domingo, 11 de agosto de 2019

OS HOMENS DA MINHA VIDA

Em um post que publiquei há algum tempo, mencionei as mulheres da minha vida: minhas avós, minha mãe, tias, filhas, nora, neta, sogra.  São pessoas fundamentais na minha existência.
Hoje, no dia dos pais de 2019, escreverei sobre os homens que estiveram ou estão presentes em meu tempo.  São exemplos de lutadores do dia-a-dia, pessoas simples, que compuseram ou compõem o meu círculo familiar. A eles, pois:

                               JOÃO (Vô Guta).
O vô guta, como o chamávamos,pai do meu pai, nasceu em 1892, creio que em São Borja/RS, faleceu em 1973. Filho de Paulino Carneiro da Fontoura e Amabilia Castilho da Fontoura.  Não tenho a informação de sua cidade natal, ando pesquisando.  Sei que era agricultor e carreteiro, no começo do século XX.  Depois, praticando o êxodo rural, foi morar em São Luiz Gonzaga, finalizando em Santo Ângelo/RS.
Junto com minha avó teve 15 filhos, dos quais 13 sobreviveram.  De estatura não muito alta, quando o conheci já era um velhinho alegre, com sua risada curtinha e repetida. Nas férias, contava-nos histórias de assombrações com muito suspense; e histórias dos tempos das guerras gaúchas de antanho.  Gostava de fumar seu cigarro de palha, que tinha um cheiro adocicado, ficando como lembrança da casa dos avós.  Faleceu com 81 anos, deixando extensa descendência; tanto que, nas bodas de ouro, tinha mais de 150 pessoas, contando filhos, netos, genros e noras.  Uma lembrança doce.



                                     BENTO (vô Bento). 
Nasceu em Santana do Livramento/RS, na fronteira com o Uruguai, em 10 de fevereiro de 1903, filho de Francisco Menezes de Carvalho e de Tolentina Menezes de Carvalho, ela natural de Rivera/Uruguai. Era pai da minha mãe.
Sua maior alegria, como contava minha mãe, era que eu nasci no dia do seu aniversário.  Enquanto foi vivo, comemoramos juntos esta data.
Vô Bento foi agricultor e, depois que vieram morar na cidade de Ijuí, praticando o êxodo rural, trabalhou na força e luz da Prefeitura Municipal, exercendo suas funções até aposentar-se.
Era um homem alto, forte, mulato, gostava muito de churrasco - tanto assar quanto comer -, teve 10 filhos junto com minha avó, sendo que 8 sobreviveram.  Tinha bom humor, estava sempre brincando comigo, que era sua companheirinha no chimarrão da tardinha, em frente a sua casa, quando "via o movimento". Segundo minha mãe, gostava de tocar violão e cavaquinho.
 Muito benquisto por todos na cidade, era muito conhecido, sendo nome de rua hoje, em Ijuí. Faleceu novo, com 60 anos, deixando-nos com muitas saudades.

                                                          

                                                                  JOSÉ, meu pai.
Já escrevi alguns posts sobre ele.  A pessoa mais importante, na minha vida, junto com minha mãe. 
Era alto, magro, cabelos crespos, gostava muito de andar bem apresentável, sempre que podia usava terno e gravata, e estava sempre bem perfumado e alinhado.
Nasceu em 17 de setembro de 1927, em São Borja/RS.  Conheceu minha mãe quando já contava com 25 anos.  Ele morava em Santo Ângelo e a mãe em Ijuí. Casaram-se em 1952 e, depois de muitas andanças, estabeleceram-se em Ijuí.
Gostava de ler e pescar; trabalhou na Prefeitura Municipal de Ijuí até aposentar-se, tendo trabalhado em empresas privadas em Santo Ângelo, Porto Alegre, São Luiz Gonzaga e Ijuí. Era maçom.
Exemplo de homem de fé, de força, de honra e ética, educou-nos na maior severidade e exigências, incutindo-nos a ideia de que estudar e ler bastante era o que de mais importante poderíamos fazer por nós mesmos.  Um exemplo de homem correto, idôneo, que amamos até hoje. Faleceu em 2013, aos 85 anos.


                                      GILBERTO, meu marido.
O amor da minha vida conheci aos 20 anos; ele tinha 22.  De origem italiana, natural de Silveira Martins/RS, conquistou meu coração com seu jeito tímido, sua honestidade, sua inteligência e bom humor.  Mas, principalmente, por seu amor, carinho e dedicação. 
Dividimos a vida há 41 anos e meio, e, nesse meio tempo, tivemos nossos três filhos, os filhos mais velhos já nos deram quatro netos, e vamos levando a vida para ela não nos levar.
Gilberto tem altura mediana, cabelos lisos e castanhos, gosta de um bom vinho e de churrasco, infelizmente é torcedor do Grêmio, mas é uma pessoa do bem...risos...
Esforçado, foi persistente para conseguir formar-se em Engenharia de Operação Mecânica, profissão que exerceu durante toda a vida, até aposentar-se. Para tanto, após trabalhar todo o dia em uma fábrica, em Panambi, percorria diariamente em torno de 200 km para fazer a faculdade.  Fez curso de Pós-Graduação em Segurança do Trabalho, na UEL, quando morávamos em Londrina/PR . 

