segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

ANTES QUE O ANO SE ESVAIA


 


           Este ano foi um ano de redenção para mim.

        Aos poucos estou retomando minha vida, um eixo se delineia, o coração anda calmo, inclusive as palpitações que tinham se iniciado na pandemia, estão rareando.  Estão acontecendo alguns encaixes.  Como dizia um repórter televisivo, vida que segue.

        Para coroar e encerrar com chave de outo, este ano participei de alguns concursos literários, e o Círculo de Escritores de Ijuí, Letra fora da gaveta, voltou a publicar seu livro, a Coletânea

 

ALÉM DAS PALAVRAS

 

        Neste livro os autores que compõem o Círculo deixaram suas impressões, seu testemunho, suas observações e seus sentimentos.

        Colaborei nesta publicação cooperativa, com o conto “Lampião de querosene”; a crônica “Enchentes” e a poesia “Humana natureza”.

        Vale a pena a leitura pela qualidade e beleza dos textos, e o  esforço dos escritores independentes: Artigos, Contos, Crônicas e Poemas, projeto gráfico muito bem feito.

               

        Concomitantemente, sou acadêmica correspondente da Academia Literária Internacional “A palavra do século 21”- ALPAS-21, de Cruz Alta/RS, e minha patrona é Lya Luft, grande escritora gaúcha.

        Este ano a Academia extrapolou, publicando vários livros. Participei de dois deles, igualmente de forma cooperativa, os quais são:

 



100 ANOS DE CULTURA NO BRASIL

        Com prefácio da Presidente, Rozelia Scheifler Rasia, este livro relembra o movimento de 1922 na Literatura Brasileira e valoriza escritores componentes na ALPAS-21 neste momento histórico.

        Os autores são identificados através de sua bio-bibliografia, e cada um publicou os textos que achou adequados.

        Participei com as minhas informações e a crônica ”O primeiro amor”.

       

        O terceiro livro do qual participei este ano também é uma publicação da ALPAS-21, Coletânea Internacional

 


INFINITO OLHAR

        Nela os autores imprimem suas impressões, suas pesquisas, seu olhar ao infinito, através de  Poesias, Contos e Crônicas, resultando numa obra magnífica de alto gabarito.

        Minha parte constou da poesia “Um novo eixo”; e o conto “A casa verde”.

        Certeza de ótimas leituras e grande satisfação, edição primorosa, capricho dos escritores e acadêmicos.

        Quem quiser adquirir exemplares, contatar os autores (que não objetivam lucro, apenas divulgar sua escritura e recuperar o investimento).

        Ao participar do 37º Concurso Internacional de Poesias, Contos e Crônicas, da ALPAS-21,  após análise e cotejo rigorosos da comissão organizadora e de avaliação, recebi o Certificado de Destaque Literário em Poesia com o poema “O livro me salvou”;  igualmente recebi o Destaque Literário em Crônica com  “A fuga da Rotina”.  Ambos serão publicados no próximo ano.  Meus queridos leitores terão que aguardar a chegada de 2023 para usufruir da leitura de ambos. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

NATAL

 

                               

 

        As primeiras lembranças que tenho do Natal são da casa de meus avós maternos.

        Morávamos em Santo Ângelo e viemos passar o fim de ano com eles. Eu  devia ter uns quatro anos, alguns de meus tios ainda eram solteiros.  A mais nova ainda era criança, pois é seis anos mais velha que eu.  Ela tinha uma boneca que andava, virando a cabeça, e dizia: mamãe.  Era a Marta. Ela não me deixava brincar com a Marta...

        Minha madrinha deu-me de presente uma bonequinha de louça, linda, de olhos azuis e cabelos castanhos. Na caixa estava escrito “Tiquinha”, pois era pequenina, assim como eu.  Embora não caminhasse, ela chorava quando a gente mexia nela.  Mas, quem tem irmãos e não irmãs, sofre! Um dia que brigaram comigo, meus irmãos atiraram a Tiquinha dentro de uma bacia cheia d’água, e ela parou de chorar e parou de movimentar os olhos; quem chorou fui eu!  Estragaram minha boneca! Tive que levá-la ao hospital de bonecas. Eles fixaram os olhos dela para sempre! Mesmo sem chorar mais, tenho-a até hoje!

        Como fazíamos parte do povo que dependia das brizoletas para fazer o Natal, meus irmãos ganharam caminhões de madeira feitos por meu pai.

