sábado, 18 de janeiro de 2025

Primeira Leitura 2025: "Se você me entende, por favor me explica."

 

Mesmo sem dizer "Feliz ano novo" já estou no terceiro texto de janeiro.

Então digo a todos que me leem: FELIZ 2025!

Meus desejos de paz para todos nós, que alcancemos nossos sonhos, tenhamos muito amor que é moto da vida, muito carinho, dinheiro no bolso, resultado de nosso afã diário.  E que tenhamos resultados em nossos esforços, a companhia das pessoas amadas, muitas viagens, passeios, etc, etc... , além de muita leitura.

Muito obrigada aos que me leem desde 2011!

 

Hoje vou comentar um livro de poesias que ganhei de presente de Natal da minha primogênita Sílvia. Como ela me conhece bem, sabe do meu prazer pela leitura, e deu-me o livro "Se você me entende, por favor me explica", do poeta brasileiro Pedro Salomão. Fiz a leitura em dois dias, nas férias, na praia.

Eu não o conhecia, e verifiquei que é um jovem que escreve muito bem.  

Na orelha, temos a informação: "Pedro Salomão é formado em Geografia, liderou um grupo de palhaços no Hospital do câncer de Presidente Prudente em 2017 e espalha suas palavras de transformação em suas redes sociais e nos palcos, seja com músicas, poesias ou palestras pelo Brasil. Pela Planeta, publicou em 2018, o best-seller "Eu tenho sérios poemas mentais".

Uma leitura leve, breve, mas cheia de humanidade, liberdade de expressão, vocabulário simples, enxuto mas de gabarito.

Destaco alguns versos que me chamaram a atenção, e um texto que me marcou; os textos não têm título:


"Muito do que me tornei

eu aprendi a ser.

Mas a parte do que sou

é porque é.

Como a árvore é porque é,

sem nunca ter aprendido a ser.

Como o vento é

e soa,

eu sou

e sempre fui."p.20.


"Você nunca vai conseguir sair de dentro de você.

Então o quanto antes arrumar a bagunça de seu coração,

mais tempo de qualidade terá,

convivendo consigo mesmo

na sala de estar que é ser você.

Enquanto você não resolver suas questões

isso te acompanhará.

Quanto tempo mais você está disposto a aguentar?". p.37.

 

"Tentar matar a saudade

pelo Whatsapp 

é como beber água salgada,

só aumenta minha sede

de você.".p.72

 

"Seu sotaque

é um mel a mais que sua voz tem.

Seu sotaque

é um ponto turístico na sua fala.

Seu sotaque 

tem gosto de comida típica.

Seu sotaque

me faz carinho quando você fala.

p.s. seu sotaque me dá vontade de viajar em você.".p.80

 

"Em sua pele perfeita,

a minha barba malfeita

é desfeita e bagunçada.

 

A minha barba é arranhada

enquanto as palavras saem,

a sua pele é macia,

nossos opostos se atraem.

 

Em seu corpo

minha boca é abelha,

que paira com calma e calor.

Na sua espinha, eu sou espinho,

e no seu corpo, eu sou um caminho,

até encontrar a flor.

 

Você se deita de costas na cama,

e se entrega para eu te descobrir,

te descubro e cubro com beijos,

cada passo em seu corpo é sorrir...

 

Pelos pés eu começo e me perco,

me encontro em locais de parada,

e com a cama já desarrumada,

arrepios de pele atiçada...

 

Em seu pescoço,

a minha barba é encaixada,

seu alvoroço,

seu tudo, e mais nada...

 

Seu corpo é tela,

minha boca é pincel,

seu corpo é poema,

é palavra,

é papel." p.92/93.

 

O único texto com título é uma crônica: "Fazendo as pazes com a vida", em que narra o falecimento de seu grande amigo num acidente de carro.

