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domingo, 13 de maio de 2018

DIGNIDADE DE MULHER



Um dia eu me vi
Minha mãe ao piano.
do jeito que comecei a ser
e por esta vida vivi
durante todo o meu crescer.
Ao meu lado, apoiando
Vi uma mulher que,
sorrindo, às vezes chorando,
acompanha-me desde o nascer.

Esta mulher, pouco mais que uma criança,
ao encontrar seu amor, muito jovem,
assumiu obrigações
de uma casa cuidar;
com pouca idade ainda, começou a função
de muitas bundinhas lavar...

Com amor, muito carinho,
sofrimento, dificuldades,
as criaturas geradas foi ajudando
 a escolher seus caminhos.

Houve problemas - e quantos!
Houve angústias - aos montes!
Houve receios - inúmeros!
Inseguranças - às fartas! 

Aparentemente fraca e submissa,
profundamente humana, compreensiva
muitas vezes usou seu carisma
para, pelos filhos, interceder.

No fundo do seu ser,
no âmago da criatura,
apesar da falta de cultura
(dessa de faculdade)
um sentimento, uma necessidade
de um objetivo maior,
da realização ao lado
da maternidade.

Os rebentos cresceram,
desenvolveram suas capacidades
por ela e pelo companheiro
apoiados, estimulados.
E então, eles se espalharam.

Esta criatura,
com o dom e o fino sentido musical
aguçado, incentivado afinal,
começou a brotar, crescer,
florescer e desabrochar.

Na meia-idade,
já com alguns netos ao redor,
com muitas emoções vividas,
começou a frequentar aulas de música.

As mãos meio emperradas,
alguma lerdeza motora,
mas ela não desistiu;
e a música entrou em sua alma
através das mãos
e nunca mais saiu.

Mulher...minha mãe,
quanta emoção eu sinto
e orgulho de falar
que ela persistiu em seu sonho,
ao mesmo tempo em que
outros problemas da vida
vieram lhe perturbar.

Tenho certeza que a pessoa que tiver
muita força de vontade
a par da lutas incessantes
merece a dignidade
de ser chamada MULHER!


Fiz este poema para minha mãe em 04 de maio de 1986.  Era uma homenagem ao dia das mães e o publico hoje, também no dia das mães, em sua homenagem.
O mal de Alzheimer já não lhe permite mais tocar piano; mas colocando para ouvir músicas que ela ama, canta junto, relembra as letras, seus olhos brilham.

 

quarta-feira, 8 de março de 2017

As mulheres fundamentais da minha vida


Todas nós temos pessoas que nos influenciaram na vida. Algumas de forma fundamental, outras um pouco menos; mas todas fazem parte do nosso coração e da nossa mente. As que comentarei abaixo ou deram origem à minha vida, ou dela participaram e/ou participam de uma forma essencial. Posso já ter comentado sobre elas em algum post, mas aqui, agora, estou especificando, neste dia Internacional da Mulher, para homenageá-las.

Felicidade (vó Dadade)


 Nascida em 26 de fevereiro de 1902, a mãe do meu pai foi uma mulher de seu tempo: uma guerreira em todos os sentidos da palavra. Casou-se com 16 anos - o normal para a época; teve 15 gestações, sendo que dois bebês faleceram, criando 13 filhos e filhas. Morou em uma fazenda, no meio do mato, onde plantava e colhia alimentos para a família sobreviver, auxiliada por meu avô, que saía a vender a produção (carreteiro) e demorava muito a voltar; cortava lenha; matava animais para alimentar a prole (porcos, galinhas, etc); fazia toda a lide doméstica, posteriormente ajudada pelos filhos mais velhos; costurava, bordava, fazia crochê,  ah, inclusive, matava cobras e outros animais peçonhentos que aparecessem e colocassem em perigo seus filhos.  Olhando para ela, tinha uma aparência frágil;  calma, alta, magra, a pele muito branca e muito fina.  Uma fortaleza.