        Era tradição na minha família, e fui aprendendo com o passar do tempo, na Noite de 25 de dezembro ir ao Culto de Natal na Igreja Metodista.  Eu ficava emocionada ao ouvir os membros da igreja cantarem, bem alto, com harmonia a música Noite Feliz  e muitas outras. Todas as mulheres dos pastores tocavam órgão, então ficava uma cerimônia linda.  Sempre tinha, também, a representação de Natal, sendo que os jovens e as crianças desempenhavam o papel de José, Maria, os reis magos, pastorzinho, etc. Jesus era um boneco grande, mas uma vez puseram um bebezinho na manjedoura. E tinha a música dos duendezinhos... eu fui duende, Maria, narradora, etc...

        Quando eu tinha 8 anos, e já morávamos em Ijuí, ganhei um bebezão.  Ô felicidade! Gostei tanto dele, cuidei tanto para não estragar, que minha primeira filha chegou a brincar com ele.

        O tempo foi passando.  Fui ganhando vários presentes de Natal, desde brinquedos de todos os tipos para brincar de casinha, como era a tradição.

        Quando estávamos na escola, meus pais sempre davam para nós, além dos brinquedos, um livro para quem passasse de ano.  Lembro de alguns que ganhei: O macaco trapaceiro; O califa cegonha; livros das princesas Cinderela, Branca de Neve...; Histórias que ficaram na História, entre outros.  Minha família é de leitores.  Meus pais liam muito, minha avó materna também, e muitos descendentes são leitores e alguns gostam, também, de escrever, assim como eu.

        Quando um pouco maior, ganhei um quadro para escrever.  Que alegria!  Eu repassava toda a matéria estudada no dia para meus alunos invisíveis... não sabia que assim agindo, eu estava reforçando o aprendido, e treinando para ser professora, anos mais tarde.

        O tempo foi passando, vieram os namorados, os presentes variavam de chocolate a perfume, uma blusinha aqui, uma sandália lá...

        Depois que casei, vieram os filhos.  Os primeiros presentes foram brinquedos, livros de pano, livros de banho e assim por diante.

        Lembro de três presentes, em especial pedidos por meu filho: num Natal, o ponte-car, uma camionete que tinha um mecanismo que fazia girar uma ponte que passava por cima de si mesmo e ia adiante, quando o carro daí passava por cima. Não tinha pilha que chegasse! Outro foi o pogobol, ou pula-pula.  Uma bola presa numa base, onde ele colocava os pés e pulava.  Ficava pulando o tempo inteiro, até criou músculos nas pernas de tanto pular... e o skate, no qual ele subia e andava.  Este fez com que, numa arte, caísse e quebrasse um dente da frente.

        Minha filha mais velha amava as bonecas, lembro da barbie face, que vinha uma cabeça e material de maquiagem.  Além do feijãozinho e outras bonecas lindinhas que ela tinha uma coleção. Outro presente que lembro bem que demos a ela foi um gravador colorido com microfone acoplado.  Cantar e fazer apresentações passou a ser sua diversão, gravando em fitas k7.

        A filha mais nova, já muitos anos depois, pois é temporã, também amava os bebezões, teve bonecas de todos os tamanhos, coleção de barbies.  Mas um ano ela encasquetou que queria um relógio com pulseiras coloridas.  Passou o ano inteiro buzinando nos meus ouvidos.  Como foi bem aprovada na escola, ganhou o tal relógio.

Porém o que eu mais gostava nos últimos natais em que minha família pôde reunir-se eram os que passávamos com meus pais, enquanto estavam vivos.  Reuníamo-nos na casa deles a minha família, as dos meus irmãos, irmãos do meu pai e da minha mãe e fazíamos uma festa maravilhosa todos juntos.  Morávamos no Paraná, meu irmão mais velho em Porto Alegre, mas sempre dávamos um jeito de estarmos juntos, pelo menos uma vez por ano.  Meu pai, meu marido e meu irmão ficavam encarregados do churrasco.  A mãe, eu e as cunhadas ficávamos encarregadas dos complementos e da sobremesa deliciosa; cada uma fazia uma diferente e servíamos depois da ceia.

        A comida era a desculpa.  Tinha jogo de dama, de xadrez, alguns assistiam ao Roberto Carlos na tv, as crianças corriam e brincavam.  Minha mãe colocava na eletrola seus elepês de natal, e eu sempre me emocionava. O pinheirinho era armado na sala todos os anos. Depois que ela aprendeu a tocar piano, fazia um pequeno concerto para nós.

