terça-feira, 2 de novembro de 2021

E ELAS FICARAM PRESAS NO CEMITÉRIO...





 

...o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta. (...)

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio.  Olhou em redor. A peça estava deserta.  Voltou a olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada.  Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso. (...) Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro.  Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás. (...)

- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem  uma frincha na porta.  Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho.  Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo. (...)

E, de repente, o grito medonho, inumano:

-NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado.  Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra.  Assim que atingiu o portão do cemitério, lançou ao poente um olhar mortiço.  Ficou atento.  Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado.  Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira.  Crianças ao longe brincavam de roda.”

TELLES, Lygia Fagundes. Mistérios.- RJ: Nova Fronteira, 1981. Conto: Venha ver o pôr-do-sol, p.201

 

             As primas havia muito não se encontravam por causa da pandemia.

         Com uma diferença de idade de sete anos, cresceram longe uma da outra.  Moravam em cidades diferentes.

     Agora, na fase quase e pós-sessenta, reencontraram-se.

     Algumas afinidades surgiram.

    Uma foi visitar a outra, foram jantar num restaurante conhecido e, após, tomaram uma garrafa de vinho branco; ficaram conversando até tarde, fazendo o que chamaram de terapia familiar, trocando impressões a respeito de alguns eventos em suas vidas.

    De acontecimentos políticos a posições ideológicas, criação dos filhos, traumas da infância – quem não os tem? – estudos, profissão, viagens e aposentadoria... tudo era assunto.  Muita risada e um pouco de vinho deixaram-nas leves.

   No outro dia resolveram ir levar flores e pronunciar preces à tia recém-falecida, mãe da mais velha.

    Chegaram ao cemitério municipal pelas dezessete horas.

   O dia estivera cinzento, emburrado, e não decidia se chovia ou não.  As nuvens meditavam.

  O cemitério estava lotado, já não havia mais lugar para nenhum falecido, e as autoridades municipais já haviam inaugurado outro cemitério.

   Rapidamente localizaram o túmulo em que se encontravam os queridos familiares.

   Colocaram as flores, fizeram suas orações e dirigiram-se para a sepultura de outra tia e de uns primos, que eram perto.

   Já iam encaminhando-se para a saída, quando lembraram que poderiam encontrar o túmulo dos avós.  Fica lá no centro da necrópole, perto daquele coqueiro.

    Começara uma garoa bem fininha, e o céu escurecera mais um pouco.

    Caminharam por entre os jazigos, em calçadas estreitíssimas e de difícil acesso.

   Chegaram ao coqueiro.  A mais velha sempre teve dificuldades de localizar a tumba dos avós, era um emaranhado de túmulos, um labirinto... Caminharam para todas as direções a partir do coqueiro. Não localizaram.

    Como a chuva estava ficando mais intensa e escurecendo, resolveram falar com o funcionário que tinha tudo anotado.

     Foram em direção ao posto em que ele deveria estar.

     Com as sombrinhas abertas, avistaram, ao longe, um vulto.

     - É ele – disse a mais velha.

     Não era.

  Na semi-obscuridade momentânea, confundiram uma imagem de um anjo de sepultura com a pessoa que deveria estar por perto.  O escultor fizera um ótimo trabalho...

  Desceram mais um pouco.  O posto estava fechado. Dezessete horas e trinta minutos, conferiram no relógio.

    Com dificuldade, desceram até o portão por onde haviam entrado.

  Corações acelerados, ansiosas, verificaram que o portão norte estava fechado, chaveado. Com corrente e cadeado!

    Havia quatro portões.

    O que ficava em frente a este, lá longe, ao sul, também estava fechado.

    A mais nova estava em estado de pânico.

     - E agora, que fazemos? Estamos presas no cemitério! Vou perder meu ônibus...

    Ambas cardíacas, com hipertensão e assustadas...

    Aterrorizadas, foram ver os outros dois portões.  Fechados.

   A mais velha lembrou de um conto de Lygia Fagundes Telles, em que uma moça foi presa no cemitério pelo ex-namorado... mas era outra história.

   O desespero foi chegando... junto com ele, o medo!

   A mais nova puxou um medicamento e ofereceu à outra, que recusou.

    - Calma, vamos sair dessa.

    Ligaram para um primo comum que conhecia muita gente, quem sabe conhecia o secretário municipal responsável pelo cemitério?

   Este ligou para o irmão jornalista, que conhecia todo mundo ainda mais, para tentar ajudar as primas.  Não sem antes rir muito da situação inusitada e sugerir a elas que pulassem o muro. Sim, duas senhoras idosas, não exatamente magrinhas, probleminhas nos joelhos, pulando o muro do cemitério...

    Enquanto aguardavam o contato dos primos, ouviram um barulho, sentiram um ventinho gelado e ouviram um risinho zombeteiro:

      - Então, que arte andaram aprontando? Estão de castigo aqui conosco?

     Com as faces pálidas de susto e os olhos esbugalhados, viram o ectoplasma do irmão mais novo da mais velha, que olhava para elas, divertido, brincando, como sempre fazia enquanto vivera.

      - Vieram nos visitar mas não queriam nos ver?

     Ambas tremiam, assombradas, com algo tão inesperado e que nunca imaginaram acontecer com elas.  Permaneceram estáticas, mudas, coração saltando pela boca, com medo.

