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domingo, 12 de março de 2023

SÍNDROME DO NINHO VAZIO III






É certo que os filhos, um dia, vão sair de casa.

Quando os recebemos das mãos da obstetra, passados pelas mãos do pediatra, na hora do nascimento, já sabemos disto.

Já comentei sobre este assunto   quando meus filhos mais velhos saíram de casa.  Hoje é a caçula que alça voo rumo ao futuro.

Entretanto, passamos por todas as etapas do desenvolvimento de um filho evitando de pensar neste dia, uma vez que sabemos ser uma ocasião em que nossos sentimentos ficam ambíguos, embaralhados, desarrumados: temos certeza que será maravilhoso este levantamento de voo, temos plena confiança que demos a melhor educação, passamos nossos valores, nossas crenças, nosso entusiasmo, fizemos tudo que foi possível para que nossos filhos tenham uma vida plena. Mas temos o receio que os males do mundo possam vir a prejudicá-los, que o que demos não tenha sido suficiente, que o mundo está mudando muito rapidamente e será que terão condições de acompanhar?

Sobra a nós, pais, confiar na educação, amor, carinho, senso de responsabilidade, alegria de viver, plenitude, tudo o que ensinamos, a par do aprendizado cognitivo nas escolas formais e universidades.

Resta, também, confiar em seu juízo, discernimento, esforço e criatividade.

E...orar, pois só Deus pode mostrar os melhores caminhos a serem percorridos pelos filhos.

Ah, e repetir, ad aeternum, com bom humor: não esqueça do casaco e do guarda-chuva.



(Acesse o outro texto sobre o mesmo assunto, embora diferente: https://athenasminerva.blogspot.com/2011/06/nao-esqueca-do-casaco-e-do-guarda-chuva.html )  

















sábado, 11 de abril de 2020

EM TEMPOS DE RECOLHIMENTO





Estrutura do coronavírus, que tem esse nome por causa dos picos de suas membranas que lembram uma coroa
Imagem do coronavírus. Crédito da imagem ao pé do texto.


No último post referi-me à entrada em recolhimento forçado por causa do Covid-19. Segunda-feira completaremos quatro semanas em que encontramo-nos resguardados.
Tenho acompanhado inúmeros comentários, posts, memes, piadas sobre a situação no Brasil, assim como em outros países.
Alguns são hilários e nos descontraem um pouco da situação confusa em que encontra-se o mundo.
Outros são de preocupação extrema, chegando ao excesso, desespero, clima de apocalipse.
Outros tantos dizem ser um exagero impor à população mundial uma reclusão, o fechamento das cidades, as pessoas saírem o mínimo de casa, e quem puder, não trabalhar.  Isso inclui os aposentados, as crianças, pessoas com doenças pré-existentes, e quem puder trabalhar de casa.  E que, mais dia menos dia, todos seremos atingidos pelo vírus, então quanto antes, melhor, pois livra-se logo do problema, e vida que segue.  Além do que, "é uma gripezinha".
Ao observar o noticiário, a quantidade de mortos nos países da Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, acredito não ser algo irrelevante.
Outros dizem que as estatísticas são favoráveis ao Brasil e ao seu povo, uma vez que aqui o inverno ainda não chegou, e a curva que mostra a evolução de pessoas infectadas e mortas não ter sido tão agressiva por aqui.  Por enquanto. O inverno baterá às nossas portas em julho.
Conversando com um médico que eventualmente me atende, e que é pneumologista, este disse-me que, infelizmente, a medicina mundial anda no escuro, tateando vários tipos de tratamento, na busca pela cura e pelo mínimo de pessoas infectadas ou mortas.  Estamos atrás de pesquisas, tentativas de erro/acerto com medicamentos, tratamentos, forma de ação.  Na dúvida, FIQUE EM CASA.  Vai diminuir a quantidade de pessoas infectadas e que possam vir a necessitar de internação hospitalar, UTIs, respiradores, etc.  Parece-me que este é o ponto principal.  Entendi que é provável que todos nós venhamos a nos contaminar.  Mas, quanto mais tarde, melhor; e quanto menos pessoas ao mesmo tempo, mais chance de sobrevivência em maior quantidade de pessoas, por não necessitarem usar o aparato hospitalar ao mesmo tempo.  Infelizmente, em todos os países, a quantidade de hospitais, leitos de UTI são regulados para um percentual fixo da população.  Numa epidemia, ou pandemia, não terá suficiente para todos ao mesmo tempo.  Como leiga na área da saúde, minha compreensão da doença, até este momento, é esta.
Entretanto, sabemos que nem todos os dados são informados à população.  Que alguns são escondidos, que há uso político da situação, que há várias posturas tanto de responsáveis pela área médica pública quanto pelos governos.
Como comentei há alguns dias com minha tia, só saberemos a verdade, ou parte dela, daqui a algum tempo.  Ou, talvez, nunca saibamos.  Só o tempo dirá.
Enquanto isso, fico em casa, estou faxinando, cozinhando, selecionando roupas, calçados, coisas inúteis dentro de casa, e lendo.  Quando posso, escrevo.  Mas...louca para dar uma saída, caminhar ao sol, chegar na livraria que serve cafezinho (o de lá é diferente!), voltar ao pilates e tantas outras atividades que faço habitualmente.
E esperando, com fé, não ser atingida pelo vírus, nem ninguém da minha família. Assim como espero que os cientistas, pesquisadores, médicos, encontrem rapidamente o medicamento que resolverá a pandemia, ou uma vacina que nos previna quanto à doença.  Que Deus nos proteja.