GÉRSON, filho, e VITTORIO, neto.
O meu segundo filho deu-me um grande susto ao nascer, pois tinha duas voltas do cordão umbilical enroladas ao pescoço, tendo sido levado às pressas para oxigênio, pois estava roxo.  Mas sobreviveu, graças a Deus e ao pronto atendimento do pediatra. 
Meu filho é muito parecido com meu sogro, pois nasceu bem branquinho, olhos azuis e cabelos dourados. A genética vai longe.
É muito alto, era mais gordinho mas, agora, está mais magro em vista da frequência à academia de ginástica e alimentação mais saudável.  É formado em Jornalismo, fez Pós-graduação na Área de Comunicação. 
Esteve três anos na Itália, onde e quando praticou o italiano e o inglês que havia estudado.  Trabalhou em um hotel na cidade de Pisa, e realizou mais um curso de Pós-graduação em tradução inglês-italiano na Universidade de Pisa. Hoje é gerente de negócios no Banco do Brasil, e faz MBA em assuntos bancários.
Era um menino arteiro, inteligente, fazia suas tarefas escolares com rapidez para poder brincar. 
É pai de VITTORIO, meu neto mais novo, também loiro, de olhos azuis, só que o cabelo e as sobrancelhas são vermelhos, e estão começando a pintar sardas em seu rostinho.  Lembra o Pimentinha, personagem de HQ.
Muito vivaz, elétrico, arteiro, brincalhão, inteligente, é a alegria na vida desses avós, junto com os demais netinhos.

MARCOS E MOACIR, irmãos.
Marcos, o mais velho, Moacir, o mais novo.
Marcos foi meu companheiro de brincadeiras na infância, pois temos um  ano e um mês de diferença - ele é mais velho. Também foi companheiro de bailes, cinema e shows, na adolescência, por imposição de meus pais - se não me levasse junto, não tinha autorização pra sair.  Tadinho... risos...
É quem me ajuda a cuidar da mãe, hoje.  Formado em Administração de Empresas, é professor da rede estadual de ensino - outra coisa que dividimos, a profissão de professor.
Altura mediana, meio gordinho, moreno com cabelos embranquecendo, é minha força nos dias atuais.
O Moacir, nosso irmão mais novo, foi, como já publicado em outro post, o que mais estive perto, por causa de sua doença mental.  Era uma pessoa afável, carinhosa, preocupado com  a família.  Infelizmente faleceu em 2012, deixando-nos muito tristes.

JOSÉ LUÍS, meu genro, MATEUS E GABRIEL, meus netos.
Este moço moreno, de olhos azuis, conquistou o coração de minha filha Sílvia.  É agricultor dedicado, muito trabalhador, sempre preocupado com a família.  Como todos os agricultores, inicia seu dia de madrugada, e só volta para casa à noite, não tendo domingos e feriados; estes, são nos dias de chuva. Junto com minha filha, deu-me os netos mais velhos, amores da vovó.
MATEUS, menino lindo, com grandes olhos castanhos, como a mãe, é o neto mais velho.  Quando nasceu, e fui vê-lo, encontrei a seu lado minha filha.  Eu não sabia se a pegava no colo, pois eu sabia o que era o parto, ou pegava o neto.  Foi uma das maiores emoções da minha vida.
É inteligente, ama a leitura, como a avó, gosta de escrever e desenhar.  Um grande futuro o aguarda.
GABRIEL, meu segundo neto, pregou-nos um grande susto na hora do nascimento, pois teve que ser feita uma cesárea de emergência.  É um menino muito doce, meigo, inteligente, vivaz, que adora bichinhos.  Talvez um futuro biólogo ou veterinário? Só o futuro dirá o que este menino, de lindos olhos castanhos espertos, será.

VITÓRIO, meu sogro.
Este italiano nascido no Brasil foi, junto com minha sogra, o autor do melhor presente da minha vida: meu marido.
Era loiro, altura mediana, olhos azuis, que distribuiu a genética para neto e bisneto.  Agricultor, marceneiro, pai dedicado, que esforçou-se ao máximo para dar uma boa educação aos filhos.  Enquanto a planta germinava no solo, não ficava parado, trabalhava construindo muitas das casas que ainda existem em Silveira Martins/RS.  Amava o vinho, falava o italiano arrevesado, misturado com português, e contava muitas histórias da fundação da Quarta colônia, no coração do Rio Grande do Sul, onde ascendentes vindos da Itália fundaram uma cidade e trouxeram sua cultura e perseverança para agregar ao povo gaúcho.





domingo, 9 de junho de 2019

ENVELHECER



                        Dedicado a quem já envelheceu,
                        A quem está envelhecendo
                        E a quem envelhecerá.









Minha mãe, pegando um pouco de sol. Proibida a reprodução desta foto. Direitos reservados.

Perguntei a uma jovem: o que é envelhecer?
- É falar de dores, de remédios, de médicos,
Dos filhos, dos netos,
“no meu tempo”....
“não esqueça o casaco e o guarda-chuva...”
“está frio...”

Sob a ótica da juventude,
E de acordo com as vivências observadas,
Talvez seja este um ponto de vista válido.

Mas...reflitamos:
O passear pela vida,
Quando não se parte mais cedo,
Pode ser entendido
Como algo sem medo.