Faz comentários sobre o período doloroso do luto, que é um chumbo nas pernas e no coração de todos nós.  Narra o processo, e o dia em que entendeu, através de suas reflexões, o porquê dos acontecimentos. Suas palavras ao fim do texto: "Hoje, quando eu vejo os lugares onde minha arte tem chegado, percebo que a poesia que plantei em meu coração germinou, virou jardim, e depois cresceu tanto que perdeu o controle e virou floresta.  E passarinhos vêm comer de minhas frutas e levar as sementes para outros campos.  E pessoas vêm passear nessas trilhas e cachoeiras que se formam nos meus versos.  Eu virei floresta porque aceitei o fim e entendi o ciclo.  Obrigado por se perder comigo."p.95/99.

 

Vale a leitura, com muita emoção à flor da pele.

 

Salomão, Pedro. Se você me entende, por favor me explica.-SP:Planeta do Brasil, 2020, 160p.

 

sábado, 4 de janeiro de 2025

Onde estivestes de noite, Clarice Lispector


 


Como postei há pouco tempo, Clarice Lispector é minha inspiração.

Estou relendo sua obra devagarinho, sem pressa. É um regozijo! Degustando seus pensamentos, seus insights!

Desta vez é seu livro de contos "Onde estivestes de noite".

Simplesmente um nó na cabeça! Adoro!

Ela abre o livro com o conto "A procura de uma dignidade".

É uma história de uma senhora ligeiramente perdida, que entra, não sabe como, no estádio do Maracanã, e se perde no emaranhado de caminhos, corredores, salas.  Ela não lembra como chegou ali.

Após muito caminhar, consegue sair e ir para casa.

Segundo Clarice, ela ia a uma conferência cultural que, de acordo com a personagem, a mantinha informada, atualizada culturalmente e mantendo a mente sadia; sempre lhe davam uns 57 anos, embora estivesse beirando os 70.

O conto desenrola-se depois de ela chegar em casa.

Dado momento, após várias peripécias, ela senta-se na cama do seu quarto, e, depois de  várias reflexões sobre a vida, o ser, vontades, um desejo foi crescendo, devagarinho.

Ela era secretamente apaixonada pelo Roberto Carlos, o cantor.  E tinha devaneios secretos com ele... beijos, abraços... e seu desejo carnal foi crescendo!

Olhou-se no espelho "por fora - viu no espelho -ela era uma coisa seca como um figo seco.  Mas por dentro não era esturricada.  Pelo contrário."(...) E agora estava emaranhada naquele poço fundo e mortal, na revolução do corpo.  Corpo cujo fundo não se via e que era a escuridão das trevas malignas de seus instintos vivos como lagartos e ratos.  E tudo fora de época, fruto fora da estação?  Por que as outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso podia acontecer?  Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos.  Mas nas velhas não.  Fora de estação.  E ela viva como se ainda fosse alguém, ela que não era ninguém." (...) "Ali estava, presa ao desejo fora de estação assim como o dia de verão em pleno inverno.  Presa no emaranhado dos corredores do Maracanã.  Presa ao segredo mortal das velhas.  Só que ela não estava habituada a ter quase 70 anos, faltava-lhe prática e não tinha a menor experiência." (...) Seus lábios levemente pintados ainda seriam beijáveis?(...) : tem!que!haver!uma!porta!de saiiiiiída!"

Clarice viveu 57 anos.

Sua percepção e sensibilidade colocam, na década de 70 do século passado, problemas vivenciais de uma idosa que está chegando aos 70 anos. Como ela sabia disso?

Agora, na segunda década do século XXI, discute-se a saúde física e mental de mulheres e homens que chegam à chamada terceira idade, embora alguns esquecimentos aconteçam, como a personagem que perdeu-se e entrou em um lugar errado; mas seus corpos continuam saudáveis, seus instintos e desejos estão vivos como ela.

Naquela época não se imaginava uma mulher de quase 70 anos tendo desejo por um homem, ainda mais um cantor, uma personagem pública, famosa.

Fui adolescente na década de 70, quando ela escrevia. A maioria dos pais não orientavam sexualmente seus filhos, muito menos os mais velhos falavam qualquer coisa sobre sexo no decorrer da vida e na velhice.