quarta-feira, 25 de março de 2020

TEMPOS SOMBRIOS OU OPORTUNIDADE?

Imagem de gripe espanhola, 1918. Crédito abaixo do texto.







"Em fins de 1918 começou grassar a epidemia terrível "influenza espanhola"; dava medo na gente, morria dois ou três  numa casa.  Em casa, só eu e o papai fomos atingidos; estivemos mal, mas graças a Deus vencemos.  E no fim de 1918 terminou a guerra que tanto afligia as nações."  (Maria Augusta dos Santos Carvalho.  Memórias da Vó Deza. Ijuí:Unijuí, 1987, p. 32.

Em tempos de comunicação no ciberespaço, estamos todos conectados e medrosos, alguns em pânico, outros debochando, dizendo que é manipulação da informação, sobre o Covid-19.

Há quem diga, e são os responsáveis pelos Ministérios da Saúde ao redor do mundo, assim como a OMS,  seguido por médicos locais em todos os países, que esse vírus é perigoso, mata mesmo, que é necessário recolher-mo-nos às nossas residências, deixando as ruas livres para o vírus circular e não encontrar ninguém onde inocular-se.

Há os incrédulos, falam em teorias da conspiração, que não vão deixar de trabalhar, que não vão ficar em casa, que a pandemia é um instrumento de poder e manipulação sobre os povos.

Há tempos adotei a seguinte posição: espero o tempo passar, as notícias consolidarem-se para posicionar-me.

Entretanto, quando os noticiários de todos os canais televisivos, das rádios, dos meios de comunicação através da internet, os médicos próximos da gente, o Prefeito da nossa cidade, o nosso Governador tomam medidas enérgicas de prevenção e cuidado, eu prefiro cuidar-me a arriscar a pele que meus pais me deram.  Vou verificar a veracidade dos fatos recolhida em minha casa, onde também estão minha filha e meu marido.

Meu marido e eu fazemos parte do que se convencionou chamar grupo de risco para coronavírus: ambos somos diabéticos, ele ainda carrega o Mal de Parkinson.  Pelas informações dos meios comunicativos, eu sou ainda mais frágil: hipertensão, doença celíaca (que é uma doença autoimune), intolerância à lactose e hipercolesterolemia.  

No dia 16 de março, segunda-feira passada, antes que o governo municipal, estadual e federal ditassem a regra do recolhimento - FIQUE EM CASA! - aqui no Brasil, eu já tinha me auto-recolhido, junto com meu esposo.  Estava assustada.
No dia seguinte, minha filha, que tem alergias respiratórias, espirrou.  Decretei que não iria mais à escola.  Dois dias depois a escola mandou todo mundo ficar em casa.

Comecei a raciocinar, ao mesmo tempo que desenvolvia uma estratégia para manter-me em casa em segurança, em paz, sem crises, sem pânico: um dia faço limpezas, cozinho todos os dias, noutro dia leio, noutro dia escrevo, vejo minha mãe duas vezes por semana (85 anos, grupo de risco máximo).  Tirei meu esposo de frente da TV, senão passaria o dia inteiro, cada vez mais apavorado, e tirando a temperatura mesmo sem qualquer indício de gripe.  Também eu estou tentando (às vezes sem sucesso, reconheço) acessar menos as mídias digitais, o whatsapp, o facebook, os e-mails.
Também acredito que a nossa geração, e a de nossos filhos e netos, que costumamos não ter tempo para nada, além de nossos inúmeros compromissos, podemos aproveitar este tempo de recolhimento compulsório, para fazer aquilo que estamos protelando há tempos, e está sempre no fim da lista de afazeres diários, mensais, anuais: temos, agora, a oportunidade de limpar um armário cheio de coisas inúteis que não temos coragem de pôr fora;  derrubar aquela pilha de livros que nunca temos tempo de ler; ver aqueles filmes maravilhosos para os quais nunca sobra tempo; aprender a pintar, escrever, cantar, fazer exercícios, cuidar das plantas, cozinhar aquela receita difícil e demorada, e tantas coisas mais que cada um de nós sabe o que é. Quem sabe estivéssemos esperando por essa oportunidade e nem sabíamos?  Quando a gente se der por conta, o período de quarentena passou e nem sobrou tempo para fazer tudo que queríamos.

