Observo teu ressonar: tranquilidade;
tua proximidade me aquece;
teu sono me acompanha;
tua paz me acalma.
O caos de lá-fora
não interpenetra a solidão de cá-dentro;
a incerteza distante
não abala a segurança inter-paredes;
o mundo além
não interfere aquém.
Somos nós
somos sós:
que exploda a placa da esquina
que se arrebente o motorista travesso
sou tua mulher
és meu avesso.
31/10/1988
Neste blog publico textos que escrevo: poesias, crônicas, contos, comentários e sugestões de leituras. Qual a razão desse nome? Eis a explicação: Athena: Na mitologia grega, Atena, também conhecida como Palas-Atena, era a deusa da sabedoria, da guerra, das artes, da estratégia e da justiça. Minerva: Equivalente romana da deusa grega Atena, Minerva era filha de Júpiter. E eu, além de ser formada em Letras e Literatura, também sou formada em Direito.
domingo, 29 de outubro de 2017
sábado, 28 de outubro de 2017
ESSÊNCIA I
Sentiu que ia ocorrer a fissão,
mas não recuou.
Era necessário.
Esta necessidade não amedrontou-a,
nem a evidência da ruptura.
Muitas vezes urge
quebrar
abrir
ferir
para chegar à essência.
O núcleo se esconde.
Mesmo
sentindo
sofrendo
ferindo
persegue-a sempre.
Agosto/1987 -abril 1988
mas não recuou.
Era necessário.
Esta necessidade não amedrontou-a,
nem a evidência da ruptura.
Muitas vezes urge
quebrar
abrir
ferir
para chegar à essência.
O núcleo se esconde.
Mesmo
sentindo
sofrendo
ferindo
persegue-a sempre.
Agosto/1987 -abril 1988
MENINA DA DINDA
Cabelo vermelho, rosto afogueado
olhinhos sapecas, gestos afobados,
pulas, gritas, corres, sapateias...
tens teus momentos de quietude
guriazinha querida, que me enleias
Carolina linda da dinda.
1988
(Para minha querida afilhada que, à época, era pouco mais que um bebê. O tempo passou e esqueci-me de lhe entregar o poemeto, que aqui vai).
olhinhos sapecas, gestos afobados,
pulas, gritas, corres, sapateias...
tens teus momentos de quietude
guriazinha querida, que me enleias
Carolina linda da dinda.
1988
(Para minha querida afilhada que, à época, era pouco mais que um bebê. O tempo passou e esqueci-me de lhe entregar o poemeto, que aqui vai).
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
REFLEXO CONDICIONADO
Se me perguntares a que vim
Dir-te-ei que não foi para o comum
não foi para o trivial
não foi para o quotidiano.
Vim para somar ou multiplicar.
Não vim para manter,
vim para (tentar)mudar.
- Mas o que mudas? - dir-me-ás.
Até agora, nada ou pouco em ações, talvez...
Tardiamente, creio,
mudei, sim,
ao menos minha cosmovisão.
Inteirei-me, enfim,
que a repetição incomoda, liquida, massacra.
Acabar com os reflexos condicionados...
Procurar o novo.
Junho 1988
Dir-te-ei que não foi para o comum
não foi para o trivial
não foi para o quotidiano.
Vim para somar ou multiplicar.
Não vim para manter,
vim para (tentar)mudar.
- Mas o que mudas? - dir-me-ás.
Até agora, nada ou pouco em ações, talvez...
Tardiamente, creio,
mudei, sim,
ao menos minha cosmovisão.
Inteirei-me, enfim,
que a repetição incomoda, liquida, massacra.
Acabar com os reflexos condicionados...
Procurar o novo.
Junho 1988
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
MÁQUINAS
Ouço ruídos
ruídos agudos
que ecoam, trepidam, torturam,
ruídos de máquinas...
as máquinas com as quais datilografamos,
as máquinas da indústria dali da frente,
as sirenes, os apitos, ruídos de freios,
trim do telefone, o bip, o tu-tu-tu...
máquinas... robôs engendrados pelo cérebro humano
para reduzir o seu esforço.