     O espectro, ainda brincando, chamou os pais, o cunhado (marido da mais velha), as tias, os primos, os avós...

      Todos foram chegando devagarinho; elas permaneciam imóveis e lívidas...

      O marido da mais velha brincou com ela:

    - Saudades de mim? Veio me ver? Mas vieram muito tarde, é perigoso algum malandro estar por aí e querer fazer alguma maldade com vocês.

       Os pais, as tias e os primos riam, divertidos:

       - Vamos fazer uma festa com a presença delas aqui.  É que elas não sabem das festas que fazemos depois que fecham os portões da nossa casa...

   Os avós ficaram felizes com a visita, e queriam abraçá-las... foram se aproximando...

         Tocou o celular e a mais nova atendeu:

        - Oi, primo. Quando? Em vinte minutos? Então está bem. Aguardamos no portão norte. Muito, mas muito obrigada!

        Com o toque do telefone e a volta à realidade, dissiparam-se as visões.

        O lusco-fusco tomara conta do ambiente, e as primeiras luzes começaram a ser acendidas.

      No tempo marcado, o funcionário veio, abriu o portão e desculpou-se.  Saíra quarenta minutos mais cedo pois não vira ninguém no local e estava começando a chover.

     Aliviadas, saíram apressadamente. Ao cruzarem o portão norte, deram  uma olhadinha para trás a tempo de ver seus queridos abanando e mandando beijinhos...

       - Voltem sempre, outra vez com mais tempo!

 

Lorení Dalla Corte.

Setembro/2021.  

                                      

(Crédito imagem: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/mulher/dicas-evitam-assalto-a-casa-durante-viagens-curtas-e-longas,3329c709df794410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html )                                                                          

sábado, 19 de junho de 2021

UM NOVO EIXO

 

UM NOVO EIXO

 

Dizem que a Terra tem um eixo imaginário

Sobre o qual ela se sustenta, e gira, e anda, e flutua

Pela eternidade

Em busca do infinito

Pela Via Láctea.

Também dizem que os seres humanos

Têm um eixo em suas vidas, em seus corpos...

Esse eixo delineia sua essência

Seu cerne

Seu fulcro

Seu âmago

Dá um norte para sua vida.

 

O meu eixo quebrou-se...

Desnorteou-me,

Tirou uma parte do meu cerne,

Da minha essência.

 

Eu vinha nesse eixo há bastante tempo.

Curtia-o. Amava-o. Sentia-me bem com ele.

Havia idealizado meus momentos

Contando com este eixo.

Era o nosso eixo, nosso norte,

Nossa vida, nossos instantes,

Nosso amor.

Crucial.

 

Mas ele quebrou-se

Deixando-me sem equilíbrio.

Fui atingida no âmago,

Fiquei sem suporte

Fiquei sem sustentáculo.

 

Minha vida, agora,

É uma sensação de

Desamparo,

Solitude,

Cair no penhasco,

Sem significado,

Sem o meu bálsamo...

 

A existência,

Como só ela era,

Encontra-se à procura

De um novo eixo

Um novo objetivo.

Uma nova forma.

Um novo ser.

Um novo eu.

À procura da luz.

 

Lorení                                              

19/06/2021.

sábado, 22 de maio de 2021

Leitura na Pandemia: "A Lei da Selva", sobre a Guerrilha no Araguaia, de Hugo Studart.







Em meio ao sobe-desce dos gráficos estatísticos sobre COVID-19, tanto em relação ao número de contaminados, mortos e recuperados, quanto aos índices de vacinação no Brasil - primeira dose, segunda dose e, também, ao estímulo para que as pessoas façam a vacina contra o H1N1, vamos sobrevivendo.

Perto de nós muitas pessoas já foram contaminadas: minha mãe, para nossa tristeza, foi levada à morte pelo vírus.

Mais alguns parentes contaminaram-se mas sobreviveram, muitos amigos, conhecidos.  Outros tantos não resistiram.

Vamos fazendo a nossa parte: máscara, higiene das mãos, tirar os calçados e roupas ao chegar da rua, imediatamente tomar um banho.  Evitar aglomerações e, na medida do possível, manter-nos recolhidos em casa.  Nossa caverna protetora mantém-nos, creio, longe do mal.

Entrementes à nossa rotina diária, vamos tendo um pouco de alento e ânimo com leituras, filmes, vídeos, músicas, lives, plantando flores e temperinhos, acesso às redes sociais, conversas pelo whatsapp, entre tantas outras atividades. Pelo menos nós, os aposentados. O que não impede que tenhamos nossos momentos de tristeza, susto, pânico, medo, esperança, fé, uma mistura de sentimentos que faz parte do quadro pandêmico.

Em uma dessas redes sociais descobri um jornalista e historiador que publicou alguns livros sobre a era do que se convém chamar de regime militar. 

Embora eu tenha vivido nesse período, com minha cabeça de criança/adolescente, muito pouca coisa percebi à época.  E como venho, nos últimos tempos, procurando entender a História do meu país, tenho procurado obras que possam ajudar-me a esclarecer tais acontecimentos.

