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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

O ANO DA REVOLUÇÃO


 
 
 
 
 
 
 
 
Meu livro de contos.  Está no prelo!
 
 

Este foi o ano da minha revolução!

Minha vida virou de cabeça para baixo!

Todos os anos há uma tendência de as pessoas fazerem um balanço, uma reflexão sobre os acontecimentos em sua vida. 

Embora eu considere que, na realidade, não acontece nada de diferente na "virada de ano" inventada por nós, seres humanos, (é apenas mais um dia depois do outro), também não fujo à tendência do olhar sobre o caminho percorrido.

Concluí que foi um ano de vitórias, alegrias e sucessos.

Mas, também, foi um ano de tristezas, recaídas psicológicas, preocupações, como sempre, como em tudo, e na vida de todos.

No início do ano o meu ninho ficou definitivamente vazio, como mencionei em outro post.  Minha filha caçula alçou seu voo rumo a uma nova vida com seu amor.  Desta voejada resultou meu netinho mais novo, hoje com dois meses.  Lindo e saudável!

É de todos sabido, evidenciado, cantado e manifestado que os filhos não são nossos, nós os temos "para o mundo"!

Logo em seguida realizei um dos meus maiores sonhos da vida: fiz um cruzeiro em um navio.  Passeio maravilhoso, indescritíveis as sensações que me percorreram, uma realização da menina, que sonhava "conhecer o mundo"!

Na escadaria do navio MSC Seaview, noite do branco.
 

  No retorno deste passeio, fiquei alguns dias conhecendo o Rio de Janeiro, cidade que sempre admirei e não tinha tido a oportunidade de visitar.  Realmente, o título de "Cidade Maravilhosa" é perfeitamente merecido, pois a paisagem é encantadora, o povo é educado e gentil, tratando os turistas com respeito, educação e disponibilidade. 

 

 

Rio de Janeiro

 Na volta para casa passei por Santa Catarina pois tinha a intenção, desde sempre, de mudar de local de residência para mais perto do mar.  Iniciei as transações para que mais este sonho se tornasse realidade.  Em agosto fiz a maior loucura, ou aventura da minha vida: providenciei minha mudança, tendo tudo, pela primeira vez na vida, sido negociado e resolvido por mim, segundo a minha vontade, sem interferência de ninguém, a não ser as pessoas envolvidas e meus familiares, é claro! Considero uma GRANDE VITÓRIA!

Durante o ano participei de diversas atividades literárias, enviando crônicas, contos e poesias para as Academias das quais sou integrante.

Em maio vibrei com a festa de aniversário de meu netinho que completou um aninho.  Ele é muito lindo, meigo, carinhoso, como também o são todos os meus netos.

 

Em maio também ocorreu o lançamento das Coletâneas "Poesia no Lago" e "Dimensões" , através da Academia ALPAS-21, de Cruz Alta/RS, da qual faço parte, juntamente com os colegas Acadêmicos.  Na mesma ocasião foi-me concedida a honraria da Comenda PERSONALIDADE LITERÁRIA 2023, também pela ALPAS 21, bem como passei para a categoria Acadêmica Imortal.  Foi um momento de muita felicidade e o resultado pelo meu esforço intelectual.

 

 

 


 

Em fins de maio a Academia Círculo de Escritores de Ijuí Letra fora da gaveta, da minha cidade natal, do qual participo, dividiu atividades com a Associação  dos Artistas Visuais de Ijuí, no Museu Antropológico Diretor Pestana.  Poesias, contos e crônicas foram transformados em artes visuais pelos artistas da AAVI, numa livre interpretação de nossas obras literárias, as quais foram escolhidas sem saber quem era o autor. Tive três poemas escolhidos, e a arte deles resultou em obras fantásticas que ficaram expostas ao público. Abaixo as três obras inspiradas em poemas meus:

"Um novo eixo", meu poema interpretado por Amanda Rieger.






 

Pintura de Manfredo Spitzer, leitura de "Humana natureza".



 

Poema "Pretinho básico" na visão de Paulo Roberto Gobo.