Maria Augusta (vó Deza) 

 Nascida no dia internacional da mulher, em 8 de março de 1904, vó Deza, como a chamávamos, teve capital influência sobre minha vida. Ao  contrário de minha avó paterna, não casou tão jovem para a época, pois contava com mais de 20 anos. Teve 10 filhos, 2 faleceram ainda pequenos, criou 8 filhos; batalhadora, foi criada na roça, plantava, colhia, organizava e cuidava da casa e dos filhos; foi alfabetizadora durante muitos anos; era leitora voraz dos mais variados tipos de livros, revistas e jornais; fazia doces, pães, bolos e cucas como ninguém, além de crochê, costura e outras tantas atividades. Magra, altura mediana, estava sempre alegre e adorava conversar. Na minha adolescência bati longos papos com a vó, pois adorava quando contava as histórias de antigamente, histórias estas que registrou no livro "Memórias da Vó Deza", da Coleção Centenário da Unijuí Editora, que ajudei a publicar. 

Noemi, minha mãe.

Já escrevi bastante sobre ela em outros posts; desnecessário dizer da relação de amor e carinho que temos até hoje uma com a outra; minha companheira de papos, minha orientadora e educadora na vida, não só com relação à educação em geral, como também aos cuidados que teve comigo desde sempre, inclusive depois de adulta, quando passei por dificuldades, quando tive meus filhos e ela me ajudou, em tudo. Minha mãe é minha base, junto com meu pai; sem ela, eu não seria quem sou.
Agora é quase minha filha, pois o mal de Alzheimer a acompanha diariamente e, juntamente com meus irmãos, invertemos o papel. Mas mantém o bom humor, está sempre brincando, cantando, não é ranzinza.  Até há pouco tempo atrás, estava sempre pronta para fazer um passeio, uma viagem, e sempre adorou festas e comemorações, sentimento que passou-me e que cultivo com alegria.

Sílvia e Heloísa, minhas filhas.

A primeira deu-me a dimensão primeira do que é ser mãe; primogênita, seus lindos olhos negros e seus longos cabelos pretos e lisos me enchem de orgulho e alegria. Seu jeito de ser, inteligente, seu temperamento cuidadoso e responsável, seu lindo sorriso alegram meus dias. Junto com meu genro, trouxe-me dois lindos netinhos, que amo de paixão.
A segunda, minha caçula, fez-me recordar, após 20 anos do nascimento do meu filho, as alegrias da gestação e da maternidade, em um momento mais tranquilo da minha vida. Seus lindos olhos e cabelos castanhos, cabelos rebeldes e volumosos como os meus, seu temperamento adolescente, sua inteligência e agudeza de pensamentos alegram minha vida; seu sorriso me encanta e é um bálsamo para minha alma. Ótima estudante, esforçada, estudiosa, carinhosa ao extremo, é companheira minha e do pai, neste momento em que estamos a dobrar o cabo da boa esperança...

Phatsy, nora, e Nicolle, neta

Esta linda morena entrou na vida do meu filho e na nossa para trazer mais luz, alegria, vivacidade, gentileza e dois lindos netos. Minha nora é uma grande mulher - não só na altura física, pois quase acompanha a altura do meu filho - mas também na maneira de encarar a vida. Lutadora desde nova, como são as mulheres desde sempre, trabalhou e estudou para sobreviver em um mundo que exige muito de todas nós, como todas as mulheres que mencionei. 
Junto com  meu filho, presenteou-me com dois lindos netinhos, sendo que a Nicolle faz parte das mulheres fundamentais da minha vida. Menina linda, meiga, carinhosa, inteligente, ganha da vovó nos jogos de memória, foi no cinema com a vovó e a titia, dança balé e estuda, prevendo-se um futuro agitado e maravilhoso para ela.

Madrinha Eva

Também já mencionei-a em um post.  Mulher batalhadora, de personalidade forte, estudiosa, inteligente, responsável, o exemplo da mulher que começou a trabalhar no meio do século passado, e ainda cuidava da família, como todas nós.  Para mim, foi um exemplo de mulher que tem seu trabalho fora de casa, tem a sua renda, suas responsabilidades, compromissos e não abaixa a cabeça nunca; a primeira feminista que conheci.