É bem difícil as pessoas comuns, como nós, termos acesso a escritores, jornalistas, historiadores famosos e  vivos.  No entanto, este senhor foi bastante gentil e me enviou seu livro para minha alegria e conhecimento.  Obrigada por me ajudar a crescer intelectualmente e entender um pouco mais da nossa História.

O autor, Dr. Carlos Hugo Studart Corrêa, "é jornalista e historiador", conforme informações constantes na orelha do livro.  "Atuou como repórter, editor ou colunista em veículos como  Jornal do Brasil, o Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Veja e Manchete." Colaborou com outras revistas, e "ganhou diversos prêmios de jornalismo, como Prêmio Esso.  É organizador e co-autor do livro "Os Presidenciáveis: Vida, obra e ideias dos candidatos ao Palácio do Planalto".  É Mestre em História pela UNB." Entretanto, maiores informações sobre o autor e suas obras, pode-se encontrar no seguinte endereço eletrônico:  https://hugostudart.com.br/sobre/  

Assina suas obras com uma parte de seu nome, Hugo Studart.

A LEI DA SELVA - a obra

Subtítulo: Estratégias, Imaginário e discurso dos militares sobre a guerrilha do Araguaia.

É um livro pesado.  Talvez nem fosse adequado eu lê-lo neste momento.  Mas fiquei muito curiosa, e curiosidade é bom.

Noticia o autor que o movimento de guerrilha armada com vistas à revolução teve o seu preparo iniciado na década de 60, com o objetivo de tomar de assalto o poder. Eu tinha 5 anos de idade.

Os primeiros revolucionários foram enviados à China para estudar os ensinamentos de Mao Tse Tung, líder chinês, que preparou a Guerra Popular Prolongada em seu país, a qual durou 22 anos.

Ao ler uma obra tem-se o que o autor escreveu, e tem-se o que o leitor entendeu ou compreendeu.  Nem sempre essas duas posições são aos mesmas.

A minha compreensão, em uma primeira leitura, é que os revolucionários que foram ao Araguaia para preparar a revolução não tinham a formação necessária para a guerra, uma vez que seu  planejamento não funcionou como esperavam. Ao terminar a leitura, compreendi que faltou organização e método aos revolucionários; faltou comunicação entre eles e suas bases na mata e com o alto comando da guerrilha e do partido; faltou dinheiro e alimentos e, principalmente, para quem se propõe a fazer uma guerra, faltou armamento adequado. A direção do PC do B foi egoísta, largou os guerrilheiros sozinhos no meio da selva ao deus-dará, para resolverem sozinhos os problemas que surgissem, enquanto os cabeças estavam a salvo em suas casas. Alguns deles desertaram da guerrilha na selva amazônica.  Nem um telefone, um telegrama, carta, qualquer meio de comunicação havia entre a direção do partidão e os miseráveis que se embrenharam na mata para 'fazer a revolução' por sua conta e risco. Inclusive alguns que sobreviveram e fizeram parte da política e de partidos políticos em nosso tempo.

Os militares, quando se deram por conta de que estava havendo uma revolução popular  no meio da selva, e que o objetivo era fazer a guerrilha, fazer a cabeça das massas abandonadas em zonas rurais longínquas, com o objetivo de tomar o poder, distantes da capital federal e dos grandes centros, começaram a organizar-se para defender a nação dos comunistas.

O autor conseguiu obter documentos, livros, notícias de jornais, diário do chefe dos guerrilheiros, um relatório feito por militares que participaram das campanhas na selva, documentos esses que propiciaram uma obra densa, informativa, histórica, esclarecedora do muito da névoa que permeia toda essa parte fuliginosa da nossa História.

Houve três campanhas de parte dos militares para combater a guerrilha: a primeira, Operação Peixe, que iniciou em março de 1972,  para tomar conhecimento da área  na selva ocupada pelos guerrilheiros; para conhecer os lugares (cidades), as pessoas do povo (massa) que estavam auxiliando os revoltosos e  sendo doutrinadas contra o poder central; e para determinar de que forma o combate  dar-se-ia a partir de então.

Encontraram um povo semianalfabeto, assustado, sem entender o que estava acontecendo, e temeroso dos dois lados.

A segunda campanha, denominada Operação Papagaio, desenrolou-se a partir de setembro de 1972. 

Eu tinha 17 anos, trabalhava de dia para pagar os estudos à noite.

Essa campanha teve a participação do exército, marinha e aeronáutica. Os militares da marinha, logo depois das primeiras mortes e vendo ser muito difícil a sobrevivência na selva, abandonaram a luta.

Nessas duas primeiras campanhas houve baixas tanto de um lado como de outro.  Mas, em certo ponto, como os guerrilheiros estavam estabelecidos ali há mais tempo, conheciam bem a região, tinham alguns do povo a seu favor, havia uma certa vantagem.

Em consequência disso, os militares, contando com sua inteligência e espionagem, prepararam a Operação Sucuri. Diz Studart: "O que se sabe hoje, tanto por reportagens publicadas em revistas e jornais, quanto por referências em livros, é que nesse período, na verdade, os militares não deram trégua aos guerrilheiros. Desencadearam uma guerra invisível, uma das maiores operações de espionagem e inteligência da história do País, a Operação Sucuri, que mapeou o terreno para o combate seguinte."(...) "Descobri, pelo Dossiê, que em fins de 1973, quando a tropa desceu na selva para a derradeira caçada, os militares já sabiam nome e endereço de cada guerrilheiro, suas redes de apoio, caminhos que cada um costumava traçar na mata, assim como nome e endereço de cada "estabelecido" que simpatizava com os guerrilheiros ou que poderia apoiar os militares." (p.162/163).