 Em setembro saiu a publicação da Coletânea em homenagem à poetisa Cecília Meireles, Voz do meu Brasil. Nela participo com um poema, pela Editora Viverarte, do Rio de Janeiro.

Coletânea Cecília Meireles.
 

Em novembro colaborei no lançamento, em Porto Alegre/RS, na fantástica Feira do Livro de Porto Alegre, da Coletânea "Incluir" da ALPAS-21, com uma crônica a respeito da "Doença celíaca", a qual sou portadora, com mais um grande percentual da população brasileira e mundial. Também foi realizado um lindo sarau, no qual autores leram textos seus, num momento de alegria e confraternização.  Na mesma ocasião recebi o Destaque em Poesia no 39º Concurso Internacional de Poesias, Contos e Crônicas.

Ainda em novembro, na Feira do Livro de Ijuí/RS, foi lançada a Coletânea do Círculo de Escritores de Ijuí letra fora da gaveta "Páginas abertas", na qual estão publicadas uma crônica e poesias de minha autoria.

 

Coletânea Páginas Abertas
 

E, para fechar com chave de ouro minhas atividades intelectuais, está no prelo, previsto ainda para dezembro a publicação de meu livro de contos, solo, "A VIDA É ASSIM", pela Editora Almedina.  Este livro será publicado no Brasil, Portugal, Espanha e demais países de Língua Portuguesa e Espanhola.  Este é um projeto antigo meu.  São contos escritos, reescritos, pensados e repensados nos últimos quarenta anos. Logo estarão disponíveis para aquisição pelos amantes da leitura e literatura.  

Neste balanço, as coisas tristes, os problemas e dragões (ou leões) que não consegui  matar, tonteei.  As vitórias foram maiores que as derrotas e alguns problemas demandam tempo para resolver, e a mão divina a nosso favor.

Minha avó Maria, uma sábia, já dizia: "o que não tem solução, solucionado está!".

Ela também falava: "Deus proverá!"

E a Bíblia, orientação para nós, cristãos, já ensina: "Tudo tem seu tempo certo!"

Nós que, a maioria das vezes, tentamos acelerar o tempo, mas ele nos ignora solenemente!

Feliz 2024 a todos!
 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

MINA DE AMOR

 



           Para Nicolle, Vittorio e Rafaello

 

Dois pares de olhos azuis

Um par de olhos castanhos.

Mãozinhas macias, irrequietas,

Agito no corpo.

Energia

Vitalidade

Curiosidade

Inteligência

Muito carinho

Muito amor

Muitos afagos!

Ternura sem fim!

Meus netos!

 

Joinville, 28/9/22.

 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

A cidade das viúvas

 









Em uma cidade na região meridional da América Latina, perto de onde foram as   Missões Jesuíticas, no lado argentino,  descobriu uma repórter de revista feminina de grande circulação que, em um de seus distritos de nome Nhú-Porã, havia trinta e nove viúvas.

É um número elevado considerando-se a população local, de baixa densidade demográfica.

Curiosa, tentou de diversas formas entrevistar essas viúvas, para descobrir a razão da morte de seus maridos, por qual razão nunca mais se casaram, como viviam, e sobre suas famílias.  Suas tentativas eram infrutíferas.

Conversando com uma senhora que tinha em torno de setenta anos, professora aposentada e agricultora nas horas vagas, de nome Elizabeth,  descobriu que ninguém queria falar nada por questões de segurança, pois havia muitos malandros que se aproximavam das mulheres para tentar levar vantagens, tanto pessoalmente, quanto pela internet ou outras formas de comunicação. E, também, para evitar assaltos.

A repórter não se deu por vencida.

Devagarinho, conversando, demonstrando que não identificaria o lugar, não daria o nome das pessoas, que manteria o sigilo das fontes,  que elas não correriam risco nenhum, foi amolecendo a resistência da mulher, até que obteve uma pequena vitória:

- Tudo bem.  Vamos fazer o seguinte: dia 23 é meu aniversário.  És minha convidada, vou te apresentar como minha amiga.  Mas não dirás para ninguém que o teu objetivo é entrevistar a turma, vais conversando normal, como quem quer fazer amizade e conhecer as pessoas.