        Depois da sobremesa, sempre aparecia o papai Noel que entregava os brinquedos para a criançada, mas os adultos também gostavam de receber as lembrancinhas.

        O natal sempre nos traz lembranças carinhosas das pessoas queridas que se foram.

        Agora, a matriarca sou eu.  A comemoração do aniversário de Jesus é na minha casa, com meus filhos e meus netos.

        A celebração continua, o amor permanece, algumas tradições são mantidas.  A família encolheu, mas o amor não. Além dos meus pais, meu marido também partiu.  Confraternizamos lembrando dos momentos de alegria passados com nossos queridos cujas cadeiras estão vazias.   Recordamos os muitos abraços, os beijos, as brincadeiras, a maravilha que era estar juntos.  Entretanto, há os descendentes para ocupar essas cadeiras e manter aquecidos os corações com amor, fé, carinho, fraternidade, esperança, muitas brincadeiras e correrias, para não perder o jeito.  Sempre tem alguém jogando damas ou cartas, um bebê chorando, alguém assistindo tv... e as músicas natalinas que eu amo e continuam me emocionando agora tocadas não na eletrola pelos elepês, mas baixadas da internet direto para computadores ou celulares.  As coisas mudam, mas as emoções não.

 

 

Lorení

Dezembro 2022.

       

domingo, 27 de novembro de 2022

ANGÚSTIA

                                                                    Foto da autora.
 


 

 

        Noite dessas eu sonhei com ele.

        Vínhamos de mãos dadas, meu amor e eu.

        Estávamos alegres, felizes, entusiasmados.

    Chegamos à beira de um rio.  Fiquei com receio de atravessar, mas ele estava tranquilo.

        Não era um barco o que nos transportava.

        Era uma coisa comprida na qual a gente se agarrava com as mãos, em umas alças, e impulsionava com os pés.

        Tinha bastante gente fazendo o mesmo.  Eu não conhecia ninguém, nem ele.

        Não foi difícil a travessia, ao contrário, foi muito fácil e rápido.

     Fomos rindo e conversando, percebia-se a leveza de nosso estado de espírito, a tranquilidade e segurança. Confiança.

        Ao chegar no outro lado, o povo dispersou.

       Eu fiquei sozinha.  Mas sabia que ele estava por perto, estava segura disso.

        O dia foi passando, já chegava o anoitecer.

        Eu carregava uma sacola meio esfarrapada, e dela caíam as coisas que eu carregava.

        Perguntei por ele.  Estava apreensiva.  E ele não vinha.

        De repente, surgiu uma mulher, de quem eu não via o rosto, que me disse:

        _ Põe este vestido vermelho, põe tuas coisas nesta outra sacola e vamos. Vou te ajudar a chegar ao rio para voltares.

        Eu procurava por ele.

        As coisas caíam da sacola.

        Escureceu.

        Eu não via nada.  Caminhava no escuro.

        A mulher segurava minha mão e tentava me tranquilizar.

        Seguimos caminhando no escuro, eu ansiosa e com medo, procurava por ele e dizia:

        _ Como que ele foi na minha frente e não me esperou?  Deixou-me aqui, sozinha? Ele não podia fazer isto comigo...!

        Continuamos caminhando, a mulher e eu.  Sei que era uma mulher pela voz, e estava com um vestido longo, não sei a cor.

        Quando fomos chegando perto do rio, vi uma pequena claridade, e o ruído das águas e das  pessoas conversando.

        A mulher sumiu.

        Atravessei o rio?

 

 

Lorení.

Sonho em 8/8/2021.

       

sábado, 26 de novembro de 2022

SOLIDÃO

 


                                        






Perdi as palavras... (eu e o Drummond!)

Procuro-as!

(Não vale tua brincadeira, ao dizer-me: estão no dicionário!)

Eu sempre estive procurando algo, em minha vida.

Pesadelos recorrentes o disseram!

Hoje, as palavras!

 

Minhas mãos estão lisas

Tudo escorre por elas....

As palavras também ...

Coisas escorregam e caem e se quebram

Estão fugindo, se escondendo

Como as palavras

 

Sinto-me perdida!

Sozinha

 

Solidão?

Solitude?

Sensação de abandono?

Incompletude!

 

Lorení


14/10/21


Imagem: https://mysuffering.wordpress.com/tag/solidao-tristeza/  

terça-feira, 1 de novembro de 2022

ASSIM SEGUE O BARCO...