A terceira campanha, iniciou a 6 de outubro de 1973, em missão secreta, sigilo absoluto, que nem o Comandante da operação sabia; ficou sabendo somente dois dias antes. Organizados 30 grupos de 6 ou 7 militares. Todos descaracterizados, com identidades falsas.

Nessa campanha havia 15 militares para cada guerrilheiro. 

A ordem para os militares era para "não fazer prisioneiros" e "ninguém sai de lá".

Os acampamentos guerrilheiros foram totalmente desmantelados. Nenhum dos comandantes da guerrilha deu ordem para recuar.  Não houve apoio nem suporte aos guerrilheiros.

Os chefes do PC do B nunca admitiram que foram derrotados.

A guerra foi suja de ambos os lados.

Houve assassinatos,  decapitações, tocaias, uso das técnicas de guerrilha pelo exército para combater os guerrilheiros com as mesmas argúcias.

Em 383 páginas o autor desvenda tudo o que ocorreu nesse período tenebroso da nossa História.  Há o relato das operações; as baixas de ambos os lados; são relatadas as formas como ocorreram algumas mortes de guerrilheiros, principalmente os comandantes de destacamentos.  Há uma análise tanto do comportamento dos guerrilheiros e dos chefes do PC do B, como dos militares, desde o alto comando, a Presidência da República até aos soldados.

Dão notícia os militares que morreram 107 guerrilheiros e camponeses que participaram da Guerrilha; e há boatos nas Forças Armadas de que teriam morrido 16 militares, em todas as campanhas.

É um livro esclarecedor, profundo, pesquisa científica de alto gabarito, linguagem direta e adequada ao tipo de trabalho, fonte certa e adequada para qualquer tipo de pesquisa ou para o leitor tirar suas dúvidas quanto aos acontecimentos do período.

Está de parabéns o escritor Hugo Studart pelo excelente trabalho.


STUDART, Hugo. A LEI DA SELVA. -São Paulo:Geração Editorial. 2006.


domingo, 18 de abril de 2021

Pandemia e luto










 Há mais de um ano iniciou a pandemia do coronavírus.

Em meio ao susto e aos cuidados, descobrimos um câncer de pâncreas em meu marido.

Fez tratamento com quimioterapia, radioterapia e muitos cuidados. 

Resistiu exatos seis meses do diagnóstico. faleceu em 22 de novembro de 2020.

Por estes motivos, pela ansiedade, medo, pânico, tristeza e procura de forças  mais cuidados para, além do câncer, ninguém contrair o covid 19, não tenho conseguido ler e escrever. Há um bloqueio.

Mais... fins de março minha mãe adoeceu  severamente. Levada ao hospital, lá adquiriu covid-19, vindo a falecer dia 3 de abril.

Muita coisa junta a me perturbar, entristecer, desorganizar, esgotar.

Um luto, uma dor, uma tristeza, um desespero sem fim.

Espero um dia conseguir voltar a escrever.

Duas das pessoas mais especiais para mim se foram, partiram sem conseguir dizer adeus.

E continuamos confinados, medrosos, ansiosos, temerosos.

domingo, 30 de agosto de 2020

REVISITANDO A HISTÓRIA DO BRASIL: O BRASIL DE JUSCELINO KUBITSCHEK DE OLIVEIRA .










A pandemia propiciou-me, nos dois primeiros meses, a possibilidade de ler alguns livros.

Acontecimentos posteriores me impediram e estão bloqueando a minha leitura.
Seguimos pandêmicos, confinados, cuidando de nós e dos nossos, e esperando a cura dos que forem atingidos pelo covid-19, ou uma vacina que nos impeça de contrair a doença.
A seguir, um dos livros que consegui ler lá por março/abril deste ano:
O meu propósito de tentar entender meu país permanece.  Aos poucos vou lendo livros que encontrei e me contam um pouco do que aconteceu no Brasil, antes e depois do meu nascimento.
Nestes dias de confinamento vou aproveitando uma parte do meu tempo para ler, refletir e relacionar os acontecimentos políticos atuais aos que os antecederam.  Todos têm ligação.  E o modo de fazer política no Brasil não tem  tido uma forma diferente do que houve desde o tempo do império, da Primeira República às outras denominações que tivemos com o tempo. 
Concluí a leitura de uma biografia de JK e, logo em seguida, de Tancredo Neves. 
Já li e comentei sobre Getúlio Vargas e Jango, que podem ser encontrados aqui e aqui.  No segundo link há também um comentário sobre a queda de Dilma.  Vou e venho nos períodos da História do Brasil, à medida que vou encontrando livros, ou os acontecimentos vão desenrolando-se.  Também já li sobre D. Pedro II, sobre a princesa Isabel, assim como sobre os períodos do descobrimento do Brasil até à proclamação da república. Sobre estas leituras, veja aqui. E sobre a princesa Isabel aqui.

O ESSENCIAL DE JK - VISÃO E GRANDEZA, PAIXÃO E TRISTEZA. Ronaldo Costa Couto.- 1ª ed. Brasil:Planeta, 2013, 301p.