- Combinadíssimo!

- Mas sem gravadores, microfones, nem computador, nem anotações.  Vais te fiar na tua memória.  Senão ninguém abre a boca.

- Certo, farei como dizes.

No dia marcado, a casa de Elizabeth começou a encher-se das amigas e vizinhas em torno das 17 horas. Abraços, beijos,  presentes, apresentação da nova amiga, conversas, música animada, algumas dançando, tagarelice, alvoroço, como são as reuniões de mulheres.  Algumas trouxeram as crianças, filhos e netos, a bagunça tomou conta.

Num canto, a repórter conversava animadamente com um grupinho, contando a todas como era a vida na cidade grande, o movimento, os grandes shoppings centers, as tentativas de assaltos, o trabalho, as grandes lojas, as livrarias, a vida dinâmica que levava. E, principalmente, o stress.

Muitas viajavam uma vez por ano para um canto do Brasil ou do exterior, a passeio, e conheciam o que ela descrevia.  Outras, não.  Tudo era novidade.

Perguntaram se era casada, ela disse que sim, que tinha uma filha de 15 anos que ficava com o pai quando ela viajava a trabalho.  E que estava no local por conta de uma palestra que daria na área de comunicação da Universidade local. Ela perguntou se eram solteiras ou não, se tinham filhos.  Algumas se retraíram.  Outras, já mais leves depois de algumas taças de vinho, disseram que eram viúvas. Mas que ela não espalhasse a notícia por questão de segurança delas e das famílias.

Ela disse que não abriria o bico.  Daí perguntou se eram muitas pessoas com este estado civil, uma disse que não, outra disse que trinta e nove, outra poucas, outra muitas... E ninguém mais quis  se casar de novo?

 Disse Maria, uma loira de 30 anos, muito bonita:

- Não.  A grande maioria das viúvas daqui perdeu seus maridos para doenças severas, como o câncer.  Eram trabalhadores rurais, empregavam venenos em suas lavouras de soja e trigo. Câncer no cérebro, no pâncreas, intestino... terrível!  Algumas, como eu, ficaram sozinhas em torno dos trinta anos.  Outras mais tarde, outras mais cedo.  Quase todas tiveram que assumir o trabalho na lavoura, além de suas profissões.  E terminar de criar os filhos sozinhas.

(Repórter) - E nunca nenhuma voltou a pensar em casar de novo?

(Maria) - A Fulana, assim que ficou viúva, vendeu suas terras e foi morar na cidade, não quis saber de ficar sofrendo com o trabalho árduo da lavoura.  Mas a grande maioria ficou por aqui. Parece que ela tem um namorado.

Entre uma rodada de salgadinhos e docinhos, taças de vinho, cerveja e refrigerante, a conversa foi ficando solta:

(Repórter) -  E vocês, que estão morando aqui, não se sentem sozinhas, não acham que é muito compromisso e responsabilidade para encararem sozinhas?  Não sentem solidão, não têm falta de um aconchego, carinho, companheirismo, sexo?

(Marta, 68 anos) - A Beltrana conheceu um ciclano num evento na cidade.  Ele veio aqui algumas vezes.  Até ela descobrir que ele era casado, e que queria passar a mão nas terras e no dinheiro dela... Mandou ele passear.

(Joice, 55 anos) - Eu me sinto muito sozinha, já que meus filhos são crescidos e estão estudando fora.  Até a gente se sente muito carente, em todos os sentidos...Mas a liberdade que a gente aprende a ter, depois que conseguimos vencer o luto, não tem preço que pague.  Fazemos o que queremos, sem prestar contas a ninguém.  Temos grupos de viagens, de passeios, de estudos, coral na igreja....a gente se vira... 

Elizabeth, que circulava entre as convidadas, e verificava se não estava faltando nada, perguntou:

 - Como está a conversa aqui?

- Está ótima!

Mais uma rodada de vinho e cerveja.