SÃO FRANCISCO DO SUL/SC

 


Amanhã faz um ano que publiquei o último post.

Este ano foi conturbado para mim: mudei de residência e cidade; fiz duas cirurgias no rim esquerdo; meu netinho mais novo nasceu; fiz algumas viagens.

Estou em período de adaptação no novo lugar. Foi a oitava vez que mudei de cidade na minha vida.

E há dois dias tivemos o segundo turno das eleições brasileiras.

Eu não faço campanha, mas tenho meu posicionamento político.  É um direito que tenho.

Fiquei do lado que perdeu as eleições por menos de 1% de diferença dos votos válidos, que, somados  aos que não votaram por estarem doentes, viajando, votaram em branco ou  anularam o voto, ou não compareceram por outro motivo qualquer, supera em 2,79% o vencedor.

Segundo o site do Tribunal Superior Eleitoral, seriam os seguintes os dados: 75,8% dos eleitores foram votar; houve uma abstenção de 20,56%. Votos brancos 1,43%; votos nulos 3,16%.

O candidato vencedor recebeu dos que compareceram 50,9% dos votos válidos; e o candidato perdedor, 49,1%.

Somados os votos do perdedor aos brancos e nulos, temos um total de 53,69%, contra os 50,9 do vencedor.  Uma diferença mínima de 2,79%.  Longe de ser unanimidade.  

No meu entendimento e no destes 53,69% de brasileiros, o candidato que venceu não merece estar lá a partir do ano que vem.  Ele não foi inocentado de seus crimes pelo Supremo Tribunal Federal, de acordo com informações dos próprios Ministros do STF.  Apenas foi "ajeitado" para deslocar  seus processos-crime para outras cidades, sendo uma das possibilidades do Código de Processo Penal Brasileiro: a competência jurisdicional, ou seja, o lugar onde deva ocorrer  o processo.  As provas não foram anuladas, ele não recebeu carimbo de inocente.

Mas quem somos nós, pobres mortais, para discutir com o STF?

Entretanto, eu e estes 53,69% de brasileiros, temos vergonha de saber que os outros 46,31% elegeram um condenado, uma pessoa que admitiu que apropriou-se indevidamente da coisa pública, que mentia e inventava dados, e que, muitas vezes, foi ao exterior falar mal do Brasil e dos brasileiros, além de disponibilizar nossos impostos para obras em outros países, em detrimento do povo brasileiro.  E que preferiu fazer estádios de futebol a hospitais.  Quando ocorreu a pandemia, esses hospitais fizeram falta. Além de estar, pelo que se deduziu de suas falas e comportamento em debates, fora de seu juízo perfeito; no tempo de minha avó se dizia caduco, mas esta palavra não se utiliza mais. Está fora de moda.

Esse ser não me representa.

Serei oposição ferrenha. Não só ao que estará no poder executivo com seus asseclas, mas aos seus defensores. 

Os próximos quatro anos serão de fiscalização e denúncia. 


terça-feira, 2 de novembro de 2021

E ELAS FICARAM PRESAS NO CEMITÉRIO...





 

...o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta. (...)

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio.  Olhou em redor. A peça estava deserta.  Voltou a olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada.  Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso. (...) Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro.  Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás. (...)

- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem  uma frincha na porta.  Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho.  Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo. (...)

E, de repente, o grito medonho, inumano:

-NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado.  Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra.  Assim que atingiu o portão do cemitério, lançou ao poente um olhar mortiço.  Ficou atento.  Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado.  Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira.  Crianças ao longe brincavam de roda.”

TELLES, Lygia Fagundes. Mistérios.- RJ: Nova Fronteira, 1981. Conto: Venha ver o pôr-do-sol, p.201

 

             As primas havia muito não se encontravam por causa da pandemia.

         Com uma diferença de idade de sete anos, cresceram longe uma da outra.  Moravam em cidades diferentes.

     Agora, na fase quase e pós-sessenta, reencontraram-se.

     Algumas afinidades surgiram.

    Uma foi visitar a outra, foram jantar num restaurante conhecido e, após, tomaram uma garrafa de vinho branco; ficaram conversando até tarde, fazendo o que chamaram de terapia familiar, trocando impressões a respeito de alguns eventos em suas vidas.

    De acontecimentos políticos a posições ideológicas, criação dos filhos, traumas da infância – quem não os tem? – estudos, profissão, viagens e aposentadoria... tudo era assunto.  Muita risada e um pouco de vinho deixaram-nas leves.

