quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Miopia do mundo

Sócrates disse:
"eu só sei que nada sei".

Eu digo:
eu nem sei se "só sei que nada sei"

Eu digo
palpito
respiro
pulso
vejo ou entrevejo

há névoas

há véu
que é espesso.

Lentes,
para suprir 
a miopia do mundo.

Lorení Dalla Corte 
19/06/1989

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

INFÂNCIA





Jogo de caçador ou queimada


Meu pai levantava-se cedo.
Fazia suas abluções matinais, na bacia sobre o tripé.
A toalha era feita em casa, tecido fino, bordado, com franjas.
Seu rosto era magro e moreno. 
A Prefeitura o aguardava com suas obras.

Minha mãe acordava-me cedo, mais cedo ainda,
Passando o pano por debaixo da minha cama, nossas camas.
Ela gostava de trabalhar de manhã.
No forno de barro,
as brasas já brilhavam, avermelhadas,
acendiam
meio se apagavam.
E o calor já antevia 
as cucas, os pães deliciosos, enormes, macios
amassados por suas belas mãos
na noite anterior.
A roupa já no varal.
O que era branco, ardia nos olhos de tão branco:
panos de prato, lençóis, fronhas, uniformes escolares.
O feijão chiando na panela de pressão.

Levantávamos correndo, meus irmãos e eu.
O café, passado no saco, com leite, gostoso, 
deixava no ar o seu aroma chamativo;
pão com schmier e manteiga caseiras.
Corrida lépida para a escola, a duas quadras de casa.
O mano mais novo dormia, privilégio de ser o bebê.

Na escola, D. Helena preparava
a sopa mais gostosa do lugar.
Meu irmão mais velho e eu, sagazes...
entrávamos duas vezes na fila da merenda.
Não era fome.
Era a delícia da sopa. As serventes faziam de conta que não notavam,
piscavam o olho.
Grupo Escolar Nossa Senhora da Penha.

Meio-dia todos ao redor da mesa.
Oração - cada dia um que fazia -
e todos não queriam...
criança quer comer, tem uma fome infinda,
sem esperar formalidades religiosas.

Lembro... com carinho e saudade
o brilho do arroz
a batata pulando, ainda, na panela,
ensopada, dividindo espaço com o guisado.
O feijão fazia bolhas em seu caldo grosso.
E as verduras, sempre renegadas por nós, crianças,
estavam lá, no seu prato.
Sobremesa: doce de abóbora, delícia gaúcha.

À tarde...ah, à tarde...
mãe descansava com o bebê,
irmãos fugiam para a sanga,
e eu já lidava com meus alunos imaginários.
No quadro, presente de Natal,
repassava toda a matéria do dia.
Imitava minha professora, Santa Edy Nehring:
seus gestos
seu tom de voz
sua letra...
explicava tudinho.
Não sabia, àquele tempo,
que estava estudando,
reforçando o que aprendera no dia.

Tardinha,
após o lanche: batida de banana com leite,
pão feito de manhãzinha,
era a hora de reunir a gurizada da rua, na rua de chão batido.
Guris e gurias da vizinhança:
jogo de sapata, passar o anel, diabo rengo, 
jogar caçador (eu era sempre a que morria primeiro...)
brincar de letz, de se esconder...

Infância, infância!
Estás tão lonnnnnngeeeeeeeee...

E tinha um tempo em que as formigas de asas
nos perseguiam, perseguiam, perseguiam...
ficavam voando ao nosso redor, nos mandando embora.

Escurecendo...
a mãe chamava:
-Hora do banho e da janta!

Entrávamos, não sem, primeiro, titubear, empurrar a hora.

Meu pai mateava, dividindo seu dia com a mãe, que cuidava do pequeno.
E, cansados,
felizes,
rostos afogueados,
suados e sujos da poeira,
disputávamos o chuveiro.

Noite chegando,
janta na mesa,
lassidão no corpo,
alma leve,
noite boa de sono.

Infância, infância...
impossível não sentir nostalgia.

Lorení Dalla Corte
12/10/2017
 

(Imagem: http://www.fazfacil.com.br/lazer/como-jogar-queimada/)
 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Escritura





             Quem poemeia
             quer ser diferente de todo mundo
             quer escrever algo além
             do que todo mundo já pensou
             quer ter a ideia original.
             Coisas que pensa, encontra escritas em livros, 
             livros de autores que são de outras épocas
             ou de outros lugares
             ou de outras gerações
             ou de outras culturas
             ou...

             Quem escreve, e pensa,
             pensa e escreve igual?
             raciocina na mesma direção?
             É influência, referência, cultura, registro?

             É difícil o estalo.

             Escrever é um caso de orgasmo 
                             de letras
                             de signos
                             de ícones.

                                 Difícil, às vezes, de se chegar.
              Outras vezes....!
              Saltam as palavras abruptamente.



Lorení Dalla Corte.
Maio/87 - abril/88 - set.90

domingo, 8 de outubro de 2017

MEUS VERSOS







Eu quero fazer meus versos
não como quem morre,
mas como quem ama a vida.

Eu quero fazer meus versos,
não para homenagens póstumas.

Eu quero fazer meus versos
mesmo que sejam a única arma de que disponha
para expor uma realidade
um ponto minúsculo da história
o momento do meu tempo

Eu quero fazer meus versos
mesmo que você não os leia
mas para que saiba que,
apesar:
da energia nuclear perigosa
da liquidação do ecossistema,
da cultura atrofiada do meu povo,
da fome, da doença, dos casebres,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-emprego, 
dos sem escola, dos sem comida, 
do salário magro, dos políticos corruptos,
dos governantes poderosos e cruéis,
dessa horrenda realidade
que me envolve e me angustia,
eu parei um instante
e fiz estes versos.

Os poetas - dizem há séculos - são loucos.
Viva esta loucura!

A poetisa é a pessoa que pára, no meio da guerra,
para fazer anotações
ao lado da metralhadora, do míssil, do botão vermelho,
da chuva amarela caindo em sua cabeça.

É a mensagem da garrafa.
Alguém lerá.
E sorrirá, pois haverá compreensão
e comunhão de ideias.