E, talvez sem perceber,
o próprio ser humano vai,
maquinalmente,
transformando-se em uma máquina.
Lorení Dalla Corte
22/01/1973
ruídos agudos
que ecoam, trepidam, torturam,
ruídos de máquinas...
as máquinas com as quais datilografamos,
as máquinas da indústria dali da frente,
as sirenes, os apitos, ruídos de freios,
trim do telefone, o bip, o tu-tu-tu...
máquinas... robôs engendrados pelo cérebro humano
para reduzir o seu esforço.
E, talvez sem perceber,
o próprio ser humano vai,
maquinalmente,
transformando-se em uma máquina.
Lorení Dalla Corte
22/01/1973
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
ROMPENDO CADEIAS
Vocês não ousam, embora queiram...
digamos, romper as cadeias do verniz!
Em uma época,
às vezes remota,
às vezes recente...
sonhos...
Apesar da Simone de Beauvoir,
da Colette Dowling, da Heloneida,
da Marta e de tantas outras,
há o freio,
o cabresto que as impede
via oficial
cultural
moral
de seguir o ritmo,
o som,
seus instintos natos.
(Subir em cima da mesa
e dançar a rumba... ou o samba!)
Lorení Dalla Corte
dez.1987
digamos, romper as cadeias do verniz!
Em uma época,
às vezes remota,
às vezes recente...
sonhos...
Apesar da Simone de Beauvoir,
da Colette Dowling, da Heloneida,
da Marta e de tantas outras,
há o freio,
o cabresto que as impede
via oficial
cultural
moral
de seguir o ritmo,
o som,
seus instintos natos.
(Subir em cima da mesa
e dançar a rumba... ou o samba!)
Lorení Dalla Corte
dez.1987
terça-feira, 24 de outubro de 2017
CONVERSA DE SURDOS
Ó tu que segues tua vida,
m-o-n-o-t-o-n-a-m-e-n-t-e
entre teus discos e teus livros
quem és?
Quem está a teu lado,
todo dia, toda noite,
te ama, te entende, te quer?
Que obscura sina trouxe-te até aqui?
Que mundos,
que caminhos,
que inseguranças,
entre os movimentos de tuas sinfonias,
entre adágios, andantes e allegros,
que te move? que te impulsiona?
Incógnitas...
Desconheço-te...
Desconheces-me...
somos parte de uma multidão apedeuta
cada um olhando para seu umbigo...
Conversas de surdos!
Temas de superfície!
Lorení Dalla Corte
20/08/1987
m-o-n-o-t-o-n-a-m-e-n-t-e
entre teus discos e teus livros
quem és?
Quem está a teu lado,
todo dia, toda noite,
te ama, te entende, te quer?
Que obscura sina trouxe-te até aqui?
Que mundos,
que caminhos,
que inseguranças,
entre os movimentos de tuas sinfonias,
entre adágios, andantes e allegros,
que te move? que te impulsiona?
Incógnitas...
Desconheço-te...
Desconheces-me...
somos parte de uma multidão apedeuta
cada um olhando para seu umbigo...
Conversas de surdos!
Temas de superfície!
Lorení Dalla Corte
20/08/1987
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
SONHO
| Labirinto em Nova Petrópolis/RS, onde já fui. |
Foi perdido algo no meio do caminho.
Não consigo saber o que é.
Quem poderia ajudar-me, largou-me à própria sorte.
Estou procurando... revirando...
as pessoas olham-me e perguntam:
- o que estás fazendo?
- deixei algo aqui e agora venho buscar.
- o que é?
- não sei, mas sei que está aqui!
Olho para trás (não! estátua de sal!)
e quem estava comigo não está mais.
Há outras pessoas, e elas sabem o que querem.
Embora a chamasse desesperadamente de volta,
virou as costas, e foi-se.
Continuo procurando.
