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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

NOVA VIDA

 




                                                                 Para Mikael, meu netinho


Após o sofrimento

A alegria de te ver!

Meu neto!

Tua mãe sofreu muito

Para te trazer à luz!

Mas o amor dela por ti

e  o nosso por ti

já é imenso!

Alegro-me por ver

tuas mãozinhas mimosas

teus pezinhos também perfeitos!

Teus olhos vivos

Interessados, curiosos

Perscrutando o mundo ao teu redor!

Amo-te, querido!

Que Deus esteja contigo

Sempre, todos os dias!





Curitiba, 17/10/2023

domingo, 12 de março de 2023

SÍNDROME DO NINHO VAZIO III






É certo que os filhos, um dia, vão sair de casa.

Quando os recebemos das mãos da obstetra, passados pelas mãos do pediatra, na hora do nascimento, já sabemos disto.

Já comentei sobre este assunto   quando meus filhos mais velhos saíram de casa.  Hoje é a caçula que alça voo rumo ao futuro.

Entretanto, passamos por todas as etapas do desenvolvimento de um filho evitando de pensar neste dia, uma vez que sabemos ser uma ocasião em que nossos sentimentos ficam ambíguos, embaralhados, desarrumados: temos certeza que será maravilhoso este levantamento de voo, temos plena confiança que demos a melhor educação, passamos nossos valores, nossas crenças, nosso entusiasmo, fizemos tudo que foi possível para que nossos filhos tenham uma vida plena. Mas temos o receio que os males do mundo possam vir a prejudicá-los, que o que demos não tenha sido suficiente, que o mundo está mudando muito rapidamente e será que terão condições de acompanhar?

Sobra a nós, pais, confiar na educação, amor, carinho, senso de responsabilidade, alegria de viver, plenitude, tudo o que ensinamos, a par do aprendizado cognitivo nas escolas formais e universidades.

Resta, também, confiar em seu juízo, discernimento, esforço e criatividade.

E...orar, pois só Deus pode mostrar os melhores caminhos a serem percorridos pelos filhos.

Ah, e repetir, ad aeternum, com bom humor: não esqueça do casaco e do guarda-chuva.



(Acesse o outro texto sobre o mesmo assunto, embora diferente: https://athenasminerva.blogspot.com/2011/06/nao-esqueca-do-casaco-e-do-guarda-chuva.html )  

















sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

MINA DE AMOR

 



           Para Nicolle, Vittorio e Rafaello

 

Dois pares de olhos azuis

Um par de olhos castanhos.

Mãozinhas macias, irrequietas,

Agito no corpo.

Energia

Vitalidade

Curiosidade

Inteligência

Muito carinho

Muito amor

Muitos afagos!

Ternura sem fim!

Meus netos!

 

Joinville, 28/9/22.

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

NATAL

 

                               

 

        As primeiras lembranças que tenho do Natal são da casa de meus avós maternos.

        Morávamos em Santo Ângelo e viemos passar o fim de ano com eles. Eu  devia ter uns quatro anos, alguns de meus tios ainda eram solteiros.  A mais nova ainda era criança, pois é seis anos mais velha que eu.  Ela tinha uma boneca que andava, virando a cabeça, e dizia: mamãe.  Era a Marta. Ela não me deixava brincar com a Marta...

        Minha madrinha deu-me de presente uma bonequinha de louça, linda, de olhos azuis e cabelos castanhos. Na caixa estava escrito “Tiquinha”, pois era pequenina, assim como eu.  Embora não caminhasse, ela chorava quando a gente mexia nela.  Mas, quem tem irmãos e não irmãs, sofre! Um dia que brigaram comigo, meus irmãos atiraram a Tiquinha dentro de uma bacia cheia d’água, e ela parou de chorar e parou de movimentar os olhos; quem chorou fui eu!  Estragaram minha boneca! Tive que levá-la ao hospital de bonecas. Eles fixaram os olhos dela para sempre! Mesmo sem chorar mais, tenho-a até hoje!

        Como fazíamos parte do povo que dependia das brizoletas para fazer o Natal, meus irmãos ganharam caminhões de madeira feitos por meu pai.

        Era tradição na minha família, e fui aprendendo com o passar do tempo, na Noite de 25 de dezembro ir ao Culto de Natal na Igreja Metodista.  Eu ficava emocionada ao ouvir os membros da igreja cantarem, bem alto, com harmonia a música Noite Feliz  e muitas outras. Todas as mulheres dos pastores tocavam órgão, então ficava uma cerimônia linda.  Sempre tinha, também, a representação de Natal, sendo que os jovens e as crianças desempenhavam o papel de José, Maria, os reis magos, pastorzinho, etc. Jesus era um boneco grande, mas uma vez puseram um bebezinho na manjedoura. E tinha a música dos duendezinhos... eu fui duende, Maria, narradora, etc...

        Quando eu tinha 8 anos, e já morávamos em Ijuí, ganhei um bebezão.  Ô felicidade! Gostei tanto dele, cuidei tanto para não estragar, que minha primeira filha chegou a brincar com ele.

        O tempo foi passando.  Fui ganhando vários presentes de Natal, desde brinquedos de todos os tipos para brincar de casinha, como era a tradição.

        Quando estávamos na escola, meus pais sempre davam para nós, além dos brinquedos, um livro para quem passasse de ano.  Lembro de alguns que ganhei: O macaco trapaceiro; O califa cegonha; livros das princesas Cinderela, Branca de Neve...; Histórias que ficaram na História, entre outros.  Minha família é de leitores.  Meus pais liam muito, minha avó materna também, e muitos descendentes são leitores e alguns gostam, também, de escrever, assim como eu.

        Quando um pouco maior, ganhei um quadro para escrever.  Que alegria!  Eu repassava toda a matéria estudada no dia para meus alunos invisíveis... não sabia que assim agindo, eu estava reforçando o aprendido, e treinando para ser professora, anos mais tarde.

        O tempo foi passando, vieram os namorados, os presentes variavam de chocolate a perfume, uma blusinha aqui, uma sandália lá...