"Nunca deixei uma obra pela metade. O que projeto, faço"
"Deus poupou-me o sentimento do medo."
Estas são duas frases, das muitas relatada neste livro, que me chamaram a atenção, e, pelo descrito pelo autor, eram repetidas com frequência pelo ex-Presidente.
Ronaldo Costa Couto é historiador, economista, pesquisador, professor, jornalista. Foi político intimamente ligado ao poder central, tendo exercido diversas funções públicas em vários governos. Narra o que viu.
Este livro conta-nos a biografia de JK desde o nascimento, na cidade de Diamantina/MG, até sua morte, em um acidente que deixou muitas dúvidas.
O menino pobre das Minas Gerais, que foi criado pela mãe junto com uma irmã, sonhava em ser médico. Lutou muito para alcançar seus objetivos.
Antes de ser Presidente da República, foi telegrafista para pagar seus estudos na capital mineira. Depois de formado, foi Capitão-médico na guerra Paulista de 1932, onde atuou no front. Fez especialização em urologia em Paris.
Iniciou na política como Chefe da Casa Civil no Governo de Minas, no tempo da ditadura de Vargas. 
Mergulhou na carreira política como Deputado Federal. No golpe de Vargas em 1937, perdeu o cargo de Deputado Federal, e voltou à medicina. Posteriormente, foi nomeado Prefeito de Belo Horizonte pelo Interventor e amigo Benedito Valadares. Em 1945 elegeu-se novamente Deputado. 1950 elegeu-se Governador das Minas Gerais.
Em 1955, ano em que nasci, elegeu-se Presidente da República. 
Entre vários planos e metas, estava a construção de Brasília. Uma administração revolucionária. 
Em 21 de abril de 1960 foi inaugurada a novacap Brasília.
Após sair do governo, elegeu-se Senador.
Em 1964 foi cassado pelo regime militar, perdendo seus direitos políticos por 10 anos. E foi proibido pelos militares de pisar em Brasília novamente. Ele nunca mais voltou à cidade.  Ele, que considerava a cidade a sua terceira filha.
Exilou-se na Europa e Estados Unidos.
Em 1968 foi preso.
Morreu num acidente automobilístico em 1976. Muitos consideram o acidente forjado.
Sintetizando assim, parece uma biografia fria, só o alinhamento dos fatos. Mas sua vida foi eletrizante, os acontecimentos familiares e políticos intensos, sua história é bastante interessante.
Vale a pena a leitura.




sexta-feira, 1 de maio de 2020

NO RIO IJUHY




Rio Ijuhy (Ijuí)






Lolí rema no Rio Ijuhy.
O rio é vermelho
águas barrentas.

Lolí vê o pássaro:
é um rabo-de-palha;
ele canta um canto diferente.

Da barranca do rio,
desce uma cobrinha-cega,
verdinha,
que se perde na água escura.

Árvores, poucas,
ainda nativas,
cantam ao sopro da brisa matinal.

O sol aquece flora e água,
Faz reflexos mirabolantes.
Enquanto isso...
na ponte de ferro,
passam os carros modelo 70.
E Lolí rema no Rio Ijuhy.

A poeira da estrada levanta,
terra vermelha,
vermelha como a luz quente do sol,

Enquanto enormes pedras dormem
no leito do rio
ao lado dos poços dos afogados.

Lolí rema no rio Ijuhy.




20/08/1992

Imagem: Fotos: Paulo Martins in https://www.noroesteonline.com/rio-ijui-transborda-e-invade-propriedades-veja-imagens/

quarta-feira, 15 de abril de 2020

POESIA É TREPAR MESMO PELAS PAREDES




Imagem do livro do Mario Quintana que possuo, Editora Globo.