Os caminhos estão fechados,
o labirinto amplia-se, amplia-se, amplia-se...infinitamente!
as pessoas ao redor olham com interrogações: ???
São tão seguras...
e eu não encontro a saída...
as indicações são confusas,
há algo ou alguém que me persegue.
E este aperto no peito não me larga, chega a doer!
Lorení Dalla Corte
03/09/1988
(Imagem: http://www.gramadocanela.com.br/labirinto-verde/)
domingo, 22 de outubro de 2017
INICIAÇÃO
Cada passo poeira
Cada poeira estrada
Cada estrada caminhos
Cada caminho vitória
Cada vitória ampliação
Ampli-Ação.
Lorení Dalla Corte
1988/out.2017
"SER COMPREENDIDO É PROSTITUIR-SE" (Bernardo Soares/Fernando Pessoa)
Os seres humanos pensam
que os outros os entendem.
No entanto, não se reconhecem.
Não há reciprocidade.
As pessoas são imprevisíveis.
Mas...é preciso referências?
É preciso o definido?
Como Lispector,
é preciso estarem organizados
para não se perderem...
Quando entendem ter encontrado
Veem mais uma vez que houve um engano.
Não encontram espelho!
Lorení Dalla Corte
abril/1987- out.2017
que os outros os entendem.
No entanto, não se reconhecem.
Não há reciprocidade.
As pessoas são imprevisíveis.
Mas...é preciso referências?
É preciso o definido?
Como Lispector,
é preciso estarem organizados
para não se perderem...
Quando entendem ter encontrado
Veem mais uma vez que houve um engano.
Não encontram espelho!
Lorení Dalla Corte
abril/1987- out.2017
INVERNO
Há um frio em minha vida.
Ele vai até meus ossos.
Deve ser assim o frio da morte -
penetrante, irredutível, definitivo.
Além do frio físico
- Nevou há poucos dias -
o frio da alma.
Lembra minha avó.
Vó Deza,
gelada para sempre
em trinta de novembro.
Ela sempre foi muito friorenta
(no Rio Grande do Sul é difícil não ser)
e morreu no verão.
Talvez para não sentir tanto frio.
Lorení Dalla Corte
1º/08/1990- Caxias do Sul/RS.
(Imagem: http://www.sitedecuriosidades.com/curiosidade/curiosidade-sobre-a-formacao-da-neve.html)
Marcadores:
alma,
avó,
frio,
inverno.,
minha poesia,
neve,
poesia brasileira,
poesia gaúcha
sábado, 21 de outubro de 2017
POEMA MITOLÓGICO/POLÍTICO/ECONÔMICO
![]() |
| O SER ANDRÓGINO, SEGUNDO A MITOLOGIA |
Mulher.
Nasce com todas as características femininas.
O que elas representam?
Um estigma.
Sendo assim, está bipartida.
Não é inteira.
Quisera ser autossuficiente.
Mas os andróginos foram eliminados pelos deuses,
nos diz Platão.
Ela precisa de outras pessoas.
Sofre porque existe e não pode fugir disto.
Sofre porque existem.
Sente-se incomodada.
Ama o que não lhe é permitido.
Deseja coisas inalcançáveis.
As leis.
Escritas e não.
Ela as odeia, pois não são respeitadas.
Ou, só cumpridas contra ela.
E porque a cortam.
Quem as inventou?
Os deuses?
Não, os homens!
A evolução histórica da humanidade,
colocou-a em desvantagem.
Ao surgirem as delimitações, surgiu o poder.
E é este que lhe faz falta.
A ela e a todos os cidadãos
que se veem manietados
dentro de estruturas encadeadas
que lhes tiram o poder da decisão.
A política, a economia, o capital
(ou a falta dele, melhor dizendo)
são massacrantes!
Ao separar o andrógino,
os deuses deveriam
ter cortado a cabeça fora.
A cabeça, em certos momentos, atrapalha.
Outras vezes, o fato de ser mulher.