        Depois que casei, vieram os filhos.  Os primeiros presentes foram brinquedos, livros de pano, livros de banho e assim por diante.

        Lembro de três presentes, em especial pedidos por meu filho: num Natal, o ponte-car, uma camionete que tinha um mecanismo que fazia girar uma ponte que passava por cima de si mesmo e ia adiante, quando o carro daí passava por cima. Não tinha pilha que chegasse! Outro foi o pogobol, ou pula-pula.  Uma bola presa numa base, onde ele colocava os pés e pulava.  Ficava pulando o tempo inteiro, até criou músculos nas pernas de tanto pular... e o skate, no qual ele subia e andava.  Este fez com que, numa arte, caísse e quebrasse um dente da frente.

        Minha filha mais velha amava as bonecas, lembro da barbie face, que vinha uma cabeça e material de maquiagem.  Além do feijãozinho e outras bonecas lindinhas que ela tinha uma coleção. Outro presente que lembro bem que demos a ela foi um gravador colorido com microfone acoplado.  Cantar e fazer apresentações passou a ser sua diversão, gravando em fitas k7.

        A filha mais nova, já muitos anos depois, pois é temporã, também amava os bebezões, teve bonecas de todos os tamanhos, coleção de barbies.  Mas um ano ela encasquetou que queria um relógio com pulseiras coloridas.  Passou o ano inteiro buzinando nos meus ouvidos.  Como foi bem aprovada na escola, ganhou o tal relógio.

Porém o que eu mais gostava nos últimos natais em que minha família pôde reunir-se eram os que passávamos com meus pais, enquanto estavam vivos.  Reuníamo-nos na casa deles a minha família, as dos meus irmãos, irmãos do meu pai e da minha mãe e fazíamos uma festa maravilhosa todos juntos.  Morávamos no Paraná, meu irmão mais velho em Porto Alegre, mas sempre dávamos um jeito de estarmos juntos, pelo menos uma vez por ano.  Meu pai, meu marido e meu irmão ficavam encarregados do churrasco.  A mãe, eu e as cunhadas ficávamos encarregadas dos complementos e da sobremesa deliciosa; cada uma fazia uma diferente e servíamos depois da ceia.

        A comida era a desculpa.  Tinha jogo de dama, de xadrez, alguns assistiam ao Roberto Carlos na tv, as crianças corriam e brincavam.  Minha mãe colocava na eletrola seus elepês de natal, e eu sempre me emocionava. O pinheirinho era armado na sala todos os anos. Depois que ela aprendeu a tocar piano, fazia um pequeno concerto para nós.

        Depois da sobremesa, sempre aparecia o papai Noel que entregava os brinquedos para a criançada, mas os adultos também gostavam de receber as lembrancinhas.

        O natal sempre nos traz lembranças carinhosas das pessoas queridas que se foram.

        Agora, a matriarca sou eu.  A comemoração do aniversário de Jesus é na minha casa, com meus filhos e meus netos.

        A celebração continua, o amor permanece, algumas tradições são mantidas.  A família encolheu, mas o amor não. Além dos meus pais, meu marido também partiu.  Confraternizamos lembrando dos momentos de alegria passados com nossos queridos cujas cadeiras estão vazias.   Recordamos os muitos abraços, os beijos, as brincadeiras, a maravilha que era estar juntos.  Entretanto, há os descendentes para ocupar essas cadeiras e manter aquecidos os corações com amor, fé, carinho, fraternidade, esperança, muitas brincadeiras e correrias, para não perder o jeito.  Sempre tem alguém jogando damas ou cartas, um bebê chorando, alguém assistindo tv... e as músicas natalinas que eu amo e continuam me emocionando agora tocadas não na eletrola pelos elepês, mas baixadas da internet direto para computadores ou celulares.  As coisas mudam, mas as emoções não.

 

 

Lorení

Dezembro 2022.

       

domingo, 11 de agosto de 2019

OS HOMENS DA MINHA VIDA

Em um post que publiquei há algum tempo, mencionei as mulheres da minha vida: minhas avós, minha mãe, tias, filhas, nora, neta, sogra.  São pessoas fundamentais na minha existência.
Hoje, no dia dos pais de 2019, escreverei sobre os homens que estiveram ou estão presentes em meu tempo.  São exemplos de lutadores do dia-a-dia, pessoas simples, que compuseram ou compõem o meu círculo familiar. A eles, pois:

                               JOÃO (Vô Guta).
O vô guta, como o chamávamos,pai do meu pai, nasceu em 1892, creio que em São Borja/RS, faleceu em 1973. Filho de Paulino Carneiro da Fontoura e Amabilia Castilho da Fontoura.  Não tenho a informação de sua cidade natal, ando pesquisando.  Sei que era agricultor e carreteiro, no começo do século XX.  Depois, praticando o êxodo rural, foi morar em São Luiz Gonzaga, finalizando em Santo Ângelo/RS.
Junto com minha avó teve 15 filhos, dos quais 13 sobreviveram.  De estatura não muito alta, quando o conheci já era um velhinho alegre, com sua risada curtinha e repetida. Nas férias, contava-nos histórias de assombrações com muito suspense; e histórias dos tempos das guerras gaúchas de antanho.  Gostava de fumar seu cigarro de palha, que tinha um cheiro adocicado, ficando como lembrança da casa dos avós.  Faleceu com 81 anos, deixando extensa descendência; tanto que, nas bodas de ouro, tinha mais de 150 pessoas, contando filhos, netos, genros e noras.  Uma lembrança doce.



                                     BENTO (vô Bento). 
Nasceu em Santana do Livramento/RS, na fronteira com o Uruguai, em 10 de fevereiro de 1903, filho de Francisco Menezes de Carvalho e de Tolentina Menezes de Carvalho, ela natural de Rivera/Uruguai. Era pai da minha mãe.
Sua maior alegria, como contava minha mãe, era que eu nasci no dia do seu aniversário.  Enquanto foi vivo, comemoramos juntos esta data.
Vô Bento foi agricultor e, depois que vieram morar na cidade de Ijuí, praticando o êxodo rural, trabalhou na força e luz da Prefeitura Municipal, exercendo suas funções até aposentar-se.
Era um homem alto, forte, mulato, gostava muito de churrasco - tanto assar quanto comer -, teve 10 filhos junto com minha avó, sendo que 8 sobreviveram.  Tinha bom humor, estava sempre brincando comigo, que era sua companheirinha no chimarrão da tardinha, em frente a sua casa, quando "via o movimento". Segundo minha mãe, gostava de tocar violão e cavaquinho.
 Muito benquisto por todos na cidade, era muito conhecido, sendo nome de rua hoje, em Ijuí. Faleceu novo, com 60 anos, deixando-nos com muitas saudades.