Em outros tempos comentei aqui que as pessoas que se pretendem escritoras ou poetas dificilmente trazem novidades.
As maiores novidades vemos diariamente saltar aos nossos olhos nas páginas de jornais, nas revistas - estes dois meios de comunicação em franco caminho de dissolução - em livros; na internet, nas redes sociais, na TV, nos rádios, nessa parafernália toda que nos cerca.
Não trazendo novidades, as quais deixo por conta dos tecnólogos, especialistas, repórteres, cientistas e outros quetais, trago o melhor de mim, ou seja: meus textos, minha paixão pela Literatura, meu amor pelos livros, pelas palavras; e estas, para aquinhoar, trocar ideias, ponderar.
Como Professora de Língua Portuguesa e Literatura que fui, mas cujo espírito em mim permanece, sei da grande dificuldade, da quase aversão que as pessoas sentem pelos livros.  Há trinta anos eu acreditava ser isto um mal que tinha cura.  Julgava, acompanhando os vários autores daquele momento e especialistas na área, que a leitura deve ser um hábito.  E entendia que esse hábito se formava desde bebê, desde a infância, com livros de pano, de banho, sonoros, montáveis e desmontáveis, e assim por diante.
Entretanto, minha experiência mostrou que, apesar de todo o esforço - e vi isto dentro da minha casa - algumas pessoas, mesmo com todo o estímulo, não se tornam pessoas afeitas à leitura, apaixonados pelos livros.   Leem, mas livros técnicos, revistas, notícias de interesse ou outras coisas mais.  Leitores inveterados, poucos.  O mesmo acontecia com meus alunos: um baixo percentual aderia ao amor pelos livros.
Dir-se-ia que o principal é a pessoa ler o que gosta, ter liberdade de escolha, confiança no que lê, descompromisso, alegria e um grande prazer.
Retire-se deste texto a obrigatoriedade de leituras para trabalhos de conclusão de curso, teses, ensaios, etc, que já fazem parte dos cursos.
É básico para a soberania de um povo que sua cultura seja preservada, que exista uma História, que exista uma memória.  Se falarmos em História, narrativa do desenvolvimento ou acontecimentos que formam um povo, estamos reconhecendo os fatos mais importantes do ponto de vista de quem o conta; do ponto de vista de quem está no poder, no comando das ações e exercendo o domínio sobre um povo.  Este domínio pode ser democrático ou não.  
Ao observarmos a Literatura de um determinado período histórico, vamos constatar o que poderia ter sido ou o que efetivamente aconteceu àquele povo.
Por exemplo: se estudarmos o período de Getúlio Vargas, constatamos toda a ação política de sua ditadura, as coisas consideradas boas que fez, os direitos que concedeu aos trabalhadores, seu governo populista.  No entanto, aos lermos "Olga" de Fernando Morais, vamos conhecer o lado da História dos calabouços, do aliado ao nazismo de Hitler, das torturas, das perseguições, do terrorismo aos seus opositores.  Da mesma forma, lendo as "Memórias do cárcere" de Graciliano Ramos; "Brasil nunca mais de D.Paulo Evaristo Arns; "As veias abertas da América Latina" de Eduardo Galeano e muitas outras obras que revelam realidades massacrantes, não só no Brasil mas também em outros países e em várias épocas, e verificamos que reside aí um dos fatores da importância da Literatura na vida das pessoas.
Escritores de todos os tempos nos revelam as mais cruas realidades:  Dante, Aristóteles, Platão, Goethe, Dostoiévski, Tolstói, Tchecov, Émile Zola, Gustave Flaubert, Machado de Assis, Alejo Carpentier, Jorge Luís Borges, Jorge Amado, Aluísio de Azevedo, José de Alencar, Hermann Hesse, Guimarães Rosa, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Gabriel Garcia Márquez, Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Deonísio da Silva e uma miríade de estrelas literárias que não vou relatar aqui. E tantos outros que não viraram estrelas conhecidas... Quem lê conhece-os. Ao lê-los, observamos como vivia ou vive o povo das mais diversas eras, lugares, culturas: tanto o povo-povo como o povo-poderoso.
A Literatura acompanha a evolução histórica da humanidade, das línguas, das comunicações, da tecnologia.  E conhecemos o mundo, viajamos por ele sem sair do lugar. Muitas pessoas conheceram o mundo através da descrição de muitos autores.
Lendo contatamos com a arte, a música, os hábitos e costumes dos povos. 
Se quisermos saber como era a Lisboa do começo do século XX, busquemos Fernando Pessoa e seus heterônimos; o Rio de Janeiro dos 1900, Machado de Assis com seus contos, crônicas poesias e romances. A vida na corte latino-americana do século XIX, as narrações costumbristas de Tomás Carrila (colombiano); Manuel Payno (mexicano); Luiz Inclán (mexicano); Cirilo Villaverde (cubano); o período de 1930/40 em diante, na França, Simone de Beauvoir e Sartre, entre tantos outros, com seus livros tanto na linha do romance, como na filosófica e histórica.
A Literatura brasileira, desde a literatura de informação aos dias de hoje, mostra-nos como ocorreu a ação contínua e prolongada que resultou num arcabouço literário que acompanhou o desenvolvimento urbano, agrícola, industrial e social do país.
Hoje temos liberdade total na criação literária: somos deuses que registramos a literatura histórica, intimista, urbana, regionalista; o conto, a crônica, o romance, a novela, a literatura especializada para crianças e adolescentes, a literatura clássica, revisitada, reanalisada, reescrita muitas vezes, e a poesia.
Muitos dizem: o que se quer com poesia, hoje?
Poesia, para mim, e para os demais  poetas e poetisas, se não fosse algo bom, não sobreviveria.  Não resistiria através dos séculos.  Se analisarmos o surgimento da língua e da memória escrita, vamos encontrar o primeiro gênero literário surgido na Grécia Antiga, com Homero e sua "Odisséia": a POESIA.
A poesia sobrepuja.  Como alguns gêneros literários, a poesia denuncia, mata ou morre, voa pelos altos, claros e brilhantes céus do amor e do prazer, do lúdico e do sugestivo, do sonho e da amarga realidade.  Voa em palavras, caminha, tropeça, rasteja e cai em palavras.  É uma arte, na qual encontro-me como eterna principiante, "aprendiz de feiticeira".
Há toda uma técnica a dominar, uma habilidade a ser desenvolvida no caldeirão da bruxa ou no laboratório misterioso onde as formas/fórmulas poéticas, a possível rima, o ritmo e a sonoridade se escondem, furtivamente, aguardando que os desencantemos para que, hoje não mais pela caneta e papel, mas pelo computador, os transformemos no mais tenro, no mais primitivo modo de manifestação artística e também no mais atual: a química da palavra refeita, atualizada, transposta, vibrante, amorosa e prazerosa: A POESIA.
Quando publico meus poemas, seja aqui no blog ou em livro, estou tentando ser aquela que narra ao lado dos acontecimentos: a vivência de meu tempo, a minha ética, o meu chão, espelhando o meu momento histórico, e resumindo  o momento de várias outras mulheres e homens.  De gente que trabalha, que vive o dia a dia na luta pela sobrevivência.  Que tem momentos de esfuziante alegria ou de amarga tristeza.  Que sofre, chora, se alegra, entusiasma, vibra ou arrefece.
A minha paixão é a vida. E dentro dessa paixão estão a leitura, os livros, e a escrita.
As minhas pretensões espelham-se no que disse Osman Lins em" Do ideal e da glória - Problemas inculturais brasileiros", que aqui relato: "O escritor quer ser, com seu livro, uma voz entre muitas, não a voz definitiva, não a palavra final, a única.  Seja como for, ele, se consciente de sua condição, não ambiciona sufocar com a sua voz o rumor das outras vozes.  Quer ser apenas uma voz a mais".
Sobre poesia, especificamente, cito Décio Pignatari, no livro Comunicação poética, ele que é poeta e professor: " A maior parte das pessoas lê poesia como se fosse prosa.  A maior parte quer "conteúdos" - mas não percebe formas.  Em arte, forma e conteúdo não podem ser separados. (...) Mostrar um sentimento e não dizer o que ele é - isto é poesia".
E para não dizer que não falei dos gaúchos, de Mário Quintana: "As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas... Nada lhes ficou.  Nada lhes sobrou.  Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada" .  E nos deixa uma "Ressalva: Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco por aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes."
E quanto às "Interpretações: Mas para que interpretarem um poema? Um poema já é uma interpretação." (Primavera cruza o rio).