Lorení Dalla Corte.
Abril 1987/1988.

(Imagem: http://www.canaanoticias.com.br/entretenimento/casal-encontra-a-mais-antiga-mensagem-em-garrafa-da-historia/)
 

sábado, 7 de outubro de 2017

Do fundo do baú




 Quem tem a pretensão de escrever, sempre tem seu baú escondido. Nele, está o seu tesouro, seus escritos secretos, suas mais brilhantes ideias. 
Também tenho o meu, mas não é um baú; é uma caixa de mudança, na qual, na última que fiz, coloquei o saldo do livro que publiquei (tenho alguns exemplares ainda para vender); rascunhos, crônicas, contos, poemas, recortes de jornais, revistas,...
Como quero livrar-me da caixa, e, consequentemente dos escritos, os que, hoje, considero passíveis de serem lidos, trarei para cá. Os demais serão sumariamente eliminados,      pois não merecedores de atenção.
A eles, pois, todos devidamente datados, como incumbe a uma preciosista como eu.

Em setembro de 1990, pelo que vejo, li "O retrato de  Dorian Gray", de Oscar Wilde. E já naquele tempo, tinha a mania de  fazer comentários às minhas leituras. Ei-los:

Oscar Wilde, em uma linguagem rebuscada, descritiva, nos detalha de forma mordaz a sociedade inglesa do século XIX. Sir, Lady e demais termos, criados, nobreza, orgulho do sangue britânico são evidenciados. Luxo, ostentação, desperdício saltam aos olhos. E, também, o menosprezo pelas classes baixas - o povo-, pois a nobreza não admitia que tivessem o "mesmo sangue".
Mortes por suicídio, indução ao suicídio, assassinatos transparecem na obra.
Dorian Gray é o símbolo do Narciso, do Apolo e de outras entidades representativas da beleza, do egoísmo, do orgulho. Era um homem muito belo. Ele se amava muito e, como não pretendia envelhecer, vendeu sua alma ao diabo. Na negociação, o retrato envelheceria em seu lugar, e ele permaneceria belo e sensual para sempre.
Lord Henry é o símbolo da consciência irônica, cruel,  mordaz; influi sobre Dorian - um fraco,  transformando-o num pérfido.
Outras personagens - vários duques, lordes, etc, surgem em jantares, óperas, clubes...a ociosidade e a futilidade em pessoas. Mulheres que seduz, pessoas que ele mata.  Até chegar à conclusão que é uma pessoa má; então, mata o retrato...mas quem morre é ele mesmo, transformado em um velho, enquanto o retrato volta a representá-lo como jovem.

Excertos:
"Os camponeses deitam cedo, levantam cedo pois têm  tanta coisa a fazer...não sabem o sabor do 'pecado', da luxúria, dos prazeres mundanos. Não sabem viver a noite. São completamente sem graça, sem escândalos".
"Um  livro não é, de modo algum, moral ou imoral.  Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo." (Oscar Wilde, no prefácio). Mais:
"Pensamento e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte"
"Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida".
"Toda arte é completamente inútil".

Inspirada pelo livro, escrevi  um 

                                      HAI-KAI DA BELEZA

                                     Que belo trato:
                                      permaneço bonita
                                      envelhece o retrato.
            
                                      (Para Dorian Gray, belo personagem). (26/09/1990)

Wilde, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Abril Cultural, 1972, 1ªed., trad. Oscar Mendes, 270p.









sábado, 16 de setembro de 2017

Inv(f)erno meridional, ao som de Rita Lee







Nosso inverno, este ano, está atípico.  Alguns dias fez frio extremo, em julho, e de lá para cá os dias vêm se alternando entre calor de verão (em torno de 28-32 graus C), temperaturas amenas e agradáveis, em torno dos 20ºC, e dias bastante frios para nós, brasileiros - hoje a mínima está prevista em 11ºC. Com chuva. Todos acompanhados do vento minuano, que transporta, contra nossa vontade, as partículas de poeira e os alérgenos primaveris - dia 20 de setembro bate às portas quando, oficialmente, entraremos na primavera.

Neste clima, encontro-me com um mal-estar, uma alergia monstra e gripe misturada, o que deixou-me de molho por uma semana.  Só faltou o escalda-pés, pois medicamentos e agasalhos, mais repouso é o que tenho feito.
Mas, já que impossível fazer exercícios físicos e expor-me à instabilidade climática, aproveitei para ler.
Desta vez, uma curiosidade de fã de Rita Lee, que escreveu sua autobiografia.  Esta rockeira brasileira, paulista,que me acompanhou desde a adolescência, e de quem amo muitas músicas, tanto as de sua autoria e interpretação, como de autoria de outros músicos e por ela e sua banda interpretados, decidiu, aos setenta anos, escrever a própria história.
Muita coisa a gente já tinha tido notícia, pois celebridades como ela não passam despercebidas pela imprensa . Os grandes sucessos, o casamento dela e a parceria com Roberto de Carvalho, que ela se drogava, enfim, aquilo que a imprensa está sempre ávida por falar.
Mas o interessante foi conhecer a família, os estudos, os grupos aos quais pertenceu, a forma como compunha, as amizades que tinha, tanto com pessoas "normais" como com grandes artistas, como Elis Regina, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e outros. E saber que tem três filhos e uma neta, as viagens e shows que fez, as malandragens e traquinagens, desde criança, bem como seu grande amor pelos animais.
Considerei bastante interessante; e a considero uma das maiores compositoras que temos, suas músicas são gostosas de serem ouvidas, dançadas, admiradas.

Rita Lee: uma autobiografia.-1.ed.- São Paulo:Globo, 2016. 