                                                          

                                                                  JOSÉ, meu pai.
Já escrevi alguns posts sobre ele.  A pessoa mais importante, na minha vida, junto com minha mãe. 
Era alto, magro, cabelos crespos, gostava muito de andar bem apresentável, sempre que podia usava terno e gravata, e estava sempre bem perfumado e alinhado.
Nasceu em 17 de setembro de 1927, em São Borja/RS.  Conheceu minha mãe quando já contava com 25 anos.  Ele morava em Santo Ângelo e a mãe em Ijuí. Casaram-se em 1952 e, depois de muitas andanças, estabeleceram-se em Ijuí.
Gostava de ler e pescar; trabalhou na Prefeitura Municipal de Ijuí até aposentar-se, tendo trabalhado em empresas privadas em Santo Ângelo, Porto Alegre, São Luiz Gonzaga e Ijuí. Era maçom.
Exemplo de homem de fé, de força, de honra e ética, educou-nos na maior severidade e exigências, incutindo-nos a ideia de que estudar e ler bastante era o que de mais importante poderíamos fazer por nós mesmos.  Um exemplo de homem correto, idôneo, que amamos até hoje. Faleceu em 2013, aos 85 anos.


                                      GILBERTO, meu marido.
O amor da minha vida conheci aos 20 anos; ele tinha 22.  De origem italiana, natural de Silveira Martins/RS, conquistou meu coração com seu jeito tímido, sua honestidade, sua inteligência e bom humor.  Mas, principalmente, por seu amor, carinho e dedicação. 
Dividimos a vida há 41 anos e meio, e, nesse meio tempo, tivemos nossos três filhos, os filhos mais velhos já nos deram quatro netos, e vamos levando a vida para ela não nos levar.
Gilberto tem altura mediana, cabelos lisos e castanhos, gosta de um bom vinho e de churrasco, infelizmente é torcedor do Grêmio, mas é uma pessoa do bem...risos...
Esforçado, foi persistente para conseguir formar-se em Engenharia de Operação Mecânica, profissão que exerceu durante toda a vida, até aposentar-se. Para tanto, após trabalhar todo o dia em uma fábrica, em Panambi, percorria diariamente em torno de 200 km para fazer a faculdade.  Fez curso de Pós-Graduação em Segurança do Trabalho, na UEL, quando morávamos em Londrina/PR . 

GÉRSON, filho, e VITTORIO, neto.
O meu segundo filho deu-me um grande susto ao nascer, pois tinha duas voltas do cordão umbilical enroladas ao pescoço, tendo sido levado às pressas para oxigênio, pois estava roxo.  Mas sobreviveu, graças a Deus e ao pronto atendimento do pediatra. 
Meu filho é muito parecido com meu sogro, pois nasceu bem branquinho, olhos azuis e cabelos dourados. A genética vai longe.
É muito alto, era mais gordinho mas, agora, está mais magro em vista da frequência à academia de ginástica e alimentação mais saudável.  É formado em Jornalismo, fez Pós-graduação na Área de Comunicação. 
Esteve três anos na Itália, onde e quando praticou o italiano e o inglês que havia estudado.  Trabalhou em um hotel na cidade de Pisa, e realizou mais um curso de Pós-graduação em tradução inglês-italiano na Universidade de Pisa. Hoje é gerente de negócios no Banco do Brasil, e faz MBA em assuntos bancários.
Era um menino arteiro, inteligente, fazia suas tarefas escolares com rapidez para poder brincar. 
É pai de VITTORIO, meu neto mais novo, também loiro, de olhos azuis, só que o cabelo e as sobrancelhas são vermelhos, e estão começando a pintar sardas em seu rostinho.  Lembra o Pimentinha, personagem de HQ.
Muito vivaz, elétrico, arteiro, brincalhão, inteligente, é a alegria na vida desses avós, junto com os demais netinhos.

MARCOS E MOACIR, irmãos.
Marcos, o mais velho, Moacir, o mais novo.
Marcos foi meu companheiro de brincadeiras na infância, pois temos um  ano e um mês de diferença - ele é mais velho. Também foi companheiro de bailes, cinema e shows, na adolescência, por imposição de meus pais - se não me levasse junto, não tinha autorização pra sair.  Tadinho... risos...
É quem me ajuda a cuidar da mãe, hoje.  Formado em Administração de Empresas, é professor da rede estadual de ensino - outra coisa que dividimos, a profissão de professor.
Altura mediana, meio gordinho, moreno com cabelos embranquecendo, é minha força nos dias atuais.
O Moacir, nosso irmão mais novo, foi, como já publicado em outro post, o que mais estive perto, por causa de sua doença mental.  Era uma pessoa afável, carinhosa, preocupado com  a família.  Infelizmente faleceu em 2012, deixando-nos muito tristes.

JOSÉ LUÍS, meu genro, MATEUS E GABRIEL, meus netos.
Este moço moreno, de olhos azuis, conquistou o coração de minha filha Sílvia.  É agricultor dedicado, muito trabalhador, sempre preocupado com a família.  Como todos os agricultores, inicia seu dia de madrugada, e só volta para casa à noite, não tendo domingos e feriados; estes, são nos dias de chuva. Junto com minha filha, deu-me os netos mais velhos, amores da vovó.
MATEUS, menino lindo, com grandes olhos castanhos, como a mãe, é o neto mais velho.  Quando nasceu, e fui vê-lo, encontrei a seu lado minha filha.  Eu não sabia se a pegava no colo, pois eu sabia o que era o parto, ou pegava o neto.  Foi uma das maiores emoções da minha vida.
É inteligente, ama a leitura, como a avó, gosta de escrever e desenhar.  Um grande futuro o aguarda.
GABRIEL, meu segundo neto, pregou-nos um grande susto na hora do nascimento, pois teve que ser feita uma cesárea de emergência.  É um menino muito doce, meigo, inteligente, vivaz, que adora bichinhos.  Talvez um futuro biólogo ou veterinário? Só o futuro dirá o que este menino, de lindos olhos castanhos espertos, será.

