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domingo, 23 de março de 2014

E o outono vem chegando, de mansinho...

Ficheiro:Vermont fall foliage hogback mountain.JPG
Outono. Foto da  Wikipédia.


     E o outono vem chegando de mansinho, como cabe a uma meia-estação chegar.  Meia-estação nós costumamos nominar em virtude de não ser mais tão quente, e ainda não ser tão frio; a diferença da outra meia-estação, a primavera, é que não tem a robusteza daquele verde, nem o perfume nas flores e árvores, que deixam a cidade com cara de mel, pois enche de abelhas.
Amo o verão; prefiro suar litros a tiritar de frio, no inverno. E a gente não precisa se encasacar tanto.  Porém o outono e a primavera são as "melhores" estações, pois não estão nos extremos. Mas cada uma tem suas vantagens e desvantagens, como qualquer coisa na vida.

     Voltando às leituras, fiz um comentário muito superficial, no outro post, sobre a trilogia "Cinza".  Na realidade, apesar de ser bem escrito, de manter o fio condutor do texto do começo ao fim, e manter a curiosidade do leitor até o final - o que são poucos escritores que conseguem fazer - concluí ser um trio de livros muito machistas, o personagem principal um devasso que, por ser poderoso financeiramente, pensa dominar todas as pessoas que encontra pela frente; principalmente as mulheres, que se transformam em suas escravas.  Com a desculpa de ser imensamente rico, comete as maiores insanidades em todos os sentidos, e muitos leitores acharam a série maravilhosa, pois no final ele se redime, casa com a personagem principal e tem filhos.  Pensando bem, é uma história repugnante.

    No último mês ganhei de aniversário do meu irmão, o livro Perdas & Ganhos de Lya Luft.  Não é nenhum segredo que admiro muito esta nossa escritora gaúcha; se não li todos os livros dela, li a maioria. 
Perdas e ganhos é um livro baseado em um trabalho que Lya fez com algumas mulheres - e alguns homens, posteriormente- visando fazer um balanço das perdas e ganhos que podemos ter na vida.  Discutiram em várias reuniões sobre os assuntos pertinentes, que podem gerar perdas ou ganhos na vida das pessoas.  É um livro bastante interessante, com várias colocações, comentários, reflexões, decisões; principalmente enfocando as desculpas que as pessoas inventam durante suas vidas, para não terem um pouco de calma, paz, felicidade, tranquilidade. Pra não curtirem o amor que têm. E que muito disto, as pessoas vão encontrando à medida que adquirem maturidade, vão ficando mais lúcidas e vendo que, muitas vezes, corremos atrás do vento forte, quando a brisa suave está passando pela nossa janela e não percebemos. E um pensamento original, colocado no início do livro, vale a pena ser transcrito:
"Desde a idade de seis anos eu tinha mania de desenhar a forma dos objetos. Por volta dos cinqüenta havia publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que produzi antes dos sessenta não deve ser levado em conta.  Aos setenta e três compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza, as plantas, as árvores, os pássaros, os peixes e os insetos.  Em conseqüência, aos oitenta terei feito ainda mais progresso.  Aos noventa penetrarei no mistério das coisas; aos cem, terei decididamente chegado a um grau de maravilhamento - e quando eu tiver cento e dez anos, para mim, seja um ponto ou uma linha, tudo será vivo". (Katsuhika Hokusai, sécs. 18-19)

Lya Luft. Perdas e Ganhos. 36ª ed. RJ, Record, 2012.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Atualizando as leituras.

   

Luft, Lya. A riqueza do mundo.-RJ:Record, 2011, 270p.      Há meses li o último livro da Lya Luft a que tive acesso, "A riqueza do mundo".  São crônicas contemporâneas, com a já tradicional linguagem acessível, mas com textos excelentes que nos inspiram à reflexão dos nossos valores, anseios, desejos, controvérsias, alegrias, tristezas, surpresas e demais sentimentos que o nosso mundo, hoje, nos desperta.

     Outro, que terminei a semana passada, também já queria ter lido há mais de 30 anos, mas não tinha acesso. "Poemas escolhidos", de  Gregório de Matos Guerra, nosso famoso "Boca do Inferno".  Para quem não o conhece, é o maior poeta seiscentista do Brasil, da época Literária denominada Barroco.  Tomei conhecimento dele no curso de Letras, mas, como já falei várias vezes, conseguir alguma obra era o difícil; aliás, somente versos esparsos em antologias, comentários dos estudiosos da Literatura Brasileira.
     Mas por que Boca  do Inferno? Porque ele fazia versos satíricos, criticando a tudo e a todos, em sua época: políticos, padres, freiras, amigos, inimigos, etc.  Mas não eram só versos satíricos, também escreveu poemas religiosos e amorosos.
     Abaixo, só para tirar um tempo, os mais famosos versos satíricos deste gênio brasileiro, bahiano, advogado, juiz, padre, e mais um monte de outras funções:


"Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República, em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia" (este é o título)
EPÍLOGOS
1.Que falta nesta cidade?...Verdade
Que mais por sua desonra?...Honra
Falta mais que se lhe ponha?...Vergonha
   O demo a viver se exponha,
   Por mais que a fama a exalta,
   Numa cidade onde falta
   Verdade, honra, vergonha.

2. Quem a pôs neste socrócio?...Negócio
    Quem causa tal perdição?...Ambição
   E o maior desta loucura?...Usura
      Notável desaventura
      De um povo néscio, e sandeu
      Que não sabe que o perdeu
      Negócio, ambição, usura.
hehe

3...4....5.E que justiça a resguarda?...Bastarda
              É grátis distribuída?...Vendida.
              Que tem, que a todos assusta?...Injusta.
                     Valha-nos Deus, o que custa
                      O que El-Rei nos dá de graça,
                      Que anda a justiça na praça
                      Bastarda, vendida, injusta.

6...7. E nos Frades há manqueiras?...Freiras.
         Em que ocupam os serões?...Sermões.
         Não se ocupam em disputas?...Putas.
hehe
               Com palavras dissolutas
               Me concluís, na verdade
               Que as lidas todas de um Frade
               São freiras, sermões e putas.
8...9..."

Os versos são muito longos, os assuntos diversos.  Para quem gosta de poesia, cultura/literatura brasileira, e conhecer a opinião e visão de um crítico mordaz do Brasil entre 1600/1700, vale a pena ler.
Matos, Gregório de. Poemas escolhidos; seleção e organização José Miguel Wisnik.-SP:Cia das Letras, 2010, 357p.