domingo, 13 de maio de 2018

DIGNIDADE DE MULHER



Um dia eu me vi
Minha mãe ao piano.
do jeito que comecei a ser
e por esta vida vivi
durante todo o meu crescer.
Ao meu lado, apoiando
Vi uma mulher que,
sorrindo, às vezes chorando,
acompanha-me desde o nascer.

Esta mulher, pouco mais que uma criança,
ao encontrar seu amor, muito jovem,
assumiu obrigações
de uma casa cuidar;
com pouca idade ainda, começou a função
de muitas bundinhas lavar...

Com amor, muito carinho,
sofrimento, dificuldades,
as criaturas geradas foi ajudando
 a escolher seus caminhos.

Houve problemas - e quantos!
Houve angústias - aos montes!
Houve receios - inúmeros!
Inseguranças - às fartas! 

Aparentemente fraca e submissa,
profundamente humana, compreensiva
muitas vezes usou seu carisma
para, pelos filhos, interceder.

No fundo do seu ser,
no âmago da criatura,
apesar da falta de cultura
(dessa de faculdade)
um sentimento, uma necessidade
de um objetivo maior,
da realização ao lado
da maternidade.

Os rebentos cresceram,
desenvolveram suas capacidade
por ela e pelo companheiro
apoiados, estimulados.
E então, eles se espalharam.

Esta criatura,
com o dom e o fino sentido musical
aguçado, incentivado afinal,
começou a brotar, crescer,
florescer e desabrochar.

Na meia-idade,
já com alguns netos ao redor,
com muitas emoções vividas,
começou a frequentar aulas de música.

As mãos meio emperradas,
alguma lerdeza motora,
mas ela não desistiu;
e a música entrou em sua alma
através das mãos
e nunca mais saiu.

Mulher...minha mãe,
quanta emoção eu sinto
e orgulho de falar
que ela persistiu em seu sonho,
ao mesmo tempo em que
outros problemas da vida
vieram lhe perturbar.

Tenho certeza que a pessoa que tiver
muita força de vontade
a par da lutas incessantes
merece a dignidade
de ser chamada MULHER!


Fiz este poema para minha mãe em 04 de maio de 1986.  Era uma homenagem ao dia das mães e o publico hoje, também no dia das mães, em sua homenagem.
O mal de Alzheimer já não lhe permite mais tocar piano; mas colocando para ouvir músicas que ela ama, canta junto, relembra as letras, seus olhos brilham.

 

domingo, 6 de maio de 2018

Conversando com Pablo Neruda






Imagem do exemplar que tenho às mãos.
Creio que há mais de 20 anos devo ter lido "A Bacarola" de Pablo Neruda.  Mas nunca é demais relermos o que nos faz bem aos sentidos, à alma, ao coração, à mente.
Há quase dois anos o havia adquirido em nossa feira do livro, pois a outra vez o li da biblioteca da escola onde lecionava.
Pablo Neruda não é Pablo Neruda, este é seu pseudônimo.  Ricardo Neftalí Reyes Basoalto, natural da cidade chilena de Parral nasceu no início do século XX, em 12 de julho de 1904. Filho de professora e de ferroviário, cresceu na cidade de Temuco, perto de florestas, em meio à natureza, de acordo com informações da breve biografia do volume que tenho às mãos.
Desde a adolescência começou a escrever e publicar textos; estudou francês e pedagogia; foi diplomata, vivendo em diversos países. Publicou várias obras, sendo aclamado pelo público chileno e mundial.
Foi filiado ao partido comunista chileno, sendo eleito senador; exilou-se devido às diversas complicações políticas pelas quais passou o Chile. Voltou ao Chile em 1952; prêmio Nobel de Literatura em 1971, faleceu em 1973 em Santiago do Chile.

A Barcarola

Já havia amado o livro a outra vez que o li, tendo recordado este prazer, agora renovado.
Nele, Neruda proclama ao mundo o seu amor à pátria, aos heróis, à cultura, às florestas, às montanhas, ao povo, à alimentação chilena, às espécies de vegetação nativa, enfim, seu amor ao Chile.
É como se ele pegasse um barco e fosse passando por diversas épocas, acontecimentos, povos, figuras públicas ou não.  Amor ao seu próprio país, ainda não vi tão grande em outro autor.
Quanto à linguagem, apresenta-se culta, com muitos vocábulos típicos da terra, estes com notas ao pé da página para melhor compreensão.  Linguagem poética elevada, figuras de linguagem expressivas.  Não à toa um prêmio Nobel de Literatura.
Os poemas são ordenados em forma de episódios.
De destacar alguns poemas que gostei por demais, e que divido com as pessoas que, como eu, amam poesia. Quem não gostar, não me leia.