VITÓRIO, meu sogro.
Este italiano nascido no Brasil foi, junto com minha sogra, o autor do melhor presente da minha vida: meu marido.
Era loiro, altura mediana, olhos azuis, que distribuiu a genética para neto e bisneto.  Agricultor, marceneiro, pai dedicado, que esforçou-se ao máximo para dar uma boa educação aos filhos.  Enquanto a planta germinava no solo, não ficava parado, trabalhava construindo muitas das casas que ainda existem em Silveira Martins/RS.  Amava o vinho, falava o italiano arrevesado, misturado com português, e contava muitas histórias da fundação da Quarta colônia, no coração do Rio Grande do Sul, onde ascendentes vindos da Itália fundaram uma cidade e trouxeram sua cultura e perseverança para agregar ao povo gaúcho.





domingo, 9 de junho de 2019

ENVELHECER



                        Dedicado a quem já envelheceu,
                        A quem está envelhecendo
                        E a quem envelhecerá.









Minha mãe, pegando um pouco de sol. Proibida a reprodução desta foto. Direitos reservados.

Perguntei a uma jovem: o que é envelhecer?
- É falar de dores, de remédios, de médicos,
Dos filhos, dos netos,
“no meu tempo”....
“não esqueça o casaco e o guarda-chuva...”
“está frio...”

Sob a ótica da juventude,
E de acordo com as vivências observadas,
Talvez seja este um ponto de vista válido.

Mas...reflitamos:
O passear pela vida,
Quando não se parte mais cedo,
Pode ser entendido
Como algo sem medo.

Ao invés da pressa, a calma;
Ao invés da arrogância, a afabilidade;
Ao invés de decisões irrefletidas, a ponderação;
Ao invés de instigar, pacificar;
Ao invés da parcialidade, a imparcialidade;
Ao invés do desperdício, a parcimônia;
Ao invés do sofrimento, o contentamento;
Ao invés da vingança, o perdão;
Ao invés da temeridade, a prudência.

Tiremos a audácia, substituindo pela pusilanimidade;
A quimera, pela realidade;
A insensatez, pela razão;
A afoiteza, pela moderação;
A crueldade, pela misericórdia...

Envelhecer nos deixa mais leves
Nos leva a reconhecer as faltas cometidas
E a aprendermos a nos absolver
E a relevar os erros que cometeram contra nós.

Nos deixa mais cuidadosos
Conosco e com os outros.
Vamos nos purificando lentamente,
Nos despindo do desnecessário,
Da tralha toda que carregamos, pesadamente,
E alimentamos durante nossas vidas.



Lorení/14/10/2018.

sábado, 16 de maio de 2015

Sexagenária


   











 Quando eu era criança considerava que as pessoas que tivessem em torno de 50/60 anos eram velhas.  Quando eu nasci, minha avó materna tinha 51 anos, e foi a avó com quem mais convivemos; ela nunca pintou  o cabelo, então de grisalhos a brancos não demorou muito tempo. Ainda vivia minha bisavó, com 78 anos, a quem chamávamos "vó velhinha", para distinguir da que era mais nova, sua filha. Vó velhinha já era bem judiada, como se diz, cabelinho branquinho, sempre de coque, roupas compridas, um cachecol ao redor do pescoço.
     À medida que o tempo foi passando, e com a evolução ocorrida na vida, nos costumes, na medicina, na educação, na moda, minha mentalidade foi acompanhando. Também meus estudos fizeram minha cabeça.
     Hoje, logo após ter completado sessenta anos, não me considero velha.  Não que os achaques da idade não tenham começado a chegar: dor aqui, dor ali, um desgaste aqui, outro acolá, a geada queimando meus cabelos outrora pretos, alguma dificuldade para andar, dançar, fazer exercícios...
     Todavia, a cabeça julgo boa, aliás, ótima.  Continuo amando a leitura, o estudo - até penso em fazer um doutorado -, as viagens, gosto de caminhar e fazer exercícios, embora de forma um pouco limitada.
     E achei o meu estilo.  Não saberia me definir - alguém sabe?  Sem rótulos, como já pedi em outra postagem. Em síntese, a moda não me pega mais.  Na juventude, a ditadura da moda me pegou direitinho - eu queria acompanhar meu tempo, seguir as tendências e, segundo uma famosa revista, ser "antenada".  Embora sempre com olho crítico, fiel ao espelho,  não usando o que considerasse ridículo em mim, durante muito tempo fui escrava das revistas/jornais/conselhos sobre moda. Mesmo com condições financeiras precárias, tinha uma costureira perto de minha casa que copiava os modelos das famosas para mim; os tecidos eram baratos, a mão de obra também, então me sentia feliz.  Creio que consegui libertar-me, e hoje só uso o que gosto, que seja confortável, e com o que me sinta bem. Sapatos muito altos, jamais; de bico fino, só mandados fazer de acordo com meus pés.
     Minhas avós, tanto materna quanto paterna, não tiveram condições de estudar; nem minha mãe. Nem meus avós, nem meu pai.  Já para mim, o estudo é algo orgânico, inerente a minha pessoa.  Tanto meus pais repetiram a nós, seus quatro filhos, que sem estudo não seria ninguém, que esta afirmação calou fundo em minha mente.  Amo estudar, dou o maior valor às pessoas que estudam, e fiz tudo que pude para meus filhos mais velhos chegarem, pelo menos, ao curso de pós-graduação que eu e meu marido alcançamos.  Eu tenho três graduações e um pós.  E pretendo encaminhar a mais nova até o doutorado, se ela quiser.
     Ser avó.  Este era, também, um dos meus sonhos.  Meus filhos mais velhos já me permitiram realizar este sonho.  São três meninos e uma menina, um mais lindo que o outro, todos muito inteligentes, queridos, carinhosos, educados.  Fazem a minha alegria e de meu marido. Embora não morem na mesma cidade que eu, quando nos encontramos sempre é motivo de festa, e ocasião especial para um "churrasquito", como diz um deles.
     E para registrar  o fato de chegar à idade em que as leis brasileiras nos consideram pessoa idosa, fiz uma festa, com tudo a que achava que tinha direito.  Chamei a família, as pessoas amigas mais chegadas, e fizemos um jantar, com direito a cardápio especial (sou celíaca e havia muitos diabéticos na festa), música com dj e dança, com músicas escolhidas a dedo por mim.  Afinal, a festa era minha;  quando vou na festa dos outros, tenho que aguentar até as músicas que não gosto.
     E continuo amando as flores, principalmente as rosas vermelhas, como também continuo gostando da cor vermelha; não é por que o tempo passou que deixei de gostar de algumas coisas das quais gosto desde criança.  A minha menina continua viva dentro de mim.
     Afinal, como disse meu irmão, agora somos 'sexigenários', os sexagenários sexis (e sempre que vejo esta palavra, me lembro da princesa Isabel, que sancionou a lei dos sexagenários escravos.  Creio que me libertou também). Nem que seja só na cabeça...