 
 

domingo, 27 de agosto de 2017

À espera de setembro







Lembro de um título de filme que creio não ter assistido,  pois era criança: Quando setembro vier.  Vou pesquisar e ver se ainda existe. Lembrei-me dele pelo título deste post.
Mas neste 27 de agosto, vamos vivendo em um clima completamente maluco em nossa região: hoje estava quente pela manhã, choveu, esfriou ao meio-dia e agora está calor de novo. Haja saúde.
E esperamos por setembro, pois a coisa regulariza um pouco, só um pouco... e daí começam as alergias da primavera, compensadas pelo bálsamo das flores, eternas inspiradoras de românticos e apaixonados, bem como de muitas outras pessoas que as apreciam. 
Antevendo este clima, leituras não muito amenas.  Acompanhando o clima atual, não o futuro. A elas: 


 Quem, eu? de Fernando Aguzzoli, um tomo de 190 páginas, com fotos, diálogos, comentários e a história verídica de um rapaz que conviveu, dentro de sua casa e com sua família, com a avó materna que teve o mal de Alzheimer.  Descreve, com amor e humor (a forma que ele e a família resolveram encarar um problema de saúde tão grave), um grande toque de humanidade, carinho e respeito, do início da doença da avó até o seu falecimento.  Os trechos distintivos das várias etapas da doença contêm explicações remissivas de médicos e os diversos técnicos em saúde que os auxiliaram durante a doença, ou ele pesquisou.  
Chamou-me a atenção o livro pois minha mãe sofre deste mal, e muitas vezes pensamos que somente nós, os familiares, passamos por diversas situações-limite; entretanto, com esse relato, verificamos que não estamos sós, e que podemos divulgar e repartir com outras pessoas informações que possam ser valiosas.  Excelente. Humano.

Aguzzoli, Fernando. Quem, eu?: Uma avó. Um neto. Uma lição de vida. -2ªed.rev.ampl.-São Paulo:Paralela, 2015, 190p.




Shakespeare foi meu outro companheiro por estes dias. O rei Lear, numa edição de bolso, mostrou-me essa peça teatral escrita pelo "bardo" em 1605. Em cinco atos e múltiplas cenas, vemos o império do Rei Lear ruir ante uma incompreensão sua em relação à filha Cordélia que não quis ser puxa-saco com ele, dizendo-lhe que o amava, mas não ia ficar rasgando seda, o que suas irmãs Goneril e Regane fizeram; então o rei distribuiu seu reino entre as filhas mais velhas, deserdando Cordélia.  Essa, então, casa com o Rei de França e vai embora.  Após muitos acontecimentos e entraves, quase todos morrem, mas o pai fica conhecendo a personalidade de cada filha e o que as mais velhas nunca fariam por ele - defendê-lo, protegê-lo e cuidar dele na velhice- e a mais nova tentou fazer, mas não deu tempo.  Excelente, como não poderia deixar de ser.

Shakespeare, William. O Rei Lear.-São Paulo:Martin Claret, 2010, 190p.



Voltando aos conhecimentos históricos e políticos brasileiros, em texto do professor, escritor e jornalista Juremir Machado da Silva, conheci o Presidente da República que governou o meu país na época em que eu era criança - de 1961 a 1964, tendo sido vice-presidente da república no governo anterior, de
Juscelino Kubitschek. O livro Jango a vida e a morte no exílio,  ajudou-me, mais um pouco, a entender meu país.
Numa narrativa em flashback, Juremir vai e volta nos acontecimentos brasileiros desde 1961 ao golpe militar de 1964, tanto na política como na vida nacional e, também, vai montando a personagem João Goulart.  Passamos, pela ótica desse autor, a ver quem era o ex-presidente, como vivia, quem eram seus familiares, seus principais assessores, as pessoas que o influenciaram tanto na vida como na política, até a sua morte na Argentina, em 1976.
Apresenta os ditadores militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985, suas formas de atuação e repressão, bem como o permanente cerco ao
Jango no exílio, para ter certeza de que ele não voltaria ao Brasil.  Não o deixaram nem vir à sua cidade natal, São Borja.  Mantinham, ininterruptamente, espiões em sua casa, suas empresas, em seu trabalho, junto a ele, à mulher e aos filhos, amigos, vizinhos, sócios, etc; não lhe deram sossego até a sua morte. Não lhe permitiram retornar, muito menos pensar em voltar à vida pública e, segundo algumas pessoas descritas no livro, foi morto por envenenamento a mando do ditador da época.
Muito bom o livro, embora cansativo, pois desvenda uma página da nossa História que muitos não querem abrir.

Silva, Juremir Machado da. Jango: a vida e a morte no exílio.- 3ªed.- Porto Alegre,RS: L&PM, 2013, 372p.



Ainda na política, acontecimentos mais recentes narrados por Ricardo Westin, jornalista, em A queda de Dilma.
Comparando o governo de Dilma Roussef ao livro O Príncipe, de Maquiavel, o autor descortina o que ele entende por razões pelas quais a Presidente caiu: por não seguir as orientações maquiavélicas.  Ela decidiu, segundo ele, governar pela própria cabeça, não aceitar conselhos, ignorar o povo, mas, também, ignorar os políticos que poderiam auxiliá-la.  Num governo de coalizão como tende a ser o nosso, ela tinha enormes dificuldades de conversar com os demais políticos e partidos, fazer concessões e negociações, o que levou-a à solidão e ao impeachment. E,  também, suas decisões descabidas.
Somente duas partes vou lembrar do Príncipe: "O medo constante é um poderoso instrumento capaz de manter a lealdade".
"Faz as maldades de uma só vez e as bondades a conta-gotas". 
Comentário no meio do livro: manda um assessor dar as notícias ruins, e dá tu mesmo as notícias boas.
Bom o livro para saber o que poderia ter sido mas não foi.  Para o bem, ou para o mal, seja lá o que isso signifique nesse caso.

Westin, Ricardo. A queda de Dilma.- São Paulo: Universo dos Livros, 2017, 192p.

 

domingo, 18 de junho de 2017

O direito à educação feminina


 
Quadro que Malala pintou aos 12 anos: Harmonia entre as religiões.