Tia Nara

A irmã mais nova de minha mãe é poucos anos mais velha que eu; praticamente crescemos juntas, somos amigas desde a minha infância; quando adolesci, foi minha companheira de bailes, festas, shows; também fomos colegas de trabalho, madrinhas de casamento uma da outra, e somos madrinhas de nossas filhas.  Uma companheira da vida inteira, amizade que não tem fim.

Ana Leonida, minha sogra.

Outro exemplo de mulher lutadora. Casou já madura com meu sogro, e deu-me, como ela mesma me disse, um dos mais belos presentes da minha vida: meu marido. Italiana de origem, começou cedo nas lides domésticas; atendia a cozinha, no hotel que seu pai tinha, juntamente com as irmãs.  Posteriormente, dedicou-se à vida familiar e à cultura agrícola;  teve 4 filhos, os quais criou na mais severa cultura italiana e católica; trabalhava na roça parelho com meu sogro, mas era a primeira a levantar, para tirar leite das vacas às 5 da matina, e a última a descansar, depois de todas as tarefas domésticas, costura, crochê, entre outras atividades.

Mulheres fortes, trabalhadoras, resistentes, de fé, de lutas, de coragem, de ânimo, de alegria, de felicidade, de tristeza, de tudo que compõe um ser humano. Exemplos de vida.

 

sábado, 16 de maio de 2015

Sexagenária


   











 Quando eu era criança considerava que as pessoas que tivessem em torno de 50/60 anos eram velhas.  Quando eu nasci, minha avó materna tinha 51 anos, e foi a avó com quem mais convivemos; ela nunca pintou  o cabelo, então de grisalhos a brancos não demorou muito tempo. Ainda vivia minha bisavó, com 78 anos, a quem chamávamos "vó velhinha", para distinguir da que era mais nova, sua filha. Vó velhinha já era bem judiada, como se diz, cabelinho branquinho, sempre de coque, roupas compridas, um cachecol ao redor do pescoço.
     À medida que o tempo foi passando, e com a evolução ocorrida na vida, nos costumes, na medicina, na educação, na moda, minha mentalidade foi acompanhando. Também meus estudos fizeram minha cabeça.
     Hoje, logo após ter completado sessenta anos, não me considero velha.  Não que os achaques da idade não tenham começado a chegar: dor aqui, dor ali, um desgaste aqui, outro acolá, a geada queimando meus cabelos outrora pretos, alguma dificuldade para andar, dançar, fazer exercícios...
     Todavia, a cabeça julgo boa, aliás, ótima.  Continuo amando a leitura, o estudo - até penso em fazer um doutorado -, as viagens, gosto de caminhar e fazer exercícios, embora de forma um pouco limitada.
     E achei o meu estilo.  Não saberia me definir - alguém sabe?  Sem rótulos, como já pedi em outra postagem. Em síntese, a moda não me pega mais.  Na juventude, a ditadura da moda me pegou direitinho - eu queria acompanhar meu tempo, seguir as tendências e, segundo uma famosa revista, ser "antenada".  Embora sempre com olho crítico, fiel ao espelho,  não usando o que considerasse ridículo em mim, durante muito tempo fui escrava das revistas/jornais/conselhos sobre moda. Mesmo com condições financeiras precárias, tinha uma costureira perto de minha casa que copiava os modelos das famosas para mim; os tecidos eram baratos, a mão de obra também, então me sentia feliz.  Creio que consegui libertar-me, e hoje só uso o que gosto, que seja confortável, e com o que me sinta bem. Sapatos muito altos, jamais; de bico fino, só mandados fazer de acordo com meus pés.
     Minhas avós, tanto materna quanto paterna, não tiveram condições de estudar; nem minha mãe. Nem meus avós, nem meu pai.  Já para mim, o estudo é algo orgânico, inerente a minha pessoa.  Tanto meus pais repetiram a nós, seus quatro filhos, que sem estudo não seria ninguém, que esta afirmação calou fundo em minha mente.  Amo estudar, dou o maior valor às pessoas que estudam, e fiz tudo que pude para meus filhos mais velhos chegarem, pelo menos, ao curso de pós-graduação que eu e meu marido alcançamos.  Eu tenho três graduações e um pós.  E pretendo encaminhar a mais nova até o doutorado, se ela quiser.
     Ser avó.  Este era, também, um dos meus sonhos.  Meus filhos mais velhos já me permitiram realizar este sonho.  São três meninos e uma menina, um mais lindo que o outro, todos muito inteligentes, queridos, carinhosos, educados.  Fazem a minha alegria e de meu marido. Embora não morem na mesma cidade que eu, quando nos encontramos sempre é motivo de festa, e ocasião especial para um "churrasquito", como diz um deles.
     E para registrar  o fato de chegar à idade em que as leis brasileiras nos consideram pessoa idosa, fiz uma festa, com tudo a que achava que tinha direito.  Chamei a família, as pessoas amigas mais chegadas, e fizemos um jantar, com direito a cardápio especial (sou celíaca e havia muitos diabéticos na festa), música com dj e dança, com músicas escolhidas a dedo por mim.  Afinal, a festa era minha;  quando vou na festa dos outros, tenho que aguentar até as músicas que não gosto.
     E continuo amando as flores, principalmente as rosas vermelhas, como também continuo gostando da cor vermelha; não é por que o tempo passou que deixei de gostar de algumas coisas das quais gosto desde criança.  A minha menina continua viva dentro de mim.
     Afinal, como disse meu irmão, agora somos 'sexigenários', os sexagenários sexis (e sempre que vejo esta palavra, me lembro da princesa Isabel, que sancionou a lei dos sexagenários escravos.  Creio que me libertou também). Nem que seja só na cabeça...