                                         




     
     


     

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os 80 anos de minha mãe

     








D. Noemi cortando seu bolo de 80 anos. Fotos da autora, proibida a reprodução sem autorização.


Já escrevi em outro post sobre minha mãe. Noemi é seu nome.
      Agora pretendo comentar o que sei sobre seus 80 anos.  Completar esta idade não é fácil, se quisermos ter saúde. Ela se encontra razoavelmente bem.
      Alguns dados já se encontram na postagem "Minha mãe"; perdoem-me se estou repetindo.  É a emoção por tê-la como minha mãe e por ter ajudado a preparar uma comemoração digna dela, como fizemos quando meu pai completou seus 80 anos também.
      Como já mencionei alhures, ela nasceu na cidade de Santa Rosa/RS, em 12 de março de 1935, na localidade de distrito de Tucunduva, que hoje é município.  Como era difícil o acesso à cidade, meu avô aguardou mais de um ano para efetuar seu registro; como minha tia Ruth também ainda não estava registrada, para não pagar multa, meu avô registrou-as como gêmeas, em 2 de julho de 1936.  E a tia era mais velha que a mãe uns dois anos.
Meus avós já tinham a filha mais velha, Eva; eram 3 meninas pequenas.  As condições de vida eram precárias, meu avô fazia o trabalho de agrimensor; também eram agricultores; ele acompanhava os engenheiros na abertura e construção de estradas por este Rio Grande de Deus. A vó era originária de Ijuí/RS, e meu avô de Santana do Livramento, mas estiveram um período por lá, tentando melhoria de vida, pois ouviram anúncios de que o governo daria terras para cultivar; entretanto, esta benesse não os alcançou e, diante das dificuldades, retornaram para Ijuí.
     Meu avô foi trabalhar na Prefeitura Municipal; era o responsável pela força e luz em toda a cidade.  Minha avó era dona de casa; além de cuidar da prole, que se multiplicava a cada dois anos - tempo durante o qual  minha avó amamentava os filhos - cuidava da casa, fazia doces, pães, bolos, conservas, e cultivava, além de uma enorme horta aos fundos da casa, árvores frutíferas e um belo jardim à frente da casa. Isto já comentei no post sobre lembranças da infância.
     Minha mãe foi crescendo junto com os irmãos, que foram sete no total. Oito filhos Maria e Bento tiveram, que se criaram, além dos dois que faleceram pequenos ainda.  Naqueles tempos, doenças que hoje têm cura, para tanto não tinha, e as crianças viravam anjinhos.
     Frequentou a Escola Estadual Ruy Barbosa, que hoje é uma escola somente de ensino fundamental e fica a meia quadra de onde moro, enxergo seu telhado todos os dias, e acompanho a balbúrdia da criançada sempre. 
     Segundo minha mãe conta, meu avô tocava violão e cavaquinho; esta parte também já comentei lá atrás; ele deve ter aprendido "de ouvido", pois frequentar aulas de música era um luxo a que não se poderiam dar.  Minha mãe gostava muito quando meu avô sentava-se, à tardinha, puxava um dos instrumentos musicais e cantava, reunindo em torno de si os filhos e a mulher. Ela já tinha o dom da música, mas nem pensar em ir atrás dele e estudar.
     Começou a trabalhar enrolando balas na Fábrica de Balas Soberana, com 13 anos; depois trabalhou em uma padaria, indo, posteriormente, para a empresa Bernardo Gressler, onde fazia o fechamento das vendas à vista e a prazo, auxiliando na contabilidade.  Era exímia nas contas, achava diferenças com facilidade, e era amada e admirada, com seus lindos cabelos pretos ondulados, por todos os colegas do escritório. Também já mencionado no outro post.
     Foi nesta época que conheceu meu pai.  Ela contava 15 anos, ele 23.  Foi na inauguração do tempo da Igreja Metodista de Ijuí.
     Dois anos depois estavam casados, e fixaram residência em Santo Ângelo/RS.
     Em 1954 nasceu meu irmão Marcos; em 1955 eu; em 1956 meu irmão Paulo; logo após  houve um menino natimorto; em 1962 o Moacir nasceu; em 1975, outro menino natimorto.  De seis, criamo-nos 4.
     Minha mãe, além de dona de casa, dedicou grande parte de sua vida aos trabalhos voluntários na Igreja Metodista de Ijuí.  Dentro da hierarquia da igreja, exerceu diversas funções, quais sejam: foi Secretária da Escola Dominical, Presidente, Tesoureira, Secretária da Sociedade Metodista de Mulheres; foi agente da Voz Missionária, do No Cenáculo e de outras revistas da instituição. Durante toda sua vida, até uns cinco a dez anos atrás, quando começou a ter problemas de saúde, foi ativa tanto na igreja quanto na sociedade de mulheres, participando das mais variadas promoções; liderava quando decidiam fazer a famosa "sopa de mocotó", prato típico gaúcho, em que era exímia.  As pessoas só compravam os cartões se fosse ela que fizesse.
     Sua vida se resumia em cuidar da família e participar das atividades da igreja.
      Como já falei no outro post, depois que saímos de casa, foi estudar música, realizar o seu sonho.  Além do deleite próprio e da família, pretendia tocar na igreja, para que as pessoas não cantassem tão desafinadas e fora do contexto musical correto.  Criou o primeiro coro da igreja local.  Também participou do Coral Municipal de Ijuí, que existiu durante algum tempo.
     Entretanto, uma pessoa que faz parte da congregação local, por ocasião do batizado de sua filha, exigiu - como se alguma autoridade tivesse - que ela não tocasse, pois não gostava de hinos tradicionais e da música do órgão.  Demonstrando crueldade, ignorância e estultícia, feriu profundamente minha mãe, com palavras duras e humilhantes.  Depois deste fato, ela nunca mais tocou na igreja.  Embora esteja com as características do mal de Alzheimer, nunca esqueceu deste fato, e fala dele diariamente, em suas repetições.  A pessoa que cometeu esta insanidade nem sonha o mal que fez a ela.  A família espera que Deus faça justiça com relação à mesma.
     Minha mãe cuidou de meu pai até sua morte, em 2013.  Foram quase 61 anos de vida em comum. No post "Bodas de Diamante" comento este fato.
     Muitas pessoas mais jovens não sabem o que é ter um casamento duradouro, nem conseguem imaginar a beleza da cumplicidade deles, o respeito que tinham um com o outro, e o carinho através do apelido carinhoso "negrinha/negrinho".
     Quando meu irmão mais novo faleceu, tive que, juntamente com meu irmão mais velho, comunicar a ela e a meu pai o que tinha acontecido.  Foi o pior dia da minha vida, fiquei desesperada; mas tivemos que enfrentar.  A todas as vicissitudes da vida enfrentou de cabeça erguida, embora muitas vezes abaixasse a cabeça para chorar e pedir forças  ao Deus da sua fé, para logo em seguida seguir, encarando a vida de frente.
     Ela ainda nos conhece, e a todas as pessoas mais chegadas - parentes, amigos - mas, aos poucos, sua memória está se retraindo, mostrando-nos muitos fatos de sua infância e juventude, mas esquecendo às vezes de pentear o cabelo, quem a visitou ontem ou hoje, que dia da semana ou do mês é, e em que ano estamos.  Assim como foi com meu pai, e duas irmãs dela, aos poucos a luz da vela está se apagando, bem devagarinho, para que a gente não sinta.  Já não consegue manter uma conversa, perde o fio da meada, e volta para as suas repetições.  Fixa alguns pensamentos ou acontecimentos que são fortes: não esqueceu a visita do neto, que trouxe o bisneto para conhecer; que a irmã e a sobrinha vieram de Porto Alegre para seu aniversário; que tinha bastante gente na festa, porém não sabe dizer quem. A incomodá-la, ainda, o diabetes, que prejudica seu prazer pelos doces, e a impede de comer o que gosta.
     Apesar de todos os pesares, vai levando a vida, com o auxílio dos três filhos que lhe sobraram, e com as cuidadoras que, além de desempenharem suas funções, tornaram-se amigas de minha mãe, por sua bondade e forma de tratar as pessoas.
     Aqui fica minha homenagem a ela, com um grande abraço e um beijo gostoso.
     Amo a senhora, mãe!