Ago/1987- abr/1988- out.2017 mar/23
Imagem:https://www.google.com.br/search?q=IMAGEM+MITOL%C3%93GICA+DO+ANDR%C3%93GINO&client=firefox-b-ab&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjcvITq5YHXAhWKkpAKHSnPCPoQ_AUICigB&biw=1366&bih=635#imgrc=IWxaAUy1luagPM:)
Marcadores:
autossuficiência,
decisão,
estigma,
leis,
literatura brasileira,
literatura gaúcha,
minha poesia,
Mitologia,
mulher,
Platão,
poder,
Poema Mitológico,
poesia brasileira,
poesia gaúcha
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
VALORES
As alterações no corpo:
quando jovem, magrinha, elegante, carnes rijas.
Após a maternidade,
o organismo altera-se.
São as vicissitudes sobre as quais
a mulher não tem poder de esquivar-se.
A alteração é lenta, gradual.
Não sei se faz parte da biologia,
ou se é decorrente do cultural.
Com as gerações anteriores ocorreu o mesmo:
avó, mãe, ela...
Barriga ('peito caído', dizem eles) de 'executivo'.
"Charme".
Careca (é deles que elas gostam mais, já dizia a marchinha, antiga, de carnaval)
Grisalho. Meia-idade.
Dois pesos, duas medidas.
Valores.
Para a mulher, o processo do corpo pela vida
é considerado ruim, anormal.
Para o homem, a transformação é bela, digna, impõe respeito.
Segundo eles, excita as mulheres jovens.
São séculos e séculos de afronta,
de manipulação,
de imposição de ideias,
de eles dizerem como as mulheres devem ser.
Está na hora de mudar as cabeças levianas e espevitadas.
A fêmea humana deve tomar as rédeas do seu corpo e da sua mente.
A plástica para os dois, ou para nenhum.
Amadurecer. Que lindo!
Aceitação.
Viver é isto.
Lorení Dalla Corte
18/04/1988.
(Imagens: http://novovillarejo.blogspot.com.br/2011/09/sketches-1.html
http://belezasemtamanho.com/pinups-gordinhas-calendario-2016/ )
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Miopia do mundo
Sócrates disse:
"eu só sei que nada sei".
Eu digo:
eu nem sei se "só sei que nada sei"
Eu digo
palpito
respiro
pulso
vejo ou entrevejo
há névoas
há véu
que é espesso.
Lentes,
para suprir
a miopia do mundo.
Lorení Dalla Corte
19/06/1989
"eu só sei que nada sei".
Eu digo:
eu nem sei se "só sei que nada sei"
Eu digo
palpito
respiro
pulso
vejo ou entrevejo
há névoas
há véu
que é espesso.
Lentes,
para suprir
a miopia do mundo.
Lorení Dalla Corte
19/06/1989
Marcadores:
Poema,
poesia brasileira,
poesia gaúcha,
Sócrates
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
INFÂNCIA
![]() |
| Jogo de caçador ou queimada |
Meu pai levantava-se cedo.
Fazia suas abluções matinais, na bacia sobre o tripé.
A toalha era feita em casa, tecido fino, bordado, com franjas.
Seu rosto era magro e moreno.
A Prefeitura o aguardava com suas obras.
Minha mãe acordava-me cedo, mais cedo ainda,
Passando o pano por debaixo da minha cama, nossas camas.
Ela gostava de trabalhar de manhã.
No forno de barro,
as brasas já brilhavam, avermelhadas,
acendiam
meio se apagavam.
E o calor já antevia
as cucas, os pães deliciosos, enormes, macios
amassados por suas belas mãos
na noite anterior.
A roupa já no varal.
O que era branco, ardia nos olhos de tão branco:
panos de prato, lençóis, fronhas, uniformes escolares.
O feijão chiando na panela de pressão.
Levantávamos correndo, meus irmãos e eu.
O café, passado no saco, com leite, gostoso,
deixava no ar o seu aroma chamativo;
pão com schmier e manteiga caseiras.