(Berta, 45 anos) - A Beltrana conheceu um rapaz muito bonito pelos sites de relacionamento.  Pesquisou na internet sobre ele, depois de assistir a uma reportagem na tv, em que os delegados de polícia aconselhavam as mulheres solteiras, separadas ou viúvas, que ficassem alertas aos relacionamentos através destes sites.  Sugeriam que pesquisassem na polícia antes, para ver se não era nenhum malandro.  Ela tem uma amiga  que é Delegada na Delegacia de mulheres. Pediu para ela verificar.  Minha nossa... o cara não mentiu o nome nem estado civil, mas mentiu a profissão, que era nenhuma.  Era acostumado a dar golpes em mulheres desavisadas, começava na manha, na fala mansa ao pé do ouvido, ia conquistando, depois pedia dinheiro emprestado e assim por diante.  Ela deu um pé na bunda e mandou ver as estrelas.

(Repórter) - Nossa!  Vocês moram no interior do interior, mas estão bem alertas.  E sabem se virar sozinhas.  E o sustento de vocês, como fazem?

(Elizabeth) -  Aprendemos a administrar nossas terras.  Temos alguns funcionários para a hora da planta e da colheita, fazemos mutirões, umas ajudam as outras.  As que têm filhos, estes ajudam administrar. E algumas, mais velhas, têm aposentadorias.  Não é muito, mas ajuda.

(Repórter) - E o estudo dos filhos e netos, como fica?

(Dandara, 50 anos) - Aqui no distrito temos escolas municipais e estaduais de ensino fundamental e médio.  Quando querem ir para a faculdade, damos um jeito de mandar para a cidade; às vezes conseguimos bolsa de estudos, alguns passam em universidades públicas em outras cidades, então vão trabalhar e estudar.  Todo mundo se vira.

Pasteizinhos recém fritos fizeram outra rodada. Os famosos docinhos giravam nas bandejas.  E a encarregada da bebida não deixava faltar nem vinho, nem cerveja, nem água, cada uma conforme seu gosto.

O papo foi rolando cada vez mais solto.  Foi uma noite memorável.

A repórter ficou conversando com a mulherada, dançando, beliscando salgadinhos e docinhos até às 2 horas da manhã. 

Matou a curiosidade.  Ficou deslumbrada com a capacidade das mulheres de se virarem, cuidarem umas das outras, viverem em comunidade, e conduzirem suas vidas sozinhas. Lembrou-se do matriarcado de tempos de outrora.

Mas, o que muitas disseram: que não são contra os homens, muito antes pelo contrário.   Algumas disseram: lavar cuecas, nunca mais!  Entretanto, se conhecessem algum companheiro que valesse a pena, poderiam pensar no assunto.  Afinal, eram todas muito normais,  tinham sonhos e desejos como qualquer mulher, independente da idade. Apenas não queriam mais compromissos, responsabilidades e um patriarca a querer mandar em suas casas.

A repórter voltou para sua cidade. Fez a reportagem, como combinado, sem identificar nada nem ninguém.  Recebeu um prêmio pela reportagem e continuou tocando sua vida.






(os nomes foram trocados para preservar as pessoas).

(Imagem: https://www.facebook.com/reisman.aliancas/photos/modelo-santo-amaro-compre-aqui-httpswwwreismancombraliancas-de-casamento-ouropar/581780215280527/?paipv=0&eav=AfYYHSeM5l2OyMmnnm5ONbzs6N19yXvfSYcjoa2egVFKpqNfXRZnzm4OPCfyubcinnQ&_rdr )



sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

NATAL

 

                               

 

        As primeiras lembranças que tenho do Natal são da casa de meus avós maternos.

        Morávamos em Santo Ângelo e viemos passar o fim de ano com eles. Eu  devia ter uns quatro anos, alguns de meus tios ainda eram solteiros.  A mais nova ainda era criança, pois é seis anos mais velha que eu.  Ela tinha uma boneca que andava, virando a cabeça, e dizia: mamãe.  Era a Marta. Ela não me deixava brincar com a Marta...

