sábado, 24 de junho de 2023

INVERNO

 

Praça Getúlio Vargas - imagem da autora.


 

As folhas avermelhadas já caíram, todas.

Estão nus os galhos das árvores, esticados, eretos rumo ao céu,

Como a lamentar a ausência do sol.

O resto de calor que ainda resistia, foi sendo empurrado pelo vento minuano... para onde?

Chegaram os dias nublados.

As nuvens lastimam a entrada do frio, derramando-se sobre as cidades.

A neblina manifesta-se de manhãzinha, tirando de nós, humanos, a visão da aurora bela.

Acendem-se as lareiras, os fogões à lenha, os aquecedores, os aparelhos de ar condicionado.

Acendem-se os corações, com a proximidade,

O aconchego e a busca de calor para aquecer os corpos enregelados.

Saltam, sorridentes, do fundo das gavetas,

Toucas coloridas, luvas, cachecóis, botas, meiões, cobertores, edredons, mantas.

O quentão e o vinho,

O café e o chá,  quentinhos,  ajudam a enviar o frio para fora de nossos lares.

A sopa asperge seu aroma delicioso por todo o ambiente,

Antevendo o prazer do alimento que,

Além de nutrir, aquece os corpos e as almas.

Nos dias de ventania, chuva renitente, trovões e temporais,

O lar é a nossa caverna, o nosso refúgio,

Onde nos sentimos seguros,

Onde guardamos nossos amores, protegendo-os.

Onde vivemos nosso tempo de recolhimento, de meditação,

De busca do eu-interior.

O  inverno é introspectivo.

Viramos eremitas.

 

 

Lorení

Palmeira das Missões, 21/6/23.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

PRAZER SEM LIMITES: LEITURAS QUE DELEITAM.

 


 

 




Há algum tempo não escrevo.  Muitos acontecimentos vão me levando de roldão, e tenho preferido vivenciar a escrever.  Estou confiando na minha memória.

Mas, hoje, feriado de Corpus Christi, além de outras atividades, da caminhada matinal, da oitiva de muita música, puxo alguns dos livros que li nos últimos tempos, e vou comentá-los para ti, meu leitor que, como eu, ama ler.


1.      1. Amor para corajosos, de Luiz Felipe Pondé.

Amor, amor, amor... tema de todos os poetas, escritores, jovens, maduros, idosos, homens, mulheres, estudiosos, filósofos... tema universal, e, antes de um tema, um grande sentimento. O maior sentimento de todos.

O amor entre homem e mulher é um sentimento arrebatador!  Fogueira que incendeia, faz tremer, arrepia, instiga o desejo, a vontade de estar perto do ser amado, com ele enleado, acarinhado, volúpia que arrebata e sugestiona loucuras, já dizia Rita Lee.

O assunto entrou em minha vida na adolescência, ao ler os versos de Luís Vaz de Camões, em Rimas, 1598; que também me fez apaixonar-me pela Poesia:

 

“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor”

 

Com este tema o filósofo Luiz Felipe Pondé lançou o livro “Amor para corajosos, reflexões proibidas para menores.”

Sempre curiosa sobre o tema, que sempre fez parte da minha vida, comprei o livro para ver o ponto de vista filosófico do assunto, num momento da minha vida em que estou saindo de um profundo mergulho em uma situação de luto, e tentando sobreviver, redescobrindo a mim mesma em um outro mergulho: no meu eu-profundo, meu eu-poético através da lírica poética e redescobrimento de sentimentos que estiveram escondidos sob as cinzas da sobrevivência, partindo para novas situações de encontro comigo mesma e com o outro.

Já na primeira orelha, o autor coloca algumas epígrafes que chamam a atenção e induzem à curiosidade, e à leitura do livro:

“O amor não é para iniciantes.”

“Um dos maiores medos contemporâneos é o medo do afeto.”

“Quem nunca se perdeu no amor é falso de alguma forma”

“A intimidade sexual é uma das rotinas mais poderosas para a manutenção do amor”

“Pode existir safe sex.  Mas não existe safe love.”

“Amar será sempre uma forma de agonia.”

“Eis uma das maiores tragédias do amor: ele não é garantia de uma vida feliz nem tampouco amorosa.”

“O amor só se conhece pelos frutos”. Sören Kierkegaard.