Corrida lépida para a escola, a duas quadras de casa.
O mano mais novo dormia, privilégio de ser o bebê.
Na escola, D. Helena preparava
a sopa mais gostosa do lugar.
Meu irmão mais velho e eu, sagazes...
entrávamos duas vezes na fila da merenda.
Não era fome.
Era a delícia da sopa. As serventes faziam de conta que não notavam,
piscavam o olho.
Grupo Escolar Nossa Senhora da Penha.
Meio-dia todos ao redor da mesa.
Oração - cada dia um que fazia -
e todos não queriam...
criança quer comer, tem uma fome infinda,
sem esperar formalidades religiosas.
Lembro... com carinho e saudade
o brilho do arroz
a batata pulando, ainda, na panela,
ensopada, dividindo espaço com o guisado.
O feijão fazia bolhas em seu caldo grosso.
E as verduras, sempre renegadas por nós, crianças,
estavam lá, no seu prato.
Sobremesa: doce de abóbora, delícia gaúcha.
À tarde...ah, à tarde...
mãe descansava com o bebê,
irmãos fugiam para a sanga,
e eu já lidava com meus alunos imaginários.
No quadro, presente de Natal,
repassava toda a matéria do dia.
Imitava minha professora, Santa Edy Nehring:
seus gestos
seu tom de voz
sua letra...
explicava tudinho.
Não sabia, àquele tempo,
que estava estudando,
reforçando o que aprendera no dia.
Tardinha,
após o lanche: batida de banana com leite,
pão feito de manhãzinha,
era a hora de reunir a gurizada da rua, na rua de chão batido.
Guris e gurias da vizinhança:
jogo de sapata, passar o anel, diabo rengo,
jogar caçador (eu era sempre a que morria primeiro...)
brincar de letz, de se esconder...
Infância, infância!
Estás tão lonnnnnngeeeeeeeee...
E tinha um tempo em que as formigas de asas
nos perseguiam, perseguiam, perseguiam...
ficavam voando ao nosso redor, nos mandando embora.
Escurecendo...
a mãe chamava:
-Hora do banho e da janta!
Entrávamos, não sem, primeiro, titubear, empurrar a hora.
Meu pai mateava, dividindo seu dia com a mãe, que cuidava do pequeno.
E, cansados,
felizes,
rostos afogueados,
suados e sujos da poeira,
disputávamos o chuveiro.
Noite chegando,
janta na mesa,
lassidão no corpo,
alma leve,
noite boa de sono.
Infância, infância...
impossível não sentir nostalgia.
Lorení Dalla Corte
12/10/2017
(Imagem: http://www.fazfacil.com.br/lazer/como-jogar-queimada/)
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Escritura
Quem poemeia
quer ser diferente de todo mundo
quer escrever algo além
do que todo mundo já pensou
quer ter a ideia original.
Coisas que pensa, encontra escritas em livros,
livros de autores que são de outras épocas
ou de outros lugares
ou de outras gerações
ou de outras culturas
ou...
Quem escreve, e pensa,
pensa e escreve igual?
raciocina na mesma direção?
É influência, referência, cultura, registro?
É difícil o estalo.
Escrever é um caso de orgasmo
de letras
de signos
de ícones.
Difícil, às vezes, de se chegar.
Outras vezes....!
Saltam as palavras abruptamente.
Lorení Dalla Corte.
Maio/87 - abril/88 - set.90
domingo, 8 de outubro de 2017
MEUS VERSOS
Eu quero fazer meus versos
não como quem morre,
mas como quem ama a vida.
Eu quero fazer meus versos,
não para homenagens póstumas.
Eu quero fazer meus versos
mesmo que sejam a única arma de que disponha
para expor uma realidade
um ponto minúsculo da história
o momento do meu tempo
Eu quero fazer meus versos
mesmo que você não os leia
mas para que saiba que,
apesar:
da energia nuclear perigosa
da liquidação do ecossistema,
da cultura atrofiada do meu povo,
da fome, da doença, dos casebres,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-emprego,
dos sem escola, dos sem comida,
do salário magro, dos políticos corruptos,
dos governantes poderosos e cruéis,
dessa horrenda realidade
que me envolve e me angustia,
eu parei um instante
e fiz estes versos.