"Segundo episódio:

Estou longe

É minha a hora infinita da Patagônia,
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
(...)
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu. (...)

Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade do meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.

Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.  E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca.  E eu canto.
Eu canto.  Eu canto.  Eu canto.  Eu canto."

Terceiro episódio.

Primavera no Chile

(...) Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldo de lua e peixe." (...)

Quinto episódio.

Os sinos da Rússia

ANDANDO, movendo os pés sobre um amplo silêncio de neve
escuta-me agora, amor meu, um sucesso sem rumo:
estava deserta a estepe e o frio exibia suas duras alfaias,
a pele do planeta brilhava cobrindo as costas nuas da Rússia
e eu no crepúsculo imenso entre os esqueletos das bétulas,
andando, sentindo o espaço, pesando o pulsar das solidões. (...)
e é assim como eu, caminhante, escutei os sinos da Rússia
desatarem entre o céu e a sombra o profundo estupor de seu canto. (...)

Eu sou, companheira, o errante poeta que canta a festa do mundo,
o pão na mesa, a escola florida, a honra do mel, o som do vento silvestre, (...)

Sinos de ontem e amanhã, profundas corolas do sonho do homem,
sinos da tempestade e do fogo, sinos do ódio e da guerra,
sinos do trigo e das reuniões rurais à beira do rio,
sinos nupciais, sinos de paz na terra,
choremos sinos, bailemos sinos
cantemos sinos pela eternidade do amor, pelo sol e a lua e o mar e a terra e o homem." 

Maravilhosa esta navegação na Barcarola de Pablo Neruda.

Neruda, Pablo. A barcarola; trad.de Olga Savary.-Porto Alegre:L&PM, 2016.

 
 




 

domingo, 4 de março de 2018

"A vida é assim..."

"A vida é assim...", dizia meu amado pai em seus últimos tempos, quando ainda conseguia falar.  Sua mão trêmula segurava a cuia de chimarrão, e seus olhos tinham um olhar de distância, de ver longe onde não víamos; admirava as árvores e flores que ele plantara ao fundo de sua casa, e as  que o vizinho plantara aos fundos da dele, árvores estas que, juntas, formavam uma agradável linha verde, de cheiro de mato, de frescura, de pios de aves, de gatos subindo por elas, de amanheceres e anoiteceres.  A vida dele anoitecia...
Minha mãe repete esta frase de vez em quando; não lembra mais quem a dizia, e o  crepúsculo se aproxima para ela, lentamente, sem pressa, fazendo-a olhar ao redor com o mesmo olhar de distanciamento, de ausência, de adeus, de ver o que não vemos.
Nesse ínterim, vamos vivendo. Como diz o sambista: "deixa a vida me levar, vida leva eu...", às vezes a levamos, e às vezes somos levados: pelo trabalho, pelos compromissos, pelas responsabilidades, pelas preocupações e angústias  de nosso tempo, pelas ilusões, anseios, sonhos,  leituras, viagens, prazeres...doenças, dificuldades, restrições etárias e tudo mais.
Todavia, não devemos deixar a peteca cair, é o que aprendemos; contudo, se ela cair, a gente a levanta de novo e segue o baile.

Férias


Itapema,lotada.
 Novamente visitamos nosso amado filho e sua família; novamente tiramos nossas 2 semanas de contato com hélio, ou hélius; duas semanas de Itapema, novamente, praia que amávamos.  Ficamos em um apartamento cuja vista era magnífica; mas Itapema mudou muito depois de alguns anos; estava lotada demais, muita gente por cm², nem é m²; guarda-sóis se batendo; e um hábito terrível que os turistas desenvolveram: cada um leva para a beira do mar um aparelho de som no qual ouve suas músicas preferidas em uma altura que deveria ser proibida pela Prefeitura; ocorre que, em poucos centímetros de distância, há mais uns 2 ou 3 destes aparelhos, cada um mais alto que o outro, cada um com um estilo de música diferente, o que transformou, literalmente, Itapema/SC em uma babel musical. Um horror!  Já decidimos: nas próximas férias procuraremos outro lugar ao hélius!