   No outro dia resolveram ir levar flores e pronunciar preces à tia recém-falecida, mãe da mais velha.

    Chegaram ao cemitério municipal pelas dezessete horas.

   O dia estivera cinzento, emburrado, e não decidia se chovia ou não.  As nuvens meditavam.

  O cemitério estava lotado, já não havia mais lugar para nenhum falecido, e as autoridades municipais já haviam inaugurado outro cemitério.

   Rapidamente localizaram o túmulo em que se encontravam os queridos familiares.

   Colocaram as flores, fizeram suas orações e dirigiram-se para a sepultura de outra tia e de uns primos, que eram perto.

   Já iam encaminhando-se para a saída, quando lembraram que poderiam encontrar o túmulo dos avós.  Fica lá no centro da necrópole, perto daquele coqueiro.

    Começara uma garoa bem fininha, e o céu escurecera mais um pouco.

    Caminharam por entre os jazigos, em calçadas estreitíssimas e de difícil acesso.

   Chegaram ao coqueiro.  A mais velha sempre teve dificuldades de localizar a tumba dos avós, era um emaranhado de túmulos, um labirinto... Caminharam para todas as direções a partir do coqueiro. Não localizaram.

    Como a chuva estava ficando mais intensa e escurecendo, resolveram falar com o funcionário que tinha tudo anotado.

     Foram em direção ao posto em que ele deveria estar.

     Com as sombrinhas abertas, avistaram, ao longe, um vulto.

     - É ele – disse a mais velha.

     Não era.

  Na semi-obscuridade momentânea, confundiram uma imagem de um anjo de sepultura com a pessoa que deveria estar por perto.  O escultor fizera um ótimo trabalho...

  Desceram mais um pouco.  O posto estava fechado. Dezessete horas e trinta minutos, conferiram no relógio.

    Com dificuldade, desceram até o portão por onde haviam entrado.

  Corações acelerados, ansiosas, verificaram que o portão norte estava fechado, chaveado. Com corrente e cadeado!

    Havia quatro portões.

    O que ficava em frente a este, lá longe, ao sul, também estava fechado.

    A mais nova estava em estado de pânico.

     - E agora, que fazemos? Estamos presas no cemitério! Vou perder meu ônibus...

    Ambas cardíacas, com hipertensão e assustadas...

    Aterrorizadas, foram ver os outros dois portões.  Fechados.

   A mais velha lembrou de um conto de Lygia Fagundes Telles, em que uma moça foi presa no cemitério pelo ex-namorado... mas era outra história.

   O desespero foi chegando... junto com ele, o medo!

   A mais nova puxou um medicamento e ofereceu à outra, que recusou.

    - Calma, vamos sair dessa.

    Ligaram para um primo comum que conhecia muita gente, quem sabe conhecia o secretário municipal responsável pelo cemitério?

   Este ligou para o irmão jornalista, que conhecia todo mundo ainda mais, para tentar ajudar as primas.  Não sem antes rir muito da situação inusitada e sugerir a elas que pulassem o muro. Sim, duas senhoras idosas, não exatamente magrinhas, probleminhas nos joelhos, pulando o muro do cemitério...

    Enquanto aguardavam o contato dos primos, ouviram um barulho, sentiram um ventinho gelado e ouviram um risinho zombeteiro:

      - Então, que arte andaram aprontando? Estão de castigo aqui conosco?

     Com as faces pálidas de susto e os olhos esbugalhados, viram o ectoplasma do irmão mais novo da mais velha, que olhava para elas, divertido, brincando, como sempre fazia enquanto vivera.

      - Vieram nos visitar mas não queriam nos ver?

     Ambas tremiam, assombradas, com algo tão inesperado e que nunca imaginaram acontecer com elas.  Permaneceram estáticas, mudas, coração saltando pela boca, com medo.

     O espectro, ainda brincando, chamou os pais, o cunhado (marido da mais velha), as tias, os primos, os avós...

      Todos foram chegando devagarinho; elas permaneciam imóveis e lívidas...

      O marido da mais velha brincou com ela:

    - Saudades de mim? Veio me ver? Mas vieram muito tarde, é perigoso algum malandro estar por aí e querer fazer alguma maldade com vocês.

       Os pais, as tias e os primos riam, divertidos:

       - Vamos fazer uma festa com a presença delas aqui.  É que elas não sabem das festas que fazemos depois que fecham os portões da nossa casa...