Ao invés da pressa, a calma;
Ao invés da arrogância, a afabilidade;
Ao invés de decisões irrefletidas, a ponderação;
Ao invés de instigar, pacificar;
Ao invés da parcialidade, a imparcialidade;
Ao invés do desperdício, a parcimônia;
Ao invés do sofrimento, o contentamento;
Ao invés da vingança, o perdão;
Ao invés da temeridade, a prudência.

Tiremos a audácia, substituindo pela pusilanimidade;
A quimera, pela realidade;
A insensatez, pela razão;
A afoiteza, pela moderação;
A crueldade, pela misericórdia...

Envelhecer nos deixa mais leves
Nos leva a reconhecer as faltas cometidas
E a aprendermos a nos absolver
E a relevar os erros que cometeram contra nós.

Nos deixa mais cuidadosos
Conosco e com os outros.
Vamos nos purificando lentamente,
Nos despindo do desnecessário,
Da tralha toda que carregamos, pesadamente,
E alimentamos durante nossas vidas.



Lorení/14/10/2018.

CONTEMPLAÇÃO








Resultado de imagem para estrelas no céu cruzeiro do sul
Imagem da internet; crédito do endereço eletrônico abaixo.
  





        Após o jantar reuníamo-nos ao pé da escada, do lado de fora da velha casa de madeira.
        Ignorávamos os pernilongos, que zumbiam em nossos ouvidos e nos picavam incessantemente.
         Perscrutávamos o céu, encontrando as Três Marias, o Cruzeiro do Sul, e todas as outras que lá permaneciam penduradas.
      Ficávamos horas conversando, fazendo planos, admirando também a lua, que escondia-se, por vezes, atrás das nuvens: meu pai, minha mãe, meus irmãos e eu; o pai e a mãe em cadeiras, nós quatro nos degraus da escada.
         O lugar onde morávamos, no lado sul da cidade, era alto em relação ao resto da cidade.
         Víamos cintilar, além das estrelas celestes, o pisca-pisca das luzes da cidade, abaixo e ao longe.
         Imaginávamos o futuro. Imaginávamos histórias de vida para cada luz de cada casa; ignorávamos as luzes de eventuais postes.
         Às vezes, uma estrela cadente riscava o céu; ficávamos alvorotados, e fazíamos um pedido.  Não recordo se algum deles foi atendido.
        Outras vezes, víamos luzes se movimentando no céu; ficávamos na dúvida: seriam aviões ou seriam as naves que circundavam a Terra, pois era no período das viagens de exploração, disputas de russos e americanos?
         Mantínhamos o cuidado frente à recomendação de não apontar o dedo para as estrelas, pois poderia criar verrugas – acreditávamos piamente nisso.
           Nesse mister passávamos um longo tempo, enlevados, distraídos, unidos num só olhar, até que o sono batesse ou começasse a doer o pescoço.
          Porém, o bom de tudo, é que estávamos reunidos, trocávamos ideias, nossos pais nos ensinavam, e aproveitávamos que o céu era limpo, não havia poluição, nem outras diversões com as quais pudéssemos nos entreter.


Ijuí, 13/3/2019.


(Imagem: https://images.app.goo.gl/EVJVPbLWwcPC2SKj7  )

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

E o mundo continua girando...

                                                

                                                          Resultado de imagem para carlos ruiz zafón o prisioneiro do céu




        Nos últimos anos minhas férias têm repetido o roteiro.
       Visito meus filhos e suas famílias, mato só um pouquinho da saudade deles e dos netos, estes seres que entraram em nossas vidas para alegrá-las, movimentá-las e nos estimular a nos mantermos vivos.
      Nesse ínterim, exercitei meu vício com bastante frequência, com as leituras mais variadas. Ei-las:

  •          A quadrilogia de Carlos Ruiz Zafón “O cemitério dos livros esquecidos” encheu-me de prazer de ler um bom romance, bem escrito, com linguagem poética de destaque, uma inserção temporal magnífica que percorre os anos que antecederam, durante e sucederam as guerras espanholas e europeias.

       Refere-se a escritores, livreiros, editores, bibliotecas, a vida de quem escreve, de famosos, de políticos,  de familiares e muitas outras pessoas.
As personagens, as paisagens de Barcelona e Madri, Paris e outras cidades europeias, estimularam a minha veia viajante; quero conhecer essas paragens; os acontecimentos lúgubres, macabros até, mas outros de um lirismo ímpar, nos embebem do prazer de ler, de ficar preso ao livro (mesmo pesado), às palavras mágicas e perfeitas, nos lugares certos; os diálogos fantásticos; a imaginação do autor, ligada a um vocabulário esplêndido, descrições criteriosas, desenvolvimento do texto com um envolvimento fantástico.  Obras que valem cada minuto, cada hora, cada segundo dedicado à sua leitura.  Recomendo!
Um pequeno trailer, só para aguçar a vontade da leitura:
“ (O jogo do anjo) Quando saí, fui surpreendido por uma brisa fria e cortante, que varria as ruas com impaciência e fiquei sabendo que o outono tinha entrado em Barcelona na ponta dos pés. (...) A chuva não chegou antes do anoitecer e, quando começou a cair, desmoronou em cortinas de gotas furiosas que em apenas alguns minutos cegaram a noite e afogaram telhados e becos sob um manto negro que batia com força em paredes e vidros. (...)
As palavras e as imagens brotaram de minhas mãos como se estivessem esperando com raiva na prisão da alma. (...)
Lembrei que o velho livreiro sempre tinha dito que os livros tinham alma, a alma de quem os tinha escrito e de quem os tinha lido e sonhado com eles. (...)
(O prisioneiro do céu) Quando Martín declarou em juízo que o único bom costume que defendia era o de ler e que o resto era problema de cada um, o juiz acrescentou mais dez anos à longa pena que já ia receber. (...) Tudo se perdoa nessa vida, menos dizer a verdade.
(O labirinto dos espíritos). Uma caneta não é de ninguém.  É um espírito livre que fica com alguém enquanto precisar dela. (sobre um presente raro e caro recebido pela personagem).