Leituras

Entrementes, não parei as minhas leituras. Tanto viajando, quanto em casa, realizei-as com prazer. Ei-las:

A varanda do Frangipani, do Mia Couto. 

Ainda não tinha lido nada deste autor moçambicano, famoso em todo o mundo.
Conta a história de um assassinato dentro de uma fortaleza que transformara-se em um asilo. Há fantasmas, assassinos, enfermeira, idosos.  Embarcações, armas, ondas batendo no rochedo.  Excelente leitura, para conhecermos um pouco da cultura africana.
Couto, Mia. A varanda do frangipani.- São Paulo: Cia. das Letras, 2007.

Os vestígios do dia, do Nobel de Literatura 2017, Kazuo Ishiguro.

Quando comecei a ler este livro, não acreditei que tinha sido escrito por um japonês.  Mas, ao ler as informações biográficas, verifiquei que ele fora morar na Inglaterra com 5 anos de idade.
Narra uma história de vida de um mordomo inglês com tantos detalhes, que cheguei a pensar que ele tinha sido um.
Tal mordomo havia servido por três décadas a um amo da alta roda política, econômica e social inglesa; depois de sua morte, a imensa propriedade é vendida a um americano, e o mordomo entra no negócio como "móveis e utensílios", e passa a prestar serviço ao novo amo.  Também detalha uma viagem dele pela Inglaterra em busca de uma antiga funcionária da casa, a governanta, que ele gostaria de trazer de volta.  Perpassam pela narrativa um estilo bastante formal, em que prevalece a hierarquia entre as pessoas, o "estilo britânico" de viver e relacionar-se.

Ishiguro, Kazuo. Os vestígios do dia, seguido de "Depois do anoitecer"; tradução de José Rubens Siqueira.-2ªed.- São Paulo:Cia das Letras, 2016.

A casa inventada, da conterrânea Lya Luft.

Lya Luft, ao lado de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector, são as autoras que entraram na minha vida na juventude, quando iniciei o Curso de Letras.  E nunca mais saíram.  Gosto do estilo das três, que têm algumas semelhanças, mas carregam, cada uma à sua maneira, seu estilo próprio e inconfundível de ser escritora intimista, reflexiva e perturbadora.
Nesta Casa inventada, Lya reflete sobre a vida, de uma forma maravilhosamente humana.  Nos coloca ante os enigmas que enfrentamos no transcorrer do tempo, nossos traumas, nossas alegrias, tristezas e perdas; e vai desvendando a sua casa, peça por peça, passando pelo porão e pelo pátio, chegando ao jardim dos deuses e à escada no fim do muro.  Lya é Lya. Vale a pena a leitura.
Luft, Lya. A casa inventada.- 1ªed.- Rio de Janeiro:Record, 2017.

A arte de escrever, de Arthur Schopenhauer.

Há algum tempo li um texto, destes que circulam na rede mundial de computadores, que sugeria algumas leituras essenciais para quem gosta de escrever.  Seriam autores indispensáveis, que dariam muitas dicas e auxiliariam os pretensos escritores no seu afã.
Considerei interessante; e, como ler para mim é um hábito, concluí que, se não fizer bem, mal não faz.
O primeiro da lista que encontrei pelas minhas plagas é este, do filósofo alemão, que viveu de 1788 a 1860.
É óbvio que a distância temporal que nos separa criaria alguma dissidência na maneira de pensar e encarar a tarefa de escrever; igualmente considerando que os tempos, além de serem outros, trouxeram um conhecimento que ele não tinha, e uma tecnologia que, nem em seus maiores delírios, sonharia.
Mas vamos ao que interessa: Schopenhauer sugere que quem quiser escrever, não deve ficar lendo o que outros escritores escrevem, para não ser influenciado!  Que deve somente basear-se nos clássicos gregos e romanos, escrever em latim e jamais na língua própria de seu país! Principalmente condena seus colegas que começaram a abandonar o latim e escrever em alemão.
 Critica ferozmente seus contemporâneos, que se consideram eruditos, e que os eruditos não são nada. Cada pessoa deve desenvolver suas próprias idéias e publicá-las, procurando desconhecer o que os outros escrevem, "pensar por si mesmo".
Concordei com ele no sentido que não se deve fazer textos longos, que cansam o leitor, este condescendente, que teve a paciência e o esforço de nos ler.  Este é um exercício que devo desenvolver, pois sou muito prolixa.
Também critica a tradução, pois uma língua nunca vai conseguir transformar as idéias, pensamentos, mensagens e descrições de outra língua em algo idêntico.  É só aproximação.
Achei um tanto absurdo o livro e as idéias do autor.  Alguma coisa se aproveita. 