Os poetas - dizem há séculos - são loucos.
Viva esta loucura!
A poetisa é a pessoa que pára, no meio da guerra,
para fazer anotações
ao lado da metralhadora, do míssil, do botão vermelho,
da chuva amarela caindo em sua cabeça.
É a mensagem da garrafa.
Alguém lerá.
E sorrirá, pois haverá compreensão
e comunhão de ideias.
Lorení Dalla Corte.
Abril 1987/1988.
(Imagem: http://www.canaanoticias.com.br/entretenimento/casal-encontra-a-mais-antiga-mensagem-em-garrafa-da-historia/)
sábado, 7 de outubro de 2017
Do fundo do baú
Quem tem a pretensão de escrever, sempre tem seu baú escondido. Nele, está o seu tesouro, seus escritos secretos, suas mais brilhantes ideias.
Também tenho o meu, mas não é um baú; é uma caixa de mudança, na qual, na última que fiz, coloquei o saldo do livro que publiquei (tenho alguns exemplares ainda para vender); rascunhos, crônicas, contos, poemas, recortes de jornais, revistas,...
Como quero livrar-me da caixa, e, consequentemente dos escritos, os que, hoje, considero passíveis de serem lidos, trarei para cá. Os demais serão sumariamente eliminados, pois não merecedores de atenção.
A eles, pois, todos devidamente datados, como incumbe a uma preciosista como eu.
Em setembro de 1990, pelo que vejo, li "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde. E já naquele tempo, tinha a mania de fazer comentários às minhas leituras. Ei-los:
Oscar Wilde, em uma linguagem rebuscada, descritiva, nos detalha de forma mordaz a sociedade inglesa do século XIX. Sir, Lady e demais termos, criados, nobreza, orgulho do sangue britânico são evidenciados. Luxo, ostentação, desperdício saltam aos olhos. E, também, o menosprezo pelas classes baixas - o povo-, pois a nobreza não admitia que tivessem o "mesmo sangue".
Mortes por suicídio, indução ao suicídio, assassinatos transparecem na obra.
Dorian Gray é o símbolo do Narciso, do Apolo e de outras entidades representativas da beleza, do egoísmo, do orgulho. Era um homem muito belo. Ele se amava muito e, como não pretendia envelhecer, vendeu sua alma ao diabo. Na negociação, o retrato envelheceria em seu lugar, e ele permaneceria belo e sensual para sempre.
Lord Henry é o símbolo da consciência irônica, cruel, mordaz; influi sobre Dorian - um fraco, transformando-o num pérfido.
Outras personagens - vários duques, lordes, etc, surgem em jantares, óperas, clubes...a ociosidade e a futilidade em pessoas. Mulheres que seduz, pessoas que ele mata. Até chegar à conclusão que é uma pessoa má; então, mata o retrato...mas quem morre é ele mesmo, transformado em um velho, enquanto o retrato volta a representá-lo como jovem.
Excertos:
"Os camponeses deitam cedo, levantam cedo pois têm tanta coisa a fazer...não sabem o sabor do 'pecado', da luxúria, dos prazeres mundanos. Não sabem viver a noite. São completamente sem graça, sem escândalos".
"Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo." (Oscar Wilde, no prefácio). Mais:
"Pensamento e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte"
"Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida".
"Toda arte é completamente inútil".
Inspirada pelo livro, escrevi um
HAI-KAI DA BELEZA
Que belo trato:
permaneço bonita
envelhece o retrato.
(Para Dorian Gray, belo personagem). (26/09/1990)
Wilde, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Abril Cultural, 1972, 1ªed., trad. Oscar Mendes, 270p.
sábado, 16 de setembro de 2017
Inv(f)erno meridional, ao som de Rita Lee
Neste clima, encontro-me com um mal-estar, uma alergia monstra e gripe misturada, o que deixou-me de molho por uma semana. Só faltou o escalda-pés, pois medicamentos e agasalhos, mais repouso é o que tenho feito.