domingo, 12 de abril de 2020

EOWYN IVEY, MACHADO DE ASSIS E CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - LEITURAS DE PESO.




Imagem de Anchorage, Canadá. Créditos abaixo.


Drummond e Machado de Assis não necessitam de apresentação. São conhecidos de quem lê. Mas Eowyn Ivey creio ser necessário ser apresentada. Pelo menos eu não a conhecia.




Nestes últimos dias, em que ando realizando organizações em casa, peguei o quarto de minha filha adolescente.  Como eu, ela ama ler; mas manter os livros no quarto não é adequado para quem tem problemas respiratórios habitualmente - e muito menos no momento em que vivemos.  Comecei a organização e limpeza dos livros e, quando fui colocá-los em outro armário, na sala, fiquei curiosa com alguns títulos.  A coleção de livros para crianças e adolescentes não me chama muito a atenção, mas esse livro chamou:



A MENINA DA NEVE, de Eowyn Ivey. Tradução Paulo Polzonoff Jr, Ed. Novo Conceito,2015, 350p.



Antes de comentar sobre o livro, apresento a autora: Eowyn é jornalista formada pela Universidade de Western em Washington. Vive no Alasca desde pequena e continua vivendo lá com o marido e as filhas.  Fez Pós-graduação em Escrita Criativa pela Alasca Anchorage.  A menina da neve é seu livro de estreia e foi finalista na categoria ficção do Prêmio Pulitzer, em 2013.   Tem 47 anos.



Eu nunca tinha ouvido falar dessa escritora.  No meio dos livros de minha filha estava este, que narra uma história fantástica vivenciada por um casal do Alasca, que morava em uma pequena comunidade perto de florestas e montanhas nevadas.  O casal era de agricultores idosos, tinham tido um filho que morreu no parto e não conseguiram mais engravidar.  Decidem viver no Alasca, longe da família, dos amigos e das cobranças sobre crianças, sobre a impossibilidade de ter filhos.  São descritas paisagens encantadoras e gélidas, com neve, mato, animais que nós, aqui do lado meridional do mundo, desconhecemos.  Frio temos todos os anos, neve já tivemos esporadicamente.  E não queremos mais...

É uma narrativa que magnetiza o leitor, tanto que li o livro em dois dias, nas horas de folga.  A autora entende da arte de escrever, faz descrições da paisagem, dos sentimentos das personagens, dos acontecimentos, dos costumes, da cultura.
O casal faz um boneco de neve em formato de menina, coloca luvas, cachecol e gorro.  E o boneco cria vida...uma história emocionante que instiga e mantém a curiosidade até o fim.  Excelente leitura. Recomendo.



50 Contos de Machado de Assis, selecionados por John Gledson. São Paulo:Cia das Letras, 2007, 487p.



Já li muitos livros de Machado de Assis.  Mas não li todos.

