórax, do abdômen, biópsias.  Introdução de cateter no tórax.  Introdução de aparelho na vesícula, para o líquido descer...

Medo, medo, medo! Que eu via nos olhos dele e, com certeza, ele via nos meus.

Consultas com oncologista cirurgião; com oncologista clínico; clínicos gerais; oncologista radiologista para radioterapia. Enfermeiros, enfermeiras, técnicos, injeções, soros,...

Pés inchados, pés levantados para circular melhor o sangue.

Desmaios. Pressão alta. Pressão baixa...

Falta de ar.

Cansaço, exaustão, pânico, e a morte rondando.

Ela chegou em 22 de novembro. Exatos 6 meses.

 

 

 

Lorení.

26/3/2021

terça-feira, 2 de novembro de 2021

E ELAS FICARAM PRESAS NO CEMITÉRIO...





 

...o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta. (...)

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio.  Olhou em redor. A peça estava deserta.  Voltou a olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada.  Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso. (...) Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro.  Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás. (...)

- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem  uma frincha na porta.  Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho.  Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo. (...)

E, de repente, o grito medonho, inumano:

-NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado.  Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra.  Assim que atingiu o portão do cemitério, lançou ao poente um olhar mortiço.  Ficou atento.  Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado.  Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira.  Crianças ao longe brincavam de roda.”

TELLES, Lygia Fagundes. Mistérios.- RJ: Nova Fronteira, 1981. Conto: Venha ver o pôr-do-sol, p.201

 

             As primas havia muito não se encontravam por causa da pandemia.

         Com uma diferença de idade de sete anos, cresceram longe uma da outra.  Moravam em cidades diferentes.

     Agora, na fase quase e pós-sessenta, reencontraram-se.

     Algumas afinidades surgiram.

    Uma foi visitar a outra, foram jantar num restaurante conhecido e, após, tomaram uma garrafa de vinho branco; ficaram conversando até tarde, fazendo o que chamaram de terapia familiar, trocando impressões a respeito de alguns eventos em suas vidas.

    De acontecimentos políticos a posições ideológicas, criação dos filhos, traumas da infância – quem não os tem? – estudos, profissão, viagens e aposentadoria... tudo era assunto.  Muita risada e um pouco de vinho deixaram-nas leves.

   No outro dia resolveram ir levar flores e pronunciar preces à tia recém-falecida, mãe da mais velha.

    Chegaram ao cemitério municipal pelas dezessete horas.

   O dia estivera cinzento, emburrado, e não decidia se chovia ou não.  As nuvens meditavam.

  O cemitério estava lotado, já não havia mais lugar para nenhum falecido, e as autoridades municipais já haviam inaugurado outro cemitério.

   Rapidamente localizaram o túmulo em que se encontravam os queridos familiares.

   Colocaram as flores, fizeram suas orações e dirigiram-se para a sepultura de outra tia e de uns primos, que eram perto.

   Já iam encaminhando-se para a saída, quando lembraram que poderiam encontrar o túmulo dos avós.  Fica lá no centro da necrópole, perto daquele coqueiro.

    Começara uma garoa bem fininha, e o céu escurecera mais um pouco.

    Caminharam por entre os jazigos, em calçadas estreitíssimas e de difícil acesso.

   Chegaram ao coqueiro.  A mais velha sempre teve dificuldades de localizar a tumba dos avós, era um emaranhado de túmulos, um labirinto... Caminharam para todas as direções a partir do coqueiro. Não localizaram.

    Como a chuva estava ficando mais intensa e escurecendo, resolveram falar com o funcionário que tinha tudo anotado.

     Foram em direção ao posto em que ele deveria estar.

     Com as sombrinhas abertas, avistaram, ao longe, um vulto.

     - É ele – disse a mais velha.

     Não era.

  Na semi-obscuridade momentânea, confundiram uma imagem de um anjo de sepultura com a pessoa que deveria estar por perto.  O escultor fizera um ótimo trabalho...

  Desceram mais um pouco.  O posto estava fechado. Dezessete horas e trinta minutos, conferiram no relógio.

    Com dificuldade, desceram até o portão por onde haviam entrado.

  Corações acelerados, ansiosas, verificaram que o portão norte estava fechado, chaveado. Com corrente e cadeado!

    Havia quatro portões.

    O que ficava em frente a este, lá longe, ao sul, também estava fechado.

    A mais nova estava em estado de pânico.