     
Minha mãe, meu irmão mais velho e eu.


domingo, 21 de outubro de 2012

Bodas de diamante.

Nos nossos dias, coisa mais difícil é encontrar um casal que esteja casado há mais de um ano, dois.  Meu marido e eu já somos raridade, pois estamos casados há quase 35 anos.  Já somos vistos como animais em extinção, pelo menos aqui no Brasil.
Mas mais raro, creio que raríssimos, quase 'ets', são meus pais: conquistaram a glória de estar casados há 60 (sessenta) anos.  Há uma lista que nos informa que tipo de bodas cada ano de casados representa, que é de domínio público.  Os 60 anos são Bodas de Diamante.
Creio que pessoas ricas que alcançam esta data se presenteiem mutuamente com anéis de diamante, para representar realisticamente esta data, para eles importante.  Nós, pobres mortais, conseguimos colocar um brilhante, não menos expressivo em sentimentos, nas alianças de nossos pais.
Não que este tempo todo tenha sido de brancas nuvens, ou de morangos e chantilly no café da manhã.  Enfrentaram eles ventos e tempestades durante todos estes anos, sinalizando o fato de serem brasileiros e pobres; sinalizando a dificuldade de criar e educar quatro filhos, desde o tempo das ditaduras que passaram por nosso país, à época atual, em que se vive uma democracia aparente (nós, povo, temos o sentimento de ditadura branca do PT sobre nossas cabeças).  Também sinalizando vitórias e derrotas sobre doenças que se abateram sobre os componentes da família; mais vitórias, pois meus pais estão aí, firmes, ele com 85 anos e ela com 77.  Embora meu irmão mais novo tenha falecido este ano, os demais mantém-se unidos, cuidando de seu tesouro, seus velhos pais.
Aqui minha homenagem a eles, que souberam tão bem contornar estes 60 anos de vida, tanto sorrindo nos dias de sol, perfume das flores e primavera, como chorando nos dias de tempestade e turbilhões.  Ensinaram-nos a viver a vida com tudo que ela  apresenta, sorrindo e chorando, conforme a circunstância. Este tempo representa para nós uma lição sobre amor, perseverança, não desistir do outro, enfrentar dificuldades, comemorar alegrias, respeito, união, companheirismo,  felicidade.
Aos meus pais, meu abraço carinhoso, e o orgulho de ser sua filha.










Meus pais e suas alianças com brilhantes, símbolo de seus 60 anos de casados. (Imagem de
Athena, reprodução proibida)

domingo, 1 de julho de 2012

Minha mãe.