Jamais conseguiria pensar em minhas avós tendo estas sensações que a personagem teve. Entretanto...

Clarice era uma visionária.  Sempre à frente do seu tempo.  Embora tenha morrido jovem, para nossos tempos, percebia o que acontecia com as pessoas a sua volta. Fantástica!

Este conto eu achei o máximo! Por isto o destaque.

São 17 contos em que Clarice nos  tonteia, nos deixa estupefatos, com sua exposição de ideias, pensamentos, sensações, novidades, surpresas que nos deixam atônitos e deslumbrados.

Vale a leitura, sempre!


LISPECTOR, Clarice. 1920/1977. Onde estivestes de noite- I ed.- Rio de Janeiro:Rocco, 2020.

 



 


 


quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

EU MEREÇO UM PRÊMIO!

 


 

 

 

 

 

 



50 ANOS DE CARTEIRA NACIONAL DE HABILITAÇÃO, SEM NENHUM ENVOLVIMENTO EM ACIDENTE!

 

Hoje está vencendo minha carteira nacional de habilitação e fui até o Departamento de Trânsito para renová-la, há alguns dias.

Como mudei de estado e cidade, tive que pagar uma taxa a mais para transferir de um estado para outro.  Burocracias...

Então estava analisando minha CNH vencendo e constatei, admirada, que este ano completei 50 anos de motorista.  É muito tempo!

Minha primeira habilitação data de 04 de setembro de 1974.

Eu tinha 19 anos.  Trabalhava 8 horas por dia, fazia faculdade à noite, e as aulas de direção eram no sábado de manhã.

Meu instrutor era um Bombeiro, que também era professor de direção na primeira auto escola de Ijuí.  Ele teve muita paciência para ensinar esta aluna medrosa... Aprendi a dirigir num fusquinha branco, e meu maior medo era voltar para trás nas muitas subidas de Ijuí.  E arrancar na subida fazia parte do teste de direção, tinha que saber conduzir o acelerador e a embreagem juntos, para o carro não voltar! Fiquei craque nisso.

Meu segundo maior medo era fazer a baliza.  Esta parte demorei a aprender, o carro não me obedecia, eu queria ir para um lado e o carro ia para o outro...mas aprendi a  estacionar perfeitamente em qualquer buraco.

Meu pai tinha uma camionete Rural Willys azul e branca.  Nela dirigi muitos anos, fui para a faculdade, e, às vezes, o pai autorizava sair dar uma volta com as amigas e as primas, desde que pusesse gasolina.

Anos depois, meu marido e eu fomos comprando e trocando vários tipos de carro: começamos com o fusca bordeau, corcel II azul clarinho, vários chevettes, monza e muitos outros. Depois que ganhei uma indenização trabalhista, matei a vontade de ter um carro grande: um fusion, que mais parecia um avião, com computador a bordo e muita tecnologia; mas, infelizmente, tive que vender. 

Porém o que mais me ajudou no fato de dirigir durante 50 anos sem nenhum acidente, foi o fato de aprender com meu marido a dirigir na estrada.  Logo que casamos ele me disse que eu precisava aprender a dirigir na estrada, que só na cidade é uma coisa, e na estrada é outra.  Como ele viajava muito, sabia todos os macetes para não envolver-se em acidentes: manter a calma, não tirar o olho e a atenção da estrada em nenhum momento, deixar um espaço entre nosso carro e o que está à frente; dar uma espiadela no espelho retrovisor sempre que for fazer qualquer manobra, principalmente em ultrapassagens.  Conhecer bem o carro e saber se, numa ultrapassagem, o motor aguenta chegar na velocidade necessária e calcular o tempo necessário.  Só fazê-lo em segurança.  É melhor ficar atrás de um caminhão por um tempo longo, do que tentar uma ultrapassagem perigosa e acabar morrendo.  E que o importante numa viagem, é chegar – de preferência vivo.  E cuidar os loucos, que estão soltos e fazem loucuras no trânsito.