     - E agora, que fazemos? Estamos presas no cemitério! Vou perder meu ônibus...

    Ambas cardíacas, com hipertensão e assustadas...

    Aterrorizadas, foram ver os outros dois portões.  Fechados.

   A mais velha lembrou de um conto de Lygia Fagundes Telles, em que uma moça foi presa no cemitério pelo ex-namorado... mas era outra história.

   O desespero foi chegando... junto com ele, o medo!

   A mais nova puxou um medicamento e ofereceu à outra, que recusou.

    - Calma, vamos sair dessa.

    Ligaram para um primo comum que conhecia muita gente, quem sabe conhecia o secretário municipal responsável pelo cemitério?

   Este ligou para o irmão jornalista, que conhecia todo mundo ainda mais, para tentar ajudar as primas.  Não sem antes rir muito da situação inusitada e sugerir a elas que pulassem o muro. Sim, duas senhoras idosas, não exatamente magrinhas, probleminhas nos joelhos, pulando o muro do cemitério...

    Enquanto aguardavam o contato dos primos, ouviram um barulho, sentiram um ventinho gelado e ouviram um risinho zombeteiro:

      - Então, que arte andaram aprontando? Estão de castigo aqui conosco?

     Com as faces pálidas de susto e os olhos esbugalhados, viram o ectoplasma do irmão mais novo da mais velha, que olhava para elas, divertido, brincando, como sempre fazia enquanto vivera.

      - Vieram nos visitar mas não queriam nos ver?

     Ambas tremiam, assombradas, com algo tão inesperado e que nunca imaginaram acontecer com elas.  Permaneceram estáticas, mudas, coração saltando pela boca, com medo.

     O espectro, ainda brincando, chamou os pais, o cunhado (marido da mais velha), as tias, os primos, os avós...

      Todos foram chegando devagarinho; elas permaneciam imóveis e lívidas...

      O marido da mais velha brincou com ela:

    - Saudades de mim? Veio me ver? Mas vieram muito tarde, é perigoso algum malandro estar por aí e querer fazer alguma maldade com vocês.

       Os pais, as tias e os primos riam, divertidos:

       - Vamos fazer uma festa com a presença delas aqui.  É que elas não sabem das festas que fazemos depois que fecham os portões da nossa casa...

   Os avós ficaram felizes com a visita, e queriam abraçá-las... foram se aproximando...

         Tocou o celular e a mais nova atendeu:

        - Oi, primo. Quando? Em vinte minutos? Então está bem. Aguardamos no portão norte. Muito, mas muito obrigada!

        Com o toque do telefone e a volta à realidade, dissiparam-se as visões.

        O lusco-fusco tomara conta do ambiente, e as primeiras luzes começaram a ser acendidas.

      No tempo marcado, o funcionário veio, abriu o portão e desculpou-se.  Saíra quarenta minutos mais cedo pois não vira ninguém no local e estava começando a chover.

     Aliviadas, saíram apressadamente. Ao cruzarem o portão norte, deram  uma olhadinha para trás a tempo de ver seus queridos abanando e mandando beijinhos...

       - Voltem sempre, outra vez com mais tempo!

 

Lorení Dalla Corte.

Setembro/2021.  

                                      

(Crédito imagem: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/mulher/dicas-evitam-assalto-a-casa-durante-viagens-curtas-e-longas,3329c709df794410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html )                                                                          

quarta-feira, 25 de março de 2020

TEMPOS SOMBRIOS OU OPORTUNIDADE?

Imagem de gripe espanhola, 1918. Crédito abaixo do texto.







"Em fins de 1918 começou grassar a epidemia terrível "influenza espanhola"; dava medo na gente, morria dois ou três  numa casa.  Em casa, só eu e o papai fomos atingidos; estivemos mal, mas graças a Deus vencemos.  E no fim de 1918 terminou a guerra que tanto afligia as nações."  (Maria Augusta dos Santos Carvalho.  Memórias da Vó Deza. Ijuí:Unijuí, 1987, p. 32.

Em tempos de comunicação no ciberespaço, estamos todos conectados e medrosos, alguns em pânico, outros debochando, dizendo que é manipulação da informação, sobre o Covid-19.

Há quem diga, e são os responsáveis pelos Ministérios da Saúde ao redor do mundo, assim como a OMS,  seguido por médicos locais em todos os países, que esse vírus é perigoso, mata mesmo, que é necessário recolher-mo-nos às nossas residências, deixando as ruas livres para o vírus circular e não encontrar ninguém onde inocular-se.