Schopenhauer, Arthur. A arte de escrever; tradução de Pedro Süssekind.- Porto Alegre: L&PM, 2014.

A carta roubada e outras histórias de crime & mistério, de Edgar Allan Poe.
Já havia lido dele "Assassinatos na Rua Morgue", há alguns anos atrás.
Neste livro estão reunidos alguns contos que publicou em sua atormentada vida.
Não gostei muito do estilo, pois quase todos são contos de terror ou horror, muita morte, mistério, assassinatos, tortura e outros quetais.  Não é o meu tipo de leitura preferida, mas... como havia comprado o livro e queria conhecer melhor o autor, fui até o fim.
Na realidade, todos os contos deste livro desenvolvem-se na Europa, mesmo o autor sendo americano.  Este demonstra uma grande cultura, um grande conhecimento, tem um estilo excelente de escrita, um vocabulário rebuscado e uma técnica perfeita.  Apesar de não gostar do estilo, vale a pena a leitura.

Poe, Edgar Allan. A carta roubada e outras histórias de crime & mistério; tradução de William Lagos.- Porto Alegre:L&PM, 2017.





 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

E assim passou 2017...



Jatiúca - Maceió - Alagoas


1. Viagem

Estivemos há poucos dias curtindo uma parte das férias.
Retornamos a Maceió/AL, no nordeste brasileiro.
Foi um passeio maravilhoso, com nossa filha adolescente.
A cidade evoluiu, não tem mais os trabalhadores avulsos zanzando pelas praias, oferecendo mil quinquilharias e tirando o descanso do turista.
Há um local onde são comercializados os trabalhos de artesanato; há locais apropriados para exibição de músicas e danças típicas.
Está mais organizado.

2. O hotel

Ficamos no mesmo hotel que tínhamos ficado outra vez.  Mudou de dono, e o tempo o prejudicou um pouco.  Mas continua magnífico.
Café da manhã na beira da piscina, com o barulho do mar do outro lado da rua, e a brisa marítima alegrando o dia e refrescando o ambiente.
Se quiser, fazer as refeições no restaurante, com ar condicionado.
Preferi ao ar livre. 

3. A praia

Estávamos na Jatiúca; fizemos um passeio pela Praia do Francês e um city tour
Infelizmente a balneabilidade imprópria não nos permitiu banho de mar - só de piscina. Uma tristeza!
Entretanto, a paisagem continua maravilhosa.  Enche os olhos.

Praia do Francês - Arrecifes



4. Leitura de avião

Para enganar meu medo de voar, Cyro Martins, com seus Contos escolhidos.
Magnífico como sempre.

5. Leitura beira-mar

Clarice Lispector, Aprendendo a viver. 
A eterna Clarice fazendo-me relembrar de sua prosa reflexiva e intimista. Uma de minhas maiores influências e inspirações.  Conheci-a no Curso de Letras, através do Professor e escritor Dr. Deonísio da Silva.  E nunca mais esqueci dela.





6. Retorno

Rever família e amigos é sempre bom.
Natal com a mãe idosa é sempre uma bênção, pois podemos dividir com ela o amor e o carinho que ela sempre dedicou-nos.

7. Ano Novo - 2018

Já estamos na reta final de 2017.  Pareceu-me que o ano passou rápido demais, não tive tempo de fazer tudo que precisava.  Mas o essencial foi feito.
Espero saúde para mim, para você, para minha família e para a sua.
Que tenhamos o necessário para viver; amor para dividir, alegrias para somar; e se ocorrerem tristezas, também fazem parte da vida.
2018 - estou te encarando de frente, cabeça erguida, cara lavada.
Em frente!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PULSAÇÃO


 
 
Foto da autora
 
 O fenômeno da vida me encanta,
fico deslumbrada!
Consegui recolocar no ninho
um passarinho faminto e ferido.
Creio ter caído dele ao nascer.
Abria, desesperado, seu biquinho,
piando dor, frio, sede, fome.