Mas, já que impossível fazer exercícios físicos e expor-me à instabilidade climática, aproveitei para ler.
Desta vez, uma curiosidade de fã de Rita Lee, que escreveu sua autobiografia. Esta rockeira brasileira, paulista,que me acompanhou desde a adolescência, e de quem amo muitas músicas, tanto as de sua autoria e interpretação, como de autoria de outros músicos e por ela e sua banda interpretados, decidiu, aos setenta anos, escrever a própria história.
Muita coisa a gente já tinha tido notícia, pois celebridades como ela não passam despercebidas pela imprensa . Os grandes sucessos, o casamento dela e a parceria com Roberto de Carvalho, que ela se drogava, enfim, aquilo que a imprensa está sempre ávida por falar.
Mas o interessante foi conhecer a família, os estudos, os grupos aos quais pertenceu, a forma como compunha, as amizades que tinha, tanto com pessoas "normais" como com grandes artistas, como Elis Regina, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e outros. E saber que tem três filhos e uma neta, as viagens e shows que fez, as malandragens e traquinagens, desde criança, bem como seu grande amor pelos animais.
Considerei bastante interessante; e a considero uma das maiores compositoras que temos, suas músicas são gostosas de serem ouvidas, dançadas, admiradas.
Rita Lee: uma autobiografia.-1.ed.- São Paulo:Globo, 2016.
domingo, 27 de agosto de 2017
À espera de setembro
Lembro de um título de filme que creio não ter assistido, pois era criança: Quando setembro vier. Vou pesquisar e ver se ainda existe. Lembrei-me dele pelo título deste post.
Mas neste 27 de agosto, vamos vivendo em um clima completamente maluco em nossa região: hoje estava quente pela manhã, choveu, esfriou ao meio-dia e agora está calor de novo. Haja saúde.
E esperamos por setembro, pois a coisa regulariza um pouco, só um pouco... e daí começam as alergias da primavera, compensadas pelo bálsamo das flores, eternas inspiradoras de românticos e apaixonados, bem como de muitas outras pessoas que as apreciam.
Antevendo este clima, leituras não muito amenas. Acompanhando o clima atual, não o futuro. A elas:
Quem, eu? de Fernando Aguzzoli, um tomo de 190 páginas, com fotos, diálogos, comentários e a história verídica de um rapaz que conviveu, dentro de sua casa e com sua família, com a avó materna que teve o mal de Alzheimer. Descreve, com amor e humor (a forma que ele e a família resolveram encarar um problema de saúde tão grave), um grande toque de humanidade, carinho e respeito, do início da doença da avó até o seu falecimento. Os trechos distintivos das várias etapas da doença contêm explicações remissivas de médicos e os diversos técnicos em saúde que os auxiliaram durante a doença, ou ele pesquisou.
Chamou-me a atenção o livro pois minha mãe sofre deste mal, e muitas vezes pensamos que somente nós, os familiares, passamos por diversas situações-limite; entretanto, com esse relato, verificamos que não estamos sós, e que podemos divulgar e repartir com outras pessoas informações que possam ser valiosas. Excelente. Humano.
Aguzzoli, Fernando. Quem, eu?: Uma avó. Um neto. Uma lição de vida. -2ªed.rev.ampl.-São Paulo:Paralela, 2015, 190p.