“Amor, se bem pensado, é doença do pensar entre duas pessoas ligadas, sinceras e de sexo diferente, que nos acomete como anseio, nascido da visão perturbada, por abraçar, beijar e pelo fruir carnal.  Amante nada mais é do que aquele que arde e em tal se deleita.  Frutos não busca alcançar, e em deleitar-se em nada se esforça”. (André Capelão, Tratado do amor cortês, SP:Martins Fonts, 2000, p.5 e 6.)

 

Na introdução, Pondé já menciona o medo do amor, referindo-se a uma pesquisa recente que conclui que a solidão cresce, principalmente entre os jovens.  O medo é a marca da nossa civilização. “Um mundo limpo e estéril, mas feito de covardes do afeto”. Mencionando desde o início que o conceito de amor como conhecemos data da Idade Média, e os medievais já diziam que o amor era a “doença da alma”.

Inicia o primeiro capítulo com a interrogação: “Por que o amor romântico exige coragem de quem ama?” O amor desordena o afeto entendido como desejo por alguém, ou alguém fica ‘louco’ por alguém.  Coragem pois há o medo da rejeição...

No capítulo 4 disseca que o berço do atual entendimento do que seja amor teria sido o Romantismo.

No capítulo 11 menciona “As virtudes do amor: a personalidade encantadora”.  Excertos:

“A beleza escraviza o olhar masculino. (...)  A alma da mulher amada é parte dessa beleza.  Sob o olhar masculino, a inteligência numa mulher amada é parte de sua personalidade sedutora.  O modo como ela se revela inteligente tem a força de uma saia justa com salto alto.  A inteligência cheira a batom vermelho na boca de uma mulher amada”.(...)  Perder-se no amor por alguém é encontrar-se como ser humano que para existir precisa de um outro a quem reconheça como o ser humano mais importante no mundo para si.  Afinal, alguém em quem confiar.” (...) p.77/78.

“O encanto moral do amor nasce justamente desse encontro entre coragem, leveza, desespero e desejo.” P.79.

“(...) o amor sem confiança não existe.” P.81

“(...) o amor não pede licença para entrar.”

“Narcisistas, mimados e ressentidos não são capazes de amar”.

“A ideia de Platão é que o amor (Eros) gera beleza, forma, vitalidade.  A experiência do amor, além de sofrimento e dilaceramento, seguramente gera um desejo pelo mundo enquanto realidade a ser fecundada por aqueles que amam.  Por isso, é comum se dizer que o amor é da ordem da saúde psíquica na medida em que predispõe a pessoa a investir na vida.  O amor costuma dar fé e confiança e, quando correspondido, gera uma profunda sensação de força e generosidade. P.106

“(...)  Mas um dos efeitos mais regeneradores do amor é a capacidade dele de restituir o amor-próprio e a autoconfiança.” p. 107

“(...) só gente mais madura, com mais estofo psicológico, é capaz de amar porque o amor exige confiança no outro, autoconfiança, generosidade, coragem, enfim, virtudes normalmente associadas a pessoas mais maduras e seguras.” p.111

“O que é necessário para que o amor sobreviva?

(...) Essas condições são segurança, generosidade material, investimento concreto um na vida do outro, desejo sexual ativo na mulher, potência sexual masculina.  Amor é concreto como pedra. (...)” p.119

“A intimidade sexual é uma das rotinas mais poderosas para a manutenção do amor. Não existe amor platônico, a não ser em pessoas doentes de alguma forma, pois o amor pede carne.  É carnívoro como um predador pré-histórico.  (...) Pede toque.  Uma mulher amada morre quando é tratada como santa.  Seu ambiente natural são o pecado e a posse.  A separação entre amor e sexo é para ignorantes.”p.120/121

“Só se é livre quando se ama.” Santo Agostinho.p.173

“O amor entra pela fresta da porta.  Nunca é convidado, mas toma o ambiente quando é notado.  Encanta pela sua força vital.  Pelo desejo de mais vida que traz consigo.  Por isso as pessoas quando amam sentem que estão à beira de encontrar a melhor versão delas mesmas.” P.178

“ O amor é aquele que permite a você demonstrar para a pessoa que você ama suas maiores fraquezas sem medo de que ela as use contra você.”. p.180.

“Por isso, contra o que a maioria imagina, quanto maior o nível de maturidade de uma pessoa, maior o efeito dessa paixão sobre ela, porque só se é capaz  de reconhecer esse pequeno pedaço de paz quando já se atravessou muitas guerras.  O amor não é para iniciantes.” P.188.