ZAFÓN, Carlos Ruiz. A sombra do vento. Trad. Marcia Ribas.-2ªed.-RJ:Suma de Letras, 2017, 462p.
        Idem. O jogo do Anjo. Trad. Eliana Aguiar.-2ªed.- RJ:Suma de Letras, 2017,    517p.
      Idem. O prisioneiro do céu. Trad. Eliana Aguiar.-1ªed.-RJ:Suma de Letras, 2017, 270p.
         Idem. O labirinto dos espíritos. Trad. Ari Roitman, Paulina Wacht.- 1ªed.- RJ: Suma de Letras, 2017, 679p.
  •          O livro de Fernando Pessoa, “Melhores poemas” aguardava há uns três anos a sua leitura (até considero releitura, uma vez que muitos desses poemas já havia lido em outras obras do autor).  Para mim, ler Pessoa tem que estar com o espírito preparado, não pode haver estresse, preocupações, compromissos, pois Pessoa, escrevendo poemas, é leitura reflexiva, meditativa, profunda, que me leva a um estado de imersão nas palavras que considero muito intenso.

    Nesse livro, há poemas selecionados por Teresa Rita Lopes;  poemas de Fernando Pessoa ele mesmo; de Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.
Como apaixonada por sua literatura, amo todos, e viajo em sua imaginação fértil, suas descrições poéticas, que relatam – datadas – sua vivência, suas observações, os países por onde andou, o que fez, sobre o que refletiu. Pessoa...é Pessoa. Nada mais a acrescentar.
     Só para relembrar, uma pequena amostra do heterônimo Alberto Caeiro, n’O guardador de rebanhos:

“XLVIII
DA MAIS ALTA janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.”

PESSOA, Fernando. Os melhores poemas de Fernando Pessoa. Seleção de Teresa Rita Lopes.-9ªed.-SP:Global, 1997, 171p.

  •          No retorno da viagem, organizando minha biblioteca (serviço interminável em minha vida, porquanto estou sempre a comprar livros...), encontrei um livrinho do Mário Quintana, que tinha dado a meus filhos quando pequenos.

   Esconderijos do Tempo trouxe-me a leveza desse nosso maravilhoso poeta gaúcho, com sua linguagem quase coloquial, suas palavras acessíveis, suas imagens poéticas deliciosas, seus quase enigmas em poucas palavras. Releitura prazerosa, aconchegante, contentamento incrível. Aconselho!
Destaco, aqui, um pequeno poema que está no imaginário de todos os seus leitores:

“ ENVELHECER
Antes, todos os caminhos iam,
Hoje, todos os caminhos vêm...
A casa é acolhedora, os livros poucos
E eu mesmo sirvo o chá para os fantasmas...

                   Silêncio. Solidão. Serenidade.

Quero morrer na selva de um país distante...
Quero morrer sozinho como um bicho!
         Adeus, Cidade Maldita!
Que lá vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no céu!

                   E todos esses que aí estão
                   Atravancando meu caminho,
                   Eles passarão...
                   Eu passarinho!”

QUINTANA, Mário. Esconderijos do tempo. Oficina perna de pau, com financiamentos oficiais para apresentação teatral com direção de Elena Quintana & Marco Fronchetti, sd, 31p.


E... Vida que segue, como diz um comunicador em nossos dias...




quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

É CRIME!