Terminei de ler "Eu sou Malala - a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo talibã", publicado pela Cia. das Letras, de autoria da própria Malala e de Christina Lamb.
Em tom intimista, Malala Yousafzai, menina natural do vale do Swat, no Paquistão, narra sua história e  de sua família: pai professor, dono de escolas de inglês em sua terra; mãe dona de casa, em uma província pobre.  O que os impulsiona é o grande desejo pela democracia e pelo direito de as meninas também poderem estudar, assim como os meninos já fazem.
Descreve os lindos lugares onde morava, os vales, as montanhas, a paisagem, as amigas, a família e os valores que os movem, assim como os acontecimentos políticos de seu país e do mundo.
Percebe-se, por serem pessoas amigas de livros, de conhecimento, de dedicação, seus anseios pela paz, a compreensão e a tolerância para com outras pessoas, outras religiões, outras formas de pensar.
Entretanto, aqueles que dominam ou dominaram seu país não pensam da mesma forma.  E por discordarem, foram invadindo o território, e matando pessoas.  Tentaram acabar com Malala, mas não conseguiram; ela foi salva e vive na Inglaterra.
Excelente e emocionante história, que nos faz entender um pouco mais de cultura diversa da nossa. Ótima leitura.

Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã. com Christina Lamb. 1ªed.- São Paulo:Cia das Letras, 2013, 342p.

domingo, 4 de junho de 2017

Conhecendo o mundo de um comunista declarado


 

 Meus professores sempre diziam: para poder criticar alguma coisa, você tem que conhecer; não pode dizer: não li e não gostei.
Agora, posso dizer: li, e continuo não gostando. Explico:
Já havia lido diversos artigos, relatos, comentários, livros a respeito de Luís Carlos Prestes. Já li o livro "Olga" de Fernando Morais, também vi o filme. Na biografia de Getúlio Vargas,  mencionada neste blog, igualmente há referências ao político, à sua primeira mulher e aos comunistas. 
Todos sabem meu posicionamento: conservadora. Já havia concluído que a Coluna Prestes não tinha sido um bom movimento, mencionando neste post o que ele e seus correligionários haviam feito com a família de minha avó.
Então, para poder falar de cadeira, como diz a linguagem popular, encontrei em uma feira do livro a biografia Luís Carlos Prestes um revolucionário entre dois mundos, de  Daniel Aarão Reis.  O autor é carioca, durante o regime militar esteve exilado na Argélia e na França, onde graduou-se e fez mestrado em História, doutorando-se em história social pela Universidade de São Paulo.

Óbvio que o historiador valeu-se de extensa bibliografia, documentos, reportagens e demais informações inerentes ao trabalho.

Luís Carlos Prestes

Gaúcho de Porto Alegre, Prestes nasceu em fins do século XIX, filho de uma família abastada, descendente de nobres. Seu pai era militar, homem de cultura, sua mãe falava francês, tocava piano e tinha grande formação cultural. Os livros de seu pai mostravam a cultura do materialismo e positivismo francês, de Comte, escola de Benjamin Constant.
Como militar, o pai de Prestes mudava de residência com frequência.  "Em 1901, o casal estava de volta ao Rio Grande do Sul com a designação de Antônio para trabalhar em Alegrete, no oeste do estado, a pouco mais de quinhentos quilômetros de Porto Alegre, Luís Carlos Prestes tem dessa época uma das mais antigas recordações, quando teria ido com o pai, numa carroça de colono, a Ijuí, onde se construía, sob sua supervisão, uma estrada de ferro entre Cruz Alta e Porto Lucena." 
 Depois da doença do pai e várias peripécias, aos 6 anos de idade Prestes chegou ao Rio de Janeiro. Em 1911, com 13 anos, ingressou no Colégio Militar, onde fez o ensino  médio, concluído em 1916, indo para a Escola Militar do Realengo, onde formou-se em 1919 engenheiro militar, sendo promovido a segundo-tenente de Arma e Engenharia. Suas notas sempre excelentes, aluno brilhante, estudioso; a titulação conquistada era bacharel em Ciências Físicas, Matemáticas e engenharia Militar. Pena que não soube aproveitar os estudos e todo o conhecimento que adquiriu.

A grande marcha

"A saga da Grande Marcha chefiada por Miguel Costa e Luís Carlos Prestes, que atravessou o país durante dois anos, teve origem numa rebelião desfechada na cidade de São Paulo, em 5 de julho de 1924." (p.43) O objetivo era derrubar Artur Bernardes da Presidência  da República, "os governos de nepotismo, de advocacia administrativa e de incompetência técnica" (p.46), e "se apresentavam como patrocinadores dos direitos do povo."
 E o povo fora consultado sobre o assunto?
Prestes tinha sido designado para atuar em Santo Ângelo, e por lá começou a maldita marcha, que iniciou-se 29 de outubro.
O autor da biografia descreve todos os movimentos pelos quais passaram os revoltosos.  E conclamavam o povo:
"É chegada a hora solene de contribuirmos com o nosso valoroso auxílio para a grande causa nacional", dirigidas ao povo gaúcho. 
"Não queremos perturbar a vida da população , porque amamos e queremos a ordem como base do progresso. Podem estar todos calmos que nada acontecerá de anormal.""Mas a situação estava longe da "normalidade", pois todos os proprietários de automóveis, carroças e cavalos deveriam imediatamente pô-los à disposição do 1º Batalhão Ferroviário. Por outro lado, que adiantava asseverar: "Todas as requisições serão documentadas e assinadas sob a responsabilidade do Ministério da Guerra?" É mais do que provável que aquelas garantias soassem como promessas vãs. Assinava o manifesto, "pelo governo revolucionário do Brasil", o capitão Luís Carlos Prestes". (p.52/53).
E a narrativa do autor dessa biografia revela e confirma o que minha avó havia narrado em seu livro "Memórias da Vó Deza", mencionados acima em post publicado neste blog:
"O problema é que a revolta não conseguira empolgar todo o estado, e mesmo na Região das Missões havia muita resistência - e ativa. Tentativas de ampliar o raio de ação do processo iniciado falharam em sequência: não foi possível tomar Itaqui, onde morreu o tenente Aníbal Benévolo, grave baixa, pois se tratava de um dos principais cérebros da insurreição; mais reveses seriam registrados em Ijuí e Alegrete. Além disso, numerosas tropas de insurretos, incluindo unidades militares, comandada pelo caudilho Honório Lemes, sofreria outra derrota desastrosa em Guaçu-Boi.  Os governistas, civis e militares, estavam bem armados, municiados e com disposição de luta. O levante, a princípio promissor, enfrentava desafios inesperados." (p.53)
"Dias depois, Prestes comemorou o 27º aniversário comandando as tropas no violento combate da Ramada, em campo aberto, de oito da manhã às quatro da tarde, quando os rebeldes perderam cerca de 150 homens(...) Entre os dias 25 e 31 de janeiro, a coluna guerrilheira atravessou, em Porto Feliz, o rio Uruguai, entrando em Santa Catarina." Rumo ao norte, como falou minha avó.  Rumo ao desconhecido, rumo a uma revolta que ceifou milhões de vidas, assaltou cidades, casas, famílias, gastou um dinheiro inutilmente, e não chegou a resultado algum.
O autor descreve em 536 páginas a marcha de Prestes e seus loucos devaneios político/militares. Até este ponto, ele ainda não era comunista.  Ele foi ler e informar-se sobre o comunismo quando de seu primeiro exílio, na Bolívia.