 

Vale a leitura!

 

PONDÉ, Luiz Felipe.  Amor para corajosos. – São Paulo: Planeta do Brasil, 2017, 192p.




2.       Contos completos, de Sergio Faraco.

O autor é gaúcho do Alegrete, nascido na década de 40 do século XX sendo, então, nosso contemporâneo.

Seus contos dissecam a vida dos gaúchos que vivem na fronteira, na região central do Estado, em Porto Alegre, em todo lugar.  Em seus contos não há o gaúcho mitológico.  Há a descrição de histórias de um povo que luta todos os dias pela sobrevivência, trabalha, luta, sofre, tem pequenas alegrias e grandes problemas a serem solucionados. Desemprego, velhice, sexo, juventude, formas de vida, síntese humana.  Em três partes, Faraco relata a fronteira, em outros tempos; a infância, a solidão; e, por último, o cidadão da cidade grande.

As descrições de locais do Estado do Rio Grande do Sul são fieis, assim como o relato dos acontecimentos nas vidas das personagens.

Vocabulário acessível, um estilo enxuto de escrita, extremamente competente, prende o leitor desde a primeira linha.

Excerto:

Conto: “ Neste entardecer

“(...) Rapadurinhas, queijo, suco de maracujá, em breve sairias a campo para as pequeninas crueldades matinais.  Aqui era a empalação do caracol num pau de fósforo.  Ali confundias as pobres formiguinhas com o dedo atravessado no carreiro.  De vez em quando um marandová te queimava o lombo e era uma correria dentro de casa com talcos e pomadas.  Não, tu não tinhas passado nem futuro.  Para ti, Vovó Rosário tinha nascido de cabelos brancos e com dores reumáticas, Major Verardo era apenas um busto negro cuja vida e cuja obra não tinham sido deste mundo.  A morte, para ti, não passava de uma moléstia das gentes pobres, que não se vacinavam no posto de saúde, e mesmo assim era uma ausência temporária. (...)”

Muito interessante!

 

FARACO, Sergio. Contos completos.- 3ª ed.- Porto Alegre:  L&PM, 2018, 352p.


1.      

sábado, 3 de junho de 2023

HUMANA NATUREZA

 

                                                                  Rio Uruguai, 2020.

(Foto da autora, proibida a reprodução sem autorização.)

 


Cerro as pálpebras.

O motor do barco ronrona suavemente.

A aragem toca levemente minha face.

Num instante, compreendi meu pai que amava ir pescar.

Tinha sua canoa rústica, movida a remos.

Só levava meus irmãos.

Privou-me desse prazer,

Sentido agora,

De flutuar sobre as águas,

Aspirar o cheiro do rio,

Escutar o ruído das ondas

Formadas pelo deslizar do barco.

O ar fresquinho envolve meu ser neste verão.

O sol abana, lá ao longe, num vermelho majestoso,

Recolhendo-se,

Após mais um dia de brilho soberbo, imponente,

Entranhando-se no rio,

Indo dormir com os peixes.

A paisagem acalma-me,

Evoco meu ser primitivo,

União de corpo e natureza.

Um bem-estar toma-me por inteiro.

Paz,

Rio Uruguai,

Humana natureza.



(Fevereiro/2020.)

quinta-feira, 30 de março de 2023

MAIS TARDE

 



 

 

Mariana sentiu que chegava ao fim.

- “Por que as pessoas se encontram, parecem ter afinidades que depois somem?”

Pensava nisto enquanto terminava de arrumar a pequena e luminosa casa onde morava. Lembrou-se dos primeiros tempos; é bem verdade que a sintonia nunca foi cem por cento. Por exemplo, ela gostava de esportes, ele de leitura, que ela não suportava; ele gostava de cozinhar e ela – não podia nem pensar, preferia pintar seus quadros – que ele não entendia. Ela gostava de dançar e ele preferia ficar em casa dormindo. Mas nas festas, na política e na cama eles fechavam.

Eram muito bons amigos em quase tudo.

Após terminar sua obrigação – que fazia pensando em outras coisas por não gostar – passou para a pequena saleta que chamava de atelier. Olhou para o quadro que pintara ontem, sem vê-lo. Seus pensamentos turbilhonavam. Flashes de várias épocas, de lances diferentes, palavras, olhares; não sabia o que fazer de si. Olhou pela janela e o sol, que irradiava uma claridade etérea, aqueceu seu coração. Um passarinho chilreou na parreira em frente, seu gatinho angorá enroscou-se em sua perna.