        Minha madrinha deu-me de presente uma bonequinha de louça, linda, de olhos azuis e cabelos castanhos. Na caixa estava escrito “Tiquinha”, pois era pequenina, assim como eu.  Embora não caminhasse, ela chorava quando a gente mexia nela.  Mas, quem tem irmãos e não irmãs, sofre! Um dia que brigaram comigo, meus irmãos atiraram a Tiquinha dentro de uma bacia cheia d’água, e ela parou de chorar e parou de movimentar os olhos; quem chorou fui eu!  Estragaram minha boneca! Tive que levá-la ao hospital de bonecas. Eles fixaram os olhos dela para sempre! Mesmo sem chorar mais, tenho-a até hoje!

        Como fazíamos parte do povo que dependia das brizoletas para fazer o Natal, meus irmãos ganharam caminhões de madeira feitos por meu pai.

        Era tradição na minha família, e fui aprendendo com o passar do tempo, na Noite de 25 de dezembro ir ao Culto de Natal na Igreja Metodista.  Eu ficava emocionada ao ouvir os membros da igreja cantarem, bem alto, com harmonia a música Noite Feliz  e muitas outras. Todas as mulheres dos pastores tocavam órgão, então ficava uma cerimônia linda.  Sempre tinha, também, a representação de Natal, sendo que os jovens e as crianças desempenhavam o papel de José, Maria, os reis magos, pastorzinho, etc. Jesus era um boneco grande, mas uma vez puseram um bebezinho na manjedoura. E tinha a música dos duendezinhos... eu fui duende, Maria, narradora, etc...

        Quando eu tinha 8 anos, e já morávamos em Ijuí, ganhei um bebezão.  Ô felicidade! Gostei tanto dele, cuidei tanto para não estragar, que minha primeira filha chegou a brincar com ele.

        O tempo foi passando.  Fui ganhando vários presentes de Natal, desde brinquedos de todos os tipos para brincar de casinha, como era a tradição.

        Quando estávamos na escola, meus pais sempre davam para nós, além dos brinquedos, um livro para quem passasse de ano.  Lembro de alguns que ganhei: O macaco trapaceiro; O califa cegonha; livros das princesas Cinderela, Branca de Neve...; Histórias que ficaram na História, entre outros.  Minha família é de leitores.  Meus pais liam muito, minha avó materna também, e muitos descendentes são leitores e alguns gostam, também, de escrever, assim como eu.

        Quando um pouco maior, ganhei um quadro para escrever.  Que alegria!  Eu repassava toda a matéria estudada no dia para meus alunos invisíveis... não sabia que assim agindo, eu estava reforçando o aprendido, e treinando para ser professora, anos mais tarde.

        O tempo foi passando, vieram os namorados, os presentes variavam de chocolate a perfume, uma blusinha aqui, uma sandália lá...

        Depois que casei, vieram os filhos.  Os primeiros presentes foram brinquedos, livros de pano, livros de banho e assim por diante.

        Lembro de três presentes, em especial pedidos por meu filho: num Natal, o ponte-car, uma camionete que tinha um mecanismo que fazia girar uma ponte que passava por cima de si mesmo e ia adiante, quando o carro daí passava por cima. Não tinha pilha que chegasse! Outro foi o pogobol, ou pula-pula.  Uma bola presa numa base, onde ele colocava os pés e pulava.  Ficava pulando o tempo inteiro, até criou músculos nas pernas de tanto pular... e o skate, no qual ele subia e andava.  Este fez com que, numa arte, caísse e quebrasse um dente da frente.

        Minha filha mais velha amava as bonecas, lembro da barbie face, que vinha uma cabeça e material de maquiagem.  Além do feijãozinho e outras bonecas lindinhas que ela tinha uma coleção. Outro presente que lembro bem que demos a ela foi um gravador colorido com microfone acoplado.  Cantar e fazer apresentações passou a ser sua diversão, gravando em fitas k7.

        A filha mais nova, já muitos anos depois, pois é temporã, também amava os bebezões, teve bonecas de todos os tamanhos, coleção de barbies.  Mas um ano ela encasquetou que queria um relógio com pulseiras coloridas.  Passou o ano inteiro buzinando nos meus ouvidos.  Como foi bem aprovada na escola, ganhou o tal relógio.