Nunca beber e dirigir.

Como moramos em várias cidades do Rio Grande do Sul, e depois no Paraná, em Londrina e região, viajávamos muito.

Sempre dividíamos a direção, eu pegava para ele poder descansar, pois ele tinha mais resistência e dirigia uma quilometragem maior que a minha.

Dirigimos em parceria pelo Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Creio que o governo deveria instituir um prêmio para motoristas cuidadosos, mostrar como exemplos, mostrar para os mais novos como se faz para chegar a 50 anos sem acidentes, sem tristezas e mortes.

Ainda bem que as seguradoras já descobriram que as mulheres dirigem otimamente  bem e o nosso seguro é mais barato.

Um brinde! Saúde!

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

EM UMA NOITE DE NATAL

 







Pensei escrever algo belo

que trouxesse mensagem de paz e esperança

mas só ocorreu-me aquele acontecimento

que, todo ano, volta-me à lembrança:

Jesus nasceu!


Tencionei escrever um pensamento novo

que trouxesse alento para este nosso povo

tão sofrido, desesperado, amargurado

tão esquecido e em seus direitos roubado:

Jesus nasceu!


As palavras... são tão velhas!...

Já os gregos as utilizavam com presteza

e os romanos delas se aproveitavam, com certeza;

só resta-me, neste mundo conturbado

em que, numa noite silenciosa e pura

Jesus nasceu! ...


...manter o mesmo espírito de beleza,

de sentimentos que nos levam a tristeza

para terras longínquas e inatingíveis...

Eis o meu silêncio.

Shhhhhh!

Jesus nasceu!





Panambi/RS

24/12/1987.



quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A VIDA NUMA ALDEIA INDÍGENA; CONTOS DE UM GAÚCHO; PROSA E VERSO FEMININOS E UM ROMANCE.

 


Em Joinville conheci uma turma bastante legal: A Confraria dos Escritores.

Embora tenha ido somente a uma reunião, por motivos alheios a minha vontade, considerei a turma muito bacana, acolhedora, incentivadora das pessoas que "gatinham" na escrita, como eu.

E conheci uma pessoa maravilhosa, Marlete Cardoso, que, não por acaso, é a responsável pela organização dos Autores que querem participar da Feira do Livro de Joinville.

Também escritora, e vivenciadora de atividades magníficas junto a aldeias indígenas, é dela o livro "Aldeias Reais", que passo a comentar.

Marlete é Professora e Escritora , e Indigenista desde 2016.

Natural de Itajaí/SC, vive em Joinville.

Faz parte da Pastoral Indigenista da Diocese,  e frequentemente dirige-se às aldeias existentes na região, onde exerce suas atividades.

Em "Aldeias Reais" ela narra a história de um povo guarani. Entre frutas, a família, brincadeiras os meninos vão discutindo algumas ideias.

São relatadas a rotina do povo indígena, atividades escolares das crianças, pensamentos, a cultura dos ancestrais, e todo o trabalho que vem sendo realizado junto a eles.

Apresenta uma excelente capa, e o livro todo com ilustrações de Wanessa Ribeiro.

Excelente livro para conhecimento da realidade do povo  guarani.

Leitura recomendada.

CARDOSO, Marlete. História baseada em aldeias reais.-São Paulo:Paulus, 2023.





OUTRO colega da ALPAS-21, o Confrade Alexandre Meyr, de Canoas/RS,  traz ao conhecimento do público leitor seu livro de contos "Mosaico de Contos".

Nele ficção, realidade, memórias nos distraem, nos alegram, nos fazem rir.

Uma leitura leve, vocabulário cuidadoso, com algumas expressões típicas do sul do Brasil.

Destaque para o conto "Segunda aula de leitura", achei magnífico!

Vale a leitura!

MEYR, Alexandre. Mosaico de contos- Cruz Alta/RS: Ed. Gaya, 2020.





Mais um colega da Academia ALPAS-21 brinda o público com sua obra "Um sonho além da vida".