-Enquanto as coisas estão acontecendo ao meu redor, eu penso. Será todo mundo assim? Será que Flávio também passa por isso? Nunca transpareceu, parece tão seguro de si, não aparenta ter dúvidas, ansiedades, incertezas... Só se preocupa com coisas práticas... serei somente eu quem vive pensando, ruminando sobre as coisas?

Distraidamente, pegou o pincel e começou a jogar com as cores, lançando à tela imagens disformes. Vermelho, azul, verde, amarelo gritante, preto... seu pensamento estava longe. Da casa do lado, vinha indistintamente – conforme a brisa se agitava – o baticum de um samba de Paulinho da Viola. Num sobressalto, lembrou-se que tinha hora marcada no dentista, que deveria ir ao banco fazer alguns pagamentos; rapidamente, passou pela frente do espelho, ajeitando-se de relance, pegou a chave da moto, colocou a bolsa à tiracolo e saiu. O trânsito, o sol, o cheiro de flor que havia na rua, o próprio fato de fazer algum movimento, bloqueou seus pensamentos. Enquanto aguardava na fila do banco, chocou-se com a lembrança remota de separação; mas, como era sua vez na fila, deixou para mais tarde...








Imagem: https://myloview.com.br/fotomural-mulher-pintor-artista-no-parque-silhueta-pintura-no-904DA8


Década de 80.

segunda-feira, 27 de março de 2023

“A CASA DA PAIXÃO”, DE NÉLIDA PIÑON.

 


 



      Nós, os amantes da leitura, conhecemos Nélida Piñon. Conhecemos seu estilo, sua linguagem, sua forma de nos surpreender, de nos inquietar, de sentir que fomos tocados e mexidos pela sua literatura, pela alma da escritora. Impossível não ter algum tipo de reação, sentimento ou emoção ao ler seus livros.

       Há algum tempo mencionei aqui sobre o último livro dela que tinha lido nas férias que culminaram com o início da pandemia do covid-19; publiquei neste blog um comentário, dia 25 de fevereiro de 2020, sobre “Vozes do deserto”.  Ela é simplesmente fantástica, magnífica!

       “A casa da paixão” foi publicado em 1978, e eu o adquiri algum tempo depois; chega estar meio amarelado.  Li-o, e me lembrava que tinha ficado impressionada com a força, a coragem, a linguagem, os relatos, o vocabulário deste romance que descreve a iniciação amorosa e sexual da personagem principal, Marta.  Mas não lembrava da história em si.

       Logo após o falecimento de Nélida, e os comentários acerca de suas obras, evidenciando este livro, procurei-o em minha pequena biblioteca e retomei a sua leitura. Impressionei-me novamente com a coragem de Nélida ao descrever minuciosamente os sentimentos, as sensações, o ardor, o desejo, o fogo, a paixão, e a plenitude de Marta no anseio de conhecer biblicamente seu homem. E a primeira relação sexual.  É fantástico se levarmos em consideração que, em muitas obras literárias em todos os tempos, quem descrevia as emoções e sensações femininas eram escritores, do ponto de vista masculino.  

    Nélida foi uma desbravadora, neste sentido. Tem que ser muito mulher para isto.  Mulher à mais alta potência.

 

PIÑON, NÉLIDA. A casa da paixão, 3ª edição, RJ, Record, 1978, 120p.

 

 

 

terça-feira, 21 de março de 2023

OUTONO

 


           



Ijuí/RS - foto da autora, proibida reprodução sem autorização.

            

             Transição.             

             Assim vejo a mudança das estações.

            A cada três meses sentimos na pele os efeitos dessa transição.  Ora é o calor que chega, com as chuvas fortes do verão, ora é o frio que bate às nossas portas, seguido do vento minuano e da chuva fina e gelada, no inverno.

            Vejo a primavera como a consequente mudança do inverno para o verão, sendo que as flores e frutos explodem na natureza com sua exuberância, perfume e sabores.

            O outono traz a cor laranja ou avermelhada de diversas espécies vegetais, e a perda das folhas em consequência do processo de renovação da natureza, tão necessário para a concretização das etapas dele decorrentes.

         Às nossas vidas aplicamos, por analogia, o conceito das diversas estações, curiosamente chamado de etapas, ciclos, períodos ou fases.