Prestes nunca desistiu de sua revolução.  Sucintamente: teve vários exílios; viveu, sozinho ou com seus filhos, na Europa e, principalmente, na Rússia.  Depois de ser expulso do exército, nunca teve emprego formal. Sempre foi sustentado pelo "movimento revolucionário", com verbas obtidas de amigos políticos, ou seja, do bolso do povo.  Foi durante os vários anos em que viveu na Rússia, sustentado pelo Partido Comunista russo.  Assim é fácil viver e "fazer a revolução".
Esteve preso por vários períodos; teve um relacionamento e uma filha com Olga Benário, Anita Prestes, que também morou na Rússia e em vários outros países, e é Doutora em História.
Teve um relacionamento com outra mulher, Maria, com quem teve 6 filhos.  Essa mulher, também revolucionária e comunista, teve que virar-se sozinha para criar os filhos na maior pobreza, sempre longe do pai, que sempre manteve-se distante, solto ou preso,  por estar permanentemente envolvido em política e querendo revolucionar e tornar nosso país comunista.
Foi amigo de Fidel Castro e de outros grandes líderes do comunismo mundial.  Ajudou a fundar o partido comunista brasileiro.
Morreu em 1990, em meio à desunião da própria família, e longe do partido que ajudou a formar e que esteve, por diversas vezes, como ele, fora do mundo político, nas trevas e subterrâneos.

Vale a pena a leitura.  Ótimo livro, para conhecer e poder criticar à vontade um homem que não acrescentou nada de bom ao povo brasileiro.


 






segunda-feira, 29 de maio de 2017

Mulheres que me influenciaram - parte I - Senhora Einstein








A par das mulheres (e homens) que fizeram ou fazem parte da minha vida, há as pessoas importantes, influentes, famosas por sua profissão, posição social ou política mas, principalmente, as mulheres que considero inteligentes, intrépidas, à frente de seu momento de vida, que não baixaram sua cabeça nem se submeteram à condição subalterna que tanto homens quanto mulheres, pelo pensamento e/ou período da história, sempre quiseram impor às mulheres.
Em minha adolescência meu pai comprou um livro  com a biografias de pessoas importantes para a História Mundial.  Comentá-lo-ei em próximo post, visto que  se encontra na casa de minha mãe.  Naquela época, naquele livro, chamou minha atenção Marie Curie, a cientista polonesa que descobriu o rádio.  Na minha inocência ou ignorância, fiquei confusa.  Não tinha sido outro quem descobriu o rádio? Fiquei na dúvida entre Thomas Edison, Hertz e o padre Landel de Moura.
Depois descobri que era outro rádio,  a radioatividade.
Hoje, entretanto, tenho em mãos uma biografia romanceada, escrita por Marie Benedict, "Senhora Einstein, a história de amor por trás da Teoria da Relatividade".

Com base em todas as informações a que teve acesso, a autora reescreveu a história de Mileva "Mitza" Maric Einstein, a primeira mulher de Einstein.
Nascida no interior da Sérvia, a menina com um problema de nascença em uma perna, que a tornara manca, fora incentivada pelo pai a estudar, como a única alternativa que teria na vida, uma vez que era praticamente impossível que arrumasse marido.
Fez seus estudos preliminares na cidade natal, destacando-se na Matemática. Posteriormente, conseguiu uma vaga na Universidade Politécnica Federal Suíça, onde matriculou-se no programa de Física e Matemática, sendo a quinta mulher a integrar a Section Six.  Para os parâmetros da época, uma insolência da parte dela. Nesta turma conheceu Albert Einstein, seu colega de classe, com grandes dificuldades em matemática, e mais quatro alunos.  Ela destacou-se por conseguir resolver os problemas complexos que o titular da cadeira propunha, e carregava Einstein e seus colegas nas costas.
Após um período de namoro, que as duas famílias não aceitaram, ela engravida antes do casamento, por pressão, é óbvio, do considerado gênio.  Que não assume a filha, a qual é escondida do mundo, e vem a falecer antes de casarem.
Após o casamento, Einstein a submete a abandonar a carreira; em virtude da prematura gravidez e dos problemas de saúde decorrentes, Mileva não consegue concluir a graduação.  Porém, continua, após as tarefas domésticas a que é submetida pelo marido, a auxiliá-lo nas pesquisas e estudos, tarde da noite.  Ele a humilha publicamente em várias oportunidades, e a obriga a andar atrás dele na rua ou em situações públicas, homenagens, palestras, apresentações,  nunca ao lado. 
Ela formula a teoria da relatividade, ele promete que vai publicar o artigo científico em nome dos dois, mas omite o dela.  Outros estudos que ela faz, novamente ele publica em nome dele. Sua ascensão é meteórica, seus artigos são publicados pelo mundo, as homenagens e convites para palestras se multiplicam, mas Mileva nunca aparece. Apropriação indébita.
Ao final de muitos anos de sofrimento e humilhações, após o nascimento de mais dois filhos, partos dificílimos nos quais ela quase morre, eles acabam separando-se, e ele casa-se com uma prima, que foi sua amante durante muito tempo.
A raiva que dá ler este livro.  Como ela, quantas foram e são humilhadas e enganadas? Milhares, milhões.