Muitos desses contos eu já conhecia de outras seleções, já havia discutido e analisado em aula, já havia me deleitado.
Aprendemos todos os dias quando lemos O Bruxo do Cosme Velho.
Conforme o organizador da seleção de contos, John Gledson, Professor de Literatura Brasileira na Inglaterra, "Machado caminhava no fio da navalha..." ao escrever sua obra.
Desnecessário falar do vocabulário oitocentista de Machado, das descrições, das narrativas e tudo o mais.  O que percebemos é o sentido agudo da vida, das palavras certas no momento devido.  Conhecemos suas personagens que visitam desde o mais alto escalão da República até o mais humilde ser que possa ter existido em sua cabeça ou em nosso país, mais precisamente no Rio de Janeiro.  Dos salões da nobreza brasileira dos fins dos anos 1800, do início dos 1900, apresentando todas as categorias da sociedade, Machado enleva-nos com a sua prosa mágica.
Sobressai em muitos contos a questão de pessoas casadas que namoravam outras pessoas, tanto homens quanto mulheres.  A traição é um assunto ao qual retorna com frequência.  
Os bailes, os jantares, a fofoca, os saraus; uma grande quantidade de personagens formava-se em Direito, evidenciando o valor que era dado ao advogado naquela época.  A frivolidade das mulheres, dos homens, da sociedade em geral, sempre preocupadas com vestidos, jóias, chapéus, toilettes,..., apresentações teatrais, peças, óperas...
A citação de autores e obras, demonstrando a grande cultura do velho Machado...desnecessário comentar tudo.  A leitura se impõe.
A seguir coloco algumas pitadas machadianas de que gostei muito, tiradas de alguns contos; quem ficar curioso, leia o livro:
"...o melhor drama está no espectador e não no palco. (A chinela turca)".
"Rigorosamente, todas estas notícias são desnecessárias para a compreensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma coisa, antes de entrar em matéria, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a rédea à pena, e ela que vá andando, até achar entrada.  Há de haver alguma; tudo depende das circunstâncias, regras que tanto serve para o estilo como para a vida; palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs a suas espécies. (Primas de Sapucaia)".
"O ponto cresceu, fez-se sol.  Fui por ali dentro, sem arder, porque as almas são incombustíveis.  A sua pegou fogo alguma vez? (A segunda vida)".
Leitura obrigatória e recomendada.


Finalmente consegui tirar este livro de Drummond da pilha! pudera: adquiri-o em Joinville em janeiro de 2017; com minhas tantas atividades, e outros tantos livros atravessando-se no seu caminho, fui degustando-o lentamente, sem pressa, nos momentos de sossego e paz.
Carlos Drummond de Andrade Nova reunião 23 livros de poesia, com 924 páginas finalmente foi concluído!
É a reunião de 23 livros do autor feitos pelos Editores da Companhia das Letras em 2015.
Drummond dispensa comentários, análises, explicações.
É para senti-lo. Sentir suas palavras, emoções, observações aguçadas, denúncias, posições.
Li-o com prazer, mas, também, com alguma surpresa.  Como no poema em que ele fala que a mucama limpa seu cocô, quando guri.
Creio que mesmo os monstros sagrados da literatura, eventualmente, ficam sem assunto, e qualquer assunto serve.  Ou quem sabe é para debochar, assustar, ver a reação?  Ele não está mais aqui para nos dizer.  E, se questionado, provavelmente nada diria. Quem foi mesmo que disse que a Literatura, a poesia, não é para ser explicada,  é para ser lida e sentida?
Nesta reunião de livros do poeta de Itabira, entendi melhor suas linhas de pensamento, seu posicionamento político frente as acontecimentos no Brasil e no mundo, suas denúncias do avanço do poder econômico sobre Minas Gerais e sobre o Brasil, nunca pensando no povo e nas consequências financeiras e sociais sobre a população; a invasão das grandes mineradoras, derrubando as montanhas mineiras atrás dos minérios...um grande amor do poeta pelo seu Estado e pelo Brasil.
Gostei demais do livro que encerrou a reunião, em que encontramos um Drummond sensual, romântico, olhos apaixonados e reveladores sobre as mulheres, que ainda não tinha percebido em nenhuma outra obra sua.  Um mistério sendo decifrado aos poucos.
Outro de nossos grandes escritores com um vocabulário riquíssimo que fez-me, várias vezes, recorrer ao dicionário para poder compreender seus versos.  Agradeço por mais esta experiência compensadora.
Destaco alguns trechos que me chamaram a atenção:

"Canto ao homem do povo Charlie Chaplin
(...)
Não há muitos jantares no mundo, já sabias,
e os mais belos frangos
são protegidos em pratos chineses por vidros espessos.
Há sempre o vidro, e não se quebra,
há o aço, o amianto, a lei,
há milícias inteiras protegendo o frango,
e há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que mal decifras.  Entre o frango e a fome,
o cristal infrangível. Entre a mão e a fome,
os valos da lei, as léguas.  Então te transformas
tu mesmo no grande frango assado que flutua
sobre todas as fomes, no ar; frango de ouro
e chama, comida geral
para o dia geral que tarda. (...)" (p. 201)

"VERSOS À BOCA DA NOITE
(...) 
E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi. (...) (p. 174)

"ALIANÇA
(...)
...Enquanto prossigo
tecendo fios de nada,
moldando potes de pura
água, loucas estruturas
do vago mais vago, vago.
Oh que duro, duro, duro
ofício de se exprimir!
Já desisto de lavrar
este país inconcluso,
de rios informulados
e geografia perplexa.(...) (p.214)

Análise mais profunda das obras seria necessária, e um espaço maior e menos cansativo. Cada um que faça sua leitura e interpretação.












Créditos da imagem:
http://www.qualviagem.com.br/anchorage-e-uma-das-principais-cidades-do-alasca/