         São de todos conhecidas as diversas designações para as nossas estações: primavera para a infância e juventude; verão para a vida dos adultos jovens; outono para a meia-idade e inverno para a velhice.

                Todos os ciclos são necessários, tanto para as plantas, quanto para os animais e pessoas.

               Contudo, para que não se percam os efeitos dessas etapas, necessário se faz que não desapareça a cor da nossa vida, o calor dos afetos, o perfume do carinho e o frio que tudo conserva, seja com um vento forte e arroubos da paixão pela vida, ou a brisa suave que transporta o pólen da fé, da esperança e do amor.

 






Lorení

Palmeira das Missões/RS

21/03/2023.

domingo, 19 de março de 2023

NOBEL DE LITERATURA 2022: ANNIE ERNAUX – O ACONTECIMENTO





         Sempre que possível, procuro ler pelo menos um livro dos ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura. Isto se torna uma tarefa um pouco difícil para mim, pois moro longe dos grandes centros, e, a maioria dos livros, tenho que encomendar pela internet.
         Mas, desta vez, não só no interior não consegui encontrar algum livro desta autora. Em Joinville/SC, uma cidade de porte médio, considerada a maior de Santa Catarina, também estava difícil. Eu passeava por lá. Precisei passar por duas ou três livrarias, e o único exemplar que encontrei foi este: O acontecimento.
    
         Quem é Annie Ernaux?
    
         De acordo com as orelhas do livro, “Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebone, na França. Estudou na universidade de Rouen e foi professora do Centre National d’Enseignement par Correspondance por mais de trinta anos. Seus livros são considerados clássicos modernos na França. Em 2022, Ernaux recebeu o prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.” 

O ACONTECIMENTO 

        Neste livro a autora relata o que aconteceu com ela quando tinha 23 anos e era estudante universitária, e acontece com muitas moças na juventude: engravidou do namorado, no meio do curso que fazia. Obviamente, como uma grande maioria de homens faz ao redor do mundo, ele não assumiu o filho e disse para ela se virar. 
         Na época, 1963, era proibido abortar na França, como na grande maioria dos países. A lei era severa com mulheres que “cometiam” o aborto, e os médicos também eram penalizados. 
        Annie relata todo o seu sofrimento, toda a peregrinação em busca de uma solução para o seu problema. Não podia contar para sua família, o que causaria um escândalo. 
        Numa linguagem compreensível facilmente, direta e uma narrativa dinâmica, expõe suas peripécias em busca de médicos, farmácias, conversas com amigos e amigas, até encontrar uma fazedora de anjos que a ajuda.
         Traumatizada com a situação a que foi lançada por seu comportamento e do namorado – inconsequente, porém, numa época que os anticoncepcionais ainda não eram largamente usados – enfrentou sozinha a situação, o aborto, a hemorragia e o atendimento que teve que receber num hospital. 
        Como ela, milhões de mulheres, no mundo inteiro, enfrentam sozinhas um aborto clandestino, uma gestação não planejada e a condenação da sociedade. A mesma sociedade que não lembra que uma criança não se faz sozinha, nem a mulher não consegue autogestação: precisa da participação de um homem. Seja pessoalmente ou, atualmente, com doação de esperma para inseminação artificial. Mas, aí, já é uma outra situação. 
        Elas são condenadas sempre, eles absolvidos eternamente. Pela omissão, descompromisso, vaidade, pela não assunção de responsabilidades ou pela sociedade.
         Vale a leitura. 


 ERNAUX, ANNIE. O acontecimento; tradução Isadora de Araújo Pontes.-1ª ed- São Paulo: Fósforo, 2022.74 p.

domingo, 12 de março de 2023

SÍNDROME DO NINHO VAZIO III






É certo que os filhos, um dia, vão sair de casa.

Quando os recebemos das mãos da obstetra, passados pelas mãos do pediatra, na hora do nascimento, já sabemos disto.

Já comentei sobre este assunto   quando meus filhos mais velhos saíram de casa.  Hoje é a caçula que alça voo rumo ao futuro.

Entretanto, passamos por todas as etapas do desenvolvimento de um filho evitando de pensar neste dia, uma vez que sabemos ser uma ocasião em que nossos sentimentos ficam ambíguos, embaralhados, desarrumados: temos certeza que será maravilhoso este levantamento de voo, temos plena confiança que demos a melhor educação, passamos nossos valores, nossas crenças, nosso entusiasmo, fizemos tudo que foi possível para que nossos filhos tenham uma vida plena. Mas temos o receio que os males do mundo possam vir a prejudicá-los, que o que demos não tenha sido suficiente, que o mundo está mudando muito rapidamente e será que terão condições de acompanhar?