Lembrei-me de minha avó, da citação acima, que morreu aos 85 anos, bem depois da gripe espanhola, que a acometera e a seu pai.  Eram outros tempos, quando não havia geladeira, tv, fogão a gás, SUS, um médico em cada esquina, grandes órgãos governamentais cuidando da saúde, entre outros.

Ela vivia na colônia, a forma de vida era precária, os recursos inexistentes, e só a fé em Deus, os cuidados familiares e a higiene faziam com que as pessoas sobrevivessem. Penso, também, que alguns genes mais fortes e generosos, tenham cuidado dela.  E ela sobreviveu, assim como sua família.  Tanto sobreviveu que aqui estamos nós, seus descendentes, enfrentando outra epidemia terrível.  

A minha esperança é que sobrevivamos, com fé, recolhimento, cuidados e prevenção.  E acreditando na medicina, que evoluiu muito nos últimos tempos.

Também julgo necessário mencionar que para que nós, do grupo de risco, possamos ficar em casa, em segurança, muitas pessoas que escolheram profissões consideradas essenciais à sobrevivência humana estão expostas ao vírus, exercendo suas funções com honra, galhardia, respeito à sua profissão e aos seres humanos, verdadeiros anjos escolhidos por Deus: cuidadoras de idosos, como Nair, Mari, Iloni, Alda e Clair, que se revezam cuidando de minha mãe acamada; farmacêuticos, médicos, laboratoristas, todos os funcionários de supermercados, gás, postos de gasolina, caminhoneiros, agricultores, enfermeiros, pessoas da limpeza tanto em residências como em empresas, e todas as demais pessoas que estão correndo riscos para que sobrevivamos: A TODOS, MUITO OBRIGADA!

Imagem:https://www.grupoescolar.com/a/b/gripe-espanhola-foi-provocada-por-um-virus-das-aves-2E.jpg


domingo, 1 de julho de 2012

Minha mãe.