Era feio,
mas era uma vidinha,
um corpinho que pulsava,
mas que ia ficar bonito,
e cantar manhãs e sóis e primaveras...
 
 
 
 

 


 
(Imagem: https://animais.umcomo.com.br/artigo/como-cuidar-de-filhote-de-bem-te-vi-21328.html )
 

FONTE



  
Busquei-te, sedenta.
Lábios secos,
verifiquei que secaras.

Gretada, estorroada:
lancei mãos ao trabalho:
abri valetas
fendi pedras
alimentei-te, fonte, com meu esforço.
                Suei
                escutei
                sofri
                chorei

Aos poucos
luminosamente
vejo brilhar teu sorriso.
Pérolas verdes
brotando água
para saciar, alegremente, minha sede.



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

CICATRIZ

Houve um tempo em que eu tinha certezas.
Houve um tempo em que eu sabia o que queria.
Olhava o mundo de frente
Olhava nos olhos das pessoas
Agredia com expressões fisionômicas.
Era sincera, agressiva,
não media as palavras, que jorravam como verdades
indiscutíveis, sôfregas.
Eu discutia com meu Deus.

Houve um tempo, logo depois,
em que eu tinha dúvidas.
Dúvidas, angústias, incertezas,
sofrimentos atrozes, análises espezinhantes...
Medo. O grande, o terrível, o enfadonho, o abominável medo.
Da vida, de não conseguir, de não obter, de não conquistar,
de não ser.
As profundezas, o precipício, a agonia de tentar compreender.
A cabeça pendeu.
Deixei-o de lado.

Hoje...é tempo de buscar, de amenizar.
É tempo de não sofrer, de cicatrizar.
É tempo de soltar, fluir e usufruir.
É tempo de aceitar, de admitir, de ouvir, de levantar a cabeça.
Viver, amar, olhar os olhos novamente.
Ele é meu amigo.



Final de 1985.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

JORGE LUIS BORGES, um escritor fantástico





A minha ideia infantil de 'ler todos os livros do mundo' continua de pé; entretanto, acrescentei a palavra "possíveis" à frase.
Como em toda minha vida não fui leitora o tempo todo, pois, evidentemente, tive que trabalhar para me sustentar e à minha família, não consegui ler todos os livros que queria, nem todos os autores que queria.
Porém, nunca é tarde, diz o ditado.
Jorge Luis Borges, o argentino de quem muito ouvi falar, finalmente chegou às minhas mãos.  Só agora?, dirão.  Pois é, só agora.
"História da eternidade" é a primeira obra dele a que tenho acesso. Buscarei outras, com certeza.
Dando uma rápida lida em sua biografia, vejo que - sem modéstia - temos alguns pontos em comum.  Ele amava ler; dizem ser dele a frase:
"sempre imaginei que o paraíso seria um tipo de biblioteca"; "Não tenho a certeza de que eu exista. Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados.” 
E assim por diante.
Na sua história da eternidade, publicado em 1936, que contém, além do texto que dá título ao livro, ensaios sobre: As kenningar; A metáfora; A doutrina dos ciclos; o tempo circular; os tradutores das 1001 noites; e Duas notas: a aproximação a Almotásim, A arte de injuriar.
Não me estenderei fazendo uma análise profunda do livro.
Observo que sua linguagem é rebuscada, há referências a autores filósofos, escritores da literatura mundial, uma crítica ferrenha e comparativa entre vários autores, e um grande conhecimento literário e cultural. Borges é admirável, além de grande.

Sintetizando: Em História da eternidade, analisa as diversas formas de medir o tempo a que a humanidade foi submetida. Traz autores gregos entre tantos outros. Ressalto, no início:
"Invertendo o método de Plotino (única maneira de aproveitá-lo) começarei por lembrar as obscuridades inerentes ao tempo: mistério metafísico, natural, que deve preceder a eternidade, que é filha dos homens.  Uma dessas obscuridades, não a mais árdua nem a menos bela, é a que nos impede de precisar a direção do tempo.  Que flui do passado para o futuro é a crença comum, mas não mais ilógica é a contrária, aquela que Miguel Unamuno gravou em verso espanhol:

"Noturno, o rio das horas flui
de seu manancial, que é o amanhã
eterno..."