   Os avós ficaram felizes com a visita, e queriam abraçá-las... foram se aproximando...

         Tocou o celular e a mais nova atendeu:

        - Oi, primo. Quando? Em vinte minutos? Então está bem. Aguardamos no portão norte. Muito, mas muito obrigada!

        Com o toque do telefone e a volta à realidade, dissiparam-se as visões.

        O lusco-fusco tomara conta do ambiente, e as primeiras luzes começaram a ser acendidas.

      No tempo marcado, o funcionário veio, abriu o portão e desculpou-se.  Saíra quarenta minutos mais cedo pois não vira ninguém no local e estava começando a chover.

     Aliviadas, saíram apressadamente. Ao cruzarem o portão norte, deram  uma olhadinha para trás a tempo de ver seus queridos abanando e mandando beijinhos...

       - Voltem sempre, outra vez com mais tempo!

 

Lorení Dalla Corte.

Setembro/2021.  

                                      

(Crédito imagem: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/mulher/dicas-evitam-assalto-a-casa-durante-viagens-curtas-e-longas,3329c709df794410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html )                                                                          

sábado, 19 de junho de 2021

UM NOVO EIXO

 

UM NOVO EIXO

 

Dizem que a Terra tem um eixo imaginário

Sobre o qual ela se sustenta, e gira, e anda, e flutua

Pela eternidade

Em busca do infinito

Pela Via Láctea.

Também dizem que os seres humanos

Têm um eixo em suas vidas, em seus corpos...

Esse eixo delineia sua essência

Seu cerne

Seu fulcro

Seu âmago

Dá um norte para sua vida.

 

O meu eixo quebrou-se...

Desnorteou-me,

Tirou uma parte do meu cerne,

Da minha essência.

 

Eu vinha nesse eixo há bastante tempo.

Curtia-o. Amava-o. Sentia-me bem com ele.

Havia idealizado meus momentos

Contando com este eixo.

Era o nosso eixo, nosso norte,

Nossa vida, nossos instantes,

Nosso amor.

Crucial.

 

Mas ele quebrou-se

Deixando-me sem equilíbrio.

Fui atingida no âmago,

Fiquei sem suporte

Fiquei sem sustentáculo.

 

Minha vida, agora,

É uma sensação de

Desamparo,

Solitude,

Cair no penhasco,

Sem significado,

Sem o meu bálsamo...

 

A existência,

Como só ela era,

Encontra-se à procura

De um novo eixo

Um novo objetivo.

Uma nova forma.

Um novo ser.

Um novo eu.

À procura da luz.

 

Lorení                                              

19/06/2021.

sábado, 22 de maio de 2021

Leitura na Pandemia: "A Lei da Selva", sobre a Guerrilha no Araguaia, de Hugo Studart.







Em meio ao sobe-desce dos gráficos estatísticos sobre COVID-19, tanto em relação ao número de contaminados, mortos e recuperados, quanto aos índices de vacinação no Brasil - primeira dose, segunda dose e, também, ao estímulo para que as pessoas façam a vacina contra o H1N1, vamos sobrevivendo.

Perto de nós muitas pessoas já foram contaminadas: minha mãe, para nossa tristeza, foi levada à morte pelo vírus.

Mais alguns parentes contaminaram-se mas sobreviveram, muitos amigos, conhecidos.  Outros tantos não resistiram.

Vamos fazendo a nossa parte: máscara, higiene das mãos, tirar os calçados e roupas ao chegar da rua, imediatamente tomar um banho.  Evitar aglomerações e, na medida do possível, manter-nos recolhidos em casa.  Nossa caverna protetora mantém-nos, creio, longe do mal.

Entrementes à nossa rotina diária, vamos tendo um pouco de alento e ânimo com leituras, filmes, vídeos, músicas, lives, plantando flores e temperinhos, acesso às redes sociais, conversas pelo whatsapp, entre tantas outras atividades. Pelo menos nós, os aposentados. O que não impede que tenhamos nossos momentos de tristeza, susto, pânico, medo, esperança, fé, uma mistura de sentimentos que faz parte do quadro pandêmico.

Em uma dessas redes sociais descobri um jornalista e historiador que publicou alguns livros sobre a era do que se convém chamar de regime militar. 

Embora eu tenha vivido nesse período, com minha cabeça de criança/adolescente, muito pouca coisa percebi à época.  E como venho, nos últimos tempos, procurando entender a História do meu país, tenho procurado obras que possam ajudar-me a esclarecer tais acontecimentos.