                                         




     
     


     

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os 80 anos de minha mãe

     








D. Noemi cortando seu bolo de 80 anos. Fotos da autora, proibida a reprodução sem autorização.


Já escrevi em outro post sobre minha mãe. Noemi é seu nome.
      Agora pretendo comentar o que sei sobre seus 80 anos.  Completar esta idade não é fácil, se quisermos ter saúde. Ela se encontra razoavelmente bem.
      Alguns dados já se encontram na postagem "Minha mãe"; perdoem-me se estou repetindo.  É a emoção por tê-la como minha mãe e por ter ajudado a preparar uma comemoração digna dela, como fizemos quando meu pai completou seus 80 anos também.
      Como já mencionei alhures, ela nasceu na cidade de Santa Rosa/RS, em 12 de março de 1935, na localidade de distrito de Tucunduva, que hoje é município.  Como era difícil o acesso à cidade, meu avô aguardou mais de um ano para efetuar seu registro; como minha tia Ruth também ainda não estava registrada, para não pagar multa, meu avô registrou-as como gêmeas, em 2 de julho de 1936.  E a tia era mais velha que a mãe uns dois anos.
Meus avós já tinham a filha mais velha, Eva; eram 3 meninas pequenas.  As condições de vida eram precárias, meu avô fazia o trabalho de agrimensor; também eram agricultores; ele acompanhava os engenheiros na abertura e construção de estradas por este Rio Grande de Deus. A vó era originária de Ijuí/RS, e meu avô de Santana do Livramento, mas estiveram um período por lá, tentando melhoria de vida, pois ouviram anúncios de que o governo daria terras para cultivar; entretanto, esta benesse não os alcançou e, diante das dificuldades, retornaram para Ijuí.
     Meu avô foi trabalhar na Prefeitura Municipal; era o responsável pela força e luz em toda a cidade.  Minha avó era dona de casa; além de cuidar da prole, que se multiplicava a cada dois anos - tempo durante o qual  minha avó amamentava os filhos - cuidava da casa, fazia doces, pães, bolos, conservas, e cultivava, além de uma enorme horta aos fundos da casa, árvores frutíferas e um belo jardim à frente da casa. Isto já comentei no post sobre lembranças da infância.
     Minha mãe foi crescendo junto com os irmãos, que foram sete no total. Oito filhos Maria e Bento tiveram, que se criaram, além dos dois que faleceram pequenos ainda.  Naqueles tempos, doenças que hoje têm cura, para tanto não tinha, e as crianças viravam anjinhos.
     Frequentou a Escola Estadual Ruy Barbosa, que hoje é uma escola somente de ensino fundamental e fica a meia quadra de onde moro, enxergo seu telhado todos os dias, e acompanho a balbúrdia da criançada sempre. 
     Segundo minha mãe conta, meu avô tocava violão e cavaquinho; esta parte também já comentei lá atrás; ele deve ter aprendido "de ouvido", pois frequentar aulas de música era um luxo a que não se poderiam dar.  Minha mãe gostava muito quando meu avô sentava-se, à tardinha, puxava um dos instrumentos musicais e cantava, reunindo em torno de si os filhos e a mulher. Ela já tinha o dom da música, mas nem pensar em ir atrás dele e estudar.
     Começou a trabalhar enrolando balas na Fábrica de Balas Soberana, com 13 anos; depois trabalhou em uma padaria, indo, posteriormente, para a empresa Bernardo Gressler, onde fazia o fechamento das vendas à vista e a prazo, auxiliando na contabilidade.  Era exímia nas contas, achava diferenças com facilidade, e era amada e admirada, com seus lindos cabelos pretos ondulados, por todos os colegas do escritório. Também já mencionado no outro post.
     Foi nesta época que conheceu meu pai.  Ela contava 15 anos, ele 23.  Foi na inauguração do tempo da Igreja Metodista de Ijuí.
     Dois anos depois estavam casados, e fixaram residência em Santo Ângelo/RS.
     Em 1954 nasceu meu irmão Marcos; em 1955 eu; em 1956 meu irmão Paulo; logo após  houve um menino natimorto; em 1962 o Moacir nasceu; em 1975, outro menino natimorto.  De seis, criamo-nos 4.