Há muito queria escrever sobre minha mãe.  Ano passado escrevi sobre meu pai, à época do Dia dos Pais aqui no Brasil, que é em agosto, e quando do aniversário dele, em setembro. Então pensei em escrever em março, aniversário dela - não tinha condições, a morte de meu irmão era recente, seu aniversário nem foi comemorado, pois nove dias depois da morte dele.  Deixei para maio, no dia das Mães.  Mas eu ainda estava sem estrutura psicológica para isto. 
O tempo, que tudo cura, ou, pelo menos, ameniza as dores, está fazendo seu trabalho.  Não que as feridas da tristeza tenham se acabado, mas estão cicatrizando, cada dia um pouco.  Vejo isto na minha mãe também, uma mulher que dizer de fibra é pouco; que dizer heroína, é pouco; que dizer valente, é pouco; que dizer persistente, calma, firme, mulher de fé, de coragem, um amor sem tamanho pelos filhos, pela família, pelo companheiro da vida inteira, é só começar a falar a verdade.
Minha mãe nasceu em Tucunduva, um distrito do Município de Santa Rosa; seus pais eram agricultores, e estavam à procura de uma vida melhor, então saíram de Ijuí, mais precisamente Alto da União, e foram em busca de um sol a brilhar em suas vidas pobres.  Lá nasceram minha mãe, e se não me engano, também a tia Ruth. Quem souber melhor a história da família, me corrija, se eu estiver errada.
Ela e esta querida tia cresceram juntas, muito unidas, brincando, estudando, fazendo artes juntas, visto que sua diferença de idade é pequena.
Minha mãe gostava de estudar, mas só estudou até o 5º ano primário; infelizmente, à época, para famílias pobres, era difícil que seus filhos e filhas continuassem estudando.  Embora ela tenha ganho uma bolsa de estudos para fazer o magistério no Colégio das Irmãs, por ter tirado o primeiro lugar na turma, meu avô não deixou que continuasse estudando pois tinha que trabalhar para ajudar a família.  Coisas da época e da situação financeira familiar - casal e 7 filhos para criar!
Conta ela que meu avô tocava cavaquinho, e, à tardinha, todo dia sentava ele, após o trabalho, tocava e cantava músicas populares, o que a deixava enlevada.  Sempre foi muito afinada, e gostava de cantar; também gostaria de ter aprendido música, quando criança, mas, infelizmente, não deu.
Minha mãe começou a trabalhar aos 13 anos, na empresa Gressler, de Ijuí; ajudava na contabilidade e serviços gerais de escritório; era exímia na matemática, fazia contas como ninguém.
Única brasileira no meio de descendentes de alemães, havia aprendido algumas palavras nesta língua, o que lhe permitia responder em português a perguntas feitas em alemão; fato engraçado, que fez com que suas colegas não mais falassem em alemão na sua presença, pois achavam que ela entendia tudo... Como ela tinha os cabelos pretos, longos e crespos, adoravam fazer penteados, nos momentos de folga, coques e ajeitar seus cabelos.
Minha mãe conheceu meu pai com 14 anos; foi no culto de inauguração da Igreja Metodista de Ijuí; ele morava em Santo Ângelo; corresponderam-se durante um tempo, depois ele veio visitá-la, firmaram namoro e, quando ela tinha 17 anos e ele 25, casaram-se, formando um casal que se ama até hoje, e irão completar 60 anos de casados em setembro.  Desta união saímos nós, eu e mais 5 irmãos homens, sendo que dois foram natimortos. 
Minha mãe enfrentou todo tipo de dificuldade: moraram em lugares de difícil acesso, onde não havia água nem luz; teve os filhos na época em que não havia praticamente assistência médica, e era atendida por parteiras - graças a Deus experientes, que a ajudaram a nos fazer nascer com competência.
Sempre nos cuidou e educou com amor, carinho, compreensão, competência e visão, incentivando-nos a estudar e encarando os problemas de frente, nunca baixando a cabeça, sempre orando e pedindo a proteção divina para toda a família.
Embora quisesse trabalhar fora e ter  sua renda, não o fez a pedido - ou imposição - de meu pai, que é um homem "às antigas", para quem a mulher deveria ficar com as atividades do lar, somente.  E desempenhou-as com amor e competência - cozinheira de mão cheia, sempre fez delícias para saborearmos, de pratos salgados a doces, bolos, tortas, salgadinhos, almoços, jantares...e cuidou da casa e de nós com mão firme.  Ajudou meu pai a enfrentar as mais diversas difi culdades, sendo a companheira fiel, o braço firme ao redor de todos nós: doenças, desemprego, condições adversas, tudo sempre encarou com garra, uma lutadora.  E, também, nos momentos de alegria, festa, confraternização, vitórias,  era a primeira a dizer: vamos festejar, que a vida é curta!
Quando crescemos e começamos a sair de casa,  minha mãe, finalmente, pôde realizar um sonho: foi aprender música!  Com as mãos já um pouco emperradas, com 45 anos, aprendeu piano.  Seu sonho era tocar os hinos na igreja lendo as partituras musicais.  Foi, com dificuldade, mas com persistência, que conseguiu realizar seu sonho: tocou em casamentos, festas, tocava em casa, em cultos, etc.  Formou um côro que cantava nos cultos, tornando-os mais alegres e emocionantes.
Quando a família descobriu que meu irmão mais novo era doente mental, foi a primeira a encarar de frente o problema, procurar tratamentos, acompanhá-lo, cuidá-lo e protegê-lo até o fim de sua vida.  Nunca esmoreceu.  Tinha fé que a medicina ia encontrar a cura para a esquizofrenia - que eu chamo de  o câncer da alma -.  Infelizmente a medicina não evoluiu para tanto.
Apesar de todas as coisas ruins que aconteceram na vida, minha mãe é otimista.  O que ela me  passou, repito para ela agora: cada dia é uma bênção de Deus, e cada vida também.
Agradeço a Deus por ter a minha mãe ao meu lado, agora que voltei pra minha terra.  Mesmo quando estava longe, a quase 1000km de distância, era só ouvir sua voz ao telefone que eu já me sentia melhor.  Estar perto dela, poder cuidá-la e do meu pai, também, é uma alegria muito grande.  
Seus ensinamentos, sua fé, sua firmeza, seus princípios norteadores de vida irão me acompanhar a vida toda, e sua maneira de viver procuro transmitir também a meus filhos e netos.
Tê-la por perto me acalma e me anima, minha mãe.  Obrigada por ser como é e por ser minha mãe.