É bem difícil as pessoas comuns, como nós, termos acesso a escritores, jornalistas, historiadores famosos e  vivos.  No entanto, este senhor foi bastante gentil e me enviou seu livro para minha alegria e conhecimento.  Obrigada por me ajudar a crescer intelectualmente e entender um pouco mais da nossa História.

O autor, Dr. Carlos Hugo Studart Corrêa, "é jornalista e historiador", conforme informações constantes na orelha do livro.  "Atuou como repórter, editor ou colunista em veículos como  Jornal do Brasil, o Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Veja e Manchete." Colaborou com outras revistas, e "ganhou diversos prêmios de jornalismo, como Prêmio Esso.  É organizador e co-autor do livro "Os Presidenciáveis: Vida, obra e ideias dos candidatos ao Palácio do Planalto".  É Mestre em História pela UNB." Entretanto, maiores informações sobre o autor e suas obras, pode-se encontrar no seguinte endereço eletrônico:  https://hugostudart.com.br/sobre/  

Assina suas obras com uma parte de seu nome, Hugo Studart.

A LEI DA SELVA - a obra

Subtítulo: Estratégias, Imaginário e discurso dos militares sobre a guerrilha do Araguaia.

É um livro pesado.  Talvez nem fosse adequado eu lê-lo neste momento.  Mas fiquei muito curiosa, e curiosidade é bom.

Noticia o autor que o movimento de guerrilha armada com vistas à revolução teve o seu preparo iniciado na década de 60, com o objetivo de tomar de assalto o poder. Eu tinha 5 anos de idade.

Os primeiros revolucionários foram enviados à China para estudar os ensinamentos de Mao Tse Tung, líder chinês, que preparou a Guerra Popular Prolongada em seu país, a qual durou 22 anos.

Ao ler uma obra tem-se o que o autor escreveu, e tem-se o que o leitor entendeu ou compreendeu.  Nem sempre essas duas posições são aos mesmas.

A minha compreensão, em uma primeira leitura, é que os revolucionários que foram ao Araguaia para preparar a revolução não tinham a formação necessária para a guerra, uma vez que seu  planejamento não funcionou como esperavam. Ao terminar a leitura, compreendi que faltou organização e método aos revolucionários; faltou comunicação entre eles e suas bases na mata e com o alto comando da guerrilha e do partido; faltou dinheiro e alimentos e, principalmente, para quem se propõe a fazer uma guerra, faltou armamento adequado. A direção do PC do B foi egoísta, largou os guerrilheiros sozinhos no meio da selva ao deus-dará, para resolverem sozinhos os problemas que surgissem, enquanto os cabeças estavam a salvo em suas casas. Alguns deles desertaram da guerrilha na selva amazônica.  Nem um telefone, um telegrama, carta, qualquer meio de comunicação havia entre a direção do partidão e os miseráveis que se embrenharam na mata para 'fazer a revolução' por sua conta e risco. Inclusive alguns que sobreviveram e fizeram parte da política e de partidos políticos em nosso tempo.

Os militares, quando se deram por conta de que estava havendo uma revolução popular  no meio da selva, e que o objetivo era fazer a guerrilha, fazer a cabeça das massas abandonadas em zonas rurais longínquas, com o objetivo de tomar o poder, distantes da capital federal e dos grandes centros, começaram a organizar-se para defender a nação dos comunistas.

O autor conseguiu obter documentos, livros, notícias de jornais, diário do chefe dos guerrilheiros, um relatório feito por militares que participaram das campanhas na selva, documentos esses que propiciaram uma obra densa, informativa, histórica, esclarecedora do muito da névoa que permeia toda essa parte fuliginosa da nossa História.

Houve três campanhas de parte dos militares para combater a guerrilha: a primeira, Operação Peixe, que iniciou em março de 1972,  para tomar conhecimento da área  na selva ocupada pelos guerrilheiros; para conhecer os lugares (cidades), as pessoas do povo (massa) que estavam auxiliando os revoltosos e  sendo doutrinadas contra o poder central; e para determinar de que forma o combate  dar-se-ia a partir de então.

Encontraram um povo semianalfabeto, assustado, sem entender o que estava acontecendo, e temeroso dos dois lados.

A segunda campanha, denominada Operação Papagaio, desenrolou-se a partir de setembro de 1972. 

Eu tinha 17 anos, trabalhava de dia para pagar os estudos à noite.