Vale a pena a leitura, seja pelas informações científicas, seja para conhecermos aquele que é considerado um gênio da humanidade, e que ganhou o prêmio Nobel pela teoria da relatividade.  Nas condições do divórcio, ficou estabelecido que, se ele ganhasse esse prêmio, entregá-lo-ia a Mileva inteiro, por ser ela a autora. E foi o que aconteceu.

Benedict, Marie. Senhora Einstein: a história de amor por trás da Teoria da Relatividade. Trad. Amanda Moura.- SP:Ed. Gente, 2017, 288p.

domingo, 21 de maio de 2017

Momento delicado, povo brasileiro assustado.







Talvez as pessoas de  outros países que me lêem, não entendam o porquê de andarmos assustados. Resumindo, sobre política, pois esta afeta a vida de todos nós, povo brasileiro, principalmente aqueles que trabalham, são honestos, honrados, e se sentem prejudicados pelos políticos que nos governam:

1. 2014 - Campanha política para eleição do Presidente da República; ficaram para segundo turno Dilma Roussef e Aécio Neves. Comentei sobre isto aqui.
Foi eleita Dilma Roussef, por uma pequena margem de diferença.
Logo em seguida, seu opositor entrou na Justiça, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando abuso de poder econômico e poder político, uso da máquina administrativa durante a campanha. O processo está em fase de julgamento.
2. 2015 - Dilma assume seu segundo mandato, e começou a remexer em tudo - economia, educação, direitos trabalhistas e previdenciários, bolsa-família e outros tantos "benefícios" e/ou direitos das pessoas consideradas povo, baixa renda, trabalhadores.  Tudo aquilo que ela mesma, durante a campanha, tinha dito que o opositor ia fazer; mas ela falava que ele ia fazer, pois sabia o resultado de seu mau governo de 2010/2014.  Tudo que, eventualmente, havia sido construído antes, ela foi estragando e derrubando, DESTRUINDO,  um atrás do outro. Uma derrocada. 
Iniciam-se os  encaminhamentos para o processo de impeachment.
3. 2016 - a economia agoniza, inflação e dólar em alta, desemprego, bagunça na política, uns podres acusando outros de podres,  E O POVO TRABALHANDO E SUSTENTANDO TODOS ELES.
Em 31 de agosto de 2016 Dilma Roussef é "apeada" do poder, como dizia minha avó. O processo de impeachment é concluído, OBEDECENDO RIGOROSAMENTE O QUE É DETERMINADO PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL, e o Vice Presidente, Michel Temer, assume a Presidência da República.
4.  A Lava Jato. Desde março de 2014 se desenrola no país a Operação Lava Jato, promovida pela Polícia Federal, Ministério Público Federal, juntamente com a Justiça Federal de primeira e segundo instância, com Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal. Muitos políticos e megaempresários foram presos. Muitos já foram condenados, muitos têm seus processos em curso nas várias instâncias judiciais e outros estão a caminho.
Sobressaem o trabalho, principalmente, do Juiz Sérgio Moro, a quem cabe os processos em primeira instância, por ser um juiz prevento - aquele a quem os processos são encaminhados, quando não há foro especial em razão da função (foro privilegiado)-, ou seja, o juiz que trata desses processos por ser o que primeiro tratou sobre o assunto, conforme determina a legislação. Mais informações sobre a Lava Jato aqui.
Igualmente do Ministério Público e da Polícia Federal, num trabalho conjunto.
5. 2017 -  Continua a bagunça na política. Continua inflação em alta, desemprego em alta, povo sofrendo e economizando o que não tem.
Políticos e mais políticos, empresários de grande porte são presos, conduzidos para depoimentos; denúncias, escândalos, o povo cada vez mais estupefato, e sem entender como foi movimentado tanto dinheiro, sem que os Tribunais de Contas, a Receita Federal e outros órgãos de controle não viram nada.
E O POVO TRABALHANDO, E SUSTENTANDO TODOS ELES, E SEM CONSEGUIR ENTENDER.
AGORA, POR ESTES DIAS, mais um tsunami político vem atingir em cheio o Presidente em exercício, Michel Temer. Ele, que sempre quis separar sua eleição como vice da chapa Dilma, é denunciado por um megaempresário que, sarcasticamente, aproveitando-se da possibilidade da 'delação premiada', mostra que ele não é o santinho que dizia ser, que rolou muito dinheiro de caixa 2 na sua campanha, e que tentou obstruir a justiça, frear a Lava Jato, para não ser atingido.
NOSSOS IMPOSTOS, PAGOS COM O SUOR DE NOSSO TRABALHO, foram parar nas mãos dos politiqueiros, dos empresários safados; enquanto isto, os adeptos da linha esquerdista nervosa brasileira, lado do Lula/Dilma continuam defendendo seus políticos, como se não tivessem se beneficiado da ladroeira toda; e o outro lado, que alguns consideram a direita, mas que eu considero a esquerda mansa, vêem, com olhos esbugalhados, parecendo aquela personagem do famoso quadro "O grito", que seus políticos, à frente Aécio Neves, também não são santos.  E brigam entre si, ofendem-se mutuamente, ao invés de perceber que TODOS FORAM MANIPULADOS POR TODOS OS LADOS POLÍTICOS, DA EXTREMA ESQUERDA RAIVOSA, À EXTREMA DIREITA MANSA.

Resultado de imagem
"O Grito", de Edvard Munch


O QUE FAZER

Já disse que sou conservadora. 
Como mencionei no post sobre as eleições, que escrevi em 2014, não acredito em políticos há tempos.
Mas também não gosto quando pessoas, de qualquer nível intelectual, dizem que o brasileiro não sabe votar.  Como? Hã? Não sabe votar por quê?
No Brasil o voto é obrigatório; caso não votemos, sofremos várias sanções, e temos que nos justificar.
Os partidos políticos formados depois da ditadura militar, e depois da Constituição Federal de 1988, são os que para nós se apresentam: desde os antigos PMDB, PSDB, PC do B, e vários outros, grandes ou nanicos. Os políticos que se apresentam, são sempre os mesmos, que estão na política, senão eles diretamente, membros de sua família, há mais de 50 anos.  Se os políticos que se apresentam são esses, como alguém dizer que não sabemos votar?  Que diferença faria votar em Dilma ou Aécio, nessa última eleição?  Todos compraram votos, pediram favores, se venderam, e nos venderam?
Alguém sabe me dizer O QUE É "SABER VOTAR"?