terça-feira, 29 de maio de 2012


UMA REFLEXÃO SOBRE A VELHICE




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OS DIREITOS DOS IDOSOS



                 Recordando sobre muito do que li na Bíblia sobre pessoas mais velhas,  recordei-me destas duas passagens:
                     Êxodo, 20:12: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”.
            Isto lembra minha infância e adolescência, quando decorei os 10 Mandamentos, e procurei, sempre na medida do possível, segui-los. Digo na medida do possível por considerar-me uma pessoa que comete muitos erros e que se acha humana, demasiado humana.
                  A segunda passagem bíblica é esta:
                 Eclesiastes, 3:1-8.  “Tempo para tudo. Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer;  tempo de guerra e tempo de paz.”
                 Temos dois enfoques que podem nos conduzir à reflexão sobre a velhice.  Um  nos remete diretamente a nossos pais, ou às pessoas que exercem o papel de pais em nossas vidas.  São os 10 Mandamentos que nos ordenam honrá-los.  Se formos ao dicionário, teremos o significado de honrar, que é estimar, respeitar, venerar ou reverenciar. Podemos resumir em Respeitar e ter afeto.
O outro nos faz pensar que tudo na vida tem um começo, um desenvolvimento e um fim.
                 Nós, seres humanos, nascemos, nos desenvolvemos, ficamos jovens e lindos, criamos nossas  famílias e vamos rumo ao cumprimento dos propósitos de nossas vidas, quando começamos a envelhecer.
                       Aqui no Brasil ainda não existe uma educação para o respeito às pessoas mais velhas.  Existia, até um tempo atrás, mas a forma como as pessoas vêm sendo educadas nas últimas décadas tem tirado das novas gerações o respeito por elas.  Igualmente, de parte do poder público e da sociedade como um todo, não havia  interesse pelas pessoas mais velhas.  Não havia produtos direcionados a elas, saúde, lazer, educação, trabalho, o que quer que seja. Porém, como a população vem envelhecendo, todos deram-se conta de que é necessário olhar para as pessoas que se encontram nesta fase da vida.
                   Com base nisto, e nos direitos assegurados pela Constituição Federal, entrou em vigor o Estatuto do Idoso, Lei 10741 de 2004, que estabeleceu mais claramente os direitos dos idosos.
                      Para entendermos melhor o que é  idoso, vejamos as palavras que vêm sendo usadas para o definir: velho, idoso, ancião, 3ª idade, 4ª idade, maturidade, melhor idade, idade da razão... a idade é apenas uma referência.  Não é só o processo degenerativo do corpo ou da mente que nos diz quem é velho, mas vários fatores.
                    De acordo com um autor italiano, Norberto Bobbio, a velhice pode ser compreendida de três formas:
1ª – velhice cronológica – é a idade; por exemplo, no Brasil, a partir de 60 anos, as Leis consideram a pessoa idosa;
2ª – velhice burocrática – é a partir de quando as pessoas podem começar a receber benefícios previdenciários, como aposentadoria por idade ou passes livres nos transportes públicos;
3ª – velhice psicológica – ou subjetiva, é quando a pessoa se sente velha.
                        Na nossa Constituição Federal estão assegurados os seguintes direitos às pessoas com mais de 60 anos:
“Art. 230- A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.
§1º - Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares.
§2º - Aos maiores de 65 anos é garantida a gratuidade dos transportes coletivos urbanos”.  Na realidade, lei posterior determinou aos 60 anos.
                           O Estatuto do Idoso prevê:
“Art.3º - É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.”
Vemos que são muitos os direitos dos idosos, já assegurados a todos na Constituição Federal dentro dos direitos fundamentais dos cidadãos e cidadãs, que continuam vigorando enquanto as pessoas tiverem um sopro de vida.
                       Para concluir, algumas meditações de Pérola Braga, autora do livro Curso de Direito do Idoso.  Logo no início, ela manda uma mensagem aos seus filhos, que achei muito interessante, e pode servir de exemplo a todos nós:

“Aos meus filhos (...):
Na minha velhice
Tratem-me com carinho
E muito respeito.
E mesmo que eu perca a lucidez,
Não se esqueçam do que eu pensava
E de como eu agia enquanto era lúcida.
E façam sempre a pergunta:
O que ela decidiria se estivesse lúcida?
E ajam conforme a resposta que lhes vier à consciência
Pois ela estará alimentada pela implacável memória dos meus tempos de luta
Pelo Envelhecimento Digno!”

                     Outro texto que esta autora colocou em seu livro, é 

Uma  oração para a velhice
                                   De John O’Donohue

Que a luz da tua alma cuide de ti.
Que toda a tua preocupação e ansiedade
Por envelhecer seja transfigurada.
Que te seja concedida uma sabedoria
Com o olho da tua alma,
Para enxergar este belo tempo de colheita.
Que tenhas o compromisso de colher a tua vida
Cicatrizar o que te feriu,
Permitindo-se chegar mais perto de ti
E fundir-se contigo.
Que tenhas grande dignidade.
Que tenhas consciência do quanto és livre e,
Acima de tudo,
Que te seja concedida a maravilhosa dádiva
De encontrar a luz  eterna
E a beleza que está no seu íntimo.
Que sejas abençoado e que descubras um
Amor maravilhoso em ti por ti mesmo.”
                           
                               Esta reflexão levei para uma reunião de Senhoras evangélicas; todos temos a obrigação, profissionais ou cristãos, de ajudar a esclarecer as pessoas sobre fatos que tenham relação direta com suas vidas.  Creio ter ajudado um pouco na aquisição de conhecimento.