Nelson Carús, do Alegrete/RS, escreve um romance cheio de emoções, cultura geral, conhecimentos da Medicina e do Direito, além do Magistério, suas áreas de atuação como profissional.

Um romance instigante, cheio de fatos que nos sugerem ter acontecido, com muitas sensações que são transmitidas pelas personagens, e cheio de suspense.

Leitura que recomendo.

CARÚS, Nelson Ribeiro. Um sonho além da vida.- Alegrete/RS. Ed. Gaya, 2023.




Outro livro que trouxe da Feira do Livro de Santa Maria/RS, traz as vozes femininas daquela região.

"A voz das primaveras - Elas por elas" é uma Antologia em prosa e verso escrita só por mulheres, com organização de Denise Reis.

Excelentes textos, inspiração, vocabulário qualificado, trazendo o mundo sob o olhar das mulheres gaúchas.

Alguns destaques:

- Nostalgia, de Christiane Branco A. Barbosa;

- Amor que dói, também de Christiane;

- Fome emocional, também dessa autora;

- Pregnância, de Denise Reis;

- Infância, de Denise;

- Florescência, de Jacira Pedroso;

- Esvoaçar-se ao vento, de Lygia Marques;

- Encontro, de Maria Lucia Mattos;

- A voz das Primaveras, de Sandra Rebelato;

- Lua cheia, de Sílvia M. Buss.

Claro que cada leitor vai ter os textos preferidos conforme seu gosto.

Por tal motivo é que recomenda-se a leitura, e cada um chega às suas próprias conclusões.

A VOZ DAS PRIMAVERAS: antologia, elas por elas. Denise Reis, org. Santa Maria/RS: CAPOSM, 2022.







segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Degustando Clarice: "Um sopro de vida"

 

 

 

 

 

 

 

Consegui, aleluia!

Apesar de minhas atuais dificuldades para ler devido aos olhos andarem cansados, consegui terminar a releitura deste livro - como diria? - curioso, reflexivo, meio doido, filosófico, hã?

Sei que há pessoas especializadas na obra de Clarice Lispector, assim como há especialistas de vários autores famosos.

Não me alço a essas alturas.

Sou, apenas, uma mulher que ama ler, simples, Professora aposentada do ensino fundamental e médio, que deu graças a Deus quando acabaram os compromissos. 

Não quero saber das regras, das correntes, das linhas de pensamento, da defesa irrevogável de ideias e convicções.

Hoje, leio apenas pelo prazer de ler.  Amor à leitura.

Não quero entrar em disputas.

E comento minhas leituras pois gosto de repartir.  Quem não gostar, não me leia!


Voltando ao livro: já o havia lido na minha mocidade, quando cursava o Curso de Letras na então FIDENE, hoje Unijuí, na minha cidade natal, Ijuí/RS.

Mas lá já se vão mais de 40 anos...muita coisa a gente esquece!  Nossas indicações de leitura eram feitas por nosso Professor Deonísio da Silva, que nos dava aulas de Literatura.  Querido professor, meu amigo até hoje, e Editor do meu livro de Contos "A vida é assim", pela Almedina.

Clarice Lispector escreveu este livro entre 1974 e 1977, bem quando eu estava concluindo meu Curso de Letras, tinha conhecido meu marido e estávamos para nos casar.

Na mesma época, ela escreveu "A hora da Estrela", sua última obra publicada, antes de morrer.

Ela já nos desnorteia no começo: "Quero escrever movimento puro."

Assim começa:

"(...) Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém.  Provavelmente a minha própria vida.  Viver é uma espécie de loucura que a morte faz.  Vivam os mortos porque neles vivemos."

Ela vai nos desestruturando devagarinho, sem pressa.  Assim é.  Clarice dá rédeas à imaginação, deixa fluir livremente o fluxo do pensamento, sem ordem nenhuma. Ela nos calca fundo:

"O corpo é a sombra de minha alma".

"Há algo de dor e pungência em viver o hoje"

"Eu queria escrever um livro.  Mas onde estão as palavras?"