                         
Igo Estrela/Metrópoles
Brumadinho / MG
                       
Vivemos uma situação caótica em nosso Brasil há já algum tempo.
Pelo menos é assim que alguns de nós, brasileiros, nos enxergamos.
Por mais que uma grande parte da população não queira envolver-se politicamente, ou nem tenha preparo para isto, a grande maioria de acontecimentos em nossas vidas é proporcionada por interferências de governantes, por suas decisões, por decisões de seus subalternos, seja o nível que for de responsabilidade.
Há pouco mais de 3 anos vivemos um acontecimento trágico, em Minas Gerais, com a barragem de Mariana.
Soubemos, através de noticiários os mais diversos, que a empresa Vale e seus sócios, foram acionados judicialmente, mas, que, até o momento, ninguém foi punido, tendo em vista nosso sistema jurídico que possibilita inúmeros recursos a tribunais superiores.
Têm-se notícia que multas foram canceladas, assim como muita coisa foi negociada.  Entretanto, para as pessoas que perderam familiares, casas e outros bens, ainda não houve o devido ressarcimento.
Da mesma forma, têm-se notícia de que as normas legais e ambientais para as mineradoras teriam sido afrouxadas.  Há que se confirmar essas afirmações.  Entretanto, devem ser verdadeiras; caso contrário, não teria ocorrido esse crime contra as vidas humanas e de animais, assim como crime ambiental, contra o patrimônio privado e público, que foi e está sendo Brumadinho, também em Minas Gerais, também na empresa Vale.
Li hoje uma notícia que me deixou arrasada: os bombeiros teriam encontrado algo parecido com parte de um corpo; foram cavando ao redor, viram que era de uma criança; mas viram que estava agarrada em algo: foram descobrindo que era o corpo da mãe abraçado ao do filho!
Gente! Não tem como não considerar desumano, criminoso, terrível, inaceitável, que fere os direitos humanos, sendo o principal, e garantido pela nossa Constituição Federal, brutalmente agredido: O DIREITO À VIDA!
Essa mãe, com certeza tentou salvar o filho; e, no desespero, abraçada a ele, deve  tê-lo protegido com o próprio corpo!  Isto é uma cena de amor maior, que feriu os sentimentos dos bombeiros, fere nossa sensibilidade, e desperta uma revolta enorme, pois percebe-se, nas declarações dos poderosos representantes dessa empresa, que agora vão fazer alguma coisa, que não houve intenção, que era seguro, que tinha laudos (supõe-se comprados) de que não tinha perigo, mas nada fizeram depois de Mariana, repetindo em Brumadinho!
Poluem o ambiente, matam pessoas, acabam com a natureza, com empresas (as pousadas, entre outras), acabam com a vida de muitos familiares das vítimas, destroem famílias, sonhos, anseios, objetivos, exterminam lugares e pontos de referência – Mariana não existe mais, agora Brumadinho também não.  Um dia está lá, outro dia embaixo da lama de ferro!
Tem que punir, tem que responsabilizar, não tem que dar mole, sem nhenhenhém, aplicar multas, obrigar a indenizar, refazer, reconstruir, deixar o mais próximo possível do que era antes, tanto a natureza, como as casas, os sítios, as empresas....
Mas, sabemos, não tem como devolver as vidas roubadas!
Essas, nunca mais!
É crime!


Lorení Dalla Corte
30/01/2019.



(Direitos de Imagem: https://www.metropoles.com/brasil/com-34-mortos-confirmados-tragedia-de-brumadinho-ja-supera-mariana , acesso em 25/02/2019).

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Portal da Inspiração

Em 10 de novembro deste ano, estaremos lançando o novo livro do Círculo de Escritores de Ijuí Letra fora da gaveta: PORTAL DA INSPIRAÇÃO.
Eis a imagem da obra, saindo do prelo:





domingo, 19 de agosto de 2018

SARAMAGO E O VOTO EM BRANCO

  


O livro de Saramago que tenho às mãos.
  Mais uma crônica dominical, mas não, necessariamente, semanal.  Verifico, espantada, que há tempos não escrevo.  Os compromissos da vida me enleiam, às vezes sinto-me amarrada.
     Mas, mesmo assim, seguimos nossa caminhada rumo ao fim.  E que este seja bom, belo, sereno, indolor. De preferência, dormindo.
     Neste ínterim, leituras.
   O Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, deixou-me reflexiva nestes "tempos bicudos", como dizia Mário Quintana.  Estamos, novamente, frente às eleições presidenciais, renovação do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas Estaduais, bem como governadores.
     O povo, em geral (nós), já discute quem seriam os melhores candidatos; a ilusão do voto, de que a vontade popular será respeitada, e que o povo "manda" no país, através do voto e da pretensa democracia, já toma conta de muitas cabeças desavisadas.  Infelizmente, em nosso país, as pessoas com discernimento político real, são pouquíssimas.  A base do povo, da pirâmide, nem digo social, mas cultural, é tão pequena, que, creio, não temos como medir.
     O que, realmente, concretamente, acontece nos meios políticos, nos lugares onde se negocia de fato os rumos da nação, onde se decide tudo,  só uma ínfima quantidade de pessoas faz parte e tem conhecimento.  O povo vive em outro mundo, o da vida real, em que as pessoas levantam cedo todo o dia para trabalhar, enfrentam todo tipo de dificuldades, começando pela alimentação adequada, transporte, seja individual ou coletivo; falta de estrutura em estradas, ruas, cidades; escolas com sua parte física muitas vezes caindo aos pedaços, ou lugares onde nem escola tem.  Falta de emprego para uma grande parcela da população; escolas nem sempre com professores bem preparados, uma vez que a educação, infelizmente, não é e nunca foi primazia em nenhum governo em nosso país. É, e continuará sendo, tema de campanha; mas, nunca, tema de solução.
     Assistimos, estarrecidos, noticiários (em qualquer canal televisivo, ou pela internet), lemos em jornais e revistas, e vemos pessoas perto de nós sofrendo com atendimento precário à saúde,  com hospitais sem médicos ou com poucos médicos; onde faltam medicamentos e diversos materiais de uso corrente.  Vemos, perto de nós, a violência tomando conta, sejam assassinatos, roubos, furtos, violência contra a mulher, contra crianças.  
     E vemos os políticos gastando milhões, bilhões de dinheiro nosso - chamado público - em suas campanhas para reelegerem-se. Fora a corrupção, altamente desenvolvida em nosso país e exaustivamente demonstrada através de processos judiciais penais em andamento, em que políticos famosos e seus correligionários, amigos, financiadores e outros tais foram condenados e estão presos.  Isto dá nojo.
   O que Saramago tem a ver com isto?
   O livro que mencionei narra uma história em que 80% dos eleitores da capital de um país fictício votam em branco.  Demonstram, assim, sua insatisfação, sua revolta, a devolução do cuspe na cara que os políticos dão ao povo todos os dias.  O famoso "o povo é só um detalhe" de uma ex-ministra da fazenda da era Collor. O que os políticos deste romance fazem, para tentar descobrir quem fazia parte deste alto número de revoltados?  Declaram estado de sítio na capital, abandonam a cidade, retiram serviços essenciais, bombeiros, polícia, hospitais, etc, e mandam o exército cercá-la.  
     O povo, entretanto, continua vivendo sua vida, trabalhando, comendo, dormindo, se divertindo, como se nada tivesse acontecido.  Ninguém admite que votou em branco, pois o voto é secreto, e ninguém é obrigado a dizer em quem votou ou como votou.  E ninguém dedura ninguém.  Ninguém sabe, ninguém viu.
     No entanto, os políticos tinham que dar uma resposta a esta "ofensa".  O primeiro ministro reúne o gabinete; um dos ministros - o do interior - se encarrega de encontrar o culpado, o ou a cabeça do fato.  Nisto transcorre a história, a investigação, policiais, comissários, e se acha uma pessoa culpada.  Pelo decorrer da história, nós, leitores, sabemos da inocência da mulher.  Mas, ao final, como exemplo, ela é assassinada, bem como o comissário.  Alguém tem que ser culpado pelo levante da "epidemia branca" dos eleitores.
     Quem quiser refletir antes das eleições sobre este fato, está aí uma ótima indicação.  Saramago sendo Saramago. A sabedoria em pessoa.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a lucidez.- SP:Cia. das Letras, 2004, 325p.