Há os incrédulos, falam em teorias da conspiração, que não vão deixar de trabalhar, que não vão ficar em casa, que a pandemia é um instrumento de poder e manipulação sobre os povos.

Há tempos adotei a seguinte posição: espero o tempo passar, as notícias consolidarem-se para posicionar-me.

Entretanto, quando os noticiários de todos os canais televisivos, das rádios, dos meios de comunicação através da internet, os médicos próximos da gente, o Prefeito da nossa cidade, o nosso Governador tomam medidas enérgicas de prevenção e cuidado, eu prefiro cuidar-me a arriscar a pele que meus pais me deram.  Vou verificar a veracidade dos fatos recolhida em minha casa, onde também estão minha filha e meu marido.

Meu marido e eu fazemos parte do que se convencionou chamar grupo de risco para coronavírus: ambos somos diabéticos, ele ainda carrega o Mal de Parkinson.  Pelas informações dos meios comunicativos, eu sou ainda mais frágil: hipertensão, doença celíaca (que é uma doença autoimune), intolerância à lactose e hipercolesterolemia.  

No dia 16 de março, segunda-feira passada, antes que o governo municipal, estadual e federal ditassem a regra do recolhimento - FIQUE EM CASA! - aqui no Brasil, eu já tinha me auto-recolhido, junto com meu esposo.  Estava assustada.
No dia seguinte, minha filha, que tem alergias respiratórias, espirrou.  Decretei que não iria mais à escola.  Dois dias depois a escola mandou todo mundo ficar em casa.

Comecei a raciocinar, ao mesmo tempo que desenvolvia uma estratégia para manter-me em casa em segurança, em paz, sem crises, sem pânico: um dia faço limpezas, cozinho todos os dias, noutro dia leio, noutro dia escrevo, vejo minha mãe duas vezes por semana (85 anos, grupo de risco máximo).  Tirei meu esposo de frente da TV, senão passaria o dia inteiro, cada vez mais apavorado, e tirando a temperatura mesmo sem qualquer indício de gripe.  Também eu estou tentando (às vezes sem sucesso, reconheço) acessar menos as mídias digitais, o whatsapp, o facebook, os e-mails.
Também acredito que a nossa geração, e a de nossos filhos e netos, que costumamos não ter tempo para nada, além de nossos inúmeros compromissos, podemos aproveitar este tempo de recolhimento compulsório, para fazer aquilo que estamos protelando há tempos, e está sempre no fim da lista de afazeres diários, mensais, anuais: temos, agora, a oportunidade de limpar um armário cheio de coisas inúteis que não temos coragem de pôr fora;  derrubar aquela pilha de livros que nunca temos tempo de ler; ver aqueles filmes maravilhosos para os quais nunca sobra tempo; aprender a pintar, escrever, cantar, fazer exercícios, cuidar das plantas, cozinhar aquela receita difícil e demorada, e tantas coisas mais que cada um de nós sabe o que é. Quem sabe estivéssemos esperando por essa oportunidade e nem sabíamos?  Quando a gente se der por conta, o período de quarentena passou e nem sobrou tempo para fazer tudo que queríamos.

Lembrei-me de minha avó, da citação acima, que morreu aos 85 anos, bem depois da gripe espanhola, que a acometera e a seu pai.  Eram outros tempos, quando não havia geladeira, tv, fogão a gás, SUS, um médico em cada esquina, grandes órgãos governamentais cuidando da saúde, entre outros.

Ela vivia na colônia, a forma de vida era precária, os recursos inexistentes, e só a fé em Deus, os cuidados familiares e a higiene faziam com que as pessoas sobrevivessem. Penso, também, que alguns genes mais fortes e generosos, tenham cuidado dela.  E ela sobreviveu, assim como sua família.  Tanto sobreviveu que aqui estamos nós, seus descendentes, enfrentando outra epidemia terrível.  

A minha esperança é que sobrevivamos, com fé, recolhimento, cuidados e prevenção.  E acreditando na medicina, que evoluiu muito nos últimos tempos.