Porém o que eu mais gostava nos últimos natais em que minha família pôde reunir-se eram os que passávamos com meus pais, enquanto estavam vivos.  Reuníamo-nos na casa deles a minha família, as dos meus irmãos, irmãos do meu pai e da minha mãe e fazíamos uma festa maravilhosa todos juntos.  Morávamos no Paraná, meu irmão mais velho em Porto Alegre, mas sempre dávamos um jeito de estarmos juntos, pelo menos uma vez por ano.  Meu pai, meu marido e meu irmão ficavam encarregados do churrasco.  A mãe, eu e as cunhadas ficávamos encarregadas dos complementos e da sobremesa deliciosa; cada uma fazia uma diferente e servíamos depois da ceia.

        A comida era a desculpa.  Tinha jogo de dama, de xadrez, alguns assistiam ao Roberto Carlos na tv, as crianças corriam e brincavam.  Minha mãe colocava na eletrola seus elepês de natal, e eu sempre me emocionava. O pinheirinho era armado na sala todos os anos. Depois que ela aprendeu a tocar piano, fazia um pequeno concerto para nós.

        Depois da sobremesa, sempre aparecia o papai Noel que entregava os brinquedos para a criançada, mas os adultos também gostavam de receber as lembrancinhas.

        O natal sempre nos traz lembranças carinhosas das pessoas queridas que se foram.

        Agora, a matriarca sou eu.  A comemoração do aniversário de Jesus é na minha casa, com meus filhos e meus netos.

        A celebração continua, o amor permanece, algumas tradições são mantidas.  A família encolheu, mas o amor não. Além dos meus pais, meu marido também partiu.  Confraternizamos lembrando dos momentos de alegria passados com nossos queridos cujas cadeiras estão vazias.   Recordamos os muitos abraços, os beijos, as brincadeiras, a maravilha que era estar juntos.  Entretanto, há os descendentes para ocupar essas cadeiras e manter aquecidos os corações com amor, fé, carinho, fraternidade, esperança, muitas brincadeiras e correrias, para não perder o jeito.  Sempre tem alguém jogando damas ou cartas, um bebê chorando, alguém assistindo tv... e as músicas natalinas que eu amo e continuam me emocionando agora tocadas não na eletrola pelos elepês, mas baixadas da internet direto para computadores ou celulares.  As coisas mudam, mas as emoções não.

 

 

Lorení

Dezembro 2022.

       

domingo, 11 de agosto de 2019

OS HOMENS DA MINHA VIDA

Em um post que publiquei há algum tempo, mencionei as mulheres da minha vida: minhas avós, minha mãe, tias, filhas, nora, neta, sogra.  São pessoas fundamentais na minha existência.
Hoje, no dia dos pais de 2019, escreverei sobre os homens que estiveram ou estão presentes em meu tempo.  São exemplos de lutadores do dia-a-dia, pessoas simples, que compuseram ou compõem o meu círculo familiar. A eles, pois:

                               JOÃO (Vô Guta).
O vô guta, como o chamávamos,pai do meu pai, nasceu em 1892, creio que em São Borja/RS, faleceu em 1973. Filho de Paulino Carneiro da Fontoura e Amabilia Castilho da Fontoura.  Não tenho a informação de sua cidade natal, ando pesquisando.  Sei que era agricultor e carreteiro, no começo do século XX.  Depois, praticando o êxodo rural, foi morar em São Luiz Gonzaga, finalizando em Santo Ângelo/RS.
Junto com minha avó teve 15 filhos, dos quais 13 sobreviveram.  De estatura não muito alta, quando o conheci já era um velhinho alegre, com sua risada curtinha e repetida. Nas férias, contava-nos histórias de assombrações com muito suspense; e histórias dos tempos das guerras gaúchas de antanho.  Gostava de fumar seu cigarro de palha, que tinha um cheiro adocicado, ficando como lembrança da casa dos avós.  Faleceu com 81 anos, deixando extensa descendência; tanto que, nas bodas de ouro, tinha mais de 150 pessoas, contando filhos, netos, genros e noras.  Uma lembrança doce.