domingo, 13 de maio de 2018

DIGNIDADE DE MULHER



Um dia eu me vi
Minha mãe ao piano.
do jeito que comecei a ser
e por esta vida vivi
durante todo o meu crescer.
Ao meu lado, apoiando
Vi uma mulher que,
sorrindo, às vezes chorando,
acompanha-me desde o nascer.

Esta mulher, pouco mais que uma criança,
ao encontrar seu amor, muito jovem,
assumiu obrigações
de uma casa cuidar;
com pouca idade ainda, começou a função
de muitas bundinhas lavar...

Com amor, muito carinho,
sofrimento, dificuldades,
as criaturas geradas foi ajudando
 a escolher seus caminhos.

Houve problemas - e quantos!
Houve angústias - aos montes!
Houve receios - inúmeros!
Inseguranças - às fartas! 

Aparentemente fraca e submissa,
profundamente humana, compreensiva
muitas vezes usou seu carisma
para, pelos filhos, interceder.

No fundo do seu ser,
no âmago da criatura,
apesar da falta de cultura
(dessa de faculdade)
um sentimento, uma necessidade
de um objetivo maior,
da realização ao lado
da maternidade.

Os rebentos cresceram,
desenvolveram suas capacidades
por ela e pelo companheiro
apoiados, estimulados.
E então, eles se espalharam.

Esta criatura,
com o dom e o fino sentido musical
aguçado, incentivado afinal,
começou a brotar, crescer,
florescer e desabrochar.

Na meia-idade,
já com alguns netos ao redor,
com muitas emoções vividas,
começou a frequentar aulas de música.

As mãos meio emperradas,
alguma lerdeza motora,
mas ela não desistiu;
e a música entrou em sua alma
através das mãos
e nunca mais saiu.

Mulher...minha mãe,
quanta emoção eu sinto
e orgulho de falar
que ela persistiu em seu sonho,
ao mesmo tempo em que
outros problemas da vida
vieram lhe perturbar.

Tenho certeza que a pessoa que tiver
muita força de vontade
a par da lutas incessantes
merece a dignidade
de ser chamada MULHER!


Fiz este poema para minha mãe em 04 de maio de 1986.  Era uma homenagem ao dia das mães e o publico hoje, também no dia das mães, em sua homenagem.
O mal de Alzheimer já não lhe permite mais tocar piano; mas colocando para ouvir músicas que ela ama, canta junto, relembra as letras, seus olhos brilham.

 

domingo, 6 de maio de 2018

Conversando com Pablo Neruda






Imagem do exemplar que tenho às mãos.
Creio que há mais de 20 anos devo ter lido "A Bacarola" de Pablo Neruda.  Mas nunca é demais relermos o que nos faz bem aos sentidos, à alma, ao coração, à mente.
Há quase dois anos o havia adquirido em nossa feira do livro, pois a outra vez o li da biblioteca da escola onde lecionava.
Pablo Neruda não é Pablo Neruda, este é seu pseudônimo.  Ricardo Neftalí Reyes Basoalto, natural da cidade chilena de Parral nasceu no início do século XX, em 12 de julho de 1904. Filho de professora e de ferroviário, cresceu na cidade de Temuco, perto de florestas, em meio à natureza, de acordo com informações da breve biografia do volume que tenho às mãos.
Desde a adolescência começou a escrever e publicar textos; estudou francês e pedagogia; foi diplomata, vivendo em diversos países. Publicou várias obras, sendo aclamado pelo público chileno e mundial.
Foi filiado ao partido comunista chileno, sendo eleito senador; exilou-se devido às diversas complicações políticas pelas quais passou o Chile. Voltou ao Chile em 1952; prêmio Nobel de Literatura em 1971, faleceu em 1973 em Santiago do Chile.