     Minha mãe, além de dona de casa, dedicou grande parte de sua vida aos trabalhos voluntários na Igreja Metodista de Ijuí.  Dentro da hierarquia da igreja, exerceu diversas funções, quais sejam: foi Secretária da Escola Dominical, Presidente, Tesoureira, Secretária da Sociedade Metodista de Mulheres; foi agente da Voz Missionária, do No Cenáculo e de outras revistas da instituição. Durante toda sua vida, até uns cinco a dez anos atrás, quando começou a ter problemas de saúde, foi ativa tanto na igreja quanto na sociedade de mulheres, participando das mais variadas promoções; liderava quando decidiam fazer a famosa "sopa de mocotó", prato típico gaúcho, em que era exímia.  As pessoas só compravam os cartões se fosse ela que fizesse.
     Sua vida se resumia em cuidar da família e participar das atividades da igreja.
      Como já falei no outro post, depois que saímos de casa, foi estudar música, realizar o seu sonho.  Além do deleite próprio e da família, pretendia tocar na igreja, para que as pessoas não cantassem tão desafinadas e fora do contexto musical correto.  Criou o primeiro coro da igreja local.  Também participou do Coral Municipal de Ijuí, que existiu durante algum tempo.
     Entretanto, uma pessoa que faz parte da congregação local, por ocasião do batizado de sua filha, exigiu - como se alguma autoridade tivesse - que ela não tocasse, pois não gostava de hinos tradicionais e da música do órgão.  Demonstrando crueldade, ignorância e estultícia, feriu profundamente minha mãe, com palavras duras e humilhantes.  Depois deste fato, ela nunca mais tocou na igreja.  Embora esteja com as características do mal de Alzheimer, nunca esqueceu deste fato, e fala dele diariamente, em suas repetições.  A pessoa que cometeu esta insanidade nem sonha o mal que fez a ela.  A família espera que Deus faça justiça com relação à mesma.
     Minha mãe cuidou de meu pai até sua morte, em 2013.  Foram quase 61 anos de vida em comum. No post "Bodas de Diamante" comento este fato.
     Muitas pessoas mais jovens não sabem o que é ter um casamento duradouro, nem conseguem imaginar a beleza da cumplicidade deles, o respeito que tinham um com o outro, e o carinho através do apelido carinhoso "negrinha/negrinho".
     Quando meu irmão mais novo faleceu, tive que, juntamente com meu irmão mais velho, comunicar a ela e a meu pai o que tinha acontecido.  Foi o pior dia da minha vida, fiquei desesperada; mas tivemos que enfrentar.  A todas as vicissitudes da vida enfrentou de cabeça erguida, embora muitas vezes abaixasse a cabeça para chorar e pedir forças  ao Deus da sua fé, para logo em seguida seguir, encarando a vida de frente.
     Ela ainda nos conhece, e a todas as pessoas mais chegadas - parentes, amigos - mas, aos poucos, sua memória está se retraindo, mostrando-nos muitos fatos de sua infância e juventude, mas esquecendo às vezes de pentear o cabelo, quem a visitou ontem ou hoje, que dia da semana ou do mês é, e em que ano estamos.  Assim como foi com meu pai, e duas irmãs dela, aos poucos a luz da vela está se apagando, bem devagarinho, para que a gente não sinta.  Já não consegue manter uma conversa, perde o fio da meada, e volta para as suas repetições.  Fixa alguns pensamentos ou acontecimentos que são fortes: não esqueceu a visita do neto, que trouxe o bisneto para conhecer; que a irmã e a sobrinha vieram de Porto Alegre para seu aniversário; que tinha bastante gente na festa, porém não sabe dizer quem. A incomodá-la, ainda, o diabetes, que prejudica seu prazer pelos doces, e a impede de comer o que gosta.
     Apesar de todos os pesares, vai levando a vida, com o auxílio dos três filhos que lhe sobraram, e com as cuidadoras que, além de desempenharem suas funções, tornaram-se amigas de minha mãe, por sua bondade e forma de tratar as pessoas.
     Aqui fica minha homenagem a ela, com um grande abraço e um beijo gostoso.
     Amo a senhora, mãe!