Há muito queria escrever sobre minha mãe.  Ano passado escrevi sobre meu pai, à época do Dia dos Pais aqui no Brasil, que é em agosto, e quando do aniversário dele, em setembro. Então pensei em escrever em março, aniversário dela - não tinha condições, a morte de meu irmão era recente, seu aniversário nem foi comemorado, pois nove dias depois da morte dele.  Deixei para maio, no dia das Mães.  Mas eu ainda estava sem estrutura psicológica para isto. 
O tempo, que tudo cura, ou, pelo menos, ameniza as dores, está fazendo seu trabalho.  Não que as feridas da tristeza tenham se acabado, mas estão cicatrizando, cada dia um pouco.  Vejo isto na minha mãe também, uma mulher que dizer de fibra é pouco; que dizer heroína, é pouco; que dizer valente, é pouco; que dizer persistente, calma, firme, mulher de fé, de coragem, um amor sem tamanho pelos filhos, pela família, pelo companheiro da vida inteira, é só começar a falar a verdade.
Minha mãe nasceu em Tucunduva, um distrito do Município de Santa Rosa; seus pais eram agricultores, e estavam à procura de uma vida melhor, então saíram de Ijuí, mais precisamente Alto da União, e foram em busca de um sol a brilhar em suas vidas pobres.  Lá nasceram minha mãe, e se não me engano, também a tia Ruth. Quem souber melhor a história da família, me corrija, se eu estiver errada.
Ela e esta querida tia cresceram juntas, muito unidas, brincando, estudando, fazendo artes juntas, visto que sua diferença de idade é pequena.
Minha mãe gostava de estudar, mas só estudou até o 5º ano primário; infelizmente, à época, para famílias pobres, era difícil que seus filhos e filhas continuassem estudando.  Embora ela tenha ganho uma bolsa de estudos para fazer o magistério no Colégio das Irmãs, por ter tirado o primeiro lugar na turma, meu avô não deixou que continuasse estudando pois tinha que trabalhar para ajudar a família.  Coisas da época e da situação financeira familiar - casal e 7 filhos para criar!
Conta ela que meu avô tocava cavaquinho, e, à tardinha, todo dia sentava ele, após o trabalho, tocava e cantava músicas populares, o que a deixava enlevada.  Sempre foi muito afinada, e gostava de cantar; também gostaria de ter aprendido música, quando criança, mas, infelizmente, não deu.
Minha mãe começou a trabalhar aos 13 anos, na empresa Gressler, de Ijuí; ajudava na contabilidade e serviços gerais de escritório; era exímia na matemática, fazia contas como ninguém.
Única brasileira no meio de descendentes de alemães, havia aprendido algumas palavras nesta língua, o que lhe permitia responder em português a perguntas feitas em alemão; fato engraçado, que fez com que suas colegas não mais falassem em alemão na sua presença, pois achavam que ela entendia tudo... Como ela tinha os cabelos pretos, longos e crespos, adoravam fazer penteados, nos momentos de folga, coques e ajeitar seus cabelos.
Minha mãe conheceu meu pai com 14 anos; foi no culto de inauguração da Igreja Metodista de Ijuí; ele morava em Santo Ângelo; corresponderam-se durante um tempo, depois ele veio visitá-la, firmaram namoro e, quando ela tinha 17 anos e ele 25, casaram-se, formando um casal que se ama até hoje, e irão completar 60 anos de casados em setembro.  Desta união saímos nós, eu e mais 5 irmãos homens, sendo que dois foram natimortos. 
Minha mãe enfrentou todo tipo de dificuldade: moraram em lugares de difícil acesso, onde não havia água nem luz; teve os filhos na época em que não havia praticamente assistência médica, e era atendida por parteiras - graças a Deus experientes, que a ajudaram a nos fazer nascer com competência.
Sempre nos cuidou e educou com amor, carinho, compreensão, competência e visão, incentivando-nos a estudar e encarando os problemas de frente, nunca baixando a cabeça, sempre orando e pedindo a proteção divina para toda a família.
Embora quisesse trabalhar fora e ter  sua renda, não o fez a pedido - ou imposição - de meu pai, que é um homem "às antigas", para quem a mulher deveria ficar com as atividades do lar, somente.  E desempenhou-as com amor e competência - cozinheira de mão cheia, sempre fez delícias para saborearmos, de pratos salgados a doces, bolos, tortas, salgadinhos, almoços, jantares...e cuidou da casa e de nós com mão firme.  Ajudou meu pai a enfrentar as mais diversas difi culdades, sendo a companheira fiel, o braço firme ao redor de todos nós: doenças, desemprego, condições adversas, tudo sempre encarou com garra, uma lutadora.  E, também, nos momentos de alegria, festa, confraternização, vitórias,  era a primeira a dizer: vamos festejar, que a vida é curta!
Quando crescemos e começamos a sair de casa,  minha mãe, finalmente, pôde realizar um sonho: foi aprender música!  Com as mãos já um pouco emperradas, com 45 anos, aprendeu piano.  Seu sonho era tocar os hinos na igreja lendo as partituras musicais.  Foi, com dificuldade, mas com persistência, que conseguiu realizar seu sonho: tocou em casamentos, festas, tocava em casa, em cultos, etc.  Formou um côro que cantava nos cultos, tornando-os mais alegres e emocionantes.
Quando a família descobriu que meu irmão mais novo era doente mental, foi a primeira a encarar de frente o problema, procurar tratamentos, acompanhá-lo, cuidá-lo e protegê-lo até o fim de sua vida.  Nunca esmoreceu.  Tinha fé que a medicina ia encontrar a cura para a esquizofrenia - que eu chamo de  o câncer da alma -.  Infelizmente a medicina não evoluiu para tanto.
Apesar de todas as coisas ruins que aconteceram na vida, minha mãe é otimista.  O que ela me  passou, repito para ela agora: cada dia é uma bênção de Deus, e cada vida também.
Agradeço a Deus por ter a minha mãe ao meu lado, agora que voltei pra minha terra.  Mesmo quando estava longe, a quase 1000km de distância, era só ouvir sua voz ao telefone que eu já me sentia melhor.  Estar perto dela, poder cuidá-la e do meu pai, também, é uma alegria muito grande.  
Seus ensinamentos, sua fé, sua firmeza, seus princípios norteadores de vida irão me acompanhar a vida toda, e sua maneira de viver procuro transmitir também a meus filhos e netos.
Tê-la por perto me acalma e me anima, minha mãe.  Obrigada por ser como é e por ser minha mãe.