A Barcarola

Já havia amado o livro a outra vez que o li, tendo recordado este prazer, agora renovado.
Nele, Neruda proclama ao mundo o seu amor à pátria, aos heróis, à cultura, às florestas, às montanhas, ao povo, à alimentação chilena, às espécies de vegetação nativa, enfim, seu amor ao Chile.
É como se ele pegasse um barco e fosse passando por diversas épocas, acontecimentos, povos, figuras públicas ou não.  Amor ao seu próprio país, ainda não vi tão grande em outro autor.
Quanto à linguagem, apresenta-se culta, com muitos vocábulos típicos da terra, estes com notas ao pé da página para melhor compreensão.  Linguagem poética elevada, figuras de linguagem expressivas.  Não à toa um prêmio Nobel de Literatura.
Os poemas são ordenados em forma de episódios.
De destacar alguns poemas que gostei por demais, e que divido com as pessoas que, como eu, amam poesia. Quem não gostar, não me leia.

"Segundo episódio:

Estou longe

É minha a hora infinita da Patagônia,
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
(...)
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu. (...)

Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade do meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.

Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.  E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca.  E eu canto.
Eu canto.  Eu canto.  Eu canto.  Eu canto."

Terceiro episódio.

Primavera no Chile

(...) Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldo de lua e peixe." (...)

Quinto episódio.

Os sinos da Rússia

ANDANDO, movendo os pés sobre um amplo silêncio de neve
escuta-me agora, amor meu, um sucesso sem rumo:
estava deserta a estepe e o frio exibia suas duras alfaias,
a pele do planeta brilhava cobrindo as costas nuas da Rússia
e eu no crepúsculo imenso entre os esqueletos das bétulas,
andando, sentindo o espaço, pesando o pulsar das solidões. (...)
e é assim como eu, caminhante, escutei os sinos da Rússia
desatarem entre o céu e a sombra o profundo estupor de seu canto. (...)

Eu sou, companheira, o errante poeta que canta a festa do mundo,
o pão na mesa, a escola florida, a honra do mel, o som do vento silvestre, (...)

Sinos de ontem e amanhã, profundas corolas do sonho do homem,
sinos da tempestade e do fogo, sinos do ódio e da guerra,
sinos do trigo e das reuniões rurais à beira do rio,
sinos nupciais, sinos de paz na terra,
choremos sinos, bailemos sinos
cantemos sinos pela eternidade do amor, pelo sol e a lua e o mar e a terra e o homem." 

Maravilhosa esta navegação na Barcarola de Pablo Neruda.

Neruda, Pablo. A barcarola; trad.de Olga Savary.-Porto Alegre:L&PM, 2016.

 
 




 

domingo, 4 de março de 2018

"A vida é assim..."

"A vida é assim...", dizia meu amado pai em seus últimos tempos, quando ainda conseguia falar.  Sua mão trêmula segurava a cuia de chimarrão, e seus olhos tinham um olhar de distância, de ver longe onde não víamos; admirava as árvores e flores que ele plantara ao fundo de sua casa, e as  que o vizinho plantara aos fundos da dele, árvores estas que, juntas, formavam uma agradável linha verde, de cheiro de mato, de frescura, de pios de aves, de gatos subindo por elas, de amanheceres e anoiteceres.  A vida dele anoitecia...
Minha mãe repete esta frase de vez em quando; não lembra mais quem a dizia, e o  crepúsculo se aproxima para ela, lentamente, sem pressa, fazendo-a olhar ao redor com o mesmo olhar de distanciamento, de ausência, de adeus, de ver o que não vemos.
Nesse ínterim, vamos vivendo. Como diz o sambista: "deixa a vida me levar, vida leva eu...", às vezes a levamos, e às vezes somos levados: pelo trabalho, pelos compromissos, pelas responsabilidades, pelas preocupações e angústias  de nosso tempo, pelas ilusões, anseios, sonhos,  leituras, viagens, prazeres...doenças, dificuldades, restrições etárias e tudo mais.
Todavia, não devemos deixar a peteca cair, é o que aprendemos; contudo, se ela cair, a gente a levanta de novo e segue o baile.

Férias


Itapema,lotada.
 Novamente visitamos nosso amado filho e sua família; novamente tiramos nossas 2 semanas de contato com hélio, ou hélius; duas semanas de Itapema, novamente, praia que amávamos.  Ficamos em um apartamento cuja vista era magnífica; mas Itapema mudou muito depois de alguns anos; estava lotada demais, muita gente por cm², nem é m²; guarda-sóis se batendo; e um hábito terrível que os turistas desenvolveram: cada um leva para a beira do mar um aparelho de som no qual ouve suas músicas preferidas em uma altura que deveria ser proibida pela Prefeitura; ocorre que, em poucos centímetros de distância, há mais uns 2 ou 3 destes aparelhos, cada um mais alto que o outro, cada um com um estilo de música diferente, o que transformou, literalmente, Itapema/SC em uma babel musical. Um horror!  Já decidimos: nas próximas férias procuraremos outro lugar ao hélius!

Leituras

Entrementes, não parei as minhas leituras. Tanto viajando, quanto em casa, realizei-as com prazer. Ei-las:

A varanda do Frangipani, do Mia Couto. 