     
Minha mãe, meu irmão mais velho e eu.


domingo, 1 de julho de 2012

Minha mãe.



Há muito queria escrever sobre minha mãe.  Ano passado escrevi sobre meu pai, à época do Dia dos Pais aqui no Brasil, que é em agosto, e quando do aniversário dele, em setembro. Então pensei em escrever em março, aniversário dela - não tinha condições, a morte de meu irmão era recente, seu aniversário nem foi comemorado, pois nove dias depois da morte dele.  Deixei para maio, no dia das Mães.  Mas eu ainda estava sem estrutura psicológica para isto. 
O tempo, que tudo cura, ou, pelo menos, ameniza as dores, está fazendo seu trabalho.  Não que as feridas da tristeza tenham se acabado, mas estão cicatrizando, cada dia um pouco.  Vejo isto na minha mãe também, uma mulher que dizer de fibra é pouco; que dizer heroína, é pouco; que dizer valente, é pouco; que dizer persistente, calma, firme, mulher de fé, de coragem, um amor sem tamanho pelos filhos, pela família, pelo companheiro da vida inteira, é só começar a falar a verdade.
Minha mãe nasceu em Tucunduva, um distrito do Município de Santa Rosa; seus pais eram agricultores, e estavam à procura de uma vida melhor, então saíram de Ijuí, mais precisamente Alto da União, e foram em busca de um sol a brilhar em suas vidas pobres.  Lá nasceram minha mãe, e se não me engano, também a tia Ruth. Quem souber melhor a história da família, me corrija, se eu estiver errada.
Ela e esta querida tia cresceram juntas, muito unidas, brincando, estudando, fazendo artes juntas, visto que sua diferença de idade é pequena.
Minha mãe gostava de estudar, mas só estudou até o 5º ano primário; infelizmente, à época, para famílias pobres, era difícil que seus filhos e filhas continuassem estudando.  Embora ela tenha ganho uma bolsa de estudos para fazer o magistério no Colégio das Irmãs, por ter tirado o primeiro lugar na turma, meu avô não deixou que continuasse estudando pois tinha que trabalhar para ajudar a família.  Coisas da época e da situação financeira familiar - casal e 7 filhos para criar!
Conta ela que meu avô tocava cavaquinho, e, à tardinha, todo dia sentava ele, após o trabalho, tocava e cantava músicas populares, o que a deixava enlevada.  Sempre foi muito afinada, e gostava de cantar; também gostaria de ter aprendido música, quando criança, mas, infelizmente, não deu.
Minha mãe começou a trabalhar aos 13 anos, na empresa Gressler, de Ijuí; ajudava na contabilidade e serviços gerais de escritório; era exímia na matemática, fazia contas como ninguém.
Única brasileira no meio de descendentes de alemães, havia aprendido algumas palavras nesta língua, o que lhe permitia responder em português a perguntas feitas em alemão; fato engraçado, que fez com que suas colegas não mais falassem em alemão na sua presença, pois achavam que ela entendia tudo... Como ela tinha os cabelos pretos, longos e crespos, adoravam fazer penteados, nos momentos de folga, coques e ajeitar seus cabelos.