Também julgo necessário mencionar que para que nós, do grupo de risco, possamos ficar em casa, em segurança, muitas pessoas que escolheram profissões consideradas essenciais à sobrevivência humana estão expostas ao vírus, exercendo suas funções com honra, galhardia, respeito à sua profissão e aos seres humanos, verdadeiros anjos escolhidos por Deus: cuidadoras de idosos, como Nair, Mari, Iloni, Alda e Clair, que se revezam cuidando de minha mãe acamada; farmacêuticos, médicos, laboratoristas, todos os funcionários de supermercados, gás, postos de gasolina, caminhoneiros, agricultores, enfermeiros, pessoas da limpeza tanto em residências como em empresas, e todas as demais pessoas que estão correndo riscos para que sobrevivamos: A TODOS, MUITO OBRIGADA!

Imagem:https://www.grupoescolar.com/a/b/gripe-espanhola-foi-provocada-por-um-virus-das-aves-2E.jpg


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Viagens IV - 1ª parte

Quando completamos 20 anos de casados, meu marido e eu decidimos comemorar de forma diferente.  
Como nunca tínhamos ido para o exterior, optamos por conhecer um pedaço da Europa: procuramos uma empresa de pacotes de viagens, preparamos a documentação (achei que fiquei bonita no antigo passaporte), com cara de gente "bem", que naquele tempo, 1998, eram pessoas da classe alta que faziam estas viagens e não nós, reles trabalhadores do meu Brasil, como dizia o Getúlio Vargas.  Desnecessário dizer que o pagamento do pacote de viagem foi feito no modo brasileiro, em 'suaves prestações mensais', que trabalhadores não são de ferro e não têm as burras cheias.
Entusiasmados, fizemos o roteiro: entraríamos por Roma, iríamos para Florença, Veneza, na Itália,  Lucerna, na Suíça, Paris e Londres, de onde retornaríamos.
Viajante de primeira viagem, informei-me sobre a forma de comportamento no exterior, para não cometer gafes; detesto que digam que brasileiros são mal-educados.  De tudo que li, vi que a forma como sempre me comportei estava adequada ao velho mundo, uma vez que meus pais souberam bem me educar em casa, e a escola que freqüentei na adolescência tinha origem na Alemanha (rede sinodal de ensino, da Igreja Luterana), o que nos ensinou sobre disciplina, organização, hierarquia, respeito, visão de mundo, geografia e história,  e tantas outras coisas.
Também informei-me como me vestir - esquecendo-me, ó ingenuidade- que a moda ditada pelo exterior vem parar aqui no Brasil, um pouco tarde, é verdade, mas sempre.  Então, estava adequada.
Iríamos em maio, que não é tão frio - por mais que ache lindas as paisagens de neve, já passei por ela aqui no sul do Brasil, e detesto frio.  Então, fomos na entrada do verão europeu.
Partimos de São Paulo numa tarde chuvosa, passamos por um túnel que ligou o aeroporto ao avião, e, por muito tempo, só tive a certeza de que viajei mesmo por ter chegado lá, pois não senti e não vi a saída do avião.
Se alguém recordar meu outro post, em que comento a primeira viagem de avião, deve lembrar do meu pânico, agora estendido por 12 horas.  Nem recordar que ficaria 12 horas sobre o Oceano Atlântico; nem pensar na eventualidade do avião cair e sermos devorados por peixes enormes, fora o pânico de morrer afogada.  Adotei vários subterfúgios para expelir para longe de minha mente tais pensamentos: levei 2 livros com mais de 500 páginas; assisti o filme disponibilizado pela antiga Varig, que ainda atuava; escutei música nos fones de ouvido, olhei as revistas de bordo, além de, é claro, ter tomado um calmantezinho antes de partir, o que me permitiu cochilar alguns minutos. Além , é óbvio, de me alimentar com as delícias que ainda serviam naquele tempo.  Como não tenho viajado de avião, mas leio sobre, parece-me que reduziram a alimentação a lanchinhos prosaicos.  Novos tempos.
Sempre tive dificuldades, nas aulas de geografia ginasial, de entender o fuso horário, os meridianos, etc; então, saímos às 16 horas de São Paulo, e chegamos às 7 da manhã em Roma, horário local.
Para começar, as pessoas que deveriam estar nos esperando, com aquelas plaquinhas com nossos nomes, lá não se encontravam.  Segurei meu pânico, só olhei para meu marido: cadê o povo?  Pagamos um pacote e nos abandonam num aeroporto internacional, sem saber falar italiano - meu marido fala um italiano castiço, um dialeto do norte da Itália trazido pela família do nonno no século XIX. E agora?



Fontana di Trevi,  Roma, que visitamos nos primeiros dias. Foto da autora, proibida reprodução.