Ela, Drummond, muitos outros e eu, procuramos as palavras.  Eu mais ainda, por ser pequenininha perto destes monstros sagrados da Literatura  Brasileira e Universal.

"A arte de abandonar não é ensinada a ninguém."

"Para escrever tenho que me colocar no vazio.  Neste vazio é que existo intuitivamente."

"Escrever é uma pedra lançada no poço fundo."

""Escrever " existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de uma coisa que pergunta."

"Tento abrir as comportas, quero ver a água jorrar com ímpeto.  Quero que cada frase deste livro seja um clímax." 

"O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever.  Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar."

Quem não?

Clarice coloca-se, neste livro, como um escritor.  E vai desfiando seus pensamentos, suas ideias, suas reflexões, suas coisas bem chão que, às vezes, também nos assaltam, pobres mortais que somos.

Ela retrata-se muito humana, com suas fragilidades e eloquências.

"(...): a solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar."

"Vida não tem adjetivo."

Ela, então, cria a personagem "Autor" e outra personagem, personagem esta criada pelo Autor, Ângela,  a quem dá vida, pensamento, ações, e ambos dialogam o resto do livro. Eles falam de Literatura, do ato de escrever e de todos os demais assuntos que podem ser escritos e comentados.

Muito doido!

Não vou citar todo o livro.  Apenas algumas passagens que achei interessantes:

"Autor: (...) Faço o possível para escrever por acaso.  Eu quero que a frase aconteça. "

"O que sinto não é traduzível."

"Ângela : Viver me deixa trêmula."

"Tenho que viver aos poucos, não dá para viver tudo de uma vez.  Nos braços de alguém eu morro toda.  Eu me transfiguro em energia que tem dentro dela o atômico nuclear.  Sou o resultado de ter ouvido uma voz quente no passado e de ter descido do trem quase antes dele parar."

"O mais engraçado é que nunca aprendi a viver.  Eu não sei nada.  Só sei ir vivendo.  Como o meu cachorro.  Eu tenho medo do ótimo e do superlativo.  Quando começa a ficar muito bom eu ou desconfio ou dou um passo para trás."

"Eu mal entrei em mim e assustada já quero sair.  Eu descubro que estou além da voracidade.  Sou um  ímpeto partido no meio."

"Ao pensar verdadeiramente eu me esvazio."

Arrematando:

"A prova de que estou recuperando a saúde mental, é que estou cada minuto mais permissiva: eu me permito mais liberdade e mais experiência.  E aceito o acaso.  Anseio pelo que ainda não experimentei.(...)"

"Se eu não me amar estarei perdida - porque ninguém me ama a ponto de ser eu, de me ser.  Tenho que me querer para dar alguma coisa a mim.  Tenho que valer alguma coisa? (...)"

"Ser feliz é uma responsabilidade muito grande.  Pouca gente tem coragem." 

"Eu sou essencialmente uma contraditória."

"Pensar é tão imaterial que nem palavras tem."

"Não se morre eternamente. É só uma vez, e dura um instante."

"Fui feita para ninguém precisar de mim."

 

PRONTO!

Aberto para reflexões, comentários, análises, comparações, etc...

Lembra Fernando Pessoa, Lya Luft, Lygia Fagundes Telles, Virgínia Woolf, ...

Amei!

Amo Clarice Lispector desde o primeiro livro que li.

Achei-me nela.

Espero que tu também te aches.

Leitura nota dez!

 

LISPECTOR, Clarice. , 1920-1977.  Um sopro de vida. 1ªed.- RJ:Rocco, 2020, 190p.










sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Mais leitura de peso: Saramago e suas palavras.

 

 


 

 Este livro encontrava-se em minha famosa pilha de livros a ler desde 2019.  Este é um daqueles livros que a gente lê sem pressa, degustando, como um vinho bom em ótima companhia.