Minha mãe conheceu meu pai com 14 anos; foi no culto de inauguração da Igreja Metodista de Ijuí; ele morava em Santo Ângelo; corresponderam-se durante um tempo, depois ele veio visitá-la, firmaram namoro e, quando ela tinha 17 anos e ele 25, casaram-se, formando um casal que se ama até hoje, e irão completar 60 anos de casados em setembro.  Desta união saímos nós, eu e mais 5 irmãos homens, sendo que dois foram natimortos. 
Minha mãe enfrentou todo tipo de dificuldade: moraram em lugares de difícil acesso, onde não havia água nem luz; teve os filhos na época em que não havia praticamente assistência médica, e era atendida por parteiras - graças a Deus experientes, que a ajudaram a nos fazer nascer com competência.
Sempre nos cuidou e educou com amor, carinho, compreensão, competência e visão, incentivando-nos a estudar e encarando os problemas de frente, nunca baixando a cabeça, sempre orando e pedindo a proteção divina para toda a família.
Embora quisesse trabalhar fora e ter  sua renda, não o fez a pedido - ou imposição - de meu pai, que é um homem "às antigas", para quem a mulher deveria ficar com as atividades do lar, somente.  E desempenhou-as com amor e competência - cozinheira de mão cheia, sempre fez delícias para saborearmos, de pratos salgados a doces, bolos, tortas, salgadinhos, almoços, jantares...e cuidou da casa e de nós com mão firme.  Ajudou meu pai a enfrentar as mais diversas difi culdades, sendo a companheira fiel, o braço firme ao redor de todos nós: doenças, desemprego, condições adversas, tudo sempre encarou com garra, uma lutadora.  E, também, nos momentos de alegria, festa, confraternização, vitórias,  era a primeira a dizer: vamos festejar, que a vida é curta!
Quando crescemos e começamos a sair de casa,  minha mãe, finalmente, pôde realizar um sonho: foi aprender música!  Com as mãos já um pouco emperradas, com 45 anos, aprendeu piano.  Seu sonho era tocar os hinos na igreja lendo as partituras musicais.  Foi, com dificuldade, mas com persistência, que conseguiu realizar seu sonho: tocou em casamentos, festas, tocava em casa, em cultos, etc.  Formou um côro que cantava nos cultos, tornando-os mais alegres e emocionantes.
Quando a família descobriu que meu irmão mais novo era doente mental, foi a primeira a encarar de frente o problema, procurar tratamentos, acompanhá-lo, cuidá-lo e protegê-lo até o fim de sua vida.  Nunca esmoreceu.  Tinha fé que a medicina ia encontrar a cura para a esquizofrenia - que eu chamo de  o câncer da alma -.  Infelizmente a medicina não evoluiu para tanto.
Apesar de todas as coisas ruins que aconteceram na vida, minha mãe é otimista.  O que ela me  passou, repito para ela agora: cada dia é uma bênção de Deus, e cada vida também.
Agradeço a Deus por ter a minha mãe ao meu lado, agora que voltei pra minha terra.  Mesmo quando estava longe, a quase 1000km de distância, era só ouvir sua voz ao telefone que eu já me sentia melhor.  Estar perto dela, poder cuidá-la e do meu pai, também, é uma alegria muito grande.  
Seus ensinamentos, sua fé, sua firmeza, seus princípios norteadores de vida irão me acompanhar a vida toda, e sua maneira de viver procuro transmitir também a meus filhos e netos.
Tê-la por perto me acalma e me anima, minha mãe.  Obrigada por ser como é e por ser minha mãe.