Sobra a nós, pais, confiar na educação, amor, carinho, senso de responsabilidade, alegria de viver, plenitude, tudo o que ensinamos, a par do aprendizado cognitivo nas escolas formais e universidades.

Resta, também, confiar em seu juízo, discernimento, esforço e criatividade.

E...orar, pois só Deus pode mostrar os melhores caminhos a serem percorridos pelos filhos.

Ah, e repetir, ad aeternum, com bom humor: não esqueça do casaco e do guarda-chuva.



(Acesse o outro texto sobre o mesmo assunto, embora diferente: https://athenasminerva.blogspot.com/2011/06/nao-esqueca-do-casaco-e-do-guarda-chuva.html )  

















sábado, 11 de março de 2023

O PRAZER DA LEITURA E DA ESCRITA



Foto da autora, proibida a reprodução sem autorização.

A título de introdução, um poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, a respeito dos versos publicados:

Alberto Caeiro, n’O guardador de rebanhos:

XLVIII

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.”

PESSOA, Fernando. Os melhores poemas de Fernando Pessoa. Seleção de Teresa Rita Lopes.-9ªed.-SP:Global, 1997, 171p.

           
           A leitura e a escrita são muito pessoais, quase íntimas.

          O escritor expõe a sua alma, põe sua visão visceral do mundo, da vida, dos acontecimentos, pensamentos e sensações, pesquisas, trabalhos científicos, teses.

           O leitor faz sua leitura a partir das suas vivências, de igual forma em relação às suas emoções, sensações, percepções e conhecimentos.

         O prazer da leitura acontece quando a alma do escritor toca a alma do leitor.

            Entretanto há, também, o desencontro... o escritor escreve uma coisa, e  o leitor entende outra...

          Às vezes são necessárias várias leituras até haver a compreensão e o toque de almas.

         E essa intimidade do leitor com o escritor também dá-se conforme a forma e o lugar da leitura: em relação a livros ou textos científicos ou técnicos, há um tipo de compreensão, e a leitura geralmente é feita em lugares, digamos assim, adequados: salas de aula, escritórios, mesas de trabalho.  Mas se for uma leitura de deleite, a intimidade torna-se maior à medida que o leitor lê num sofá, descansado; numa rede, à sombra de árvores ou numa varanda; à beira da praia ou da piscina;ou quando o leitor leva o escritor para a cabeceira da cama.  O escritor nem sonha quanta intimidade há entre os seus escritos e os milhares ou milhões de receptores, que se encontram em vários lugares do mundo.  Como quem escreve, pensar nisto me deixa meio constrangida. 

         E a forma de escrita também é bem peculiar, conforme a pessoa: há quem tenha a facilidade de escrever, ou fazer anotações que depois são incorporadas às suas obras, em qualquer lugar e de qualquer forma: anotações em bilhetes, pedaços de papel, em notebook ou celular, beiradas de livros, no metrô, em sala de aula, enquanto faz tarefas domésticas, etc... De outro lado temos os metódicos, que só conseguem escrever em seus escritórios ou bibliotecas, ou simples escrivaninhas num canto de casa, em cadernos (os mais antigos e analógicos), em computadores; num determinado horário e em determinadas circunstâncias.  

        Cada um tem seu método de trabalho, como bem percebido em várias entrevistas de vários escritores que observamos .

       A forma de escrita e de leitura torna-se secundária.  O que é importante é que haja escritores, leitores e livros.





21/1/2023, diálogo com colega escritor.

OSCILAÇÃO

 



Imagem da internet, endereço ao pé da página.





No vai e vem da rede

Colhes meus pensamentos.

Ao embalo ritmado

Invades minh'alma

Perscrutas meus segredos 

Os mais íntimos desejos...

O teu olhar capta meu olhar

É o suficiente...





11/01/2023



Crédito imagem: https://produto.mercadolivre.com.br/MLB-2077220403-rede-de-dormir-descanso-balanco-casal-tambaba-life-reforcada-_JM#position=5&search_layout=grid&type=item&tracking_id=4ef9bac4-e666-4611-b0b9-8d9fd97f964c&gid=1&pid=1