                                     BENTO (vô Bento). 
Nasceu em Santana do Livramento/RS, na fronteira com o Uruguai, em 10 de fevereiro de 1903, filho de Francisco Menezes de Carvalho e de Tolentina Menezes de Carvalho, ela natural de Rivera/Uruguai. Era pai da minha mãe.
Sua maior alegria, como contava minha mãe, era que eu nasci no dia do seu aniversário.  Enquanto foi vivo, comemoramos juntos esta data.
Vô Bento foi agricultor e, depois que vieram morar na cidade de Ijuí, praticando o êxodo rural, trabalhou na força e luz da Prefeitura Municipal, exercendo suas funções até aposentar-se.
Era um homem alto, forte, mulato, gostava muito de churrasco - tanto assar quanto comer -, teve 10 filhos junto com minha avó, sendo que 8 sobreviveram.  Tinha bom humor, estava sempre brincando comigo, que era sua companheirinha no chimarrão da tardinha, em frente a sua casa, quando "via o movimento". Segundo minha mãe, gostava de tocar violão e cavaquinho.
 Muito benquisto por todos na cidade, era muito conhecido, sendo nome de rua hoje, em Ijuí. Faleceu novo, com 60 anos, deixando-nos com muitas saudades.

                                                          

                                                                  JOSÉ, meu pai.
Já escrevi alguns posts sobre ele.  A pessoa mais importante, na minha vida, junto com minha mãe. 
Era alto, magro, cabelos crespos, gostava muito de andar bem apresentável, sempre que podia usava terno e gravata, e estava sempre bem perfumado e alinhado.
Nasceu em 17 de setembro de 1927, em São Borja/RS.  Conheceu minha mãe quando já contava com 25 anos.  Ele morava em Santo Ângelo e a mãe em Ijuí. Casaram-se em 1952 e, depois de muitas andanças, estabeleceram-se em Ijuí.
Gostava de ler e pescar; trabalhou na Prefeitura Municipal de Ijuí até aposentar-se, tendo trabalhado em empresas privadas em Santo Ângelo, Porto Alegre, São Luiz Gonzaga e Ijuí. Era maçom.
Exemplo de homem de fé, de força, de honra e ética, educou-nos na maior severidade e exigências, incutindo-nos a ideia de que estudar e ler bastante era o que de mais importante poderíamos fazer por nós mesmos.  Um exemplo de homem correto, idôneo, que amamos até hoje. Faleceu em 2013, aos 85 anos.


                                      GILBERTO, meu marido.
O amor da minha vida conheci aos 20 anos; ele tinha 22.  De origem italiana, natural de Silveira Martins/RS, conquistou meu coração com seu jeito tímido, sua honestidade, sua inteligência e bom humor.  Mas, principalmente, por seu amor, carinho e dedicação. 
Dividimos a vida há 41 anos e meio, e, nesse meio tempo, tivemos nossos três filhos, os filhos mais velhos já nos deram quatro netos, e vamos levando a vida para ela não nos levar.
Gilberto tem altura mediana, cabelos lisos e castanhos, gosta de um bom vinho e de churrasco, infelizmente é torcedor do Grêmio, mas é uma pessoa do bem...risos...
Esforçado, foi persistente para conseguir formar-se em Engenharia de Operação Mecânica, profissão que exerceu durante toda a vida, até aposentar-se. Para tanto, após trabalhar todo o dia em uma fábrica, em Panambi, percorria diariamente em torno de 200 km para fazer a faculdade.  Fez curso de Pós-Graduação em Segurança do Trabalho, na UEL, quando morávamos em Londrina/PR . 