Ainda não tinha lido nada deste autor moçambicano, famoso em todo o mundo.
Conta a história de um assassinato dentro de uma fortaleza que transformara-se em um asilo. Há fantasmas, assassinos, enfermeira, idosos.  Embarcações, armas, ondas batendo no rochedo.  Excelente leitura, para conhecermos um pouco da cultura africana.
Couto, Mia. A varanda do frangipani.- São Paulo: Cia. das Letras, 2007.

Os vestígios do dia, do Nobel de Literatura 2017, Kazuo Ishiguro.

Quando comecei a ler este livro, não acreditei que tinha sido escrito por um japonês.  Mas, ao ler as informações biográficas, verifiquei que ele fora morar na Inglaterra com 5 anos de idade.
Narra uma história de vida de um mordomo inglês com tantos detalhes, que cheguei a pensar que ele tinha sido um.
Tal mordomo havia servido por três décadas a um amo da alta roda política, econômica e social inglesa; depois de sua morte, a imensa propriedade é vendida a um americano, e o mordomo entra no negócio como "móveis e utensílios", e passa a prestar serviço ao novo amo.  Também detalha uma viagem dele pela Inglaterra em busca de uma antiga funcionária da casa, a governanta, que ele gostaria de trazer de volta.  Perpassam pela narrativa um estilo bastante formal, em que prevalece a hierarquia entre as pessoas, o "estilo britânico" de viver e relacionar-se.

Ishiguro, Kazuo. Os vestígios do dia, seguido de "Depois do anoitecer"; tradução de José Rubens Siqueira.-2ªed.- São Paulo:Cia das Letras, 2016.

A casa inventada, da conterrânea Lya Luft.

Lya Luft, ao lado de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, são as autoras que entraram na minha vida na juventude, quando iniciei o Curso de Letras.  E nunca mais saíram.  Gosto do estilo das três, que têm algumas semelhanças, mas carregam, cada uma à sua maneira, seu estilo próprio e inconfundível de ser escritora intimista, reflexiva e perturbadora.
Nesta Casa inventada, Lya reflete sobre a vida, de uma forma maravilhosamente humana.  Nos coloca ante os enigmas que enfrentamos no transcorrer do tempo, nossos traumas, nossas alegrias, tristezas e perdas; e vai desvendando a sua casa, peça por peça, passando pelo porão e pelo pátio, chegando ao jardim dos deuses e à escada no fim do muro.  Lya é Lya. Vale a pena a leitura.
Luft, Lya. A casa inventada.- 1ªed.- Rio de Janeiro:Record, 2017.

A arte de escrever, de Arthur Schopenhauer.

Há algum tempo li um texto, destes que circulam na rede mundial de computadores, que sugeria algumas leituras essenciais para quem gosta de escrever.  Seriam autores indispensáveis, que dariam muitas dicas e auxiliariam os pretensos escritores no seu afã.
Considerei interessante; e, como ler para mim é um hábito, concluí que, se não fizer bem, mal não faz.
O primeiro da lista que encontrei pelas minhas plagas é este, do filósofo alemão, que viveu de 1788 a 1860.
É óbvio que a distância temporal que nos separa criaria alguma dissidência na maneira de pensar e encarar a tarefa de escrever; igualmente considerando que os tempos, além de serem outros, trouxeram um conhecimento que ele não tinha, e uma tecnologia que, nem em seus maiores delírios, sonharia.
Mas vamos ao que interessa: Schopenhauer sugere que quem quiser escrever, não deve ficar lendo o que outros escritores escrevem, para não ser influenciado!  Que deve somente basear-se nos clássicos gregos e romanos, escrever em latim e jamais na língua própria de seu país! Principalmente condena seus colegas que começaram a abandonar o latim e escrever em alemão.
 Critica ferozmente seus contemporâneos, que se consideram eruditos, e que os eruditos não são nada. Cada pessoa deve desenvolver suas próprias idéias e publicá-las, procurando desconhecer o que os outros escrevem, "pensar por si mesmo".
Concordei com ele no sentido que não se deve fazer textos longos, que cansam o leitor, este condescendente, que teve a paciência e o esforço de nos ler.  Este é um exercício que devo desenvolver, pois sou muito prolixa.
Também critica a tradução, pois uma língua nunca vai conseguir transformar as idéias, pensamentos, mensagens e descrições de outra língua em algo idêntico.  É só aproximação.
Achei um tanto absurdo o livro e as idéias do autor.  Alguma coisa se aproveita. 

Schopenhauer, Arthur. A arte de escrever; tradução de Pedro Süssekind.- Porto Alegre: L&PM, 2014.

A carta roubada e outras histórias de crime & mistério, de Edgar Allan Poe.
Já havia lido dele "Assassinatos na Rua Morgue", há alguns anos atrás.
Neste livro estão reunidos alguns contos que publicou em sua atormentada vida.
Não gostei muito do estilo, pois quase todos são contos de terror ou horror, muita morte, mistério, assassinatos, tortura e outros quetais.  Não é o meu tipo de leitura preferida, mas... como havia comprado o livro e queria conhecer melhor o autor, fui até o fim.
Na realidade, todos os contos deste livro desenvolvem-se na Europa, mesmo o autor sendo americano.  Este demonstra uma grande cultura, um grande conhecimento, tem um estilo excelente de escrita, um vocabulário rebuscado e uma técnica perfeita.  Apesar de não gostar do estilo, vale a pena a leitura.

Poe, Edgar Allan. A carta roubada e outras histórias de crime & mistério; tradução de William Lagos.- Porto Alegre:L&PM, 2017.