De lá para cá, minha vida deu várias cambalhotas, que já comentei neste blog, e vou seguindo, passo a passo, dia após dia, com meu jeito de ser, aos trancos e barrancos,  com meus altos e baixos, como se diz no sul do Brasil.

Voltemos ao livro:

As palavras de Saramago, Organização e seleção de Fernando Gómez de Aguilera, é uma seleção de declarações ou publicações sobre Saramago retiradas de jornais, revistas, entrevistas, seus livros  e outras formas de pesquisa acerca do escritor tão admirado.

Vejamos o que diz o autor do livro, Aguilera:

"Dividida em três grandes seções centradas na pessoa, no escritor e no cidadão José Saramago, esta coletânea recolhe declarações suas extraídas de jornais, revistas e livros de entrevistas publicadas em diversos países ao longo de três décadas e meia.

Polêmico, provocador, combativo, o escritor sempre exerceu seu pensamento crítico sem censura, dizendo exatamente o que pensava.(...)"

E cita, ao final do Prefácio: "Tchekhov, que se recusou a trabalhar com heróis e não cessou em seu afã de dessacralizar a literatura e o ofício de escritor - traços compartilhados por Saramago -, afirmou: "A originalidade de um autor se apoia não só em seu estilo, mas também em sua maneira de pensar"".

Li com prazer este livro, obviamente não concordando com tudo o que ele dizia ou escrevia, mas, a maioria das vezes, batendo palmas.

Abaixo alguns excertos, para se ter uma ideia do livro, que tem 479 páginas.

"Somos muito mais a terra onde nascemos [e onde fomos criados] do que imaginamos."p.28

"Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. (...) O que acontece é que há  toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor. (...)

Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo.(...)" p.35.

"O único valor que considero revolucionário é a bondade, que é a única coisa que conta." p.37.

"A vida, que parece uma linha reta, não o é. Construímos somente uns cinco por cento da nossa vida, o resto fazem os outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros. Mas essa pequena porcentagem, esses cinco por cento, é o resultado da sinceridade consigo mesmo."p. 41

Não gosto de falar de felicidade, mas de harmonia: viver em harmonia com nossa consciência, com nosso entorno, com a pessoa que queremos bem, com os amigos.  A harmonia é compatível com a indignação e a luta; a felicidade é egoísta."p.41

"Nunca caí em excesso de manifestações de alegria e júbilo.  Tenho sempre um pé atrás, e não é por prudência como quem se defende, é porque eu conheço suficientemente bem a história dos meus semelhantes para saber que nada é definitivo e que o motivo de riso de hoje pode amanhã tornar-se em lágrimas."p.63

"Nossa única defesa contra a morte é o amor". p.172

"Se a morte desaparecesse de repente,  se a morte deixasse de matar, muita gente entraria em pânico: funerárias, seguradoras, asilos de velhos... Isso sem falar do Estado, que não saberia como pagar as aposentadorias.". p.173

"No ato de escrever coincidem duas posturas, a autoridade e a sedução.  Com essas duas pernas a literatura caminha.  O escritor tem um poder sobre o leitor". p.200

"No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e o que é que estamos fazendo, e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade."p.203 

"Gostaria de não interromper nunca a minha escrita, nem com sinais de pontuação nem com capítulos, que tudo fosse simultâneo, o mesmo que ocorre com a realidade: o carro que passa, o fotógrafo que faz uma foto, o vento que mexe com os galhos.  Quando eu digo que preciso de "ouvir" minha escrita, me refiro a que preciso que a escrita saia com essa fluidez que empregamos quando falamos.  Preciso escutar uma voz interna, essa mesma voz que o leitor também tem que aprender a escutar, para penetrar nos meus textos." p.239.

Muito mais há em todas as páginas.

Saramago mexe com a gente.

Vou deixar a sugestão de leitura para complementação das ideias do político e do escritor.

Vale totalmente a leitura!

 

SARAMAGO, José. As palavras de Saramago: catálogo de reflexões pessoais, literárias e políticas/ Fernando Gómez Aguilera - São Paulo: Cia. das Letras, 2010,479p.