Shakespeare foi meu outro companheiro por estes dias. O rei Lear, numa edição de bolso, mostrou-me essa peça teatral escrita pelo "bardo" em 1605. Em cinco atos e múltiplas cenas, vemos o império do Rei Lear ruir ante uma incompreensão sua em relação à filha Cordélia que não quis ser puxa-saco com ele, dizendo-lhe que o amava, mas não ia ficar rasgando seda, o que suas irmãs Goneril e Regane fizeram; então o rei distribuiu seu reino entre as filhas mais velhas, deserdando Cordélia. Essa, então, casa com o Rei de França e vai embora. Após muitos acontecimentos e entraves, quase todos morrem, mas o pai fica conhecendo a personalidade de cada filha e o que as mais velhas nunca fariam por ele - defendê-lo, protegê-lo e cuidar dele na velhice- e a mais nova tentou fazer, mas não deu tempo. Excelente, como não poderia deixar de ser.
Shakespeare, William. O Rei Lear.-São Paulo:Martin Claret, 2010, 190p.
Voltando aos conhecimentos históricos e políticos brasileiros, em texto do professor, escritor e jornalista Juremir Machado da Silva, conheci o Presidente da República que governou o meu país na época em que eu era criança - de 1961 a 1964, tendo sido vice-presidente da república no governo anterior, de
Juscelino Kubitschek. O livro Jango a vida e a morte no exílio, ajudou-me, mais um pouco, a entender meu país.
Numa narrativa em flashback, Juremir vai e volta nos acontecimentos brasileiros desde 1961 ao golpe militar de 1964, tanto na política como na vida nacional e, também, vai montando a personagem João Goulart. Passamos, pela ótica desse autor, a ver quem era o ex-presidente, como vivia, quem eram seus familiares, seus principais assessores, as pessoas que o influenciaram tanto na vida como na política, até a sua morte na Argentina, em 1976.
Apresenta os ditadores militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985, suas formas de atuação e repressão, bem como o permanente cerco ao
Jango no exílio, para ter certeza de que ele não voltaria ao Brasil. Não o deixaram nem vir à sua cidade natal, São Borja. Mantinham, ininterruptamente, espiões em sua casa, suas empresas, em seu trabalho, junto a ele, à mulher e aos filhos, amigos, vizinhos, sócios, etc; não lhe deram sossego até a sua morte. Não lhe permitiram retornar, muito menos pensar em voltar à vida pública e, segundo algumas pessoas descritas no livro, foi morto por envenenamento a mando do ditador da época.
Muito bom o livro, embora cansativo, pois desvenda uma página da nossa História que muitos não querem abrir.
Silva, Juremir Machado da. Jango: a vida e a morte no exílio.- 3ªed.- Porto Alegre,RS: L&PM, 2013, 372p.
Ainda na política, acontecimentos mais recentes narrados por Ricardo Westin, jornalista, em A queda de Dilma.
Comparando o governo de Dilma Roussef ao livro O Príncipe, de Maquiavel, o autor descortina o que ele entende por razões pelas quais a Presidente caiu: por não seguir as orientações maquiavélicas. Ela decidiu, segundo ele, governar pela própria cabeça, não aceitar conselhos, ignorar o povo, mas, também, ignorar os políticos que poderiam auxiliá-la. Num governo de coalizão como tende a ser o nosso, ela tinha enormes dificuldades de conversar com os demais políticos e partidos, fazer concessões e negociações, o que levou-a à solidão e ao impeachment. E, também, suas decisões descabidas.
Somente duas partes vou lembrar do Príncipe: "O medo constante é um poderoso instrumento capaz de manter a lealdade".
"Faz as maldades de uma só vez e as bondades a conta-gotas".
Comentário no meio do livro: manda um assessor dar as notícias ruins, e dá tu mesmo as notícias boas.
Bom o livro para saber o que poderia ter sido mas não foi. Para o bem, ou para o mal, seja lá o que isso signifique nesse caso.
Westin, Ricardo. A queda de Dilma.- São Paulo: Universo dos Livros, 2017, 192p.
Marcadores:
A queda de Dilma,
Crônica,
Fernando Aguzzoli,
Jango a vida e a morte no exílio,
Juremir M. da Silva.,
leitura,
literatura,
O Rei Lear,
Quem eu?,
Ricardo Westin,
William Shakespeare
Assinar:
Postagens (Atom)