Alguns excertos:

"A eternidade é um mero hoje, é o fruir imediato e lúcido das coisas infinitas".
"Viver é perder tempo: nada podemos recuperar ou guardar a não ser sob a forma de eternidade (Jorge Santayana)".
"O tempo, se podemos intuir essa identidade, é uma ilusão: a indiferenciação e a inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e de outro de seu aparente hoje, bastam para desintegrá-lo".
"...a vida é pobre demais para não ser também imortal."
"O melhor documento da primeira eternidade é o quinto livro das Enéadas; o da segunda, ou cristã, o décimo-primeiro livro das Confissões de Santo Agostinho. (...) Pode-se afirmar, com uma suficiente margem de erro, que "nossa" eternidade foi decretada poucos anos depois da doença crônica intestinal que matou Marco Aurélio (...).  Apesar da autoridade de quem a ordenou - o bispo Ireneu -, essa eternidade coercitiva foi muito mais que um simples paramento sacerdotal ou um  luxo eclesiástico: foi uma resolução e foi uma arma."
Várias e profundas reflexões sobre a eternidade andam pelo texto.

Lembrei, ao ler suas reflexões sobre o tempo/eternidade, que, dia destes, em meu caderno antigo, achei algumas anotações que fiz de falas de meus filhos mais velhos, quando pequenos. Rindo, pensei: acho que eu tinha um pequeno filósofo dentro de casa.  Vejam o que disse meu filho Gérson, aos 9 anos de idade:
"- Mãe, amanhã não existe.
Eu: - Por quê, filho?
- Por que o amanhã nunca chega; hoje é o amanhã de ontem, e amanhã vai ser o outro hoje, e ontem é ontem..."

Comentarei somente mais um dos ensaios: "A doutrina dos ciclos".
De forma ácida, irônica e irrefutável, Jorge Luis Borges dá um chega pra lá na teoria do 'eterno retorno' de Nietzsche (Assim falou Zaratustra).
Primeiro, matematicamente, fazendo alguns cálculos cabeludos sobre  de quanto em quanto tempo poderia haver o retorno à estaca zero, e a repetição da história. Chega a ser cômico: "O atrito do belo jogo de Cantor com o belo jogo de Zarathustra é mortal para este último.  Se o universo consta de um número infinito de termos, é rigorosamente capaz de um número infinito de combinações - e a necessidade de um Regresso fica vencida.  Resta sua mera possibilidade, computável em zero."
Gol de Borges!
E refere: "Escreve Eudemo, parafraseador de Aristóteles, uns três séculos antes da paixão e morte de Cristo: A acreditar nos pitagóricos, as mesmas coisas voltarão pontualmente e estarei comigo outra vez e eu repetirei esta doutrina e minha mão brincará com este bastão, e assim por diante." Na cosmogonia dos estóicos, Zeus se alimenta do mundo: o universo é consumido ciclicamente pelo fogo que o gerou e ressurge da destruição para repetir uma história idêntica."
Menciona Borges que a teoria do eterno retorno iniciou-se lá atrás, nas calendas gregas, passou pelo cristianismo e por outras teorias, das quais apropriou-se Nietzsche para formular as suas ideias - quer dizer, apropriar-se das de outros, sem ao menos referi-las, ignorando seus precursores.  E seus seguidores babaram, achando o máximo!
E para fechar:
"Sou de opinião, todavia,que não devemos postular uma surpreendente ignorância, nem tampouco uma confusão humana, demasiado humana, entre a inspiração e a lembrança, nem tampouco um delito de vaidade.  Minha chave é de caráter gramatical, direi quase sintático.  Nietzsche sabia que o Eterno Retorno é das fábulas ou medos ou diversões que voltam eternamente, mas também sabia que a mais eficaz das pessoas gramaticais é a primeira.  Para um profeta, cabe assegurar que seja a única.  Derivar sua revelação de um epítome, o da Historia philosophiae graeco-romanae dos professores suplentes Ritter e Preller, era impossível para Zarathustra, por razões de voz e anacronismo - quando não tipográficas.  O estilo profético não permite o emprego das aspas nem a erudita citação de livros e autores..."

Vale a pena a leitura. Fantástico, divertido e irônico. Além de várias referências literárias, para ampliar os conhecimentos de quem se habilitar.

Borges, Jorge Luis. História da eternidade. Trad. Carmen Cirne Lima. 4ª ed. SP:Globo, 1953.