1. Na minha modesta opinião, de trabalhadora aposentada, de quem paga todos os seus impostos, cuida de sua família, trabalhou com educação em escolas públicas, veio de família humilde, formou-se trabalhando e estudando, sustentando seus próprios estudos, creio que uma das soluções, que pode parecer simplista, seria não existir a possibilidade de reeleição. Não existir carreira política.  A pessoa se elege para um mandato, executa seu mandato e acabou, dá oportunidade para outras pessoas exercerem a função, não se perpetuando no poder, e não tendo oportunidade de fazer falcatruas. Rodízio.
2. As campanhas políticas devem ser sustentadas pelo próprio candidato.  Não tem dinheiro? Não se candidata.  Isto diminuiria esses escândalos de patrocínio de campanha.  Voltem no tempo, usem o rádio; tem meio mais barato que a internet?  Hoje está tudo tão rápido...E o corpo a corpo, o palanque, o discurso...sempre vai ter quem ouça e acredite...
3. Aceito outras sugestões.  Quem souber mais (não sou filósofa, cientista política ou outra especialidade - apenas uma voz popular), sugira nos comentários.

Concluo dizendo que Aristóteles tinha razão. Um mandato não deve passar de um ano.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Despedida do verão


 
Outono em minha terra

 
Eis que os últimos dias de calor intenso desta região meridional brasileira se aproximam. À noite já começou-se a sentir o frescor do outono se aproximando; o abafamento noturno e o mormaço diurno dão seus últimos suspiros, manifestam seus estertores. Consegue-se dormir de forma mais tranquila, sem precisar acionar o aparelho condicionador de ar.
A vegetação começa a mudar sua roupagem, retirando-se o verde reverberante do verão, dando entrada aos tons de amarelo, cor de laranja e vermelho característicos da estação entrante. Brindemos, pois, ao amenizar das sensações ambientais, mais favoráveis a quem não ama o verão, e a quem detesta o inverno, como esta que vos escreve.

Apesar do famoso "efeito cebola", de todos conhecido, a par dos afazeres que nos achacam todos os dias, e de outros que nos dão prazer, aproximamo-nos cada vez mais daquele período menor da nossa existência, do qual só nos damos conta quando já tenhamos, teoricamente, percorrido mais de dois terços de nossa provável totalidade da existência, e estejamos a dobrar o famoso cabo da boa esperança.  A leitura faz parte da segunda parte, ou seja, do prazer.
Quem me acompanhou nos últimos dias:

1. Luis Fernando Veríssimo, "As mentiras que as Mulheres contam", Objetiva, 2015.
No meu modesto entendimento, os primeiros textos são os melhores do livro.  Textos que comecei a ler ainda no local em que comprei o livro, e tive que conter-me para não rir em voz alta.  A veia do LFV esteve intacta, seu humor característico, suas sacadas geniais, sua ironia ferina. Sempre é bom lê-lo.





2. Eça de Queirós, "A Relíquia",  Ediouro, 1997,  254p.
Redescobri o Eça há pouco tempo.  Em outro post já me manifestei pela grandeza de seu vocabulário, pelo rigor de sua escrita, pelo elevado conhecimento que expõe, pela sua cultura.
Este livro relata a vida de um órfão criado pela tia beata, no Portugal dos 1800.  Embora tenha se formado em Direito, nunca exerceu a profissão; aliás, trabalhar nunca foi o objetivo do personagem central, Teodorico Raposo, que submeteu-se durante toda a infância e juventude às ações, rezas, comportamento, mesmo que disfarçado, de beato, com o fito único de convencer a tia de que era um rapaz de comportamento ilibado, e receber, depois da morte dela, a herança.  Para tanto, sujeitou-se a uma viagem a Jerusalém, paga por ela,  e a locais sagrados para o catolicismo, com o objetivo de trazer uma relíquia santa para a tia.  O livro trata dessa viagem, descreve os locais, várias personagens que o acompanham, e o desfecho final é inesperado.  Deveras interessante, embora descrições cansativas, muito minuciosas e vocabulário bastante elevado.  Eça é Eça.




 3. Moacyr Scliar, "Um sonho no caroço do abacate". Ed. Global, 2000, Literatura infanto-juvenil.
Há muito não lia o Moacyr.  Este livro, dedicado aos adolescentes, relata, de uma forma criativa, direta, linguagem acessível, os problemas de racismo nas escolas e na sociedade, em relação a judeus e negros, o famoso bullying.  Uma história comovente que, se todos os adolescentes lessem, seria ótimo para ajudá-los a entender que só existe a raça humana, e que a cor da pele ou a religião não são marcadores do caráter e da personalidade de uma pessoa.  Direto na veia, como falam os jovens.

quarta-feira, 8 de março de 2017

As mulheres fundamentais da minha vida


Todas nós temos pessoas que nos influenciaram na vida. Algumas de forma fundamental, outras um pouco menos; mas todas fazem parte do nosso coração e da nossa mente. As que comentarei abaixo ou deram origem à minha vida, ou dela participaram e/ou participam de uma forma essencial. Posso já ter comentado sobre elas em algum post, mas aqui, agora, estou especificando, neste dia Internacional da Mulher, para homenageá-las.