Essa campanha teve a participação do exército, marinha e aeronáutica. Os militares da marinha, logo depois das primeiras mortes e vendo ser muito difícil a sobrevivência na selva, abandonaram a luta.

Nessas duas primeiras campanhas houve baixas tanto de um lado como de outro.  Mas, em certo ponto, como os guerrilheiros estavam estabelecidos ali há mais tempo, conheciam bem a região, tinham alguns do povo a seu favor, havia uma certa vantagem.

Em consequência disso, os militares, contando com sua inteligência e espionagem, prepararam a Operação Sucuri. Diz Studart: "O que se sabe hoje, tanto por reportagens publicadas em revistas e jornais, quanto por referências em livros, é que nesse período, na verdade, os militares não deram trégua aos guerrilheiros. Desencadearam uma guerra invisível, uma das maiores operações de espionagem e inteligência da história do País, a Operação Sucuri, que mapeou o terreno para o combate seguinte."(...) "Descobri, pelo Dossiê, que em fins de 1973, quando a tropa desceu na selva para a derradeira caçada, os militares já sabiam nome e endereço de cada guerrilheiro, suas redes de apoio, caminhos que cada um costumava traçar na mata, assim como nome e endereço de cada "estabelecido" que simpatizava com os guerrilheiros ou que poderia apoiar os militares." (p.162/163).

A terceira campanha, iniciou a 6 de outubro de 1973, em missão secreta, sigilo absoluto, que nem o Comandante da operação sabia; ficou sabendo somente dois dias antes. Organizados 30 grupos de 6 ou 7 militares. Todos descaracterizados, com identidades falsas.

Nessa campanha havia 15 militares para cada guerrilheiro. 

A ordem para os militares era para "não fazer prisioneiros" e "ninguém sai de lá".

Os acampamentos guerrilheiros foram totalmente desmantelados. Nenhum dos comandantes da guerrilha deu ordem para recuar.  Não houve apoio nem suporte aos guerrilheiros.

Os chefes do PC do B nunca admitiram que foram derrotados.

A guerra foi suja de ambos os lados.

Houve assassinatos,  decapitações, tocaias, uso das técnicas de guerrilha pelo exército para combater os guerrilheiros com as mesmas argúcias.

Em 383 páginas o autor desvenda tudo o que ocorreu nesse período tenebroso da nossa História.  Há o relato das operações; as baixas de ambos os lados; são relatadas as formas como ocorreram algumas mortes de guerrilheiros, principalmente os comandantes de destacamentos.  Há uma análise tanto do comportamento dos guerrilheiros e dos chefes do PC do B, como dos militares, desde o alto comando, a Presidência da República até aos soldados.

Dão notícia os militares que morreram 107 guerrilheiros e camponeses que participaram da Guerrilha; e há boatos nas Forças Armadas de que teriam morrido 16 militares, em todas as campanhas.

É um livro esclarecedor, profundo, pesquisa científica de alto gabarito, linguagem direta e adequada ao tipo de trabalho, fonte certa e adequada para qualquer tipo de pesquisa ou para o leitor tirar suas dúvidas quanto aos acontecimentos do período.

Está de parabéns o escritor Hugo Studart pelo excelente trabalho.


STUDART, Hugo. A LEI DA SELVA. -São Paulo:Geração Editorial. 2006.


domingo, 18 de abril de 2021

Pandemia e luto










 Há mais de um ano iniciou a pandemia do coronavírus.

Em meio ao susto e aos cuidados, descobrimos um câncer de pâncreas em meu marido.

Fez tratamento com quimioterapia, radioterapia e muitos cuidados. 

Resistiu exatos seis meses do diagnóstico. faleceu em 22 de novembro de 2020.

Por estes motivos, pela ansiedade, medo, pânico, tristeza e procura de forças  mais cuidados para, além do câncer, ninguém contrair o covid 19, não tenho conseguido ler e escrever. Há um bloqueio.

Mais... fins de março minha mãe adoeceu  severamente. Levada ao hospital, lá adquiriu covid-19, vindo a falecer dia 3 de abril.

Muita coisa junta a me perturbar, entristecer, desorganizar, esgotar.

Um luto, uma dor, uma tristeza, um desespero sem fim.

Espero um dia conseguir voltar a escrever.

Duas das pessoas mais especiais para mim se foram, partiram sem conseguir dizer adeus.

E continuamos confinados, medrosos, ansiosos, temerosos.