GÉRSON, filho, e VITTORIO, neto.
O meu segundo filho deu-me um grande susto ao nascer, pois tinha duas voltas do cordão umbilical enroladas ao pescoço, tendo sido levado às pressas para oxigênio, pois estava roxo.  Mas sobreviveu, graças a Deus e ao pronto atendimento do pediatra. 
Meu filho é muito parecido com meu sogro, pois nasceu bem branquinho, olhos azuis e cabelos dourados. A genética vai longe.
É muito alto, era mais gordinho mas, agora, está mais magro em vista da frequência à academia de ginástica e alimentação mais saudável.  É formado em Jornalismo, fez Pós-graduação na Área de Comunicação. 
Esteve três anos na Itália, onde e quando praticou o italiano e o inglês que havia estudado.  Trabalhou em um hotel na cidade de Pisa, e realizou mais um curso de Pós-graduação em tradução inglês-italiano na Universidade de Pisa. Hoje é gerente de negócios no Banco do Brasil, e faz MBA em assuntos bancários.
Era um menino arteiro, inteligente, fazia suas tarefas escolares com rapidez para poder brincar. 
É pai de VITTORIO, meu neto mais novo, também loiro, de olhos azuis, só que o cabelo e as sobrancelhas são vermelhos, e estão começando a pintar sardas em seu rostinho.  Lembra o Pimentinha, personagem de HQ.
Muito vivaz, elétrico, arteiro, brincalhão, inteligente, é a alegria na vida desses avós, junto com os demais netinhos.

MARCOS E MOACIR, irmãos.
Marcos, o mais velho, Moacir, o mais novo.
Marcos foi meu companheiro de brincadeiras na infância, pois temos um  ano e um mês de diferença - ele é mais velho. Também foi companheiro de bailes, cinema e shows, na adolescência, por imposição de meus pais - se não me levasse junto, não tinha autorização pra sair.  Tadinho... risos...
É quem me ajuda a cuidar da mãe, hoje.  Formado em Administração de Empresas, é professor da rede estadual de ensino - outra coisa que dividimos, a profissão de professor.
Altura mediana, meio gordinho, moreno com cabelos embranquecendo, é minha força nos dias atuais.
O Moacir, nosso irmão mais novo, foi, como já publicado em outro post, o que mais estive perto, por causa de sua doença mental.  Era uma pessoa afável, carinhosa, preocupado com  a família.  Infelizmente faleceu em 2012, deixando-nos muito tristes.

JOSÉ LUÍS, meu genro, MATEUS E GABRIEL, meus netos.
Este moço moreno, de olhos azuis, conquistou o coração de minha filha Sílvia.  É agricultor dedicado, muito trabalhador, sempre preocupado com a família.  Como todos os agricultores, inicia seu dia de madrugada, e só volta para casa à noite, não tendo domingos e feriados; estes, são nos dias de chuva. Junto com minha filha, deu-me os netos mais velhos, amores da vovó.
MATEUS, menino lindo, com grandes olhos castanhos, como a mãe, é o neto mais velho.  Quando nasceu, e fui vê-lo, encontrei a seu lado minha filha.  Eu não sabia se a pegava no colo, pois eu sabia o que era o parto, ou pegava o neto.  Foi uma das maiores emoções da minha vida.
É inteligente, ama a leitura, como a avó, gosta de escrever e desenhar.  Um grande futuro o aguarda.
GABRIEL, meu segundo neto, pregou-nos um grande susto na hora do nascimento, pois teve que ser feita uma cesárea de emergência.  É um menino muito doce, meigo, inteligente, vivaz, que adora bichinhos.  Talvez um futuro biólogo ou veterinário? Só o futuro dirá o que este menino, de lindos olhos castanhos espertos, será.

VITÓRIO, meu sogro.
Este italiano nascido no Brasil foi, junto com minha sogra, o autor do melhor presente da minha vida: meu marido.
Era loiro, altura mediana, olhos azuis, que distribuiu a genética para neto e bisneto.  Agricultor, marceneiro, pai dedicado, que esforçou-se ao máximo para dar uma boa educação aos filhos.  Enquanto a planta germinava no solo, não ficava parado, trabalhava construindo muitas das casas que ainda existem em Silveira Martins/RS.  Amava o vinho, falava o italiano arrevesado, misturado com português, e contava muitas histórias da fundação da Quarta colônia, no coração do Rio Grande do Sul, onde ascendentes vindos da Itália fundaram uma cidade e trouxeram sua cultura e perseverança para agregar ao povo gaúcho.