Felicidade (vó Dadade)


 Nascida em 26 de fevereiro de de 1902, a mãe do meu pai foi uma mulher de seu tempo: uma guerreira em todos os sentidos da palavra. Casou-se com 16 anos - o normal para a época; teve 15 gestações, sendo que dois bebês faleceram, criando 13 filhos e filhas. Morou em uma fazenda, no meio do mato, onde plantava e colhia alimentos para a família sobreviver, auxiliada por meu avô, que saía a vender a produção (carreteiro) e demorava muito a voltar; cortava lenha; matava animais para alimentar a prole (porcos, galinhas, etc); fazia toda a lide doméstica, posteriormente ajudada pelos filhos mais velhos; costurava, bordava, fazia crochê,  ah, inclusive, matava cobras e outros animais peçonhentos que aparecessem e colocassem em perigo seus filhos.  Olhando para ela, tinha uma aparência frágil;  calma, alta, magra, a pele muito branca e muito fina.  Uma fortaleza.

Maria Augusta (vó Deza) 

 Nascida no dia internacional da mulher, em 8 de março de 1904, vó Deza, como a chamávamos, teve capital influência sobre minha vida. Ao  contrário de minha avó paterna, não casou tão jovem para a época, pois contava com mais de 20 anos. Teve 10 filhos, 2 faleceram ainda pequenos, criou 8 filhos; batalhadora, foi criada na roça, plantava, colhia, organizava e cuidava da casa e dos filhos; foi alfabetizadora durante muitos anos; era leitora voraz dos mais variados tipos de livros, revistas e jornais; fazia doces, pães, bolos e cucas como ninguém, além de crochê, costura e outras tantas atividades. Magra, altura mediana, estava sempre alegre e adorava conversar. Na minha adolescência bati longos papos com a vó, pois adorava quando contava as histórias de antigamente, histórias estas que registrou no livro "Memórias da Vó Deza", da Coleção Centenário da Unijuí Editora, que ajudei a publicar. 

Noemi, minha mãe.

Já escrevi bastante sobre ela em outros posts; desnecessário dizer da relação de amor e carinho que temos até hoje uma com a outra; minha companheira de papos, minha orientadora e educadora na vida, não só com relação à educação em geral, como também aos cuidados que teve comigo desde sempre, inclusive depois de adulta, quando passei por dificuldades, quando tive meus filhos e ela me ajudou, em tudo. Minha mãe é minha base, junto com meu pai; sem ela, eu não seria quem sou.
Agora é quase minha filha, pois o mal de Alzheimer a acompanha diariamente e, juntamente com meus irmãos, invertemos o papel. Mas mantém o bom humor, está sempre brincando, cantando, não é ranzinza.  Até há pouco tempo atrás, estava sempre pronta para fazer um passeio, uma viagem, e sempre adorou festas e comemorações, sentimento que passou-me e que cultivo com alegria.

Sílvia e Heloísa, minhas filhas.

A primeira deu-me a dimensão primeira do que é ser mãe; primogênita, seus lindos olhos negros e seus longos cabelos pretos e lisos me enchem de orgulho e alegria. Seu jeito de ser, inteligente, seu temperamento cuidadoso e responsável, seu lindo sorriso alegram meus dias. Junto com meu genro, trouxe-me dois lindos netinhos, que amo de paixão.
A segunda, minha caçula, fez-me recordar, após 20 anos do nascimento do meu filho, as alegrias da gestação e da maternidade, em um momento mais tranquilo da minha vida. Seus lindos olhos e cabelos castanhos, cabelos rebeldes e volumosos como os meus, seu temperamento adolescente, sua inteligência e agudeza de pensamentos alegram minha vida; seu sorriso me encanta e é um bálsamo para minha alma. Ótima estudante, esforçada, estudiosa, carinhosa ao extremo, é companheira minha e do pai, neste momento em que estamos a dobrar o cabo da boa esperança...

Phatsy, nora, e Nicolle, neta

Esta linda morena entrou na vida do meu filho e na nossa para trazer mais luz, alegria, vivacidade, gentileza e dois lindos netos. Minha nora é uma grande mulher - não só na altura física, pois quase acompanha a altura do meu filho - mas também na maneira de encarar a vida. Lutadora desde nova, como são as mulheres desde sempre, trabalhou e estudou para sobreviver em um mundo que exige muito de todas nós, como todas as mulheres que mencionei. 
Junto com  meu filho, presenteou-me com dois lindos netinhos, sendo que a Nicolle faz parte das mulheres fundamentais da minha vida. Menina linda, meiga, carinhosa, inteligente, ganha da vovó nos jogos de memória, foi no cinema com a vovó e a titia, dança balé e estuda, prevendo-se um futuro agitado e maravilhoso para ela.

Madrinha Eva

Também já mencionei-a em um post.  Mulher batalhadora, de personalidade forte, estudiosa, inteligente, responsável, o exemplo da mulher que começou a trabalhar no meio do século passado, e ainda cuidava da família, como todas nós.  Para mim, foi um exemplo de mulher que tem seu trabalho fora de casa, tem a sua renda, suas responsabilidades, compromissos e não abaixa a cabeça nunca; a primeira feminista que conheci.

Tia Nara

A irmã mais nova de minha mãe é poucos anos mais velha que eu; praticamente crescemos juntas, somos amigas desde a minha infância; quando adolesci, foi minha companheira de bailes, festas, shows; também fomos colegas de trabalho, madrinhas de casamento uma da outra, e somos madrinhas de nossas filhas.  Uma companheira da vida inteira, amizade que não tem fim.

Ana Leonida, minha sogra.

Outro exemplo de mulher lutadora. Casou já madura com meu sogro, e deu-me, como ela mesma me disse, um dos mais belos presentes da minha vida: meu marido. Italiana de origem, começou cedo nas lides domésticas; atendia a cozinha, no hotel que seu pai tinha, juntamente com as irmãs.  Posteriormente, dedicou-se à vida familiar e à cultura agrícola;  teve 4 filhos, os quais criou na mais severa cultura italiana e católica; trabalhava na roça parelho com meu sogro, mas era a primeira a levantar, para tirar leite das vacas às 5 da matina, e a última a descansar, depois de todas as tarefas domésticas, costura, crochê, entre outras atividades.

Mulheres fortes, trabalhadoras, resistentes, de fé, de lutas, de coragem, de ânimo, de alegria, de felicidade, de tristeza, de tudo que compõe um ser humano. Exemplos de vida.